A HERDEIRA
Sidney Sheldon

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Ferreira Pinto, 530 - 4470 Gueifes Maia - Telefone: 9607039.

Sidney Sheldon
A HERDEIRA
(Bloodline)
Edio Integral

Para Natalie, com amor

AGRADECIMENTO
Embora esta seja uma obra de fico, os ambientes so autnticos, e desejo externar a minha gratido aos que to generosamente contriburam para as minhas pesquisas.
Se, adaptando suas informaes s exigncias de um romance, julguei necessrio ampliar e sintetizar certos elementos de tempo, assumo plena responsabilidade por
isso. Dirijo o meu mais sincero reconhecimento a:
Dra. Margaret M. McCarron, directora mdica adjunta Condado de Los Angeles, Universidade do Sul da Califrnia.
Reitor Brady, Escola de Farmcia da Universidade da Carolina do Sul.
Dr. Gregory A. Thompson, director do Centro de Informaes sobre Drogas - Condado de Los Angeles, Universidade do Sul da Califrnia.
Dr. Bernd W. Schulze, do Centro de Informaes sobre Drogas - Condado de Los Angeles, Universidade do Sul da Califrnia.
Dra. Judy Flesh.
Urs. Jggi, Hoffmann-La Roche & Co., A. G., Basilia.
Dr. Gunter Siebel, Schering A. G., Berlim.
Divises de Investigao Criminal da Scotland Yard, Zurique e Berlim.
Charles Walford, Sotheby Parke Bernet, Londres.
E a Jorja, que torna tudo possvel.

LIVRO PRIMEIRO

Captulo 1
Istambul, Sbado, 5 de Setembro. 22 horas
Estava sentado sozinho e no escuro, atrs da mesa de Hajib Kafir, com os olhos voltados para as janelas empoeiradas do escritrio e os minaretes intemporais de Istambul. 
Era um homem que se sentia bem numa dzia de capitais do mundo, e Istambul era uma das suas favoritas. No a Istambul para turistas da rua Beyoglu ou do espalhafatoso 
Bar Lalezab do Hilton, mas a Istambul dos recantos ocultos que s os muulmanos conheciam: os yalis, os pequenos mercados alm dos souks e o Telli Baba, o cemitrio 
onde s uma pessoa estava enterrada e aonde ia gente para rezar em sua inteno.
A espera do homem era marcada por uma pacincia de caador e pela absoluta imobilidade de que domina o corpo e as emoes. Era do Pas de Gales e tinha a beleza 
enigmtica e tempestuosa dos seus antepassados. Cabelos pretos, rosto forte e olhos vivos, de um azul intenso. Tinha mais de um metro e oitenta de altura e o corpo 
de um homem que se mantinha em boas condies fsicas. Os cheiros de Hajib Kafir impregnavam a sala - o seu fumo adocicado, o seu acre caf turco e o seu corpo gordo 
e oleoso. Rhys Williams no dava ateno a esses odores. Estava pensando no telefonema que lhe haviam dado de Chamonix uma hora antes.
- Um terrvel acidente! Creia que estamos todos arrasados, Sr. Williams. Tudo aconteceu com tanta rapidez que no houve chance de salv-lo. O Sr. Roffe morreu instantaneamente.
Sam Roffe era presidente da Roffe and Sons, a segunda companhia de produtos farmacuticos do mundo, uma dinastia de muitos milhes de dlares que se espalhava por 
todo o globo.
Era impossvel acreditar na morte de Sam Roffe. O homem sempre fora muito dinmico, cheio de vida e energia, sempre em movimento, dentro de avies que o levavam 
a fbricas e escritrios da companhia atravs do mundo, onde resolvia problemas que os outros nem podiam enfrentar, criava novos conceitos e fazia todo mundo trabalhar 
mais e melhor. Embora houvesse sido casado e tivesse uma filha, seu nico interesse na vida haviam sido os negcios. Sam Roffe tinha sido um homem brilhante e extraordinrio. 
Quem poderia substitu-lo?
Quem seria capaz de governar o imenso imprio que ele deixava? Roffe no havia escolhido um herdeiro legtimo.
Tambm no havia pensado em morrer aos cinquenta e dois anos.
Sempre pensara que havia tempo de sobra.
E agora o tempo estava esgotado.
As luzes do escritrio se acenderam de repente. Rhys Williams olhou para a porta, ofuscado por um momento.
- Sr. Williams! No sabia que havia algum aqui.
Era Sophia, uma das secretrias da companhia, que era sempre designada para servir Williams quando ele estava em Istambul. Turca, na casa dos vinte anos, tinha um 
belo corpo sensual, estonteante de promessas. Fizera Rhys saber, atravs de surtis e antigas sugestes, que estava  sua disposio para dar-lhe os prazeres que 
desejasse, na hora que quisesse, mas Rhys no se interessava.
Sophia disse:
- Voltei para acabar algumas cartas para o Sr. Kafir.
Acrescentou, ento, com uma voz bem doce:
- Quem sabe se no posso tambm prestar-lhe algum servio...
Quando ela se aproximou da mesa, Rhys sentiu o cheiro almiscarado de um animal selvagem no cio.
- Onde est o Sr. Kafir?
Sophia abanou a cabea com pesar.
- J foi e no volta mais hoje. Deseja alguma coisa?
Alisou com as palmas das mos macias e hbeis a frente do vestido. Tinha olhos negros e hmidos.
- Desejo, sim. Procure-o.
- No sei onde ele pode estar...
- Tente o Kervansaray ou o Mermara.
Estaria decerto no primeiro desses lugares, onde uma das amantes de Hajib Kafir apresentava a dana do ventre.
Mas Kafir era imprevisvel. Poderia at estar em casa junto com a mulher.
- Vou tentar, mas no sei se... - murmurou Sophia.
- Diga a ele que, se no estiver aqui dentro de uma hora, ser despedido.
A expresso do rosto dela mudou.
- Vou ver o que posso fazer, Sr. Williams.
Encaminhou-se para a porta.
- Apague a luz quando sair.
De qualquer maneira, era mais fcil ficar ali no escuro em companhia dos seus pensamentos. A imagem de Sam Roffe estava presente sempre. A escalada do monte Branco 
deveria ter sido fcil naquela poca do ano, comeo de setembro. Sam tinha tentado a empreitada anteriormente mas as tempestades o haviam impedido de chegar ao cimo.
- Desta vez vou cravar l em cima a bandeira da companhia - dissera ele a Rhys.
E ento houvera o telefonema de h pouco, quando ele se preparava para deixar o Pera Palace, onde estivera hospedado. Ouvia ainda a voz nervosa ao telefone. Estavam 
atravessando a geleira... Roffe falseara o p e a sua corda se partira. Cara numa fenda profunda.
Rhys podia visualizar o corpo de Sam na coliso com o gelo implacvel e a sua queda no abismo. Procurou ento afastar a cena do esprito. Aquilo j era passado. 
O presente  que surgia repleto de preocupaes. Era preciso comunicar a morte s pessoas da famlia de Sam Roffe, e elas estavam espalhadas por vrias partes do 
mundo. Tinha de ser uma comunicao pela imprensa. A notcia ia percorrer os crculos financeiros internacionais como uma crise financeira, era essencial que o impacto 
da morte de Sam Roffe fosse reduzido ao mnimo. Cabia a Rhys conseguir isso.
Rhys Williams conhecera Sam Roffe havia nove anos.
Rhys tinha ento, vinte e cinco anos e era gerente de vendas de uma pequena firma de produtos farmacuticos. Era brilhante e gostava de inovar, tendo feito a firma 
se expandir. Com isso, a sua reputao havia crescido.
Recebera uma proposta para trabalhar na Roffe and Sons, e, logo depois de recus-la, soube que Sam Roffe comprara a companhia em que ele trabalhava e mandara cham-lo. 
Ainda se lembrava do poder dominador de Sam Roffe naquele primeiro encontro.
- O seu lugar  aqui na Roffe and Sons - havia-lhe dito Sam Roffe. - Foi por isso que comprei aquela companhia trpega em que voc trabalhava.
Rhys se sentiu lisonjeado e irritado ao mesmo tempo.
- E se eu no quiser continuar?
Sam Roffe sorrira e respondera, cheio de confiana:
- Ns temos uma coisa em comum, Rhys. Somos ambiciosos. Queremos ser donos do mundo. E eu vou mostrar-lhe como se consegue isso.
Essas palavras foram mgicas. Representavam a promessa de um banquete para a fome que ardia no ntimo de Rhys. De facto, ele sabia alguma coisa que Sam Roffe desconhecia.
Rhys Williams no existia. Era um mito criado pela descrena, pela pobreza e pelo desespero.
Nasceu perto das jazidas de carvo de Gwent e Carmarthen, nos retalhos vales vermelhos do Pas de Gales, onde camadas de arenito e depsitos de calcrio e carvo 
em forma de pires rasgavam a terra verde. Cresceu numa terra fabulosa, onde os prprios nomes exalavam poesias: Penderyn, Brecon, Pen-y Fan, Glyncorrwg e Maesteg. 
Era uma terra de lenda, onde o carvo que se achava no fundo da terra se formara duzentos e oitenta milhes de anos antes, onde a paisagem fora, em outros tempos, 
coberta de tantas rvores que um esquilo poderia viajar do Farol de Brecon at o mar sem pousar as patas no cho. Mas a Revoluo Industrial chegou e as belas rvores 
verdes foram abatidas pelos produtores de carvo vegetal para alimentar as fornalhas insaciveis da industria do ferro.
O garoto cresceu conhecendo heris de outro tempo e de outro mundo, como Robert Farrer, queimado na fogueira pela Igreja Catlica porque no quisera fazer votos 
de celibato e abandonado a mulher; como o rei Hywel, o Bom, que levara a lei ao Pas de Gales no sculo X; e como o destemido guerreiro Brychen, que gerara doze 
filhos e vinte e quatro filhas e resistira com bravura a todos os ataques ao seu reino. Era uma terra de histrias gloriosas aquela em que o garoto cresceu Mas nem 
tudo era glria. Os antepassados de Rhys haviam sido mineiros, e o jovem costumava ouvir os casos de sofrimentos que seu pai e seus tios contavam.
Lembravam os terrveis tempos em que no havia trabalho, em que as ricas jazidas de carvo de Gwent e Carmarthen foram fechadas em consequncia de uma amarga luta 
entre as companhias e os mineiros e em que estes foram reprimidos por uma pobreza que corroeu a ambio e o orgulho, solapando o esprito e a fora dos homens at 
faz-los capitular.
Quando as minas foram reabertas, houve outra espcie de inferno. Quase toda a famlia de Rhys tinha morrido nas minas. Alguns haviam morrido nas entranhas da terra, 
outros consumiram, tossindo, os pulmes enegrecidos. Poucos tinham passado dos trinta anos de idade.
Rhys costumava ouvir o pai e os tios falarem do passado, do desmoronamento, dos mineiros invalidados e das greves.
Falaram dos bons e dos maus tempos, e o garoto no via qualquer diferena entre uns e outros. Todos eram maus. A idia de passar a vida dentro da escurido da terra 
o apavorava, e ele sabia que tinha de fugir.
Saiu de casa aos doze anos. Abandonou os vales do carvo e foi para a costa, para a baa de Sully Ranny e para Lavernock, para onde corriam os turistas ricos. Foi 
mensageiro, carregador, ajudava as senhoras a descerem os caminhos escarpados para a praia, carregando cestas de piquenique, dirigiu um carro de pneis em Penarth 
e trabalhou no parque de diverses de Whitmore Bay.
Estava apenas a algumas horas de casa, mas a distncia j era incomensurvel. A gente do lugar onde ele estava parecia pertencer a outro mundo. Rhys Williams nunca 
imaginara que as pessoas pudessem ser to belas ou usar roupas to magnficas. Toda mulher lhe parecia uma rainha, e os homens eram elegantes e esplndidos. Era 
aquele o seu mundo, e no havia nada que Rhys no fosse capaz de fazer para entrar nele.
Quando completou catorze anos, tinha economizado dinheiro suficiente para comprar uma passagem at Londres.
Passou l os trs primeiros dias simplesmente andando pela grande cidade, olhando para tudo e avidamente embebendo-se dos fantsticos espectculos, sons e cheiros.
O seu primeiro emprego foi numa loja de tecidos. Havia dois caixeiros, ambos seres superiores, e uma caixeira que fazia o corao do jovem gals cantar sempre que 
a olhava.
Os caixeiros tratavam Rhys como ele devia ser tratado, isto , como lixo. Era uma curiosidade. Vestia-se com roupas esquisitssimas, tinha maneiras abominveis e 
falava com um sotaque incompreensvel. No conseguiam sequer pronunciar-lhe o nome direito.
A moa teve pena dele. Chamava-se Gladys Simpkins e morava num pequeno apartamento em Tooting com trs outras moas. Um dia, ela permitiu que o rapaz a levasse at 
a casa depois do trabalho e convidou-o para entrar e tomar uma xcara de ch.
O jovem Rhys estava muito nervoso. Pensava que aquela ia ser a sua primeira experincia sexual, mas quando passou o brao pelo corpo de Gladys, esta olhou muito 
sria para ele por um momento e depois riu.
- No vou lhe dar nada disso, mas estou disposta a dar-lhe um bom conselho. Se voc quiser ser alguma coisa, faa umas roupas melhores, procure instruir-se mais 
um pouco e aprenda a ter boas maneiras.
Olhou o rosto jovem e apaixonado de Rhys, viu seus profundos olhos azuis e disse com voz suave:
- At que voc vai ficar um bocado legal quando crescer...
Se voc quiser ser alguma coisa... Neste momento o fictcio Rhys Williams nasceu. O verdadeiro Rhys Williams era um rapaz ignorante e sem educao, sem meios, sem 
tradio, sem passado e sem futuro. Mas ele tinha imaginao, inteligncia e ardente ambio. Isso era o bastante. Comeou a imaginar do que queria conseguir, do 
que queria ser. Quando se olhava ao espelho, no via o rapaz bronco e desajeitado, de sotaque estranho. A imagem reflectia uma pessoa polida, delicada e bem-sucedida. 
Pouco a pouco, Rhys comeou a responder  imagem que trazia no esprito. Frequentava escolas nocturnas e passava os fins de semana em galerias de arte. Rondava as 
bibliotecas pblicas e ia ao teatro, sentava-se nas galerias e reparando nas boas roupas dos homens sentados nas plateias. Fazia refeies frugais para poder, uma 
vez por ms, ir a um bom restaurante, onde imitava cuidadosamente as maneiras dos outros  mesa. Observava, aprendia e no esquecia. Era como uma esponja que apagava 
o passado e absorvia o futuro.
Em menos de um ano, Rhys aprendeu o bastante para compreender que Gladys Simpkins, sua princesa, era uma mocinha cockney vulgar, que estava abaixo do seu gosto.
Deixou a loja de tecidos e foi trabalhar numa farmcia, que fazia parte de uma grande rede. Tinha quase dezasseis anos, mas parecia mais velho. Estava mais cheio 
de corpo e mais alto. As mulheres estavam comeando a prestar ateno  sua boa aparncia morena de gals e  sua conversa fluente e cheia de palavras lisonjeiras. 
Fazia muito sucesso na farmcia, e havia freguesas que esperavam at que Rhys pudesse atend-las. Vestia-se bem e falava com correco.
Mas, embora soubesse que j estava bem longe de Gwent e Carmarthen, ainda no ficava satisfeito quando se olhava no espelho. Tinha ainda uma longa jornada pela frente.
Depois de dois anos, Rhys passou a ser gerente da farmcia. O gerente distrital da rede lhe havia dito: "Isto  apenas o comeo, Williams. Continue a trabalhar assim 
e um dia voc ser o superintendente de meia dzia de casas".
Rhys quase deu uma gargalhada. Pensar que isso poderia ser considerado o mximo da ambio de uma pessoa! Nunca havia deixado de estudar. Estava fazendo cursos de 
administrao de empresas, marketing e direito comercial.
Queria mais. Tinha os olhos voltados para o topo da escada e sabia que ainda no chegara nem aos primeiros degraus. Teve a sua primeira oportunidade de subir quando 
um vendedor de produtos farmacuticos entrou um dia na farmcia e viu Rhys cercado de mulheres, s quais induziu vrios artigos de que elas no tinham qualquer necessidade.
- Voc est perdendo tempo aqui, rapaz - disse ele. Devia estar trabalhando num campo maior.
- Em que est pensando? - perguntou Rhys.
- Vou falar com meu chefe a seu respeito.
Duas semanas depois, Rhys estava trabalhando como vendedor de uma pequena firma de medicamentos. Fazia parte de uma equipe de cinquenta vendedores, mas quando se 
olhava no espelho, sabia que a verdade no era essa. A verdadeira competio que tinha de enfrentar era consigo mesmo. J estava se aproximando de sua imagem, do 
tipo fictcio que procurava criar. Um homem inteligente, culto, refinado e encantador. O que ele tentava fazer era impossvel.
Qualquer pessoa sabia que era preciso trazer essas qualidades do bero. No podiam ser criadas. Mas Rhys conseguiu o que queria. Tornou-se a imagem que havia elaborado.
Viajou pelo interior, vendendo produtos da firma, falando e escutando. Voltava a Londres cheio de sugestes prticas e tratava imediatamente de ir subindo a escada.
Trs anos depois de haver entrado na companhia, Rhys foi nomeado gerente-geral de vendas. Sob a sua hbil orientao, a companhia comeou a expandir-se.
Quatro anos depois, Sam Roffe entrou na vida de Rhys e percebeu a fome que o consumia.
- Voc  como eu - disse Sam. - Ns queremos conquistar o mundo. E vou mostrar-lhe como faz-lo.
Sam Roffe tinha sido um guia brilhante. Durante os nove anos em que vivera sob a direco de Sam Roffe, Rhys Williams se tornara de valor inestimvel para a companhia.
Com o correr do tempo, assumira responsabilidades cada vez maiores, reorganizando vrias divises, resolvendo problemas em qualquer ponto do mundo, coordenando as 
diversas filiais da Roffe and Sons e criando novos conceitos. No fim, Rhys Williams conhecia o funcionamento e a situao da companhia mais do que qualquer pessoa, 
 excepo do prprio Sam Roffe.
Rhys Williams era o sucessor natural para a presidncia.
Um dia, quando Rhys e Roffe voltavam de Caracas num luxuoso Being 707-320, que fazia parte da frota de oito avies da companhia, Sam Roffe felicitou Rhys por uma 
transaco lucrativa que ele havia fechado com o governo.
- Vai ganhar uma boa gratificao por isso, Rhys.
Rhys respondeu calmamente:
- No quero gratificao, Sam. Prefiro algumas aces e um lugar na sua directoria.
Merecia isso, decerto, e os dois sabiam disso. Mas Sam respondeu:
- Sinto muito, mas no vou alterar os meus princpios, nem mesmo por sua causa. A Roffe and Sons  uma empresa privada e ningum que no seja da famlia pode pertencer 
 directoria ou possuir aces.
Rhys sabia disso, sem dvida. Comparecia a todas as reunies da companhia, mas no como participante. Sam era o ltimo elemento masculino da famlia Roffe. As outras 
pessoas da famlia eram todas mulheres, primas de Sam. Os homens com quem elas haviam casado tinham um lugar na directoria da companhia: Walther Gassner, que se 
casara com Anna Roffe; Ivo Palazzi, casado com Simonetta Roffe; Charles Martel, casado com Hlne Roffe e Alec Nichols, cuja me fora uma Roffe.
Rhys fora assim forado a tomar uma deciso. Sabia que merecia fazer parte da directoria e que um dia dirigiria tudo. As circunstncias actuais impediam isso, mas 
elas podiam ser alteradas. Rhys tinha decidido continuar  espera, para ver o que acontecia. Sam lhe ensinara a ser paciente. E agora Sam estava morto.
As luzes do escritrio acenderam-se de novo e Hajib Kafir apareceu  porta. Kafir era o gerente de vendas da Roffe and Sons na Turquia. Era um homem baixo e moreno, 
que usava diamantes e uma barriga gorda com atributos de prestgio pessoal. Tinha o ar desmazelado de um homem que se vestia s pressas. Sophie no o encontrara, 
portanto, numa boate. Outro efeito secundrio da morte de Roffe, pensou Rhys: um coito interrompido.
- Rhys! - exclamou Kkafir. - Nunca imaginei que ainda estivesse em Istambul! Quando o deixei, ia tomar o avio e, como eu tinha alguns casos para resolver...
- Sente-se, Hajib, e oua com muita ateno. Quero que mande quatro telegramas no cdigo da companhia. So para pases diferentes. Quero que sejam levados pessoalmente 
para o telgrafo por mensageiros de confiana. Entendeu?
-  claro - disse Kafir, espantado. - Entendi perfeitamente. Rhys olhou para o fino relgio de ouro Baume & Mercier que tinha no pulso.
- A agncia da Cidade Nova j est fechada. Passe os telegramas pelo Yeni Posthane Cad. Quero que estejam a caminho dentro de trinta minutos. - Entregou a Kafir 
uma cpia do telegrama que havia redigido. Qualquer pessoa que fizer algum comentrio ser sumariamente despedida.
Kafir viu o telegrama, os seus olhos se arregalaram.
- Meu Deus! Meu Deus! Como pde acontecer uma coisa dessas?
- Sam Roffe morreu num acidente - disse Rhys.
Depois disso, pela primeira vez Rhys deixou que lhe chegasse  conscincia o que ele estava reprimindo desde que recebera a notcia. Rhys tinha evitado pensar em 
Elizabeth Roffe, filha de Sam, que estava com vinte e quatro anos.
Na primeira vez em que Rhys a vira, era uma menina de quinze anos, com aparelho nos dentes, tremendamente tmida e gorda, solitria e rebelde. Com o passar dos anos, 
vira Elizabeth tornar-se uma moa muito interessante, que tinha ao mesmo tempo a beleza da me e a inteligncia e o esprito do pai. Havia se ligado muito a Sam. 
Rhys sabia que a notcia iria abal-la profundamente e resolveu d-la pessoalmente.
Duas horas depois, Rhys Williams sobrevoava o Mediterrneo num jacto da companhia, rumo a Nova York.

Captulo 2
Berlim. Segunda-feira, 7 de setembro. 22 horas.
Anna Roffe Gassner sabia que no devia gritar de novo, pois Walther voltaria para mat-la. Encolhida num canto do seu quarto, tremia incontrolavelmente e esperava 
a morte. O que havia comeado como um belo conto de fadas terminava em terror, um indescritvel terror. Ela tardara muito a convencer-se da verdade: o homem com 
quem se casara era um louco assassino.
Anna Roffe nunca tinha amado ningum antes de conhecer Walther Gassner, nem mesmo sua me, seu pai ou a si prpria. Fora uma menina frgil e doente, que sofria de 
frequentes desmaios. No podia lembrar-se de um tempo em que no tivesse vivido s voltas com hospitais, enfermeiras e especialistas que eram trazidos de avio de 
lugares distantes. Como era filha de Anton Roffe, da Roffe and Sons, as maiores autoridades mdicas eram levadas  cabeceira de Anna, em Berlim. Examinavam-na, submetiam-na 
a numerosos exames, e por fim partiam sem saber mais do que sabiam ao chegar. No conseguiam fazer um diagnstico.
Anna no pde ir  escola como as outras crianas.
Tornou-se reservada e criou um mundo prprio, cheio de sonhos e fantasias, onde s ela entrava. Pintava  sua maneira os seus quadros da vida, pois as cores da realidade 
eram muito speras, e ela no podia aceit-las.
Quando Anna completou dezoito anos, os seus desmaios desapareceram to misteriosamente quanto haviam comeado.
Mas tinham lhe marcado a vida. Numa idade em que as moas em geral ficavam noivas ou se casavam, Anna nunca fora beijada por um rapaz. Convencia-se de que isso no 
tinha a menor importncia. Estava contente em viver no seu mundo de sonhos, longe de tudo e de todos. Por volta dos seus vinte e cinco anos, os pretendentes comearam 
a aparecer.
Anna Roffe era uma herdeira que tinha um dos mais prestigiados nomes do mundo, e muitos homens estavam ansiosos pela participao na fortuna dela. Recebeu propostas 
de um conde sueco, de um peta italiano e de meia dzia de prncipes de pases pobres. Anna recusou todos. Quando ela fez trinta anos, Anton Roffe murmurou, tristonho:
- Vou morrer sem deixar netos.
No seu trigsimo aniversrio, Anna foi para Kitzbhel, na Austria, e ali conheceu Walther Gassner, professor de esqui, treze anos mais moo que ela.
Na primeira vez em que Anna viu Walther, perdeu literalmente o flego. Ele estava esquiando pela ngreme encosta do Hahnenkamm, e foi o espectculo mais belo que 
os olhos de Anna j haviam contemplado. Ela chegou mais perto do final da pista a fim de v-lo melhor. Parecia-lhe um jovem deus, e ela ficou toda feliz s de olh-lo. 
Walther percebeu o olhar dela.
- No est esquiando, gndiges Frulein?
Ela abanou a cabea, no confiando na sua voz. Ele sorriu e disse:
- Permita-me ento convid-la para almoar.
Anna fugiu, apavorada como uma colegial. Da em diante, Walther Gassner passou a persegu-la. Anna Roffe no era tola. Sabia muito bem que no era bela, nem brilhante. 
Era uma mulher comum e, alm do seu nome, tinha muito pouco a oferecer a um homem. Mas sabia tambm que, por trs dessa fachada comum, escondia-se uma mulher intimamente 
bela e sensvel, transbordante de amor, de poesia e de msica.
Talvez por no ser bela, Anna tinha uma profunda venerao pela beleza. Visitava os grandes museus e passava horas a admirar quadros e esttuas. ao ver Walther Gassner, 
teve a impresso de que todos os deuses estavam vivos diante dela.
Anna estava fazendo a primeira refeio no terrao do Tennerhof Hotel quando Walther Gassner se aproximou dela.
Parecia, de facto, um jovem deus. Tinha um perfil clssico marcado com feies delicadas, sensveis e enrgicas. O rosto estava bem queimado pelo sol da montanha 
e os dentes eram muito brancos e certos. Os cabelos eram louros e os olhos tinham um tom cinzento de ardsia. Sobre as roupas de esqui que ele vestia, Anna podia 
ver o movimento dos bceps e dos msculos das coxas, o que a fazia sentir tremores pelo corpo. Tratou de esconder as mos no colo para que ele no visse as calosidades 
da ceratose.
- Procurei-a ontem  tarde nas pistas - disse Walther.
Anna no conseguia dizer uma palavra.
- Se no sabe esquiar, terei prazer em ensinar-lhe. - E acrescentou com um sorriso: - De graa.
Ele a levou para Hausberg, a encosta dos principiantes, a fim de dar-lhe a primeira lio. Ficou logo evidente para ambos que Anna no tinha a menor aptido para 
esquiar.
Perdia o equilbrio e caa constantemente, mas insistia em tentar repetidamente, pois tinha receio de que Walther a desprezasse pelo seu fracasso. ao invs disso, 
depois da dcima queda, ele a ajudou a levantar-se para coisas melhores e disse:
- Voc foi feita para coisas melhores.
- Eu lhe direi  noite na hora do jantar.
Jantaram juntos naquela noite. Tomaram caf juntos na manh seguinte, e novamente almoaram e jantaram juntos.
Walther se esqueceu de seus alunos. Deixou de dar lies de esqui para acompanhar Anna at  aldeia. Levou-a ao cassino em Der Gojdene Greif. Andaram de tren, fizeram 
compras, andaram a p e ficaram horas e horas conversando no terrao do hotel. Para Anna, era um tempo de encantamento.
Cinco dias depois de se terem conhecido, Walther tomou-lhe as mos e disse:
- Anna, quero casar-me com voc.
Com isso, ele estragara tudo. Arrancou-a das paragens de sonhos em que ela estava vivendo e a levou para a cruel realidade de quem e do que era ela. Um prmio virginal 
e sem atractivos, de trinta e cinco anos, para quem estivesse disposto a dar o golpe do ba.
Tentou afastar-se, mas Walther a impediu:
- Ns nos amamos, Anna. Disso voc no pode fugir.
Ela o ouviu mentir, ouviu-o dizer: "Nunca amei ningum antes de voc", e facilitou as coisas porque queria desesperadamente acreditar nele. Levou-o para o quarto 
dela e os dois ficaram ali conversando. Enquanto Walther contava a histria de sua vida, ela de repente comeou a acreditar nele e achou que a vida de Walther tinha 
sido muito semelhante  dela.
Do mesmo modo, Walther nunca tivera a quem amar. Fora marginalizado por ser filho ilegtimo, da mesma forma que Anna pela doena. Como Anna, ele sempre sentiu necessidade 
de dar amor. Criado num orfanato, quando chegou  adolescncia e a sua beleza j era evidente, as mulheres do orfanato comearam a us-lo, levando-o para os seus 
quartos  noite, pondo-o na cama e ensinando-lhe a dar-lhes prazer. Como recompensa, ganhava raes reforadas, com pedaos de carne e sobremesas feitas com acar 
de verdade.
Recebia tudo, menos amor.
Quando Walther teve idade suficiente para fugir do orfanato, descobriu que o mundo l fora no era diferente.
As mulheres continuavam a us-lo, muitas vezes por vaidade, mas nunca iam alm disso. Davam-lhe dinheiro, roupas e jias, mas nunca se davam a si mesmas.
Anna compreendeu que Walther era sua alma gemia. Casaram-se, numa cerimnia simples, na prefeitura.
Anna esperava que seu pai ficasse contente. Ele se mostrou, ao contrrio, exasperado.
- Voc  uma tola vazia e imbecil! - gritou-lhe Anton Roffe. - Casou-se com um aventureiro que no vale nada. J mandei fazer investigaes sobre ele. Sempre viveu 
 custa das mulheres, mas foi a primeira vez que encontrou uma idiota a ponto de casar-se com ele.
- Pare com isso! - exclamou Anna. - Voc no o compreende.
Mas Anton Roffe sabia que compreendia Walther Gassner at demais. Chamou o novo genro ao seu escritrio.
Walther olhou com aprovao a decorao severa do escritrio e os velhos quadros pendurados nas paredes.
- Gosto disso aqui - disse ele.
- Sem dvida alguma,  melhor de que o orfanato.
Walther olhou para ele, cheio de cautela.
- Que foi que disse?
- Vamos acabar com isso. Voc cometeu um erro. Minha filha no tem dinheiro.
Os olhos cinzentos de Walther tornaram-se de pedra.
- Que est querendo dizer-me?
- No estou querendo dizer coisa alguma. Estou dizendo. No receber nada por intermdio de Anna, pois ela nada tem. Se voc tivesse procurado saber das coisas mais 
a fundo, teria sabido que a Roffe and Sons  uma empresa fechada.
Isto significa que nenhumas das suas aces pode ser vendida. Vivemos com conforto, mas  s. No h de modo nenhum uma grande fortuna com que voc possa se locupletar 
aqui. - Tirou do bolso um envelope, que jogou na mesa  frente de Walther. - Isso o compensar do trabalho que teve.
Espero que esteja fora de Berlim s seis horas da noite de hoje. Anna nunca mais deve ter notcias suas.
Walther disse calmamente:
- Por acaso j lhe passou pela cabea que eu me casei com Anna porque a amo?
- Claro que no. J passou pela sua?
Walther olhou para ele um momento e disse:
- Vamos ver o preo que me foi atribudo.
Abriu o envelope e contou o dinheiro. Depois, olhou para Anton Roffe.
- Acho que valho muito mais do que vinte mil marcos.
- Pois  s o que vai receber. E d-se por muito feliz.
- Para dizer a verdade, dou-me por muito feliz disse Walther. - Muito obrigado.
Guardou o dinheiro no bolso num gesto displicente e um momento depois saiu.
Anton Roffe sentiu-se reconfortado. Experimentava um sentimento de culpa e de aborrecimento pelo que tinha feito, mas sabia que aquela era a nica soluo. Anna 
ficaria infeliz com o facto de ter sido abandonada pelo marido, mas era melhor que isso tivesse acontecido o mais rpido possvel. Tentaria descobrir alguns homens 
da idade dela em condies, tendo a certeza de que o homem que escolhesse iria respeit-la, ainda que no a amasse. Teria de ser algum que se interessasse por ela 
e no pudesse ser comprado por vinte mil marcos.
Quando Anton Roffe chegou em casa. Anna correu-lhe ao encontro com os olhos cheios de lgrimas. Ele a tomou nos braos e disse:
- Anna, tudo vai correr bem. Voc se consolar...
Anton olhou por sobre os ombros dela e viu Walther Gassner  porta. Anna olhava para o dedo e dizia:
- Veja o que Walther comprou para mim! J viu algum dia um anel mais bonito? Custou vinte mil marcos.
No fim, os pais de Anna foram forados a aceitar Walther Gassner. Como presente de casamento,, compraram para o casal uma bela casa senhorial no Wannsee, com algumas 
antiguidades, sofs e poltronas confortveis, uma mesa Roentgen na biblioteca e as paredes revestidas de estantes de livros. O andar de cima era mobiliado com elegantes 
peas dinamarquesas e suecas do sculo XVIII.
- Tudo isso  demais - disse Walther a Anna. - Nada quero deles, nem de voc. Gostaria de poder comprar muitas coisas belas para voc, - disse-lhe ele com um sorriso 
forado de menino -, mas no tenho dinheiro.
- Claro que tem - respondeu Anna. - Tudo o que tenho  seu.
Walther sorriu ternamente para ela e disse:
-  mesmo?
Anna insistiu em explicar a sua situao financeira, embora Walther no se mostrasse disposto a discutir questes de dinheiro. Tinha um fundo no nome dela que lhe 
permitia viver com conforto, mas a base de sua fortuna era constituda de aces da Roffe and Sons. As aces no poderiam, porm, ser vendidas sem a aprovao unnime 
da directoria.
- Qual  o valor total de suas Aces? - perguntou Walther.
Anna disse. Walther no acreditou que fosse tanto e a fez repetir a importncia.
- E voc no pode vender as aces?
- No. Meu primo Sam no consentiria. Ele retm as aces que asseguram o controle. Um dia...
Walther manifestou o seu desejo de trabalhar na empresa da famlia. Anton se ops.
- Que pode um camarada como voc, que no sabe seno esquiar, dar de positivo  Roffe and Sons? - perguntou ele.
Mas acabou cedendo aos apelos da filha, e Walther comeou a trabalhar na administrao da companhia. Dedicou-se ao trabalho e progrediu rapidamente. Quando o pai 
de Anna morreu, dois anos depois, Walther passou a fazer parte da directoria. Anna tinha orgulho dele, pois Walther era um marido perfeito e continuava a mostrar-se 
enamorado dela.
Levava-lhe sempre flores e pequenos presentes, e parecia muito feliz em passar as noites em casa a ss com ela. A felicidade de Anna era quase excessiva, e ela costumava 
rezar em silncio, agradecendo a Deus.
Apreendeu a cozinhar para fazer os pratos favoritos de Walther. Fazia chucrute com batatas, carne de porco cozida com cerveja e temperada com caminho, acompanhada 
de uma maa cozida, recheada com airelles, as pequenas bagas vermelhas.
- Voc  a melhor cozinheira do mundo, - dizia Walther, e Anna ficava vermelha de orgulho.
No terceiro ano de casada, Anna ficou grvida.
Houve algumas complicaes durante os oito meses de gravidez, mas Anna tudo suportou, muito feliz. Havia, entretanto, uma coisa que a preocupava.
Comeou num dia, depois do almoo. Ela estava tricotando um suter para Walther, pensando na vida, e de repente ouviu a voz de Walther que dizia:
- Que  que voc est fazendo, Anna, sentada a no escuro?
A tarde tinha passado e anoitecia. Anna olhou para o suter no colo e viu que no havia tocado nele. Para onde fora o tempo? Onde tinha estado seu esprito? Depois 
disso, Anna passou por estados semelhantes e comeou a pensar que esses acessos de inconscincia, essas decidas para o nada talvez fossem um pressgio, um sinal 
de que ela ia morrer. Na verdade, no tinha medo da morte, mas no podia tolerar a idia de se separar de Walther.
Quatro semanas antes da data prevista para o parto, Anna teve uma das suas crises de inconscincia, falseou o p nu degrau e rolou pela escada.
Acordou no hospital.
Walther estava sentado na cama e lhe segurava a mo.
- Que susto voc me deu!
Num pavor sbito, Anna pensou: "Meu filho! Perdi meu filho!" Levou a mo  barriga e no sentiu mais nada.
- Meu filho! Onde est meu filho?
O mdico disse:
- Teve gmeos, Sra. Gassner.
Anna voltou-se para Walther, que estava com os olhos cheios de lgrimas.
- Um menino e uma menina.
Ela poderia ter morrido naquele momento de felicidade.
Sentiu um desejo sbito de ter os filhos nos braos. Queria v-los, apalp-los, carreg-los.
- Falaremos sobre isso quando voc estiver mais forte disse o mdico. - S depois que voc estiver mais forte.
Asseguravam a Anna que ela estava melhorando dia aps dia, mas ela se sentia apavorada. Estava acontecendo alguma coisa incompreensvel com ela. Walther chegava, 
tomava-lhe a mo e se despedia. Ela o olhava, surpresa, e comeava a dizer:
- Mas voc chegou agora mesmo...
Olhava ento para o relgio e via que trs ou quatro horas se tinham passado.
Tinha a vaga lembrana de que haviam levado os filhos para ela uma noite e que no mesmo instante ela adormeceu. No se lembrava com clareza das coisas e tinha receio 
de perguntar. Mas no tinha importncia. Poderia ver os filhos  vontade quando Walther a levasse para casa.
Afinal, o grande dia chegou. Anna saiu do hospital numa cadeira de rodas, embora dissesse que tinha foras para caminhar. Na realidade, sentia-se muito fraca, mas 
estava muito nervosa e sabia que nada mais importava seno o facto de que ia ver os filhos.
Walther entrou com ela nos braos e comeou a subir a escada em direco do quarto.
- No! - exclamou ela. - Leve-me para o quarto das crianas!
- Agora, voc deve descansar. Est um pouco fraca...
Ela no quis mais escutar. Saiu dos braos dele e correu para o quarto das crianas.
As cortinas estavam descidas, e Anna levou algum tempo para ambientar os olhos  escurido. Era tamanha a sua agitao que ela estava at um pouco tonta, e teve 
receio de desmaiar.
Walther a havia acompanhado e estava falando, tentando explicar alguma coisa. Mas, fosse o que fosse, no tinha importncia.
Eles estavam ali, dormindo nos beros. Anna se aproximou lentamente como se no os quisesse perturbar e ficou a olh-los. Eram as crianas mais lindas que j vira. 
Mesmo naquela idade, podia ver que o menino seria bonito como o pai e teria os mesmos bastos cabelos louros. A menina era como uma frgil boneca de cabelos sedosos 
e dourados e rosto pequeno e triangular.
Anna voltou-se para Walther e disse com voz embargada pela emoo:
- So lindos... Eu estou to feliz...
- Vamos, Anna - murmurou Walther.
Passou o brao pelo corpo dela, abraando-a. Havia uma fome impetuosa dentro dele, e ela comeou a sentir tambm alguns impulsos. Fazia tempo que no se amavam. 
Walther tinha razo. Havia bastante tempo para as crianas.
Deu ao menino o nome de Peter e  menina, o de Birgitta.
Eram dois belos milagres que ela e Walther tinham feito, e Anna passava horas no quarto dos gmeos, brincando e falando com eles. Ainda que no pudessem compreend-la, 
tinha certeza de que sentia o seu amor. s vezes, quando estava mais entretida com os filhos, voltava-se e via Walther parado  porta, de volta do escritrio. Anna 
compreendia ento que o dia inteiro passava sem que ela sentisse.
- Venha - dizia ela. - Estamos jogando.
- J preparou o jantar? - perguntava Walther, e ela de repente se sentia culpada. Resolvia dar mais ateno a Walther e menos s crianas, mas no dia seguinte tudo 
se repetia. Os gmeos eram como um man irresistvel que a atraa. Anna ainda amava muito Walther e tentava atenuar o sentimento de culpa, convencendo-se de que 
as crianas eram tambm parte dele. Todas as noites, logo que Walther adormecia, ela saa da cama e ia para o quarto das crianas e ficava a olh-los at que a luz 
da manh comeasse a encher o quarto. Apressando-se ento em voltar para a cama antes que Walther acordasse.
Uma vez, Walther entrou no quarto das crianas no meio da noite e surpreendeu-a.
- Quer me dizer o que est fazendo?
- Nada, querido. Estava apenas...
- Volte para a cama!
Ele nunca lhe falara com tanta rispidez.
Na manh seguinte, Walther disse:
- Acho que devemos tirar umas frias. Seria muito bom para ns dois.
- Mas, Walther, as crianas ainda so muito pequenas para viajar.
- Estou falando de frias para ns dois.
Ela abanou a cabea.
- Eu no poderia deixar as crianas.
Ele lhe tomou as mos e disse:
- Quero que se esquea das crianas.
- Esquecer-me das crianas? - perguntou ela, atnita.
Walther olhou-a bem nos olhos e disse:
- Anna, lembra-se de como tudo corria bem entre ns antes de voc ficar grvida? Lembra-se de como vivamos alegres e felizes, sem ningum mais para interferir?
Foi ento que ela compreendeu. Walther tinha cimes dos filhos.
As semanas e os meses passaram rapidamente. Walther deixou de se aproximar das crianas. Nos aniversrios delas, Anna lhes comprava belos presentes. Walther sempre 
achava um jeito de estar fora da cidade em negcios. Anna no podia continuar a iludir-se para sempre. A verdade era que Walther no tinha o menor interesse pelos 
filhos. Anna julgava que talvez a culpa fosse dela, pois era por demais interessada neles. "Obcecada" foi uma palavra que Walther certa vez usara. Ele lhe pedira 
que consultasse um mdico a esse respeito, e ela fora s para fazer-lhe a vontade. Mas o mdico era um bobo. No momento em que comeara a falar com ela, Anna o isolara, 
deixando seu pensamento vagar para bem longe. Por fim, ouviu o homem dizer:
- Nosso tempo est esgotado, Sra. Gassner. Poder vir na prxima semana?
-  claro.
Nunca mais voltou.
Anna sentiu que o problema era tanto de Walther quanto dela. Se ela era a culpada por amar demais as crianas, ele o era por no am-las o quanto devia.
Anna apreendeu a no falar nelas na presena de Walther, mas logo que ele saa para o escritrio, corria para o quarto dos filhos. No eram mais bebs. Tinham completado 
trs anos, e Anna j podia ter uma idia de como seriam quando crescessem. Peter era alto para a sua idade e tinha um corpo forte e atltico, como o pai. Ana o tomava 
no colo e murmurava:
- Ah, meu Peter, o que voc ir fazer com as pobres Fruleins? Seja bom para elas, meu pobre filhinho, pois com voc elas no tm chances.
Peter sorria timidamente e abraava-a.
Anna voltava-se ento para Birgitta, que ficava cada dia mais linda. No se parecia nem com Anna nem com Walther.
Tinha finos cabelos dourados e uma pele delicada como porcelana. Peter tinha o temperamento do pai, e Anna de vez em quando tinha necessidade de repreend-lo. Quando 
Walther no estava em casa, Anna punha discos ou lia para eles. Insistiam em que Anna lhe lesse histrias de bichos-papes, duendes e feiticeiras, repetindo-as sem 
parar.  noite, Anna fazia-os dormir com uma cano.
Anna rezava muito para que o tempo suavizasse a atitude de Walther, fazendo-o mudar. Mudou, sim, mas para pior. Odiava as crianas. A princpio, Anna pensara que 
era porque Walther queria todo o amor para si, sem dividi-lo com mais ningum.
Mas, pouco a pouco, teve conscincia de que o sentimento dele no era proveniente do amor por ela. Era de dio. O pai dela  que estava certo. Walther se casara 
com ela por dinheiro. As crianas representavam para ele uma ameaa, e ele queria ver-se livre delas. Falava cada vez com mais frequncia a Anna da venda das aces.
- Sam no tem o direito de impedir-nos. Poderamos pegar todo esse dinheiro e ir viver em algum canto. S ns dois.
Ela o escutava, espantada.
- E as crianas?
- No - respondia ele, exaltado. - Escute, para o nosso bem, temos que nos livrar delas.  preciso.
Foi ento que Anna comeou a compreender que ele era louco. Ficou apavorada. Walther tinha despedido todos os empregados, deixando apenas uma faxineira, que ia trabalhar 
uma vez por semana. Anna e as crianas estavam sozinhas em casa  merc dele. Walther precisava de tratamento. Talvez no fosse muito tarde ainda. No sculo XV, 
os loucos eram arrebanhados e mantidos presos pelo resto da vida, em grandes barcos, Narrenschiffe, os navios de loucos. Mas agora, com os recursos da medicina moderna, 
devia haver um meio de curar Walther.
E naquele momento, naquele dia de setembro, Anna estava encolhida num canto do seu quarto, onde Walther a trancara, e esperava que ele voltasse. Sabia o que tinha 
de fazer pelo bem dele, dela e das crianas. Levantou-se e foi at o telefone. Hesitou apenas por um instante. Depois, tirou o telefone do gancho e discou o nmero 
de emergncia da polcia.
Uma voz estranha atendeu:
- Hallo.
- J! - Sua voz tremia.
Algum lhe tomou de repente o telefone da mo e desligou-o.
Anna recuou.
- Por favor - disse ela em voz chorosa. - No me faa mal...
Walther se aproximava dela com os olhos brilhantes e a voz to macia que ela quase no podia ouvi-lo.
- No vou lhe fazer mal. Eu amo voc, no sabe disso?
Tocou-a, e ela sentiu um arrepio percorrer todo o corpo.
- Acontece que no queremos a polcia aqui em casa, no  mesmo?
Ela balanou a cabea, to aterrada que no podia falar.
- As crianas  que esto causando todo o problema. Temos de nos livrar delas. Eu...
Neste momento, a campainha da porta tocou no andar trreo.
Walther parou, hesitante. A campainha tornou a tocar.
- Fique aqui - ordenou ele. - Vou voltar.
Anna viu, petrificava, o marido atravessar o quarto. Bateu a porta e passou a chave.
Ele tinha dito que ia voltar.
Walther Gassner desceu as escadas rapidamente, foi at  porta e abriu-a. Um homem com uma farda cinzenta de mensageiro tinha um envelope na mo.
- Uma correspondncia urgente para o Sr. e a Sra. Walther Gassner.
- Pode entregar - disse Walther.
Fechou a porta, olhou para o envelope e abriu-o. Leu ento o telegrama.
"Tenho o pesar de comunicar que Sam Roffe morreu num acidente de alpinismo. Por favor, esteja em Zurique s doze horas de sexta-feira para uma reunio de emergncia 
da directoria".
Quem assinava a mensagem era Rhys Williams.

Captulo 3
Roma. Segunda-feira, 7 de setembro. 18 horas.
Ivo Palazzi estava de p no meio do quarto com o sangue a escorrer-lhe do rosto.
- Mamma mia!
- Nem comecei ainda a arruinar voc, miservel figlio di putana! - gritou Donatella.
Estavam ambos nus no grande quarto do seu apartamento na Via Montemignaio. Donatella tinha o corpo mais sensual e excitante que Ivo Palazzi j conhecera, e mesmo 
naquele momento, quando tinha o rosto ensanguentado pelas unhadas dela, sentia um preldio de desejo inflamar-lhe o corpo.
Dio, como era bela! Havia nela uma decadncia inocente que o enlouquecia. Tinha um rosto de leopardo, com os malares salientes e os olhos amendoados, lbios cheios 
e sensuais que o mordiam e sugavam e... mas no devia pensar nisso naquele momento. Apanhou um pano branco em cima de uma cadeira, para estancar o sangue, e compreendeu 
tarde demais que se tratava de sua camisa.
Donatella estava no meio da grande cama e gritava para ele:
- S quero  que voc sangre at morrer! Quando eu acabar com voc, seu mulherengo imundo, no restar nada onde um gatinho possa fazer coc!
Pela centsima vez, Ivo Palazzi ficou sem saber como chegara quela situao impossvel. Sempre se gabara de ser o mais feliz dos homens, e todos os seus amigos 
concordavam com ele. Todos os seus amigos? Todo mundo! Ivo no tinha inimigos. Nos seus tempos de solteiro, fora um romano despreocupado, sem um s cuidado na vida, 
um conquistador invejado por metade dos homens da Itlia. A sua filosofia se resumia na frase: "Fasi onore Con una donna". Isso mantinha Ivo muito ocupado. Era um 
verdadeiro romntico. Vivia a apaixonar-se, e, a cada vez, usava seu novo amor para ajud-lo a esquecer o anterior. Ivo adorava as mulheres, e para ele todas eram 
belas, das putanas que exerciam o seu antigo ofcio ao longo da Via Appia s modelos de alta moda que se pavoneavam pela Via Condotti. As nicas mulheres a que Ivo 
no ligava eram as americanas. Eram muito independentes para o seu gosto. Alm disso, que se poderia esperar de uma nao cuja lngua era to pouco romntica a ponto 
de l se traduzir Giuseppe Verdi por Joe Green?
Ivo tratara sempre de ter vrias mulheres em cada uma das fases de preparao. Havia cinco fases. Na primeira, situavam-se os conhecimentos recentes. As garotas 
recebiam telefonemas dirios, flores e pequenos volumes de poesia ertica. Na segunda fase, estavam aquelas a quem ele mandava pequenos presentes de Gucci e caixas 
de porcelana com bombons de Perugina. As da terceira fase recebiam jias ou roupas, e eram levadas para jantar no El Toula ou na Taberna Flavia. As das quarta fase 
conheciam a cama de Ivo e apreciavam a sua notvel tcnica amorosa. Um encontro amoroso com Ivo era elaborado como uma produo de cinema. O belo apartamento na 
Via Margutta ficava cheio de flores. A msica podia ser pera, clssica ou rock, de acordo com as preferncias da escolhida. Ivo era soberbo cozinheiro, e uma das 
suas especialidades era justamente pollo alla cacciatora, frango  caadora. Depois do jantar, uma garrafa de champanha gelado para beber na cama... Sim, Ivo adorava 
a quarta fase.
Mas a quinta era provavelmente a mais delicada de todas.
Constava de uma fala emocionada de adeus, de um generoso presente de despedida e um triste arrivederci.
Mas tudo isso havia acontecido no passado. Agora, Ivo Palazzi olhava para o rosto ensanguentado e arranhado no grande espelho acima da cama e se sentia horrorizado. 
Parecia que fora atacado por uma mquina enlouquecida.
- Veja o que voc fez comigo! - exclamou ele. - Sei que no foi de propsito, cara!
Aproximou-se da cama a fim de tomar Donatella nos braos. Os braos macios dela cingiram-no e, quando ele comeou a abra-la, ela cravou as longas unhas nas suas 
costas, e as fez correr pela carne como se fosse um animal selvagem. Ivo deu um grito de dor.
- Pode gritar! - exclamou Donatella. - Se eu tivesse aqui uma faca, cortaria o seu cazzo e o enfiaria por sua miservel garganta dentro!
- Por favor! - pediu Ivo. - As crianas podem ouvir.
- Melhor! J  tempo de saberem que espcie de monstro  o pai delas!
Ivo deu um passo na direco dela.
- Carssima...
- No me toque! Prefiro me entregar ao primeiro marinheiro sifiltico que encontrar no meio da rua a deixar que voc se aproxime de mim.
Ivo aprumou o corpo, ofendido no seu orgulho.
- Nunca esperei que a me dos meus filhos falasse assim comigo!
- Quer que eu fale delicadamente com voc? Quer que eu deixe de trat-lo como o verme que voc ? - perguntou Donatella, erguendo de novo a voz. - Ento me d o 
que quero!
Ivo olhou nervosamente para a porta.
- No posso dar, carssima, porque no tenho...
- Consiga ento para mim! Voc prometeu!
Ela estava comeando a ficar exasperada de novo, e Ivo achou que o melhor era sair dali antes que os vizinhos chamassem outra vez os carabinieri.
- No vai ser fcil conseguir um milho de dlares. Mas vou dar um jeito...
Vestiu apressadamente as cuecas e as calas e calou as meias e os sapatos, enquanto Donatella andava pelo quarto com os seios magnficos e firmes empinados no ar 
e Ivo pensava:
"Meu Deus, que mulher! Como eu a adoro!" Pegou a camisa ensanguentada. No havia outro jeito seno vesti-la. Sentiu nas costas e no peito a humidade pegajosa do 
sangue.
Olhou-se ainda uma vez ao espelho. Algumas gotas de sangue ainda escorriam dos profundos cortes que Donatella lhe abrira no rosto com as unhas.
Murmurou ento:
- Carssima, como  que eu vou explicar isso a minha mulher?
A mulher de Ivo Palazzi era Simonetta Roffe, uma herdeira do ramo italiano da famlia Roffe. Quando a conheceu, Ivo era um jovem arquitecto. O escritrio mandara-o 
supervisionar algumas reformas na Villa Roffe em Porto Ercole. No momento em que Simonetta ps os olhos em Ivo, seus dias de solteiro estavam contados. Ivo tinha 
chegado  quarta fase com ela na primeira noite e, pouco tempo depois, estava casado. Simonetta era to decidida quanto bela, e sabia muito bem o que queria.
Queria Ivo Palazzi. Foi assim que Ivo se viu transformado de homem solteiro e despreocupado em marido de uma jovem e bela herdeira. Desistiu sem pesar dos seus sonhos 
como arquitecto e comeou a trabalhar na Roffe and Sons, com um magnfico escritrio na EUR, a parte de Roma iniciada com tantas esperanas pelo falecido e mal-aventurado 
Duce.
Desde o incio, Ivo fez sucesso na firma. Era inteligente, aprendia com facilidade as coisas, e todos o adoravam.
Era impossvel no adorar Ivo. Estava sempre sorridente e era sempre encantador. Os amigos invejavam-lhe a posio e no sabiam ao certo como ele conseguira. A explicao 
era simples. Ivo mantinha profundamente oculto o lado sombrio da sua natureza. Na realidade, era um homem violentamente emotivo, capaz de dios explosivos, capaz 
at de matar.
O casamento de Ivo com Simonetta deu certo. A princpio, ele receara que pudesse ser uma servido que lhe tolhesse a liberdade, mas logo viu que os seus receios 
eram infundados. Submeteu-se apenas a um programa de austeridade, reduzindo o nmero de suas mulheres, e tudo continuou como dantes.
O pai de Simonetta comprou para eles uma bela casa em Olgiata, uma grande propriedade vinte e cinco quilmetros ao norte de Roma, protegida por portes fechados 
e vigiada por guardas fardados.
Simonetta era uma esposa maravilhosa. Amava Ivo e tratava-o como um rei, o que, na opinio de Ivo, ele merecia.
Havia apenas uma leve falha em Simonetta. Quando sentia cimes, virava uma fera. Desconfiara certa vez que Ivo levara uma mulher do departamento de compras a uma 
viagem ao Brasil.
Ele se mostrara indignado e ofendido com a acusao. Antes que a discusso terminasse, a casa estava em cacos. No havia um prato ou um mvel intacto, e quase tudo 
fora quebrado na cabea de Ivo. Simonetta avanara para ele com uma faca de cozinha ameaando mat-lo e matar-se depois. Ivo tivera que empregar toda a sua fora 
para tomar-lhe a faca. Terminaram brigando no cho e, a, Ivo rasgara-lhe todas as roupas e acabara com a raiva dela. Mas, depois desse incidente, Ivo se tornou 
mais discreto.
Disse  moa do departamento de compras que no podia mais fazer viagens com ela, e tinha o cuidado de no deixar que nem a sombra de uma suspeita o tocasse. Sabia 
que era o homem mais feliz do mundo. Simonetta era jovem, bela, inteligente e rica.
Gostavam das mesmas coisas e da companhia das mesmas pessoas.
Era um casamento perfeito, e Ivo, muitas vezes, ao levar uma garota da segunda para a terceira fase ou da quarta para a quinta, ficava sem saber por que era infiel. 
Encolhia, ento, os ombros filosoficamente e dizia: Algum tem que dar um pouco de felicidade a essas mulheres.
Ivo e Simonetta estavam casados havia trs anos quando ele conheceu Donatella Spolini durante uma viagem de negcios  Siclia. Foi mais uma exploso do que um encontro. 
Eram dois planetas que se chocavam. Enquanto Simonetta tinha um corpo esbelto e suave de uma jovem esculpida por Manz, Donatella tinha o corpo sensual e exuberante 
de uma figura de Rubens.
O rosto era excepcional, e os olhos verdes mortios inflamavam Ivo. Foram para a cama uma hora depois de se terem conhecido, e Ivo, que sempre se vangloriava das 
suas proezas como amante, descobriu que era um simples aluno e Donatella, uma professora.
Ela o levou a altura que ele nunca havia atingido, e o corpo de Donatella podia fazer com ele coisas que Ivo nunca julgara possvel. Ela era uma cornucpia inesgotvel 
de prazer, e quando Ivo estava deitado na cama, de olhos fechados, saboreando sensaes incrveis, convenceu-se de que seria rematado idiota se um dia abrisse mo 
de Donatella.
Assim, Donatella se tornara amante de Ivo. A nica condio imposta por ela foi que ele se livrasse de todas as outras mulheres em sua vida, excepto a sua esposa. 
Ivo concordara, todo feliz. Viviam assim haviam oito anos e durante esse tempo, ele nunca fora infiel, nem  esposa, nem  amante.
Satisfazer as duas mulheres vidas seria suficiente para exaurir um homem comum, mas, no caso de Ivo acontecia exactamente o contrrio. Quando amava Simonetta, pensava 
em Donatella e no seu corpo redondo e cheio, sentindo-se ento cheio de desejo. Quando amava Donatella, pensava nos suaves seios jovens de Simonetta e no seu delicado 
cu e se portava como um animal enfurecido. Com qualquer das mulheres ao seu lado, sentia que estava enganando a outra, e isso ampliava entremente o seu prazer.
Ivo comprara para Donatella um belo apartamento na Via Montemignaio e ficava com ela todos os momentos possveis.
Tomava todas as providncias para uma viagem de negcios sbita e ento passava o tempo todo na cama com Donatella. Parava para v-la quando ia para o escritrio 
e, depois do almoo, passava a hora da sesta com ela. Uma vez, quando viajava de navio para Nova York, no Queen Elizabeth II., em companhia de Simonetta, instalou 
Donatella num camarote, um convs abaixo. Foram os cinco dias mais estimulantes da vida de Ivo.
Na noite em que Simonetta anunciou a Ivo que estava grvida, ele sentiu uma alegria indescritvel. Uma semana depois, Donatella informou a Ivo que estava esperando 
um filho, e o contentamento de Ivo transbordou. Por que, perguntava ele, os deuses me cumulam de bens? Com toda a humildade, Ivo reconhecia s vezes que no merecia 
todos os grandes benefcios que lhe caam nas mos.
No devido tempo, Simonetta deu  luz uma menina e, uma semana depois, Donatella deu a luz um menino. Que mais podia um homem querer? Mas os deuses ainda no estavam 
satisfeitos.
Pouco tempo depois, Donatella disse a Ivo que estava de novo grvida e, uma semana depois, Simonetta ficou grvida novamente. Nove meses depois, Donatella deu a 
Ivo outro filho, e Simonetta presenteou o marido com outra menina. Quatro meses depois, as duas mulheres estavam novamente grvidas e, desta vez, tiveram os partos 
no mesmo dia. Ivo correu nervosamente do Salvator Mundi, onde Simonetta estava internada, para a clnica Santa Chiara, para onde levara Donatella. Corria de hospital 
para hospital, no seu carro, pelo Reccordo Anulare, acenando para as mulheres sentadas  frente de suas barracas  beira da estrada, sobre guarda-sis cor-de-rosa, 
 espera dos fregueses.
Ivo dirigia muito depressa e no podia ver-lhes os rostos, mas amava a todas e lhes desejava felicidades.
Donatella teve outro filho, e Simonetta, outra filha.
s vezes, Ivo desejava que tivesse acontecido ao contrrio.
Era errado que sua mulher s lhe tivesse dado filhas, enquanto sua amante lhe dava filhos, pois ele desejava herdeiros masculinos que pudessem continuar o seu nome. 
Apesar disso, era um homem contente. Tinha trs filhos em casa e trs fora. Adorava a todos e era muito bom para eles, nunca se esquecia dos aniversrios, dos dias 
dos seus santos e dos seus nomes. As meninas se chamavam Isabella, Benedetta e Camilla. Os meninos, Francesco, Carlo e Luca.
Quando os filhos cresceram, as coisas comearam a ficar mais complicadas para Ivo. Incluindo a mulher, a amante e seis crianas. Ivo tinha que se lembrar de oito 
aniversrios, de oito dias de santos e de oito presentes dobrados nas festas. Providenciou para que as escolas das filhas e dos filhos fossem bem separadas. As meninas 
foram mandadas para o Saint-Dominique, o convento francs na Via Cassia, e os meninos foram matriculados no Massimo, o colgio dos jesutas na EUR.
Ivo conhecia e encantava todos os professores dos filhos, ajudava todos a fazer os deveres de casa e consertava os brinquedos quebrados. O esforo de manter duas 
famlias separadas punha  prova toda a energia de Ivo, mas ele dava um jeito. Era pai, marido e amante exemplar. No dia de Natal, ficava com Simonetta, Isabella, 
Benedetta e Camilla. No Dia dos Reis, a 6 de janeiro, Ivo se vestia como a Befana, a feiticeira, e distribua presentes e carbone, a bala de acar-cande que as 
crianas adoravam, a Francesco, Carlo e Luca.
A mulher e a amante de Ivo eram belas e seus filhos eram inteligentes e bonitos. Sentia orgulho deles. A vida era maravilhosa.
Foi ento que os deuses cuspiram no rosto de Ivo Palazzi.
Como acontece com muitas grandes catstrofes, tudo chegou sem o menor aviso.
Ivo tinha feito amor com Simonetta antes do caf da manh e depois fora directamente para o escritrio, onde fizera um bom trabalho na parte da manh.  uma hora 
da tarde, disse a seu secretrio - Simonetta no admitia secretrias - que ia a uma reunio, que decerto lhe tomaria o resto da tarde.
Sorrindo ante os prazeres  sua espera, Ivo circundou a construo que bloqueava a rua no Lungo Tevere, onde estavam construindo o metro havia dezassete anos, atravessou 
a ponte para o Corso Francia e, trinta minutos depois, entrava na sua garagem na Via Montemignio. No momento em que abriu a porta do apartamento, soube que havia 
algo de anormal.
Francesco, Carlo e Luca rodeavam Donatella em prantos.
Quando se aproximou, Donatella o olhou com tal expresso de dio, que por um instante, Ivo teve a impresso de haver entrado em outro apartamento.
- Stronzo! - gritou ela para Ivo.
Ivo correu os olhos em redor, cheio de espanto.
- Carssima! Crianas! Que foi que houve? Que foi que eu fiz?
Donatella levantou-se e jogou-lhe um exemplar da revista Oggi.
- Est a o que voc fez. Veja!
Atnito, Ivo pegou a revista e viu na capa uma fotografia em que aparecia ele, Simonetta e suas trs filhas com a legenda "Padre di famiglia" Dio! Tinha-se esquecido 
inteiramente daquilo. Meses antes a revista lhe pedira autorizao para fazer uma reportagem sobre sua famlia e ele, sem dar muita ateno ao caso, concordara.
Nunca esperava que dessem tanto destaque  reportagem. Olhou para a amante e para os filhos que choravam e disse:
- Posso explicar isso...
- Os colegas deles j explicaram tudo - exclamou Donatella. - Meus filhos voltaram para casa chorando porque na escola todos os estavam chamando de bastardos!
- Cara, eu...
- Os vizinhos esto nos tratando como se fssemos leprosos.
No podemos mais levantar a cabea. Temos de sair daqui!
Ivo olhou para ela, atordoado.
- Que  que voc est dizendo?
- Vou sair de Roma com meus filhos.
- So meus filhos tambm, e voc no pode fazer isso!
- Tente impedir-me e eu o matarei!
Era um pesadelo. Ivo ficou ali, vendo a amante e os filhos entregues a um verdadeiro acesso de desespero e pensando: "No! Isso no pode estar acontecendo comigo"!
Mas Donatella ainda no dissera tudo.
- Antes de sairmos daqui, quero um milho de dlares. Em dinheiro.
Era to ridculo que Ivo comeou a rir.
- Um milho de dlares...
- Se no me der o dinheiro, telefonarei para sua mulher.
Isso havia acontecido seis meses antes. Donatella ainda no cumprira a sua ameaa, mas Ivo sabia que poderia cumpri-la.
Todas as semanas, ela aumentava a presso. Telefonava para o escritrio dele e dizia:
- No me interessa como vai conseguir o dinheiro, mas trate de arranj-lo.
Havia somente um meio de conseguir uma quantia to grande.
Tinha de vender as aces da Roffe and Sons. Sam Roffe no consentiria na venda. Sam Roffe estava prejudicando a felicidade conjugal e o futuro de Ivo. Era preciso 
dar um jeito nisso. Se conhecesse as pessoas certas, isso poderia ser feito.
O que mais machucava Ivo era que Donatella, sua querida amante apaixonada, no o deixava tocar nela. Ivo podia visitar as crianas todos os dias se quisesse, mas 
no podia entrar no quarto.
- S depois que me der o dinheiro deixarei voc fazer amor comigo - dizia Donatella.
No seu desespero, Ivo telefonara para Donatella uma tarde e dissera:
- Vou para a agora mesmo. Consegui o dinheiro.
Pretendia am-la primeiro e acalm-la depois. No poderia deixar de dar certo. Conseguiu faz-la tirar a roupa e ento disse a verdade.
- Ainda no tenho o dinheiro, cara, mas dentro em breve...
Foi ento que ela o atacou com as unhas como um animal feroz.
Ivo estava pensando nessas coisas ao afastar-se de carro do apartamento de Donatella, como ento pensara a consider-lo, e virou para o norte na movimentada Via 
Cassia, de volta  sua casa em Olgiata. Olhou para o rosto no espelho. Os ferimentos no estavam mais sangrando, mas eram bem visveis no seu rosto. Olhou para a 
camisa manchada de sangue. Como poderia explicar a Simonetta os arranhes no rosto e nas costas? Por um momento passou-lhe pela cabea a idia de contar a verdade, 
mas abandonou esse pensamento absurdo. Talvez pudesse confessar a Simonetta que, num momento de aberrao mental, tinha ido para a cama com uma mulher e ela ficara 
grvida... Sim, poderia dizer isso e escapar com  vida. Mas trs filhos? E no espao de oito anos? A sua vida no valeria uma nota de cinco libras. E no podia 
deixar de ir para casa, pois estavam esperando convidados para jantar e Simonetta fazia questo da sua presena. Ivo estava num beco sem sada. O seu casamento estava 
acabado. S San Gennaro, o santo dos milagres, poderia salv-lo. De repente, viu um cartaz ao lado da Via Cassia.
Virou o carro na direco do cartaz e feriou.
Trinta minutos depois, transpunha as portas de Olgiata.
Sem dar ateno aos olhares dos guardas para seu rosto arranhado e a sua camisa ensanguentada, Ivo seguiu pelos caminhos da propriedade e foi parar diante da casa. 
Abriu a porta e entrou na sala, onde estavam Simonetta e Isabella, a filha mais velha. Simonetta ficou espantada ao olhar para o marido.
- O que aconteceu, Ivo?
Ivo sorriu a contragosto, tentando dissimular a dor que estava sentindo.
- Creio que fiz uma coisa completamente irreflectida, cara...
Simonetta havia se aproximado e examinava os arranhes. Ivo podia ver que ela j estava apertando os olhos. Perguntou ento com uma voz repassada da maior frieza:
- Quem foi que lhe arranhou o rosto desse jeito?
- Tibrio - disse Ivo, tirando de trs de si um grande e feio gato cinzento que, naquele momento, soltou-se de suas mos e fugiu.
- Comprei-o para Isabella, mas o danado do bicho me atacou num trecho da estrada em que era muito perigoso parar.
- Povero amore mio! - Instantaneamente Simonetta estava ao seu lado. - Angelo mio! Vamos subir que eu quero botar voc na cama. Vou telefonar para o mdico e passar 
iodo nisso...
- No! No  possvel! - disse Ivo, fazendo uma careta de dor quando ela passou os braos pelos ombros dele. Cuidado! Acho que o bicho me arranhou tambm as costas.
- Como voc deve estar sofrendo, amore!
- Nem tanto - disse Ivo com convico. - Estou at me sentindo bem.
A campainha da porta tocou.
- Vou ver quem  - disse Simonetta.
- No, eu vou. Estou esperando uns papis importantes do escritrio.
Foi at  porta da frente e abriu-a.
- Signor Palazzi?
- Si.
Um mensageiro, vestido com um uniforme cinzento, entregou-lhe um envelope. Dentro havia um teletipo de Rhys Williams. Ivo leu rapidamente a mensagem e ficou muito 
tempo parado, a pensar. Depois, respirou fundo e subiu afim de preparar-se para o jantar.

Captulo 4
Buenos Aires. Segunda-feira, 7 de setembro. 15 horas.
O autdromo de Buenos Aires, nos arredores da capital Argentina, estava apinhado com cerca de cinquenta mil espectadores, que tinham ido assistir s corridas do 
campeonato. Era uma corrida de cento e quinze voltas num circuito de quase sete quilmetros. A corrida j se realizava havia quase cinco horas sob um sol fortssimo 
e, dos trinta carros que haviam largado, restavam poucos. A assistncia estava presenciando o desenrolar de um captulo da histria do desporto. Talvez aquela corrida 
fosse nica nos anais do automobilismo. No tinha havido antes e talvez nunca houvesse depois nada parecido. Todos os nomes que se tinham tornado lendrios nas pistas 
estavam ali naquele dia: Chris Amon, da Nova Zelndia, e Brian Redman, de Lancashire. Ali estavam o italiano Andrea Di Adamici num Alfa Romeo 33 e Carlos Moco, do 
Brasil, num Maech. O campeo belga Jack Ickx estava presente, e Reine Wisell, da Sucia, pilotava um brm.
A pista parecia um Arco-Iris alucinado, feito dos velozes vermelho, verde, preto, branco e dourado dos Ferraris, dos Brabhams, dos M19-A da McLarem e dos frmula 
3 da Lotus.
 medida que as voltas se sucediam, os gigantes comeavam a cair. Chris Amon estava em quarto lugar quando o carro enguiou. Raspou no Cooper de Brian Redman, que 
teve de desligar a ignio para no perder o controle, mas os dois carros ficaram fora de competio. Reine Wisell estava comandando a corrida, seguido de perto 
por Jack Ickx. Na grande curva, o cmbio do brm se desintegrou, e a bateria e o equipamento elctrico pegaram fogo. O carro comeou a rodar e bateu no Ferrari de 
Jack Ickx.
A multido delirava.
Trs carros se destacavam dos demais no primeiro peloto.
Eram Jorge Amandaris, da Argentina, pilotando um Surtees; Nils Nilsson, da Sucia, num Matra, e Martel, da Frana, num Ferrari 312 B-2.. Estavam fazendo uma corrida 
brilhante, acelerando nas rectas, reduzindo nas curvas, avanando.
Jorge Amandaris ia  frente, e os argentinos aplaudiam febrilmente o seu compatriota. Logo atrs de Amandaris, vinha Nils Nilsson, ao volante de seu Matra vermelho 
e branco, seguido do Ferrari preto e dourado dirigido por Martel, da Frana.
O carro francs tinha passado quase despercebido at os ltimos cinco minutos, quando comeou a destacar-se. Do dcimo lugar passara para o stimo e depois para 
o quinto, fazendo uma corrida firme. A assistncia viu ento o francs avanar para disputar o segundo lugar ocupado por Nilsson. Os trs carros corriam a mais de 
duzentos e oitenta quilmetros por hora. Era uma velocidade bastante perigosa em pistas cuidadosamente construdas como Brands Hatch ou Watkins Glen, mas numa pista 
como aquela da Argentina equivalia a suicdio. A um lado da pista foi afixado o sinal de que faltava cinco voltas.
O Ferrari do francs tentou passar o Matra de Nilsson, mas o sueco se desviou um pouco, bloqueando a passagem.
Aproximando-se rapidamente de um carro alemo retardatrio. O carro de Nilsson emparelhou com ele. O carro francs avanou at ficar no estreito espao entre o alemo 
e o Matra. O francs acelerou ainda mais, forando os dois carros a dar passagem, e partiu para ocupar o segundo lugar. A multido, de respirao suspensa, aplaudiu 
essa manobra brilhante e perigosa.
Faltavam trs voltas, e Amandaris estava em primeiro, com Martel em segundo e Nilsson em terceiro. Amandaris tinha visto a manobra. Sabia que o francs era bom, 
mas no acreditava que ele pudesse ameaar-lhe a vitria nas ltimas duas voltas. Pelo canto do olho, viu o Ferrari que tentava se emparelhar com ele.
Viu de relance o rosto frio e determinado do piloto sob o capacete. Amandaris lamentava o que tinha de fazer, mas as corridas no eram um jogo para desportistas, 
mas, sim, um jogo para vencedores.
Os carros se aproximavam da extremidade norte do circuito, onde havia uma curva com uma grande rampa inclinada para fora.
Era o ponto mais perigoso da pista, onde j tinha havido numerosos desastres. Amandaris lanou outro olhar rpido ao piloto francs da Ferrari e empunhou com mais 
fora o volante.
Quando os dois carros comearam a aproximar-se da curva, Amandaris levantou levemente o p do acelerador, de modo que o Ferrari comeou a avanar. Viu o piloto lanar-lhe 
um olhar de espanto na sua armadilha. Jorge Amandaris esperou at que o Ferrari estivesse firmemente decidido a ultrapass-lo por fora.
Neste momento, Amandaris abriu tudo e comeou a mover-se para a direita, cortando em linha recta o caminho do francs, cujo nico recurso seria subir pela rampa.
Amandaris viu a sbita expresso de espanto no rosto do francs e disse em silncio: "Salud!" Neste momento, o piloto do carro francs virou a direco para o Surtees 
de Amandaris.
O Ferrari ia colidir com ele. Havia apenas um metro de distncia entre os dois carros e, naquela velocidade, Amandaris tinha de tomar uma deciso instantnea. Como 
algum podia adivinhar que aquele piloto francs era inteiramente louco? Num acto rpido e reflexo, Amandaris virou o volante para a esquerda, tentando evitar que 
milhares de quilos de metal se chocasse com ele e freiou rpido, de modo que o carro de Jorge Amandaris derrapou. Depois, perdeu o controle e rolou pela pista numa 
coluna de fogo e fumaa.
Mas a ateno do pblico estava voltada para o Ferrari do piloto francs, que recebia a bandeirada da vitria e era imediatamente cercado por uma multido entusistica. 
O piloto levantou-se e tirou o capacete e os culos.
Era uma mulher de cabelos cor de trigo, curtos e feies clssicas finamente modeladas. O corpo estava trmulo no de cansao, mas de emoo, desde o momento em 
que olhara para Jorge Amandaris e o fizera partir para a morte. Nos alto-falantes, um locutor dizia: "A corrida foi vencida por Hlne Roffe-Martel, da Frana, pilotando 
um Ferrari".
Duas horas depois, Hlne e seu marido Charles estavam em sua sute no Hotel Ritz, no centro de Buenos Aires, deitados diante da lareira. Hlne estava nua sobre 
ele, na clssica posio de La diligence de Lyon, e Charles dizia:
- Oh, Deus! Por favor, no faa isso comigo! Por favor!
Ele foi sentindo sua excitao crescer, e ela foi aumentando a presso, ferindo-o, observando as lgrimas aflorarem aos seus olhos.
"Estou sendo punido sem razo", pensou Charles. Ele temeu pensar no que Hlne seria capaz de fazer-lhe se soubesse do crime que ele havia cometido.
Charles Martel casara-se com Hlne Roffe pelo nome e pelo dinheiro dela. Depois da cerimnia, ela conservara o nome, ao qual acrescentara o dele, e Charles ficara 
com o dinheiro.
Quando descobriu que tinha feito um mau negcio, era muito tarde.
Charles Martel era advogado num grande escritrio de advocacia em Paris quando conheceu Hlne Roffe. Tinham-lhe pedido que levasse alguns documentos  sala de conferncias 
onde se realizava uma reunio. Na sala estavam os quatro scios principais do escritrio e Hlne. Charles j ouvira falar nela. No havia na Europa quem a desconhecesse. 
Era uma das herdeiras da fortuna feita com produtos farmacuticos da famlia Roffe. Rebelde, alheia s convenes, e de quem os jornais e revistas gostavam de falar, 
era campe de esqui, pilotava o seu Learjet, chefiava uma expedio s montanhas do Nepal, praticava automobilismo e hipismo e trocava de homem quase com a mesma 
facilidade com que trocava de roupa. A fotografia dela aparecia em quase todos os nmeros de Paris-Match e Jours de France. Tinha ido ao escritrio de advocacia 
porque ali estava se tratando do seu divrcio, mas Martel no estava interessado em saber. Os Roffes do mundo estavam fora do seu alcance.
Charles entregou os papis. Estava um pouco nervoso no pela presena de Hlne, que no lhe interessava, mas porque se achava diante dos chefes do escritrio. Representavam 
a Autoridade, e Charles Martel respeitava a Autoridade. Era fundamentalmente um homem retrado que se contentava em viver modestamente num pequeno apartamento em 
Passy, onde cuidava da sua coleco de selos.
Charles Martel no era um advogado brilhante, mas era competente, cuidadoso e honesto. Tinha um sentimento um pouco rgido de dignidade. Com pouco mais de quarenta 
anos, sua aparncia fsica, embora simptica, pouco tinha de impressionante. Algum havia dito que a personalidade dele era informe como areia molhada, e no havia 
injustia na afirmao.
Foi, ento, com grande surpresa para ele que, um dia depois de ter conhecido Hlne no escritrio, Charles Martel foi chamado  sala de Michel Sachard, chefe da 
firma, que lhe disse:
- Hlne Roffe deseja que voc se encarregue pessoalmente da aco de divrcio dela.
Charles Martel ficou estupefacto.
- Mas porqu eu, Monsier Sachard?
- Nem imagino. Veja se lhe presta bons servios.
Estando encarregado da aco de divrcio de Hlne, Martel teve necessidade de v-la com frequncia. Com um pouco de exagero at, na opinio dele. Hlne lhe telefonava 
e o convidava para jantar em sua villa em Le Vsinet, a fim de discutirem o caso, e o levava  pera e  sua casa em Deauville. Charles cansava-se de explicar-lhe 
que o caso era simples e que no havia problema em conseguir o divrcio, mas Hlne - ela insistia em que ele a chamasse de Hlne, com grande embarao para ele 
- dizia que precisava ser tranquilizada constantemente por ele. Por fim, ele passou a pensar nisso com um interesse um tanto amargo.
Um belo dia, Charles Martel admitiu a possibilidade de que Hlne Roffe estivesse sentimentalmente interessada nele.
No podia acreditar nisso. No era ningum, e Hlne pertencia a uma das grandes famlias da Europa. Um dia, Hlne no lhe deixou mais dvidas sobre suas intenes 
e disse:
- Vou me casar com voc, Charles.
Nunca pensara em se casar. No se sentia bem ao lado das mulheres. Alm disso, no amava Hlne e no tinha certeza nem mesmo de simpatizar com ela. A agitao e 
as atenes que a cercavam em todo lado aonde iam desconcertavam-no. Era atingido pela luz dos reflectores voltados para ela, e isso era um papel a que ele no estava 
absolutamente habituado. Tinha tambm plena conscincia do contraste entre eles. A expansividade de Hlne era irritante para a natureza conservadora dele. Ela ditava 
moda e era o prprio requinte da elegncia, ao passo que ele era apenas um simples e comum advogado de meia-idade.
No podia compreender o que Hlne Roffe via nele. E ningum mais podia. Em vista da notria participao de Hlne em desportos violentos que eram tidos como redutos 
exclusivos dos homens, havia quem dissesse que Hlne Roffe era partidria do movimento de libertao das mulheres. Na realidade, ela desprezava o movimento e se 
insurgia contra o seu conceito de igualdade. No via razo para que ter homens  mo, quando fossem considerados iguais s mulheres. Era bom ter homens  mo, quando 
fosse necessrio. No eram seres particularmente inteligentes, mas podiam ser ensinados a ir buscar e acender cigarros, a dar recados, a abrir portas e a dar satisfao 
na cama. Eram excelentes animais de estimao. Bem treinados, tomavam banho sozinhos e no sujavam a casa. Eram uma raa excelente.
Hlne Roffe tinha tido playboys, aventureiros, capites de indstria, homens elegantes. Nunca tivera um Charles Martel.
Ela sabia exactamente o que ele era. Nada. Um pedao de barro virgem que ela podia moldar como quisesse. Depois que Hlne Roffe tomou essa deciso, Charles Martel 
no teve mais chance.
Casaram-se em Neuilly e passaram a lua-de-mel em Monte Carlo, onde Charles perdeu a sua virgindade e as suas iluses. Ele pretendia voltar ao escritrio de advocacia.
- No seja idiota! - disse-lhe a mulher. - Acha que vou querer ser casada com um advogadozinho? Voc vai entrar para a firma da famlia e um dia vai tomar conta 
de tudo. Vamos tomar, alis.
Hlne conseguiu que Charles trabalhasse na filial de Paris da Roffe and Sons. Ele lhe contava tudo que acontecia, e ela o orientava e ajudava, apresentando-lhe 
as sugestes. O progresso de Charles foi rpido. Em pouco, era chefe da filial francesa e fazia parte da directoria.
Hlne Roffe transformou-o de um obscuro advogado em director de uma das maiores empresas do mundo. Devia estar encantado. No entanto, sentia-se infeliz. Desde o 
primeiro momento do casamento, Charles se sentira totalmente dominado pela mulher.
Ela escolhia o seu alfaiate e os homens que lhe faziam os sapatos e as camisas. F-lo entrar para o circulo fechado do Jockey Club.
Hlne tratava Charles como um gigol. O seu salrio ia directamente para as mos dela, e Hlne s lhe dava uma mesada embaraosamente pequena. Se Charles precisava 
de um dinheiro a mais, tinha de pedi-lo a Hlne. Ela o fazia prestar contas de todos os momentos de seu tempo e queria que ele estivesse sempre  disposio dela.
Parecia gozar com a humilhao dele. Telefonava para ele no escritrio e ordenava-lhe que fosse imediatamente para casa, com um vidro de creme para a pele ou qualquer 
coisa insignificante. Quando ele chegava a casa, ela estava nua no quarto,  espera dele. Era insacivel como um animal.
Charles viajou com a me at os trinta e dois anos de idade, quando ela morreu de cncer. Foi uma invlida por tanto tempo quanto a memria de Charles alcanava, 
e ele cuidou dela. Nunca teve tempo para sair com moas ou de se casar. A me foi uma carga pesada, e, quando ela morreu, Charles pensou que ia afinal viver em liberdade. 
Teve, ao contrrio, um sentimento de carncia. Nunca se interessou por mulheres, explicou seus sentimentos a Hlne logo que ela lhe falou em casamento.
- Minha lbido no  muito forte - disse ele.
Hlne sorriu.
- Pobre Charles. Deixe a parte do sexo comigo. Garanto que voc vai gostar.
Detestou. E isso s pareceu aumentar o prazer de Hlne.
Ria-se das fraquezas dele e o obrigava a fazer coisas revoltantes, que levava Charles a sentir-se degradado e nauseado. O acto sexual em si era suficientemente desmoralizante. 
Mas Hlne vivia interessada em fazer experincias. Charles nunca sabia o que devia esperar. Certa vez, no momento em que ele estava tendo um orgasmo, ela pusera 
gelo picado em seus testculos e, de outra, lhe introduzira uma haste electrificada no nus. Charles vivia apavorado com Hlne. Ela o fazia sentir-se como um elemento 
feminino enquanto ela o masculino. Ele tentava proteger o seu amor-prprio, mas infelizmente no havia um s ponto nela que no fosse superior a ele. Possua uma 
inteligncia brilhante.
Entendia tanto de direito quanto ele, e muito mais de negcios.
Passava horas e horas discutindo os casos da companhia com ele.
Nunca se cansava.
- Pense em nosso poder, Charles! - dizia ela. - A Roffe and Sons poderia arruinar ou fazer prosperar mais da metade dos pases do mundo. Era eu que devia estar dirigindo 
a companhia que meu bisav fundou. Ela faz parte de mim!
Depois de uma dessas exploses, Hlne se tornava sexualmente insacivel, e Charles era forado a satisfaz-la de uma maneira em que no gostava de pensar. Acabou 
por desprez-la. O seu sonho era livrar-se dela, fugir para nunca mais v-la. Mas, para isso, precisava de dinheiro.
Um dia, na hora do almoo, Ren Duchamps, um amigo dele, falou-lhe numa oportunidade de fazer fortuna.
Charles no podia confessar que no tinha um franco seu, mas foi at a Borgonha para ver os vinhedos e ficou profundamente impressionado.
- Um tio meu, que possu um grande vinhedo na Borgonha, acaba de morrer. O vinhedo vai ser posto  venda. So quatro mil hectares plantados de uvas de appellation 
d'origine. Eu tenho preferncia porque sou da famlia, mas no tenho dinheiro bastante para fazer o negcio sozinho. Se quiser fazer sociedade comigo, dobraremos 
o capital empregado dentro de um ano. ao menos, voc poderia dar uma olhada. Cada um de ns entrar com dois milhes de francos - disse Duchamps. - Dentro de um 
ano, teremos quatro milhes cada um.
Quatro milhes de francos! Seria a possibilidade de fuga, a liberdade! Iria para algum lugar onde Hlne nunca poderia encontr-lo.
- Vou pensar nisso - disse Charles a seu amigo.
E de facto pensou. Dia e noite. Era a maior chance de sua vida.. Mas como? Seria impossvel contrair algum emprstimo sem que Hlne tomasse imediatamente conhecimento 
disso. Tudo estava no nome dela - a casa, os quadros, os carros, As jias... os belos ornamentos que ela guardava num cofre, no quarto. Pouco a pouco, a idia tomou 
corpo em seu crebro. Se ele pudesse pegar as jias, algumas de cada vez, substituiria as peas por imitaes e tomaria dinheiro emprestado sob a garantia das verdadeiras 
jias. Depois, quando ganhasse nos vinhedos o dinheiro esperado, trataria de repor as jias no cofre e teria dinheiro suficiente para desaparecer para sempre.
Telefonou para Ren Duchamps e disse com o corao a palpitar de emoo:
- Resolvi fazer sociedade com voc.
A primeira parte do plano aterrorizou Charles. Tinha de Abrir o cofre e roubar as jias de Hlne.
A antecipao da coisa terrvel que ele ia fazer provocou tamanho nervosismo em Charles que ele mal conseguia trabalhar.
Passava os dias como um autmato, sem ver nem ouvir nada do que acontecia  sua volta. Todas as vezes que via Hlne, ficava encharcado de suor. Quase sempre as 
mos lhe tremiam. Hlne ficou preocupada com o estado dele como ficaria com um cachorro de estimao que aparecesse doente. Mandou chamar um mdico para examinar 
Charles, mas ele no encontrou nada de anormal.
- Um pouco de tenso, talvez. Tudo deve se normalizar com dois dias de repouso.
Hlne olhou para Charles estendido na cama e disse:
- Muito obrigada, doutor.
No momento em que o mdico saiu do quarto, ela comeou a se despir.
- Eu... eu no estou me sentindo muito bem - murmurou Charles.
- Mas eu estou - respondeu Hlne.
Charles nunca a odiara tanto.
A oportunidade de Charles chegou na semana seguinte. Hlne ia a Garmisch-Partenkirchen esquiar com um grupo de amigos e resolveu deixar Charles em Paris.
- Quero que passe todas as noites em casa - disse Hlne. Vou lhe telefonar, ouviu?
Charles viu-a partir no seu Jensen vermelho e, no momento em que ela desapareceu, correu para o quarto onde estava o cofre.
Tinha-a visto abri-lo muitas vezes e sabia quase todo o segredo. Levou uma hora para descobrir o resto. Com os dedos trmulos, abriu a porta do cofre. Ali, nos estojos 
forrados de veludo, cintilantes como estrelas em miniatura, estavam os instrumentos da sua libertao. Havia entrado em empreendimentos com um joalheiro chamado 
Pierre Richaud, um mestre em imitao de jias. Nervoso, Charles comeou a longa explicao acerca dos motivos pelos quais ia mandar fazer as imitaes, mas Richaud 
sorriu e disse:
- Monsier, estou fazendo imitaes para todo mundo. Ningum em seu juzo perfeito sai s ruas com jias verdadeiras nos dias que correm.
Charles lhe entregava uma pea de cada vez e, quando a imitao ficava pronta, ele a deixava no cofre no lugar da jia. Empenhava ento a jia verdadeira no Crdit 
Municipal, a instituio de penhores do Estado.
A operao demorou mais do que o esperado. Charles s podia abrir o cofre quando Hlne no estava em casa, e houve demoras imprevistas no trabalho de copiar as 
peas. Mas chegou afinal o dia em que Charles pde comunicar a Ren Duchamps:
- Amanh terei todo o dinheiro necessrio para a nossa sociedade.
Havia conseguido o que queria. Era proprietrio da metade do vinhedo, e Hlne no tinha a menor suspeita do que ele havia feito.
Comeou a ler em segredo tudo o que podia sobre vinhas e vinhos. Por que no? No passara a ser um vinhateiro? Ficou sabendo das diferentes uvas, da cabernet sauvignon, 
a principal uva usada, mas outras erram plantadas e extradas ao lado dela, com a gros cabernet, a merlot, a malbec e a petit verdot. Uma das gavetas de Charles 
no escritrio vivia cheia de brochuras sobre a fabricao de vinhos. Ficou sabendo de fermentao, podas e enxertos. Soube tambm que o consumo mundial de vinhos 
continuava a aumentar.
Tinha frequentes encontros com o scio.
- A coisa vai ser ainda melhor do que eu pensava - disse Ren. - Os preos dos vinhos esto subindo vertiginosamente.
Devemos ganhar uns trezentos mil francos por tonneau logo nas primeiras vindimas.
Mais do que Charles havia sonhado! As uvas representavam ouro, e Charles comeou a procurar folhetos de turismo sobre as ilhas do Pacfico, a Venezuela e o Brasil. 
At os nomes dos lugares tinham para ele um encanto particular. O nico problema era que havia poucos lugares no mundo onde no houvesse escritrios da Roffe and 
Sons e onde Hlne no pudesse descobri-lo. E, se ela o descobrisse, iria mat-lo. A no ser que ele a matasse antes. Era uma de suas fantasias predilectas.
Assassinou Hlne repetidamente, de mil maneiras deliciosas e reconfortantes.
Comeou a gozar morbidamente os desmandos de Hlne, pensando sempre que ela o forara a fazer coisas inconfessveis:
"Vou desaparecer daqui a pouco, imunda. Ficarei rico graas ao seu dinheiro, e voc nada poder fazer".
E ela dava ordens: "Mais depressa!", ou: "No pare agora!", enquanto ele obedecia mansamente e sorria, satisfeito.
Charles aprendeu tambm que, na cultura das uvas, os meses mais importantes eram os da primavera e do vero, pois os bagos eram colhidos em setembro e, para que 
apresentassem uma boa qualidade, era imprescindvel uma temporada bem equilibrada de sol e chuva. O sol em excesso queimaria o gosto da uva, ao passo que o excesso 
de chuva o diluiria. Junho comeou esplendidamente. Charles consultava o Servio de Meteorologia todos os dias e, mais tarde, duas vezes por dia. Estava numa febre 
de impacincia, a apenas algumas semanas da realizao dos seus sonhos.
Decidira-se pela baa de Montego, pois a Roffe and Sons no tinha escritrio na Jamaica. Seria fcil desaparecer ali. Nem se aproximaria de Round Hill ou de Ocho 
Ros, onde algum amigo de Hlne poderia reconhec-lo. Compraria uma casinha nas montanhas. A vida era barata na ilha. Poderia ter at criados e comprar boa comida 
em sua vida modesta.
Por isso, naqueles primeiros dias de Junho, Charles Mantel foi um homem muito feliz. A vida que estava levando era uma verdadeira ignoma, mas ele no estava vivendo 
no presente.
Vivia j no futuro, numa ilha tropical., banhada de sol e batida pelos ventos do Caribe.
O tempo em junho parecia melhorar a cada dia. Havia uma mistura bem doseada de sol e chuva, excelente para as uvas ainda tenras. E, com as uvas, crescia a fortuna 
de Charles.
Mas, no dia 15 de junho, comeou a cair um chuvisco persistente na regio da Borgonha. Depois, passou a chover mais forte. Choveu dias seguidos, semanas seguidas, 
at que Charles no teve mais coragem de olhar os boletins do tempo.
Ren Duchamps telefonou:
- Se a chuva parar at meados de julho, a safra ainda poder ser salva.
Julho foi um dos meses mais chuvosos na histria e nos registos de Servio Meteorolgico da Frana. A 1._ de Agosto, Charles Martel havia perdido todo o dinheiro 
que havia roubado. Nunca havia sentido tanto medo em toda a sua vida.
- Vamos tomar um avio para a Argentina no ms que vem disse Hlne a Charles. - Vou participar numa corrida de automveis l.
Ele j a vira correr pela pista no Ferrari, e no pde deixar de pensar: "Se ela sofrer um desastre, eu ficarei livre!" Mas ela era Hlne Roffe-Martel. A vida a 
favorecera com um papel de vitoriosa, do mesmo modo que o tinha rebaixado ao papel de um derrotado.
O facto de ganhar a corrida havia excitado Hlne mais do que de costume. Tinham voltado para a sua sute do hotel em Buenos Aires, e ela imediatamente fizera Charles 
despir-se e estender-se de bruos no tapete. Quando ele percebeu o que ela pretendia fazer, protestou:
- No, Hlne! No!
Neste momento, bateram na porta.
- Merda! - exclamou Hlne.
Esperou em silncio, mas bateram de novo. Uma voz disse:
- Senhor Martel?
- Fique onde est! - ordenou Hlne.
Levantou-se, passou um robe de seda pelo corpo esbelto e firme e foi at a porta. Um homem com um uniforme cinza de mensageiro trazia um envelope.
- Tenho uma correspondncia especial para o Senhor e senhora Martel.
Ela recebeu o envelope e fechou a porta. Abriu o envelope e leu a mensagem que ele continha. Depois, mais lentamente, tornou a ler.
- Que ? - perguntou Charles.
- Sam Roffe morreu - disse ela, sorrindo.

Captulo 5
Londres. Segunda-feira, 7 de setembro. 14 horas.
O White's Club ficava no alto da St. James's Street, perto de Piccadill. Construdo como um clube de jogo no sculo XVIII, o White's era um dos clubes mais velhos 
e mais fechados da Inglaterra. Os scios inscreviam os nomes dos filhos logo que eles nasciam, pois havia uma lista de candidatos  espera h mais de trinta anos.
A fachada do White's Club era um modelo de discrio. As grandes janelas que se abriam para a St. James's Street visavam mais o prazer dos scios do que a curiosidade 
dos transeuntes.
Havia alguns poucos degraus  entrada, mas alm dos scios e dos convidados, raras eram as pessoas que transpunham a porta do clube. As salas eram grandes, bem decoradas 
e todas revestidas da escura e rica batina do tempo. Os mveis eram velhos e confortveis - sofs de couro, estantes para jornais, mesas antigas preciosas e poltronas 
que tinham acomodado traseiros de meia dzia de primeiros-ministros. Havia uma sala de gamo com uma grande lareira, por trs de uma balaustrada de bronze, e uma 
escadaria curva que levava ao salo de jantar, no andar superior. O salo de jantar ocupava toda a largura do prdio e continha uma grande mesa de mogno,  qual 
podiam sentar-se umas trinta pessoas, e cinco mesas laterais. Na hora do almoo ou do jantar, reuniam-se ali alguns dos homens de maior prestgio do mundo.
Sir Alec Nichols, membro do Parlamento, estava sentado a uma das mesinhas de canto, almoando com um convidado, Jon Swinton.
O pai de Sir Alec havia sido um baronete, como, antes dele, seu pai e seu av. Todos eles tinham pertencido ao White's Club.
Sir Alec era um homem magro e plido, de quase cinquenta anos, com um rosto vivo e aristocrtico e um sorriso cativante.
Chegara havia pouco de carro de sua propriedade rural em Gloucestershire e estava vestido com um palet e calas largas de twee, com sapatos desportivos. Seu convidado 
usava um terno listrado, com uma camisa xadrez espalhafatosa e uma gravata vermelha, parecendo deslocado naquele ambiente calmo e distinto.
- De facto, o trabalho aqui  primoroso - disse Jon Swinton, acabando de comer a costeleta que tinha no prato.
- A cozinha  soberba. J se foram os tempos em que Voltaire dizia que os ingleses tinham cem religies e apenas um molho - disse Sir Alec.
- Quem  Voltaire? - perguntou Jon Swinton.
Sir Alec ficou embaraado e murmurou:
- Ah...  um francs.
- Oh...
Jon Swinton engoliu o ltimo bocado de comida com um gole de vinho. Depois, largou o talher, enxugou os lbios com um guardanapo e disse:
- Agora, Sir Alec, creio que j  tempo de falarmos um pouco de negcios.
Alec Nichols disse com uma voz calma:
- H duas semanas, Sr. Swinton, disse-lhe que estava calculando tudo. Tem de me dar um pouco mais de tempo.
Um garo se aproximou da mesa com uma pilha de caixas de charutos. Com uma habilidade, estendeu-as em cima da mesa.
- No leve a mal - disse Jon Swinton.
Examinou os rtulos das caixas, deu assobios de admirao, escolheu vrios charutos que guardou no bolso de cima do palet e acendeu um. Nem o garom, nem Sir Alec 
deram o menor sinal de ter notado essa falta de educao do homem. O garom comprimentou Sir Alec e levou os charutos para outra mesa.
- Meus patres tm sido muito indulgentes, Sir Alec. Mas parece que agora esto ficando impacientes.
Pegou o fsforo queimado e jogou-o dentro do copo de vinho de Sir Alec.
- Aqui entre ns, eles no so nada agradveis quando perdem a pacincia. No os vai querer atrs de si, no ? Sabe o que estou querendo dizer?
- Acontece apenas que eu no tenho o dinheiro neste momento.
Jon Swinton deu uma risada.
- No venha com essa para cima. Sua mae era uma Roffe, certo? E tem uma propriedade de cinquenta hectares, uma boa casa em Knightsbridge, um Rolls-Royce e, ainda 
por cima, em Bentley. No me venha dizer que est na misria, que eu no acredito.
Sir Alec olhou em torno, ressentido, e disse calmamente:
- Nada disso que acaba de mencionar constitui um activo passvel de liquidao. No posso...
Swinton piscou o olho e disse:
- E aquela sua mulherzinha, Vivian, no  um activo passivo de liquidao?
Sir Alec ficou rubro de raiva. O nome de Vivian nos lbios daquele homem era um sacrilgio. Alec pensou em Vivian como a deixara naquela manh, ainda suavemente 
adormecida. Dormiam em quartos separados, e uma das grandes alegrias de Nichols era ir ao quarto de Vivian para uma das suas "visitas". s vezes, quando Alec acordava 
cedo, ia ao quarto de Vivian, que ainda dormia, s para olh-la. Acordada ou adormecida, era a mulher mais bela que Alec j havia visto. Ela costumava dormir nua, 
e seu corpo elegante e curvo se revelava a meio, encolhida na cama. Era loura, com olhos azul-claros e uma pele que parecia creme.
Vivian era uma pequena actriz quando Sir Alec a conhecera numa festa de caridade. Ficou encantado com a sua beleza, mas o que mais o atraiu foi a personalidade esfuziante 
e extrovertida dela. Era vinte anos mais moa do que Alec e cheia de alegria de viver. Enquanto Alec era tmido e introvertido, Vivian era gregria e vivaz. Alec 
no conseguiu parar de pensar nela, mas levou duas semanas at ter coragem bastante para telefonar-lhe. Com surpresa e prazer para ele, Vivian aceitou o seu convite. 
Alec levou-a a uma pea do Old Vic e depois para jantar no Mirabelle. Vivian morava num modesto apartamento trreo em Notting Hill e, quando Alec a levou at a casa, 
perguntou:
- No quer entrar?
Ele passou a noite l e isso lhe transformou inteiramente a vida. Era a primeira vez que uma mulher o fazia atingir o clmax. Jamais conhecera nada que se comparasse 
a Vivian. Ela tinha uma lngua aveludada, longos cabelos esvoaantes e possua profundidades hmidas e exigentes que ele explorava at se exaurir. Sentia-se excitado 
s de pensar nela.
Havia mais algumas coisas. Ela o fazia rir e sentir-se vivo.
Fazia troa de Alec por ser tmido e um tanto casmurro, e ele adorava isso. Estava com ela sempre que Vivian permitia. Quando Alec a levava a alguma festa, Vivian 
era sempre o centro de todas as atenes. Alec se orgulhava disso, mas sentia cime dos rapazes que a cercavam e no podia deixar de pensar que muitos deles j deviam 
ter dormido com ela.
Nas noites em que Vivian no podia estar com ele porque tinha outro compromisso, Alec se roa de cimes. Ia at o apartamento dela, estacionava o carro nas vizinhanas 
para ver a que horas ela voltava para casa e se chegava acompanhada. Sabia que estava procedendo insensatamente, mas no conseguia agir de outro jeito. Estava enleado 
em laos muito difceis de desatar.
Compreendia que Vivian no servia para ele e que seria um grande erro da sua parte casar-se com ela. Era um baronete, um respeitvel membro do Parlamento, com um 
brilhante futuro.
Fazia parte da dinastia Roffe e integrava a directoria da empresa. Vivian no tinha meios para poder incorporar-se ao mundo em que ele vivia. Era filha de uma dupla 
de artistas de segunda classe de music-ball, que faziam turns pelas provncias. Vivian no tinha instruo e o pouco que sabia aprendera nas ruas e nos bastidores 
dos teatros. Alec sabia que ela era promscua e superficial. Era esperta mas no particularmente inteligente. Apesar de tudo isso, Alec vivia obcecado por ela. Resistiu. 
Tentou deixar de v-la, mas no conseguiu. Era feliz ao lado dela e quase desgraado quando estava longe. No fim, props-lhe casamento porque no podia deixar de 
proceder assim, e, quando Vivian aceitou, ficou em xtase.
Levou a esposa para a casa da famlia, uma bela manso georgiana em Gloucestershire, com colunas dlficas e uma longa entrada curva para carros. Ficava no centro 
de cinquenta hectares de ricas terras de lavoura, com um parque de caa e um rio para pescar. Nos fundos da casa, havia um jardim criado por um famoso paisagista.
O interior da casa era admirvel. O grande hall de entrada tinha cho de pedras e paredes revestidas de madeira pintada.
Havia velhas lanternas e mesas douradas com tampo de mrmore.
A biblioteca tinha estantes feitas ainda no sculo XVIII, mesas com pedestal de Henry Holland e cadeiras de Thomas Hope. A sala de estar era uma mistura de Hepplewhite 
e Chippendale,. com um tapete Wilton e dois lustres de Waterford. Havia um grande salo de jantar com capacidade para quarenta convivas e uma sala de fumar. No segundo 
andar, havia seis quartos, cada qual com sua lareira Adam. No terceiro andar, ficava os alojamentos dos criados.
Seis semanas depois de se mudarem para a casa, Vivian disse:
- Vamo-nos embora daqui, Alec.
Ele a olhou, atnito.
- Quer ir passar alguns dias em Londres,  isso?
- No. Quero mudar-me para Deus.
Alec olhou atravs da janela para os campos verdes, onde brincara quando criana e onde se erguiam o gigantesco sicmoro e os grandes carvalhos, e murmurou com alguma 
hesitao:
- Mas isto aqui  to tranquilo!...
-  justamente isso. No suporto mais essa danada tranquilidade...
Mudaram-se para Londres na semana seguinte.
Alec tinha uma elegante casa de quatro andares em Londres, em Eilton Crescent, logo depois de Knightsbridge, com uma sala de estar, um escritrio, uma grande sala 
de jantar e, nos fundos da casa, uma janela panormica, da qual se viam uma gruta, com uma cascata, esttua e alguns bancos brancos no centro de um belo jardim. 
No andar de cima, havia um quarto grande e quatro menores.
Vivian e Alec viveram duas semanas no quarto grande. Certa Manh, Vivian disse:
- Gosto muito de voc, Alec, mas voc ronca, sabe disso?
Alec no sabia.
- Tenho de dormir sozinha, amor. Voc no se importa, no ?
Alec se importava e muito. Gostava de sentir na cama a maciez e o calor daquele corpo jovem. Mas sabia intimamente que no podia excitar sexualmente Vivian tanto 
quanto outros homens.
Era por isso que ela no o queria na cama. Disse, portanto:
-  claro que compreendo, querida.
Por insistncia de Alec, Vivian continuou no quarto grande e Alec se mudou para um dos quartos menores.
A princpio, Vivian ia  Cmara dos Comuns e ficava na galeria dos visitantes nos dias em que Alec tinha de fazer algum discurso. Alec olhava para ela e se sentia 
cheio de um orgulho profundo e inefvel. Vivian era sem dvida a mulher mais bela entre todas ali presentes. Um dia, concluiu o seu discurso e, quando olhou para 
o alto, viu que o lugar de Vivian estava vazio.
Alec se julgava culpado pelo facto de Vivian viver insatisfeita. Todos os amigos dele eram mais velhos do que Vivian e muito conservadores para ela. Incentivou-a 
a convidar para a casa os jovens companheiros dela e misturou-os com os amigos dele. Os resultados foram desastrosos.
Alec vivia pensando que, quando Vivian tivesse um filho, se acomodaria. Mas, um dia - Alec nunca soube como -, ela apareceu com uma infeco vaginal e teve de fazer 
uma histerectomia.
Alec desejava tanto um filho que o facto o abalou profundamente, mas Vivian se mostrou imperturbvel.
- No se incomode, amor. Tiraram a chocadeira, mas deixaram o galinheiro, onde a gente pode brincar.
Ele a olhou em silncio durante algum tempo, mas depois virou-lhe as costas e afastou-se.
Vivian gostava de fazer compras. Gastava indiscriminadamente em roupas, jias e carros, e Alec no tinha nimo de dizer-lhe que se contivesse. Justificou-a, dizendo 
que ela se criara na pobreza e tinha fome de luxo. Gostaria de comprar tudo para ela. Infelizmente, no podia. O seu salrio era basicamente consumido pelos impostos. 
A sua fortuna consistia nas aces da Roffe and Sons, mas o rendimento dessas aces era limitado.
Tentou explicar isso a Vivian, mas ela no mostrou o menor interesse. As conversa sobre negcios a irritavam. E Alec deixou-a continuar gastando.
A primeira vez em que soube que ela tambm jogava foi quando Tod Michaels, proprietrio do Tod's Club, um antro de jogatina no Soho, foi procur-lo.
- Tenho aqui uma promissria de mil libras, assinada por sua mulher, Sir Alec. Ela teve uma noite de pouca sorte na roleta.
Alec ficou atnito. Pagou a promissria e naquela noite chamou a ateno de Vivian.
- Assim no podemos aguentar, Vivian. Voc est gastando mais do que eu posso ganhar.
Ela se mostrou muito arrependida.
- Desculpe, meu anjo. Sua Vivian tem procedido muito mal.
Abraou-o ento, comprimiu o corpo contra o dele e Alec esqueceu sua raiva.
Alec passou uma noite memorvel na cama dela e ficou certo de que no haveria mais problemas.
Duas semanas depois, Tod Michaels foi procur-lo de novo.
Desta vez, a promissria assinada por Vivian era de cinco mil libras. Alec ficou furioso.
- Por que voc a deixa jogar a crdito?
- Ela  sua esposa, Sir Alec - respondeu Michaels com voz untuosa. - O que aconteceria se eu recusasse?
- Eu... eu terei de arranjar essa importncia - disse Alec.
- No a tenho no momento.
- Considere isso como um emprstimo. Pagar quando puder.
Alec sentiu um grande alvio.
-  muita generosidade da sua parte, Sr. Michaels.
Foi s um ms depois que Alec soube que Vivian tinha perdido no jogo mais de vinte mil libras e que ele pagaria sobre essa importncia juros de dez por cento por 
semana. Ficou horrorizado. No tinha meio algum de levantar tanto dinheiro. Nem tinha coisa alguma que pudesse vender. As casas, as belas antiguidades, os carros, 
tudo isso pertencia  Roffe and Sons.
A clera que o agitava amedrontou tanto Vivian que ela prometeu nunca mais jogar. Mas era muito tarde. Alec caiu nas mos de agiotas. Por mais dinheiro que desse, 
jamais conseguiria amortizar a dvida. Esta aumentava a cada ms, ao invs de diminuir, e ele vivia nessa agonia j havia um ano.
Quando os capangas de Tod Michaels comearam a exercer presso sobre ele, cobrando dinheiro, Alec ameaou ir  polcia.
- Tenho relaes nas altas-rodas - disse ele.
O homem sorriu.
- E ns temos relaes nas rodas mais baixas.
Agora, Sir Alec estava ali, no White's Club, com aquele homem terrvel, tendo de rebaixar-se para pedir um pouco mais de tempo.
- J paguei mais que o dinheiro que tomei emprestado. No posso...
- Pagou apenas os juros, Sir Alec - replicou Swinton. - Ainda no deu nada do capital.
- Isso  uma extorso!
O olhar de Swinton ficou mais duro. Disse, fazendo meno de levantar-se.
- Est bem. Darei o seu recado ao chefe.
- No, no! Faa o favor de sentar-se - apressou-se em dizer Alec.
Swinton sentou-se vagarosamente e disse:
- No diga mais essas coisas. O ltimo sujeito que falou assim acabou com os joelhos pregados no cho.
Alec lera alguma coisa a esse respeito. Os irmos Kray tinham inventado esse castigo para as suas vtimas. E as pessoas com quem ele estava tratando eram to perversas 
e to cruis quanto eles. Sentiu a bile subir-lhe  garganta.
- No quis dizer isso. S sei que no tenho mais dinheiro...
Swinton bateu a cinza do charuto no copo de vinho de Alec e disse:
- Voc tem uma poro de aces da Roffe and Sons, no tem, meu caro Alec?
- Tenho sim, mas no posso vend-las, nem transferi-las. No adianta a ningum possu-las, a menos que a Roffe and Sons se transforme numa sociedade annima. Isso 
 com Sam Roffe. Bem que eu tenho tentado convenc-lo.
- Continue insistindo.
- Diga a Michaels que ele receber seu dinheiro. Enquanto isso, deixem de importunar-me.
Swinton arregalou os olhos.
- Importun-lo? Voc, meu caro patife, no sabe nem o significado da palavra. Quando comearmos a importun-lo, as suas cocheiras sero queimadas e voc comer carne 
de cavalo assada. At sua casa ser queimada. E com sua mulher dentro. J comeu coxas de mulher assadas?
Alec estava plido.
- Pelo amor de Deus!
-  claro que eu estou brincando - disse Swinton. - Tod Michaels  seu amigo. E amigos se ajudam uns aos outros.
Estivemos falando a seu respeito em nossa reunio desta manh. E sabe o que o chefe disse? "Sir Alec  um bom sujeito. Se no tiver dinheiro, conseguir na certa 
outro meio de atender-nos." Alec franziu a testa.
- Que outro meio  esse?
- Ora essa, no  to difcil assim de imaginar para um homem como voc. Trabalha numa grande companhia de produtos farmacuticos, no  verdade? Produz coisa como 
cocana, por exemplo. Aqui entre ns, particularmente, quem iria saber se voc desviasse algumas sementes de vez em quando?
Alec encarou-o.
- Deve estar louco.. Eu nunca poderia fazer uma coisa dessas.
- No imagina a facilidade com que as pessoas podem fazer as coisas desde que seja necessrio. Ou nos paga o dinheiro que nos deve ou ns teremos de dizer-lhe para 
onde deve remeter a mercadoria.
Apagou o charuto no pratinho de manteiga de Alec.
- Lembranas a Vivian, Sir Alec.
E Jon Swinton saiu.
Sir Alec ficou sentado sozinho, sem ver nada, cercado de todas as coisas confortveis e amigas que tinham feito parte at ento de sua vida e agora estavam ameaadas. 
A nica coisa estranha era aquela obscena ponta de charuto no prato.
Como pde permitir que tais coisas lhe acontecessem?
Deixara-se levar para uma posio onde ficara  merc dos malfeitores. Sabia agora que no queriam dele apenas dinheiro.
O dinheiro fora apenas uma isca com que o tinham levado a uma armadilha. O que lhes interessava era a sua relao com a companhia de produtos farmacuticos. Queriam 
for-lo a trabalhar com eles. Quando se soubesse que ele estava em poder daqueles criminosos, a oposio no deixaria de explorar o caso. O seu partido decerto 
lhe pediria que renunciasse  sua cadeira. Isso seria feito, naturalmente, com tacto e discrio.
Insistiriam em que ele se candidatasse a uma cadeira na Cmara dos Comuns, um posto da Coroa que pagava um salrio nominal de cem libras por ano. Teria de deixar 
o Parlamento necessariamente, pois um parlamentar no podia receber qualquer pagamento da Coroa ou do governo.  claro que no poderia haver sigilo sobre os motivos. 
Ele ficaria desmoralizado, a no ser que pudesse receber alguma quantia considervel. Tinha falado muitas vezes com Sam Roffe, procurando convenc-lo a transformar 
a companhia numa sociedade aberta e permitir que as suas aces fossem negociadas na Bolsa.
- Nem pense nisso - tinha-lhe dito Sam. - No minuto em que permitirmos a entrada de estranhos, eles comearo a querer ditar regras nos nossos negcios. Sem ningum 
perceber, tomaro conta da directoria e, depois, da companhia. Que diferena isso faz para voc, Alec? Voc tem um bom salrio, uma conta de despesas sem limite 
fixo. No precisa de dinheiro.
Por um momento, Alec teve a tentao de expor a Sam a situao desesperada em que se encontrava. Mas bem sabia que isso no adiantava. Sam Roffe era antes de mais 
nada um homem da companhia. Se soubesse que Alec tinha de alguma maneira comprometido o prestgio da Roffe and Sons, demiti-lo-ia sem hesitao. No, Sam Roffe era 
a ltima pessoa a quem ele podia recorrer.
Alec se via diante da runa.
O porteiro da recepo dirigiu-se para a mesa de Alec em companhia de um homem com uma farda de mensageiro e um envelope fechado na mo.
- Perdo, Sir Alec - disse o porteiro -, mas este homem insiste em dizer que recebeu instrues para entregar-lhe pessoalmente alguma coisa.
- Obrigado - disse Alec, recebendo o envelope.
O porteiro saiu, acompanhando o homem.
Alec demorou muito a estender a mo para o envelope e abri-lo. Leu e releu a mensagem. Em seguida, amassou o papel e os seus olhos se encheram de lgrimas.

Captulo 6
Nova York. Segunda-feira, 7 de setembro.11 horas.
O Being 707-320 particular estava se preparando para descer no Aeroporto Kennedy, depois de sobrevoar repetidamente a pista,  espera de ordem para pouso. O vo 
tinha sido longo e enfadonho, e Rhys Williams estava exausto mas no conseguira dormir durante toda a noite. Tinha viajado muito naquele avio com Sam Roffe, e a 
presena do amigo ainda enchia o aparelho.
Elizabeth Roffe o esperava. Ele tinha lhe mandado um telegrama de Istambul, no qual dizia apenas que chegaria no dia seguinte.
Poderia ter-lhe comunicado a morte do pai pelo telefone, mas ela merecia mais do que isso.
O avio tocou no solo e taxiou para o terminal. Rhys levava muito pouca bagagem e sem demora passou pela alfndega. O cu estava cinzento e fechado, um prenncio 
do inverno. Uma limosine o esperava numa das portas laterais a fim de lev-lo  propriedade de Sam Roffe, em Long Island, onde Elizabeth devia estar  espera dele.
Durante a viagem para Long Island, Rhys tentou pensar nas palavras que diria a Elizabeth logo que a visse, para suavizar o choque mas no momento em que ela abriu 
a porta para receb-lo, ficou sem ter o que dizer. Sempre que Rhys via Elizabeth, a beleza dela o tomava de supressa. Herdara os traos da me, as mesmas feies 
aristocrticas e os olhos negros emoldurados pelos longos clios. A pele era branca e fina e os cabelos, pretos e cintilantes. Estava com uma blusa creme de seda 
de gola aberta, uma saia pregueada de casimira cinza e sapatos marrons. No havia nem sinal da menina desajeitada que Rhys conhecera nove anos antes. Tornara-se 
uma mulher inteligente e cordial, sem qualquer afectao decorrente da sua beleza. Sorria, satisfeita de v-lo. Tomou-o pela mo e disse, levando-o para a grande 
biblioteca revestida de carvalho.
- Venha, Rhys. Sam veio com voc?
No havia meio de proceder suavemente. Rhys respirou fundo e disse:
- Sam sofreu um acidente, Liz.
Viu a cor fugir do rosto de Elizabeth. Ela ficou esperando que ele continuasse.
- O acidente foi grave. Morreu.
Ela ficou imvel, como se estivesse petrificada. Quando finalmente falou, a sua voz mal pde ser ouvida.
- Que... que foi que aconteceu?
- No sabemos ainda dos detalhes. Ele estava escalando o monte Branco. Uma corda se partiu e ele caiu numa ravina.
- Encontraram?...
Ela fechou os olhos por um momento.
- Uma ravina insondvel.
Elizabeth ficou muito plida. Rhys sentiu-se imediatamente alarmado.
- Est sentindo alguma coisa?
Ela sorriu.
- No. Estou bem. Muito obrigada. Quer tomar ch ou comer alguma coisa?
Rhys olhou para ela, surpreso, e ento compreendeu. Ela se achava em estado de choque, embora estivesse agindo e falando como se nada tivesse acontecido. Tinha os 
olhos parados e o sorriso estava como que imobilizado em seus lbios.
- Sam era um grande atleta - disse Elizabeth. - Voc j viu os trofeus que ele ganhou. Sempre vencia, no ? Sabia que ele j havia escalado o monte Branco?
- Liz...
-  claro que voc sabia. Foi uma vez com ele, no foi Rhys?
Rhys deixou-a falar, anestesiar-se contra a dor, criar uma couraa de palavras que seria abandonada quando ela tivesse de enfrentar a sua angstia. Por um instante, 
enquanto a escutava, lembrou-se da menina vulnervel que ele conhecera em outros tempos, to sensvel e tmida que no tinha qualquer proteco contra a realidade 
brutal. Tinha sido, naquele momento, profundamente atingida e havia nela uma fragilidade que preocupava Rhys.
- Vou chamar um mdico, Liz. Ele pode lhe dar alguma coisa e...
- Nada disso. J lhe disse que estou bem. Se no se incomodar, creio que vou me deitar um pouco. Estou cansada.
- Quer que eu fique aqui?
- No ser preciso. Muito obrigada.
Ela o levou at a porta e , quando ele j ia entrando no carro, chamou-o.
- Rhys!
Ele se voltou.
- Obrigada por ter vindo.
- Deus do cu!
Muitas horas depois de Rhys Williams ter sado, Elizabeth Roffe ainda estava deitada na cama, olhando para o tecto e vendo as sombras em movimento que nele traava 
o plido sol de setembro.
E a dor chegou. No tinha tomado nenhum sedativo porque queria sentir a dor. Devia isso a Sam. Tinha de suportar tudo porque era filha dele. Passou ali o resto do 
dia e a noite inteira, pensando em nada, pensando em tudo, relembrando e sofrendo. Ria, chorava e se julgava num estado de grande depresso nervosa. Mas pouco importava,. 
No havia ningum para ouvi-la. No meio da noite, sentiu de repente uma fome violenta e levantou-se para ir comer uma grande sanduche na cozinha.
Vomitou logo depois. Sentiu-se melhor.
Nada podia aliviar a dor que a consumia. Parecia-lhe que todos os seus nervos estavam em fogo. Recordava incessantemente os anos que vivera com o pai. Pela janela 
de seu quarto, viu o sol nascer. Algum tempo depois, uma das empregadas bateu  porta, e Elizabeth mandou-a embora. Houve uma hora em que o telefone tocou e ela 
sentiu um bate no corao.  Sam! Mas logo caiu na realidade e deixou o telefone tocar.
Sam nunca mais lhe telefonaria. Ela nunca mais ouviria a sua voz. Nunca mais o veria.
Uma ravina insondvel. insondvel.
Elizabeth deixou-se ficar ali, submersa no passado na saudade.

Captulo 7
O nascimento de Elizabeth Rowane Roffe foi uma dupla tragdia. A tragdia menor foi a me de Elizabeth ter morrido no parto. A tragdia maior foi o facto de Elizabeth 
ter nascido mulher.
Durante nove meses, at que ela energisse das profundezas escuras do tero materno, tinha sido a criana mais ansiosamente esperada do mundo, destinada a herdar 
um colossal imprio, a empresa gigantesca e multimilionria que era a Roffe and Sons.
Patricia, a mulher de Sam Roffe, era uma criatura de cabelos pretos, dotada de excepcional beleza. Muitas mulheres tinham tentado se casar com Sam Roffe, fascinadas 
pela posio, pelo prestgio e pela riqueza dele. Patricia quis casar com ele porque o amava. Depois viu-se que esse era o pior dos motivos.
Sam Roffe tinha desejado apenas um acordo comercial, e Patricia havia correspondido plenamente s suas exigncias. Sam no tinha nem tempo nem temperamento para 
ser um homem de famlia No havia espao em sua vida para qualquer coisa estranha  Roffe and Sons. Era fanaticamente dedicado  companhia e no esperava seno a 
mesma dedicao dos que o cercavam. A importncia de Patricia em sua vida residia exclusivamente na contribuio que ela pudesse dar para a imagem da companhia.
Quando compreendeu a espcie de casamento que tinha feito, era muito tarde. Sam lhe deu um papel para representar e ela o representava brilhantemente. Era uma anfitri 
perfeita, uma Sra. Sam Roffe impecvel.
No recebia amor do marido e, pouco a pouco, aprendeu a no lhe dar qualquer espcie de amor. Servia Sam e trabalhava para a Roffe and Sons tanto quanta a mais humilde 
secretria. Estava de planto vinte e quatro horas por dia, pronta a tomar o avio para qualquer lugar que Sam julgasse necessrio, capaz de receber um pequeno grupo 
de lderes mundiais ou de servir um jantar de gourmet a cem convidados com um aviso de um dia de antecedncia, em toalhas de mesa bordadas, resplandecentes cristais 
Baccarat e uma pesada baixela do activo no arrolado da Roffe and Sons. Lutava para conservar-se bela e submetia-se a exerccios e regimes como uma espartana. O 
seu corpo era perfeito, e os seus vestidos eram desenhados para ela por Norell em Nova York, Chanel em Paris, Hartnell em Londres e a jovem Sybil Connolly em Dublim. 
As jias que Patricia usava eram criadas para ela por Jean Schlumberger e Bulgari. Levava uma vida atarefada e dinmica, mas vazia e sem alegria. A sua gravidez 
modificou tudo isso.
Sam Roffe era o ltimo herdeiro masculino da dinastia Roffe, e Patricia sabia com que ansiedade ele desejava um filho. Tudo dependia dela e ela passou a ser a rainha-me, 
em cujo o seio se criava o jovem prncipe que um dia herdaria o reino. Quando levaram Patricia para a sala de parto, Sam apertou-lhe a mo e disse fervorosamente:
- Muito obrigado!
Patricia morreu de uma embolia trinta minutos depois, e a nica felicidade para ela foi morrer sem ter sabido que falhara ao marido.
Sam Roffe achou tempo no seu programa repleto para enterrar a mulher e voltou ento a ateno para resolver o problema: o que fazer com a filha recm-nascida.
Com uma semana de idade, Elizabeth foi levada para casa e entregue a uma bab, a primeira de uma longa srie. Durante os primeiros cinco anos de sua vida, Elizabeth 
viu muito pouco o pai. Era pouco mais dum vulto mal definido, um estranho que estava sempre a chegar ou a sair. Viajava constantemente, e Elizabeth era um problema, 
pois tinha que ser levada como uma pea de bagagem a mais. Num ms, Elizabeth se viu na propriedade de Lon Island, com as suas pistas de boliche, as suas quadras 
de tnis, a sua piscina e a sua quadra de squash.
Poucas semanas depois, a bab fazia as malas com as roupas de Elizabeth e esta era levada de avio para a villa em Biarritz.
Nos seus cinquenta quartos e nos seus doze hectares de terreno, Elizabeth constantemente se perdia.
Sam Roffe possua ainda um apartamento dplex de cobertura em Beeckman Place e uma villa na Costa Esmeralda na Sardenha.
Elizabeth viajava para todos esses lugares, arrastada da casa para o apartamento e para a villa, crescendo no meio de todo esse prdigo luxo. Mas sempre considerou-se 
uma estranha que entrara por engano numa bela festa de aniversrio dada por um desconhecido que no a amava.
Ao crescer, veio a saber o que significava ser filha de Sam Roffe. Foi como a me dela tinha sido, uma vtima emocional da companhia. Se no tinha vida de famlia 
era porque no havia famlia, mas apenas servidores assalariados e a figura distante do homem que a havia gerado e que parecia no ter o menor interesse por ela, 
dedicando-se exclusivamente  companhia.
Patricia tinha conseguido aceitar essa situao, mas para a criana aquilo era um tormento.
Elizabeth se sentia indesejada e mal-amada. No sabia o que fazer no seu desespero e acabou convencida de que era a culpada, por ser incapaz de inspirar amor. Fez 
tudo o que era possvel para ganhar a afeio do pai. Quando chegou  idade escolar, fazia coisas para ele na aula, desenhos infantis, aguarelas esquisitas e cinzeiros 
tortos, coisas que ela guardava cuidadosamente. Quando ele voltasse de uma das suas viagens, far-lhe-ia a surpresa do presente e o ouviria dizer:
"Gostei muito, Elizabeth. Voc  muito talentosa".
As vezes, Elizabeth acordava no meio da noite, descia a longa escadaria circular do apartamento de Beekman Place e seguia o longo e cavernoso corredor que levava 
ao escritrio do pai.
Entrava na sala vazia como se estivesse chegando a um santurio. Aquela era a sala dele, onde ele assinava papeis importantes e de onde governava o mundo. Elizabeth 
aproximava-se da grande mesa forrada de couro e passava lentamente as mos por ela. Depois, parava atrs da mesa e se sentava na grande cadeira de couro. Sentia-se 
ali mais perto do pai. Era como se, estando onde estava, sentando-se onde ele se sentava, pudesse tornar-se uma parte dele. Mantinha conversaes imaginrias com 
ele, que escutava, interessado e atento, enquanto ela expunha os seus problemas. Uma noite, Elizabeth estava sentada no escuro na cadeira do pai, as luzes da sala 
foram de repente acesas e o pai apareceu  porta. Olhou para Elizabeth, sentada na cadeira da mesa, e perguntou:
- Que  que voc est fazendo aqui sozinha no escuro?
Tomou-a ento nos braos e carregou-a para a cama dela no andar de cima. Elizabeth ficou acordada quase a noite inteira, pensando na alegria de ser carregada pelo 
pai.
Depois disso, descia todas as noites e se sentava na cadeira do escritrio, esperando que ele chegasse e tornasse a carreg-la, mas isso nunca mais aconteceu.
Ningum falava com Elizabeth sobre a me dela, mas havia um belo retrato de corpo inteiro de Patricia Roffe na sala de recepes e Elizabeth ficava muito tempo a 
olh-lo. Em seguida, ia olhar-se ao espelho. Como era feia! Tinham lhe colocado um aparelho nos dentes e ela parecia um monstro. No era de admirar que o pai no 
se interessasse por ela.
Adquiriu de repente um apetite insacivel e comeou a engordar. Havia chegado a uma concluso admirvel. Se fosse gorda e feia, ningum iria esperar que ela se parecesse 
com a me.
Quando Elizabeth completou doze anos, foi matriculada numa escola particular no East Side de Manhattan, frequentada pela aristocracia. Chegava num Rolls-Royce com 
chofer, caminhava at sua sala de aulas e ali ficava sentada, retrada e calada, sem dar ateno a ningum. Nunca respondia espontaneamente a uma pergunta. E, quando 
era chamada, parecia nunca saber o que dizer. As professoras em pouco tempo tomaram o hbito de deix-la de lado. Conversavam particularmente sobre o caso de Elizabeth 
e tinham a opinio unnime de que ela era a criana mais mimada que tinham conhecido. Num relatrio anual confidencial  directora da escola, a professora de classe 
de Elizabeth disse o seguinte:
"No foi possvel qualquer espcie de progresso com Elizabeth Roffe. Ela se conserva afastada das colegas e se nega a participar de qualquer actividade de grupo. 
No tem amigas na escola. As suas notas no so satisfatrias, mas  difcil dizer se isso acontece porque ela no faz qualquer esforo ou porque no tem capacidade 
de aprender a matria.  arrogante e egosta. Se o pai dela no fosse um dos grandes benfeitores desta escola, eu recomendaria a excluso desta aluna".
Esse relatrio estava a muitos anos-luz da realidade. A verdade era que Elizabeth Roffe no tinha um escudo protector, nem qualquer espcie de couraa contra a terrvel 
solido que a engolfava. Consciente de sua desvalia, tinha medo de fazer amizades para no revelar que no tinha mritos, nem era simptica. No era arrogante, era 
de uma timidez quase patolgica. Julgava que no pertencia ao mundo de seu pai. No pertencia a mundo algum. Detestava ser levada para a escola no Rolls-Royce, pois 
sabia que no merecia isso. Nas aulas, estava a par de todas as perguntas que as professoras faziam, mas no tinha coragem de responder, para no chamar a ateno 
sobre ela. Gostava de ler e ficava acordada na cama at altas horas da noite, devorando livros.
Sonhava muito e se comprazia nas suas fantasias. Estava em Paris com o pai e, depois de atravessarem o Bois de Boulogne numa carruagem, ele a levava para o escritrio, 
uma enorme sala, mais ou menos do tamanho da Catedral de Saint Patrick. As pessoas comeavam a levar papeis para o pai assinar e ele dizia:
"No vem que estou ocupado? Estou conversando com minha filha Elizabeth".
Ela e o pai estavam esquiando na Sua, descendo uma encosta ao lado um do outro. De repente ele caa e gritava de dor porque quebrava a perna, mas ela dizia: "No 
se preocupe, papai. Eu cuidarei de voc". Esquiava ento at o hospital, onde dizia: "Depressa! Vo socorrer meu pai, que est machucado". Uma dzia de homens de 
casacos brancos levavam-no ento numa ambulncia cintilante, e ela ficava  cabeceira dele, dando-lhe comida na boca. (j ento quebrara o brao e no a perna), 
e a a me entrava no quarto, de algum modo viva, e ele dizia: "No posso falar com voc agora, Patricia. Elizabeth e eu estamos conversando".
Ou ento estava na bela villa de Sardenha e os empregados no estavam em casa. Ela preparava o jantar para o pai, que repetia todos os pratos e ao fim dizia: "Voc 
 a melhor cozinheira do que sua me foi, Elizabeth".
Todas as cenas com seu pai tinham sempre o mesmo final. A campainha da porta tocava e um homem alto, bem mais alto do que o pai, entrava e a pedia em casamento. 
O pai ento pedia: "No me deixe, Elizabeth. Eu preciso muito de voc".
E ela resolvia ficar.
De todas as casas em que Elizabeth se criou, a villa na Sardenha era sua favorita. No era de modo algum a maior, mas a mais pitoresca e acolhedora. A prpria Sardenha 
encantava Elizabeth. Era uma ilha impressionante e rochosa, a cerca de cento e cinquenta milhas martimas da costa da Itlia. Era um maravilhoso conjunto de montanhas, 
mar e terras verdes. Os seus enormes penhascos vulcnicos tinham irrompido havia milnios do mar primitivo, e a costa se estendia numa imensa meia-lua at onde a 
vista alcanava, bordada pela franja azul do mar Tirreno.
Para Elizabeth, a ilha tinha cheiros especiais e prprios, o aroma dos ventos do mar e das florestas, bem como da macchia, a flor amarela e branca que Napoleo tinha 
amado. Havia as moitas de corbeccola, que alcanavam quase dois metros de altura e davam uma frutinha vermelha que tinha gosto de morango, e as guarcias, os gigantescos 
carvalhos cuja casca era exportada para o continente, onde se faziam com elas rolhas para as garrafas de vinhos.
Gostava de ouvir os rochedos cantantes, as misteriosas e enormes pedras cheias de buracos. Quando o vento soprava nesses buracos, os rochedos emitiam sons fantasmagricos 
e tristes, como lamentos de almas penadas.
Os ventos sopravam, e Elizabeth ficou conhecendo todos eles:
o mistral e o ponente, a tramontana, o grecate e o levante.
Havia ventos brandos, ventos impetuosos. O mais temido era o siroco, o vento quente que soprava do Saara.
A Villa Roffe ficava na Costa Esmeralda, acima do Porto Cervo, no alto de um penhasco sobre o mar, escondida entre zimbros e as oliveiras selvagens da Sardenha, 
que davam azeitonas amargas. Havia uma vista empolgante da baa muito abaixo, em torno da qual se espalhavam pelos montes verdes casas de alvenaria numa mistura 
desordenada de cores que lembravam um desenho de criana.
A villa era de alvenaria, com grandes traves de zimbro, no seu interior. Era construda em vrios nveis, com grandes quartos confortveis, cada qual com sua lareira 
e a sua varanda. As salas de estar e de jantar tinham grandes janelas que permitiam viso panormica da ilha. Uma escada irregular levava aos quatro quartos do andar 
de cima. A moblia combinava perfeitamente com o ambiente. Havia mesas e bancos rsticos de refeitrio e poltronas macias. Diante das janelas, havia cortinas franjadas 
de la branca, tecidas  mo na ilha. O piso era revestido de vistosos ladrilhos ceresarda da Sardenha e de outros ladrilhos da Toscana. Nos banheiros e quartos, 
haviam tapetes de la da ilha coloridos tradicionalmente com tintas vegetais. A casa era cheia de quadros, uma mistura de impressionistas franceses, grandes mestres 
italianos e primitivos sardos. Na entrada, havia retratos de Samuel Roffe e Terenia Roffe, trisavs de Elizabeth.
O que mais agradava a Elizabeth era a sala da torre, sob o telhado inclinado. Subia-se para l do segundo andar por uma estreita escada, e a sala servia de escritrio 
a Sam Roffe.
Havia uma grande mesa de trabalho e uma confortvel cadeira giratria estofada. Nas paredes viam-se estantes e mapas, muito destes pertencentes ao imprio Roffe. 
Portas envidraadas se abriam para uma pequena varanda sobre um penhasco abrupto e dali se tinha uma vista deslumbrante.
Foi nessa casa, aos treze anos de idade, que Elizabeth descobriu as origens de sua famlia e pela primeira vez sentiu que era de casa, que era parte de alguma coisa.
Tudo comeou no dia em que Elizabeth encontrou o Livro. O pai havia ido a Olbia, e Elizabeth subiu a escada para a sala da torre. No se interessava pelos livros 
das estantes, pois sabia havia muito que eles versavam sobre farmacologia e farmacognosia, empresas multinacionais e direito internacional.
Tudo era muito pesado e chato. Havia um volume mdico em latim intitulado Circa instans, escrito na Idade Mdia, e outro chamado De materia medica. Elizabeth estava 
estudando latim e teve curiosidade de ver um daqueles volumes. ao puxar os livros, viu que havia outro embaixo. Apanhou-o. Era grosso, encardenado em couro e sem 
ttulo.
Mais curiosa ainda, Elizabeth abriu-o. Foi como se abrisse uma porta para outro mundo. Era uma biografia de seu trisav, Samuel Roffe, impressa em ingls numa edio 
particular em pergaminho. No havia o nome do autor, nem a data, mas era evidente que o livro devia ter mais de cem anos. Algumas pginas estavam desbotadas, outras 
amareladas ou j comeando a desfazer-se de velhice.
Mas nada disso tinha importncia. O importante era a histria que dava vida aos retratos pendurados na parede embaixo da escada. Elizabeth tinha visto muitas vezes 
esses retratos de um homem e de uma mulher de outros tempos, vestidos com roupas estranhas. O homem no era belo, mas havia em seu rosto energia e inteligncia. 
Tinha cabelos louros, os malares salientes dos eslavos e olhos azuis muito vivos. A mulher era uma beleza.
Cabelos negros, pele impecvel e olhos negros como carvo.
Usava um vestido de seda branca com um casaquinho e um corpete de brocado. Dois estranhos que nada significavam para Elizabeth. Mas naquele dia em que, sozinha na 
sala da torre, Elizabeth abriu o Livro e comeou a ler, Samuel e Terenia Roffe readquiriam vida. Elizabeth se sentiu transportada no tempo e comeou a viver no gueto 
de Cracvia, no ano de 1853, em companhia de Samuel e Terenia.
E, ao ler o Livro, ficou sabendo que seu trisav, Samuel, fundador de Roffe and Sons, fora romntico e aventureiro.
E tambm assassino.

Captulo 8
De acordo com o Livro, uma das mais antigas lembranas de Samuel, era a do assassinato de sua me.
Samuel tinha cinco anos de idade. Ele fora escondido na adega da pequena casa de madeira em que os Roffes moravam, com outras famlias, no gueto de Cracvia.
Quando a desordem finalmente terminara, depois de horas terrveis de angstia e sofrimento, e o nico som que se ouvia era o choro dos sobreviventes, Samuel deixou 
cautelosamente seu esconderijo e saiu s ruas do gueto  procura da me. Parecia ao garoto que o mundo inteiro estava em chamas. O cu mostrava-se avermelhado com 
o incndio de inmeras casas de madeira, e nuvens de espessa fumaa negra se erguiam por toda a parte. As pessoas andavam freneticamente  procura dos parentes e 
amigos ou tentavam salvar o que ainda fosse possvel das casas e bens. Eram meados do sculo XIX, Cracvia possua um corpo de bombeiros, que estava, proibido de 
prestar socorro aos judeus.
Ali no gueto, nos arredores da cidade, o povo era forado a debelar os incndios com as prprias mos, tirando gua dos poos. Dezenas de pessoas formavam cadeias 
de passagem de baldes no esforo de combater o fogo. Samuel via a morte por onde quer que olhasse, nos corpos mutilados de pessoas estendidas no cho como bonecos 
quebrados, de mulheres nuas e violentadas e de crianas ensanguentadas que pediam socorro.
Samuel encontrou a me estendida na rua, ainda consciente, o rosto coberto de sangue. O menino se ajoelhou ao lado dela, com o corao a bater descompassadamente.
- Mame!
Ela abriu os olhos, viu-o, tentou falar, e Samuel compreendeu que ela estava morrendo. Queria desesperadamente salv-la, mas no sabia como, e quando lhe enxugou 
o sangue, ela morreu.
Mais tarde, Samuel assistiu ao sepultamento e viu os homens cavarem cuidadosamente o cho em que ela cara, pois, de acordo com as Escrituras, ela teria de ser enterrada 
com todo o seu sangue para aparecer inteira diante de Deus.
Foi nesse momento que Samuel Roffe resolveu ser mdico.
A famlia Roffe morava numa estreita casa de trs andares, com mais oito famlias. O jovem Samuel vivia num pequeno quarto com o pai e com a tia Rachel, e nunca 
em sua vida tivera um quarto s seu, nunca dormira ou comera sozinho. Nunca tinha havido um s momento em que no ouvisse as vozes dos outros, mas no era uma vida 
isolada e privada que Samuel desejava, pois nem sabia que isso existia. Vivera sempre no meio duma confuso de gente.
Todas as tardes, Samuel e seus parentes e amigos eram trancados no gueto pelos gentios, e os judeus tratavam de guardar cabras, vacas e galinhas.
Ao anoitecer, as pesadas portas do gueto eram fechadas e trancadas com uma chave de ferro. Quando amanhecia, as portas eram abertas, e os mercadores judeus tinham 
permisso de ir a Cracvia negociar com os gentios, mas antes de escurecer deviam estar todos de novo dentro dos muros do gueto.
O pai de Samuel viera da Rssia, fugindo de um pogrom em Kev, e fora dar em Cracvia, onde conhecera sua noiva. Era um homem encurvado e grisalho, com rosto encarquilhado. 
Empurrava um carrinho, apregoando as miudezas, quinquilharias e utenslios que vendia, atravs das estreitas e tortuosas ruas do gueto.
O Jovem Samuel gostava de vaguear pelas ruas atravancadas, movimentadas e caladas de pedras irregulares. Gostava do cheiro do po recm-sado do forno misturado 
com os cheiros de peixe seco, queijo, frutas maduras, serragem e couro. Gostava de ouvir os preges dos vendedores e as discusses com as freguesas que se fingiam 
escandalizadas com os preos. Era assombrosa a variedade de artigos que os ambulantes vendiam:
roupas e rendas, pano de cho, la, couro, carnes, verduras, agulhas, sabonete, galinhas depenadas, bombons, botes, xaropes e sapatos.
No dia em que Samuel completou doze anos, o pai levou-o  cidade de Cracvia pela primeira vez. A idia de passar pelos portes proibidos e de ver Cracvia, a terrados 
gentios, provocou no garoto uma ansiedade quase insuportvel.
s seis horas da manh vestido com uma nica roupa boa que tinha, Samuel esperava no escuro, ao lado do pai, diante dos grandes portes fechados, no meio de uma 
barulhenta multido de homens com carros de toda a espcie ao alcance das mos. Fazia frio, e Samuel se embrulhou mais no seu velho e gasto capote de pele de carneiro.
Depois de uma espera que pareceu de muitas horas, o sol surgiu no horizonte e houve um tremor de expectativa entre os homens ali reunidos. Momentos depois, os grandes 
portes de madeira foram abertos. Todos passaram por eles e seguiram na direco da cidade como um bando de formigas diligentes.
Quando se aproximavam da cidade admirvel e terrvel, o corao de Samuel comeou a bater mais forte. J avistava as fortificaes que dominavam o Fstula. Samuel 
agarrou-se com mais fora ao pai. Estava de facto em Cracvia, cercado pelos temidos goyim, a gente que os trancava durante a noite. Lanava olhares furtivos e medrosos 
para as pessoas que passavam e se espantava de que fossem to diferentes. No usavam payves, cabelos encaracolados em cima das orelhas, nem bekeches, os longos casacos 
pretos, e muitos deles no tinham barba no rosto. Samuel e seu pai caminharam pelo Plante em direco ao Ryneck, a movimentada praa do mercado, onde passaram pelo 
Pavilho dos Tecidos e pela Igreja de Santa Maria com as suas torres gemias. Samuel jamais imaginara tanta magnificncia. O novo mundo era cheio de maravilhas. Havia 
principalmente uma sensao embriagadora de liberdade e de espao que deixava Samuel sem flego. As casas nas ruas eram separadas e no grudadas umas nas outras. 
Quase todas tinham na frente um pequeno jardim. Com certeza, pensou Samuel, todos em Cracvia so milionrios.
Samuel acompanhou o pai a meia dzia de fornecedores, aos quais o pai comprou mercadorias que jogou dentro do carro.
Quando este ficou cheio, ele e o filho voltaram para gueto.
- No podemos ficar mais um pouco? - perguntou Samuel.
- No, meu filho. Temos de ir para casa.
Samuel no queria ir para casa. Transpusera os portes do gueto pela primeira vez em sua vida e estava dominado por uma emoo to forte que quase o sufocava. Havia 
gente que podia viver assim, podendo ir para onde bem quisesse, fazer o que bem entendesse... Por que  que ele no nascera do outro lado dos portes? Quase no mesmo 
instante, envergonhou-se desses pensamentos desleais.
Naquela noite, ao deitar-se, Samuel ficou pensando durante muito tempo em Cracvia e nas belas casas com as suas flores e os seus jardins. Tinha de encontrar um 
meio de libertar-se.
Queria conhecer algum que sentisse o mesmo que ele sentia, mas no havia ningum que o compreendesse.
Elizabeth interrompeu a leitura do Livro e fechou os olhos, imaginando ento a solido, as emoes e as frustraes de Samuel.
Foi nesse momento que ela comeou a identificar-se com ele, a sentir-se uma parte dele, como ele era uma parte dela. O sangue dele lhe corria nas veias. Era um sentimento 
admirvel e perturbador de participao.
Ouviu o barulho do carro do pai que voltava e escondeu prontamente o Livro. No teve mais oportunidade de l-lo na Sardenha, mas quando voltou para Nova York levou-o 
escondido no fundo da mala.

Captulo 9
Depois do sol quente de inverno da Sardenha, Nova York lhe pareceu uma Sibria. As ruas estavam cheias de neve e lama. O vento que soprava do rio East era enregelante. 
Mas Elizabeth no se importava. Estava vivendo na Polnia noutro sculo, participando das aventuras de seu trisav. Todas as tardes, depois da escola, corria para 
o seu quarto, trancava a porta e pegava o Livro. Pensara em falar dele ao pai, mas tivera medo de que este o tomasse e lhe proibisse a leitura do resto.
De uma maneira admirvel e inesperada, foi o velho Samuel quem animou Elizabeth, Afinal de contas, eram muito parecidos.
Ele vivia isolado da mesma maneira que ela e do mesmo modo no tinha ningum com quem pudesse falar. E, como eram quase da mesma idade, com um sculo de diferena, 
Elizabeth conseguia identificar-se com ele.
Samuel queria ser mdico.
S trs mdicos tinham permisso para atender aos milhares de pessoas amontoadas nos limites insalubres e sujeito a epidemias do gueto. Dos trs, o mais prspero 
era o Dr. Zenon Wal. A casa dele se destacava entre as de seus vizinhos mais pobres como um castelo entre pardieiros. Tinha trs andares e por trs de suas janelas 
viam-se cortinas de renda brancas, sempre lavadas e engomadas, e alguns mveis polidos e brilhantes. Dentro de casa, Samuel imaginava o mdico a atender aos seus 
pacientes, tratando deles, ajudando-os e curando-os. Fazia tudo o que Samuel desejava um dia fazer. Sem dvida, se um homem como o Dr. Wal se interessasse por ele, 
poderia ajud-lo a estudar para ser mdico. Mas, no que se referia a Samuel, O Dr. Wal era to inacessvel quanto qualquer dos gentios que viviam em Cracvia, fora 
dos muros proibidos.
De vez em quando, Samuel via de relance o grande Dr. Zenon Wal quando este se empenhava em animar conversa na rua com algum colega. Um dia, quando Samuel passava 
pela frente da casa do Dr. Wal, a porta da rua se abriu e o mdico saiu em companhia da filha. Ela era mais ou menos da idade de Samuel, e este nunca vira criatura 
mais linda. No momento em que Samuel a viu, teve certeza de que ia casar-se com ela. No sabia como conseguir esse milagre, mas estava certo de que era isso o que 
ia acontecer.
Depois desse dia, Samuel nunca mais deixou de passar diariamente pela casa do Dr. Wal, na esperana de v-la.
Numa tarde, ia fazer alguma coisa que lhe haviam pedido e passou pela casa. Ouviu um piano e compreendeu que era ela que estava tocando. Tinha de v-la. Olhou para 
um lado e para o outro, para certificar-se de que ningum o estava observando, e encaminhou-se para a casa. A msica vinha de um lado da casa.
No andar superior, bem acima de sua cabea. Recuou um pouco e examinou a parede. Havia muitos lugares onde poderia apoiar as mos e os ps. Sem um momento de hesitao 
, comeou a escalada. O segundo andar era mais alto do que ele havia pensado e, antes que chegasse  janela, estava trs metros acima do cho. Olhou para baixo e 
teve um princpio de vertigem. A msica lhe chegava aos ouvidos com mais fora, e ele teve a impresso de que ela tocava para ele. Estendeu a mo  procura de um 
ponto de apoio e se agarrou  janela. Ergueu lentamente a cabea para olhar acima do peitoril. Viu diante dos seus olhos uma sala luxuosamente mobiliada. A moa 
estava sentada diante de um piano branco e dourado a tocar e, atrs dela, lendo um livro numa poltrona, estava o Dr. Wal. Samuel nem o notou. Tinha olhos apenas 
para a linda viso a alguns metros dele. Como a amava! Queria fazer alguma coisa espectacular e corajosa para que ela tambm o amasse. To envolvido ficou Samuel 
nos seus devaneios que se distraiu, perdeu o ponto de apoio e comeou a rolar no espao. Deu um grito e viu dois rostos assustados que o olhavam da janela no momento 
em que chegou ao cho.
Acordou numa mesa do consultrio do Dr. Wal. Era uma sala espaosa, cheia de armrios e material cirrgico. O Dr. Wal estava com um chumao de algodo que tinha 
um cheiro horrvel encostado ao nariz de Samuel. Este tossiu e sentou-se na mesa.
- Muito bem - disse o Dr. Wal. - Devia ter-lhe tirado o crebro, mas fiquei em dvida, sem saber se ia encontrar alguma coisa dentro da sua cabea. O que voc queria 
roubar, garoto?
- Nada - respondeu Samuel com indignao.
- Como  seu nome?
- Samuel Roffe.
O mdico examinou com os dedos o pulso direito de Samuel, e o garoto deu um grito de dor.
- Hum... Voc luxaou o pulso, Samuel Roffe. Talvez seja melhor chamar a polcia para dar um jeito nesse pulso.
Samuel gemeu. Pensava no que poderia acontecer se a polcia levasse a desmoralizao  casa dele. O corao de sua tia Rachel se partiria de dor e seu pai seria 
capaz de mat-lo. Mas o pior de tudo seria que, depois disso, poderia perder toda a esperana de ganhar o corao da filha do Dr. Wal. Seria um criminoso, um homem 
marcado. Samuel sentiu de repente uma dor estonteante no pulso e levantou os olhos para o mdico numa desalentada surpresa.
- Est tudo certo - disse o Dr. Wal. - Vou colocar agora algumas talas nesse pulso. Voc vive aqui por perto, Samuel Roffe?
- No, Dr. Wal.
- J no o vi aqui por perto?
- Deve ter visto.
- Por qu?
Sim, por qu? Se dissesse, o mdico iria com certeza rir dele.
- Porque eu quero ser mdico - exclamou Samuel, sem mais poder guardar o seu segredo.
O Dr. Wal o olhava, descrente.
- E foi por isso que subiu pelas paredes da minha casa, como se fosse um gatuno?
Samuel ento, contou-lhe tudo. Falou de sua me morta no meio da rua, da luta de seu pai, de sua primeira visita a Cracvia e da sua frustrao de passar as noites 
trancado dentro dos muros do gueto como se fosse um animal. Disse tambm o que sentia pela filha do Dr. Wal. Disse tudo o que pensava, e o mdico o escutava em silncio. 
At a Samuel o que ele dizia parecia de um ridculo atroz. Quando chegou ao fim, s pde dizer num sussurro:
- Desculpe...
O Dr. Wal olhou-o durante muito tempo e por fim disse?
- Todo homem  um prisioneiro, e o pior  ser prisioneiro de outro homem.
Samuel murmurou:
- No compreendo, Dr. Wal.
- Um dia voc compreender.
O mdico levantou-se, escolheu um cachimbo em cima de sua mesa e encheu de fumo.
- Infelizmente, o dia de hoje vai ser muito triste para voc, Samuel Roffe.
Acendeu o cachimbo, saltou a primeira baforada e continuou:
- No em virtude do pulso luxaado. Isso vai sarar. Mas tenho alguma coisa para lhe dizer, na qual voc no se curar com muita facilidade. So poucas as pessoas 
que sonham. Voc tem dois sonhos. E sou obrigado a destruir a ambos.
- No...
- Escute com muita ateno, Samuel. Voc nunca poder ser mdico, ao menos em nosso mundo. S trs mdicos podem exercer a profisso no gueto. H dezenas de mdicos 
competentes aqui  espera que algum de ns morra para que possa tomar nosso lugar.
No h chance para voc, nenhuma chance. Voc nasceu em poca imprpria e em lugar imprprio. Est compreendendo, meu jovem?
- Estou, Dr. Wal.
O mdico hesitou um pouco e continuou:
- Quanto ao seu segundo sonho,  to impossvel quanto ao outro. No h chance de espcie alguma de voc casar-se com Terinia.
- Por qu?
- Por qu? Pelas mesmas razes que o impedem de ser mdico.
Vivemos de acordo com as regras impostas pelas nossas tradies. Minha filha tem de casar-se com algum da mesma classe dela, algum que a possa manter no mesmo 
estilo de vida em que foi criada. Ter de casar-se com um advogado, um mdico ou um rabino.  melhor esquecer-se dela.
- Mas...
O mdico levou-o at a porta do consultrio.
- Mande algum examinar essas talas dentro de alguns dias.
Conserve limpas as ataduras.
- Est bem. Muito obrigado, Dr. Wal.
O mdico olhou o garoto louro e o rosto inteligente que estava diante dele e murmurou:
- Adeus, Samuel Roffe.
Na tarde do dia seguinte, Samuel tocou a campainha da casa do Dr. Wal. O mdico viu-o pela janela e pensou que devia dizer que no estava. Mas disse  empregada.
- Faa-o entrar.
Depois disso, Samuel passou a frequentar a casa do Dr. Wal duas ou trs vezes por semana. Dava recados e ia comprar coisas para o mdico e este, em troca, deixava-o 
olhar enquanto ele atendia a clientes no consultrio ou preparava medicamentos no laboratrio. O garoto observava, aprendia e guardava tudo na memria. Tinha um 
talento natural, e o Dr. Wal experimentava um crescente sentimento de culpa, sabendo que estava erradamente incentivando Samuel a ser alguma coisa que ele nunca 
poderia ser. Entretanto, no tinha nimo de dissuadi-lo.
Fosse por acaso ou propositadamente, Terinia quase sempre ficava por perto quando Samuel estava presente. Quase sempre ele a via de relance passando pela porta do 
laboratrio ou saindo de casa. Houve um dia em que esbarrou nela na cozinha e sentiu uma emoo to forte que pensou que fosse desmaiar. Ela o olhou demoradamente, 
com um brilho de indagao nos olhos.
Depois, teve um gesto frio de assentimento e afastou-se. ao menos ela o havia notado! Era o primeiro passo. O resto seria apenas uma questo de tempo. No havia 
a menor dvida a esse respeito no esprito de Samuel. Era inevitvel. Terinia participava agora dos sonhos de Samuel quanto ao futuro.
Antigamente, sonhava por ele mesmo; passou a sonhar pelos dois.
De qualquer modo, sairia com ela daquele terrvel gueto, daquela priso emunda e atravancada. E seria um sucesso. Mas o sucesso no seria para ele apenas, e sim 
para os dois.
Ainda que tudo isso fosse impossvel.
Elizabeth adormeceu lendo a histria do velho Samuel. Quando acordou de manh, escondeu cuidadosamente o Livro e comeou a vestir-se para ir  escola. Mas no podia 
esquecer-se de Samuel. Como ele se cassara com Terinia? Como conseguira sair do gueto? Como se tornara famoso? Elizabeth estava empolgada com o Livro e se afligia 
com as lies que a levavam a abandon-lo e a foravam a voltar ao sculo XX.
Entre as aulas que Elizabeth frequentava, havia o bal, que ela detestava. Metia-se em sua malha cor-de-rosa e olhava-se ao espelho, tentando convencer-se de que 
tinha um corpo voluptuoso. Mas a verdade estava ali diante de seus olhos. Era muito gorda e nunca seria uma bailarina.
Logo depois do dcimo quarto aniversrio de Elizabeth, Mm Netturova, a professora de bal, anunciou que dali a duas semanas as alunas dariam o seu recital anual 
de dana no auditrio. As moas deviam convidar os pais, e, ao ouvir isso, Elizabeth ficou em estado de pnico. A simples idia de aparecer num palco diante do pblico 
enchia-a de medo. Nunca poderia fazer isso.
Uma criana estava atravessando a rua  frente de um carro.
Elizabeth viu tudo, correu e salvou a menina das garras da morte. Infelizmente, minhas senhoras e meus senhores, os dedos dos ps de Elizabeth Roffe foram esmagados 
pelas rodas do carro e ela no poder danar no espectculo desta noite.
Uma empregada negligente deixou um pedao de sabo no alto da escada. Elizabeth escorregou no sabo e rolou pela escada, luxaando um osso do quadril. O mdico diz 
que no  grave.
Dentro de trs semanas, estar inteiramente curada.
Mas no teve essa sorte. No dia do recital, Elizabeth gozava de boa sade e estava num tremendo nervosismo. Mais uma vez, foi o velho Samuel que a ajudou. Lembrou-se 
de como, apesar de seu medo, ele tinha voltado para enfrentar o Dr. Wal. Ela no poderia fazer outra coisa que desmoralizasse seu trisav.
Preparou-se para enfrentar a tortura que a esperava.
Nem falara ao pai sobre o recital. Todas as vezes que ela lhe havia falado em festa e reunies da escola para as quais os pais eram convidados, ele alegara sempre 
que estava muito ocupado e no podia ir. Na noite em que Elizabeth se preparava para o recital de dana, ele voltou para casa. Passara dez dias ausente da cidade.
Passou pela porta do quarto dela, viu-a e disse:
- Boa noite, Elizabeth. Sabe que engordou mais um pouco?
- Sim, papai - disse ela, ficando vermelha e tentando encolher a barriga.
Ele ia dizer alguma coisa, mas mudou de idias.
- Tudo bem na escola?
- Tudo.
- Algum problema?
- No, papai.
- Optimo.
Era um dilogo que se havia repetido mais de cem vezes atravs dos anos, uma troca de palavras sem significao que parecia ser a nica forma de comunicao entre 
eles. Era como dois desconhecidos que falassem do tempo, sem o menor interesse pela opinio um do outro.
Desta vez, porm, Sam Roffe olhou para a filha pensativamente. Estava habituado a lidar com problemas concretos e, embora sentisse que havia algum problema, no 
tinha idia do que fosse. Se algum lhe abrisse os olhos, limitar-se-ia a dizer: "Est muito enganado. Elizabeth tem tudo".
Quando o pai ia saindo, Elizabeth disse quase sem querer:
- Minha turma de bal vai dar um recital esta noite e eu vou danar. No quer ir ver?
Logo que disse as palavras, sentiu-se horrorizada. No queria que o pai fosse ver sua falta de jeito. Por que falara? Bem sabia por qu. Ela seria a nica aluna 
da turma cujos pais no estariam presentes no auditrio. Alis, o convite no tinha qualquer importncia, pois ele ia dizer que no podia. Sacudiu a cabea com raiva 
de si mesma e j ia a afastar-se quando ouviu atrs dela estas palavras do pai:
- Gostarei muito de ir.
O auditrio estava cheio de pais, parentes e amigos, vendo as mocinhas danarem ao som de dois grandes pianos de cauda, colocados um de cada lado do palco. Mme Netturova 
estava um pouco  frente, marcando o compasso em voz alta enquanto as alunas danavam, chamando a ateno dos pais para ela prpria.
Algumas alunas eram muito graciosas e davam mostras de verdadeiros talentos. As outras faziam os movimentos determinados, substituindo a competncia pelo entusiasmo. 
O programa mimeografado anunciava trechos musicais de Coplia, Cinderela e O lago dos cisnes. A pice de resistance seriam os solos, em que cada aluna teria sozinha 
o seu momento de glria.
Nos bastidores, Elizabeth estava tomada de verdadeira agonia.
Esticando um pouco o corpo, podia ver a plateia, e, sempre que avistava o pai sentado no centro da segunda fila, pensava em como tinha sido tola em convid-lo. At 
ento, durante o recital, Elizabeth conseguira ficar em segundo plano entre as colegas que danavam. Mas a hora do seu solo se aproximava. Ela se sentia enorme em 
sua malha como se fosse uma personagem de circo. Tinha certeza de que provocaria risos quando aparecesse no palco. E tinha convidado o pai para presenciar a sua 
humilhao! O nico consolo de Elizabeth era o facto de seu solo no durar mais de que um minuto. Mme Netturova no era louca. Tudo acabaria to rapidamente que 
ningum prestaria ateno nela. Bastaria que o pai de Elizabeth olhasse um instante para o lado e seu nmero teria terminado.
Elizabeth olhava as outras danarem e todas lhe pareciam iguais a Markova, a Maximova, a Margot Fonteyn. Assustou-se ao sentir a mo fria em seus braos nus. Era 
Mme Matturova.
- Prepare-se, Elizabeth.  a sua vez.
Elizabeth tentou dizer: "Sim, madame", mas estava com a garganta to seca que no conseguiu articular as palavras. As duas pianistas iniciaram os compassos conhecidos 
do solo de Elizabeth. Ela ficou no mesmo lugar, paralisada, sem poder se mover-se, enquanto Mme Netturova lhe sussurrava:
- Vamos! Comece!
Sentiu um leve empurro nas costas e foi sair no palco, quase nua, diante de uma centena de pessoas estranhas e hostis. No tinha coragem de olhar para o pai. Queria 
apenas livrar-se daquele tormento o mais depressa possvel e fugir. O que tinha de fazer era simples: alguns plis e saltos. Comeou a dar os passos, acompanhando 
o compasso da msica e tentando imaginar-se esbelta, elegante e gil. Quando terminou, houve algumas palmas esparsas e formais. Elizabeth olhou para a segunda fila 
e viu que o pai batia palmas e sorria, contente.
ao ver que o pai aplaudia, alguma coisa se desprendeu dentro de Elizabeth. A msica tinha cessado. Mas Elizabeth continuou a danar, fazendo jets, plis, batteries 
e piruetas, transportada alm de si mesma. As pianistas, confusas, tentaram acompanh-la, primeiro uma, depois a outra. Nos bastidores, Mme Netturova, rubra de raiva, 
fazia desesperados sinais a Elizabeth para encerrar tudo e sair do palco. Mas Elizabeth, toda feliz, nem tomava conhecimento dela e continuou a danar.
O que importava apenas era que ela estava no palco, danando para o pai.
- Tenho certeza de que compreende, Sr. Roffe, que esta escola no pode tolerar esse tipo de comportamento. - A voz de Mme Netturova tremia de raiva. - Sua filha 
desprezou todas as pessoas presentes e tomou conta do palco... como se fosse uma estrela!
Elizabeth sentiu o pai voltare-se para ela e teve medo de olh-lo. Sabia que o que fizera era imperdovel, mas no conseguira se conter. Por um momento, tentara 
criar no palco algumas coisas belas para o pai, a fim de que ele a visse e tivesse orgulho dela, dando-lhe ento o seu amor.
Ouviu o pai dizer:
- Tem toda a razo, Mme Netturova. Vou tomar providncias para que Elizabeth seja devidamente punida.
Mme Netturova envolveu Elizabeth num olhar de triunfo e disse:
- Muito obrigada, Sr. Roffe. Deixo-a em suas mos.
Elizabeth e o pai saram da escola. Ela no dissera uma s palavra desde que tinha deixado a sala de Mme Netturova.
Elizabeth estava  procura de palavras com que pudesse pedir desculpas, mas o que poderia fazer? Como poderia seu pai compreender por que ela fizera aquilo? O pai 
era um estranho, e ela sentiu medo dele. Ouvira repetidas vezes o pai descarregar a sua clera nos empregados por enganos ou desobedincias. No podia esperar seno 
uma manifestao dessa mesma clera.
- Elizabeth - disse finalmente o pai, voltando-se para ela -, acha que podemos passar pelo Rumpelmayer's e tomar um sorvete de chocolate com soda?
Elizabeth desatou a chorar.
Estendeu-se na cama naquela noite com os olhos abertos, to excitada que no conseguia dormir. Recordava sem cessar todos os acontecimentos daquela noite. A sua 
agitao era realmente excessiva. Nada daquilo era produto da sua imaginao. Tinha acontecido, era uma realidade.
Viu-se de novo sentada com o pai a mesa do Rumpelmayer's, cercada pelos grandes e pitorescos ursos, elefantes, zebras e lees empalhados. Pedira banana split, e, 
quando aquela coisa imensa chegara  mesa, o pai no havia feito a menor crtica.
E, depois, conversava com ela, sem os monosslabos habituais.
Falara da sua viagem a Tquio, dissera que l lhe haviam servido, como pratos especiais, gafanhotos e formigas cobertos de chocolate e que ele tivera de fazer um 
grande esforo para comer aquilo e no ofender o seu anfitrio.
Quando Elizabeth acabara o sorvete, o pai de repente perguntara:
- Por que voc fez aquilo, Liz?
- Quis ser melhor do que todas as outras - dissera ela, mas no tivera coragem de acrescentar: "Por sua causa".
Ele olhara para ela durante muito tempo, rira e dissera com uma nota de orgulho na voz:
- Voc certamente surpreendeu todo mundo.
Elizabeth sentiu o sangue subir-lhe ao rosto e perguntou:
- No ficou ento zangado comigo?
Havia nos olhos dele um brilho que Elizabeth nunca tinha visto.
- Por querer ser melhor que os outros? Foi sempre isso que ns, Roffes, fizemos.
E apertara carinhosamente a mo dela.
Os ltimos pensamentos de Elizabeth antes de adormecer foram:
"Meu pai gosta de mim, gosta mesmo de mim. De agora em diante, vamos viver sempre juntos. Ele me levar nas suas viagens.
Conversaremos sobre todas as coisas e seremos bons amigos".
Na tarde seguinte, a secretria de seu pai informou-a de que tinham sido iniciados entendimentos para mand-la para um internato na Sua.

Captulo 10
Elizabeth foi matriculada no International Chteau Lemand , uma escola para moas situada na aldeia de Saint-Blaise, s margens do lago de Neuchtel. A idade das 
moas variava entre catorze e dezoito anos. Era uma das melhores escolas do excelente sistema educacional suo.
Elizabeth odiou-a do princpio ao fim.
Sentia-se exilada. Fora mandada para longe de casa e estava sofrendo um cruel castigo por um crime que no cometera. Aquela noite mgica parecera o incio de alguma 
coisa maravilhosa, da descoberta recproca do pai e dela, duma amizade estreita com ele. Mas agora ele parecia mais distante que nunca.
Elizabeth seguia a vida do pai por intermdio dos jornais e revistas. Havia frequentes notcias e fotografias dele, sendo recebido por um primeiro-ministro ou por 
um presidente, inaugurando uma nova fbrica de produtos farmacuticos em Bombaim, escalando uma montanha ou jantando com o x do Ira.
Elizabeth colava tudo num caderno de recortes que constantemente olhava. Guardava-o ao lado do Livro de Samuel.
Elizabeth se mantinha afastada das outras alunas. Algumas viviam em quartos com duas ou trs, mas Elizabeth pedira um quarto s para si. Escrevia longas cartas ao 
pai e depois rasgava as que revelava seus sentimentos. De vez enquanto recebia um bilhete dele e havia sempre alguns embrulhos vistosos de presentes de lojas caras 
no dia do seu aniversrio, mandados pela secretria de seu pai. Elizabeth tinha muitas saudades dele.
Iria v-lo no Natal na villa de Sardenha, e,  medida que a poca se aproximava, a espera se tornava quase intolervel.
Chegara a passar mal de tanto nervosismo.
Fez uma lista de suas resolues, disposta a cumpri-las fielmente:
No seja inoportuna.
Procure ser interessante.
No se queixe de coisa alguma, especialmente da escola.
No o deixe saber que voc se sente sozinha.
No o interrompa quando ele estiver falando.
Tenha sempre boas maneiras, especialmente na hora do caf da manh.
Ria muito para ele pensar que voc  feliz.
Essas notas eram como uma prece, uma oferenda aos deuses. Se ela fizesse todas essas coisas, talvez... talvez... As resolues de Elizabeth se esfumavam em fantasias. 
Ela teria profundas observaes do Terceiro Mundo e os dezanove pases em desenvolvimento, e o pai dela diria: "No sabia que voc era to interessante (regra nmero 
2). Voc  brilhante, Elizabeth". Ento, ele se voltaria para a secretria e diria:
"No creio que Elizabeth precise voltar para a escola. Vai ficar aqui comigo".
Uma prece, uma oferenda.
Um Learjet da companhia pegou Elizabeth em Zurique e transportou-a at o aeroporto de Olbia, onde uma limusine estava  sua espera. Elizabeth sentou-se no carro 
em silncio, com os joelhos bem juntos para no tremer. Acontea o que acontecer, ele no me ver chorar, pensou Elizabeth. Nunca vai saber como tive saudades dele!
O carro subiu pela longa e sinuosa estrada de montanha que levava  Costa Esmeralda, tomando ento a pequena estrada que conduzia at ao topo. Aquela estrada sempre 
amedrontava Elizabeth. Era muito estreita e ngreme, com a montanha de um lado e um abismo do outro.
O carro parou diante da casa, e Elizabeth saltou, comeando a caminhada em direco  casa, e depois correu tanto quanto lhe permitiam as pernas. A porta se abriu 
e Margherita, a cozinheira, apareceu, sorridente.
- Al, Senhorita Elizabeth.
- Onde est meu pai? - perguntou Elizabeth.
- Teve de ir  Austrlia para resolver um caso urgente. Mas deixou belos presentes. Vai ser um Natal muito feliz.

Captulo 11
Elizabeth havia levado o Livro. Um dia, ficou diante dos retratos de Samuel e Terinia Roffe, sentindo-lhes a presena como se tivessem voltado  vida. Depois de 
algum tempo, subiu a escada para a sala de torre, levando o Livro. Ficava ali durante horas todos os dias, lendo e relendo as suas pginas.
De cada vez, sentia-se mais perto de Samuel e Terinia, como se no houvesse um sculo de intervalo entre eles.
Elizabeth leu que nos anos que se seguiram Samuel passou muitas horas no laboratrio do Dr. Wal, ajudando o mdico a preparar unguentos e outros medicamentos e apreendendo 
enquanto trabalhavam. E sempre no fundo de tudo estava Terinia, obsecante, linda. V-la era o bastante para alimentar o sonho de Samuel de que um dia ela lhe pertenceria. 
Samuel se entendia muito bem com o Dr. Wal, mas com a me de Terinia a histria era bem diferente. Tratava-se de uma mulher irascvel, ferina e esnobe. Detestava 
Samuel e ele procurava manter-se o mais afastado possvel dela.
Samuel ficava fascinado pelas muitas substncias terapeuticas usadas atravs dos tempos. Fora encontrado um papiro que relacionava oitocentas e onze receitas usadas 
pelos egpcios no ano 1550 antes de Cristo. A expectativa de vida nessa poca era de quinze anos, e Samuel compreendeu a razo desses nmeros ao ler algumas receitas: 
excremento de crocodilo, carne de lagarto, sangue de morcego, saliva de camelo, fgado de leo, patas de ra e p de unicrnio. O sinal Rx1 usado em muitas receitas 
era uma invocao antiga a Hrus, o deus egpcio da sade. A prpria palavra "qumica" derivada do antigo nome Egipto, a terra de Kahmi ou Chemi. Os sacerdotes mdicos 
eram chamados de magos.
As farmcias no gueto e na prpria Cracvia eram primitivas.
Quase todos os vidros e potes continham medicamentos que nunca tinham sido analisados e devidamente experimentados. Alguns eram inteis, outros, nocivos. Samuel 
conhecia todos. Havia leo de rcino, calomelanos, ruibardos, composto de iodo, codena e ipecacuanha. Compravam-se panaceias para coqueluche, clicas e tifo. Como 
no havia precaues higinicas, era comum encontrar unguentos e gargarejos cheios de insectos mortos, baratas, excremento de ratos e pedaos de pernas e peles. 
Quase todos os doentes que tomavam esses remdios morriam ou das doenas ou dos remdios.
Havia vrias revistas dedicadas a assuntos farmacuticos, e Samuel lia-as todas com avidez. Discutia as suas teorias com o Dr. Wal.
-  claro - dizia ele com voz vibrante de convico - que deve haver uma cura para cada doena. A sade  natural, a doena, no.
- Pode ser - dizia o Dr. Wal -, mas os meus clientes no me permitem experimentar novos medicamentos neles. E acho que esto certos.
Samuel devorou os poucos livros do Dr. Wal sobre farmacologias. Depois de ler e reler esses livros, sentiu-se frustrado diante da falta de resposta para as questes 
suscitadas.
Samuel ficou entusiasmado com uma revoluo que se vinha verificando. Alguns cientistas pensavam que era possvel combater as causas das doenas criando uma resistncia 
do organismo contra elas. O Dr. Wal tentou isso uma vez. Extraiu sangue de um doente com difteria e injectou num cavalo. Quando o cavalo morreu, o Dr. Wal abandonou 
a experincia. Mas o jovem Samuel estava convencido de que o Dr. Wal havia tomado o caminho certo.
O Dr. Wal sacudiu a cabea.
- Voc fala assim porque tem dezassete anos, Samuel. Quando chegar  minha idade, no ter mais certeza de coisa alguma.
No pense mais nisso.
Essas palavras no convenceram Samuel. Queria prosseguir nas experincias, mas para isso precisava de animais e poucos havia  sua disposio, salvo os gatos e ratos 
que conseguia apanhar.
Todos eles morriam, por menores que fossem as doses que Samuel lhes aplicasse. Os animais eram muito pequenos, pensava Samuel.
Precisava de um maior, um cavalo, um boi ou um carneiro. Mas onde encontr-lo?
Uma tarde, quando Samuel voltou para casa, encontrou um velho cavalo atrelado a uma carroa em frente  porta. Num dos lados da carroa estava pintado com letras 
toscas o letreiro: Roffe and Sons.
Samuel olhou para tudo sem acreditar, e correu para dentro de casa, onde estava o pai.
- Aquele cavalo l fora... onde o conseguiu?
O pai dele sorriu todo orgulhoso.
- Fiz uma compra. Podemos cobrir mais territrio com um cavalo. Talvez daqui a quatro ou cinco anos possamos comprar outro cavalo. Imagine s. Teremos dois cavalos!
Era at onde iam as ambies de seu pai. Queria possuir dois cavalos velhos e cansados para arrastar carroas com mercadorias pelas ruas sujas e atravancadas do 
gueto de Cracvia. Samuel teve vontade de chorar.
Naquela noite, quando todos dormiam, Samuel foi at a estrebaria e examinou o cavalo, a que tinham dado o nome de Fred. Em matria de cavalos, aquele era sem dvida 
um dos mais fracos da espcie. era muito velho, desancado e com tomores nas pernas. Talvez no pudesse andar muito mais depressa que o pai de Samuel. Mas nada disso 
importava.. O essencial era que Samuel j dispunha de uma cobaia. Podia fazer as suas experincias sem se preocupar em apanhar gatos vadios e ratos.
 claro que teria de ter cuidado. Seu pai nunca poderia saber o que ele estava fazendo. Samuel afagou a cabea de Fred e informou-lhe:
- Voc vai entrar no negcio de farmcia.
Samuel improvisou o seu laboratrio num canto da estrebaria onde Fred era guardado.
Desenvolveu uma cultura de germes de difteria num prato fundo. Quando o caldo ficou denso, transferiu-o para outro recipiente, diluindo-o e em seguida aquecendo-o 
ligeiramente.
Encheu a seringa e aproximou-se de Fred.
- Lembra-se do que eu lhe disse? Hoje  o seu grande dia.
Samuel injectou o lquido na espdua do cavalo, como viro o Dr. Wal fazer. Fred voltou para ele os olhos tristes e respingou-o de urina.
Samuel estimou que a cultura levaria setenta e duas horas para desenvolver-se em Fred. Ao fim desse tempo, dar-lhe-ia uma dose mais forte. Se a teoria dos anticorpos 
fosse correcta, cada dose criaria uma resistncia maior do sangue  doena, e Samuel teria a sua vacina. Mais tarde, teria de encontrar um ser humano em que pudesse 
experimentar a vacina, mas isso no seria difcil. Qualquer vtima da temida doena experimentaria pressurosamente qualquer coisa capaz de salvar-lhe a vida.
Nos dois dias seguintes, Samuel passou com Fred quase todos os momentos em que esteve acordado.
- Nunca vi ningum gostar tanto de um animal! - disse-lhe o pai. - No consegue deixar Fred, no ?
Samuel murmurou uma resposta inteligente. Tinha um sentimento de culpa a respeito do que estava fazendo, mas sabia o que iria acontecer se mencionasse o caso a seu 
pai. Tudo o que Samuel tinha de fazer era extrair sangue de Fred para encher um ou dois vidros de soro, e ningum saberia de nada.
Na manh do terceiro dia, que era decisivo, Samuel foi despertado pela voz do pai diante da casa. Samuel levantou-se e correu para a janela. O pai estava no meio 
da rua, com sua carroa, berrando com toda fora de seus pulmes. No havia nem sinal de Fred. Vestiu-se de qualquer maneira e saiu.
- Momser! - gritava o pai. - Tratante! Mentiroso! Ladro!
Samuel passou por entre a multido que comeava a reunir-se em torno de seu pai.
- Onde est Fred? - perguntou Samuel.
- Ainda me pergunta? Morreu. Morreu na rua como um cachorro.
Samuel sentiu um baque no corao.
- Ns amos bem calmamente. Eu estava tratando dos meus negcios, sem fazer o bichinho correr, sem bater nele, nem maltrat-lo, como fazem outros ambulantes que 
conheo. E o que foi que aconteceu? Caiu morto de repente. Quando eu pegar o gonif que me vendeu o cavalo, vou mat-lo Samuel afastou-se, desolado. Junto com Fred, 
morrera tambm os seus sonhos. Com Fred desaparecia a esperana de fugir do gueto e de libertar-se, de ter uma bela casa para Terinia e seus filhos.
Mas uma calamidade ainda maior estava por acontecer.
No dia seguinte ao da morte de Fred, Samuel soube que o Dr.
Wal e a Mulher tinham combinado o casamento de Terinia com um rabino. Samuel no acreditou. Era a ele que Terinia pertencia!
Correu para a casa do Dr. Wal. Encontrou o mdico e sua mulher na sala de espera. Encaminhou-se para eles, respirando fundo e disse:
- H um erro em tudo, no que diz respeito a Terinia. Ela vai casar-se  comigo!
Os dois olharam-no atnitos.
- Sei muito bem que no estou  altura dela - disse ento. Mas ela no ser feliz, casada com outro homem qualquer. Esse tal rabino  muito velho e...
- Nebbich! Rua! Rua! - gritou a me de Terinia,  beira de um ataque de apoplexia.
Sessenta segundos depois, Samuel estava no meio da rua, proibido de tornar a pr os ps naquela casa.
No meio da noite, Samuel teve uma longa conversa com Deus.
- Que est querendo de mim? Se eu no posso ter Terinia, por que me fez am-la? No tem sentimentos? - Ergueu a voz na sua frustrao e gritou: - Ser que est me 
ouvindo?
Na casinha cheia de gente, todos gritaram:
- Estamos ouvindo, sim, Samuel! Pelo amor de Deus, veja se cala a boca e nos deixa dormir!
Na tarde seguinte, o Dr. Wal mandou chamar Samuel. Foi recebido na sala de espera, onde estavam reunidos o Dr. Wal, a mulher e Terinia.
- Parece que temos um problema - disse o Dr. Wal. - Nossa filha est irredutvel. Por alguma razo que desconheo, tomou-se de um capricho por voc. No posso chamar 
isso de amor, Samuel, at porque no acredito que uma mocinha da idade dela saiba o que  amor. De qualquer maneira, ela no quer casar-se com o rabino Rabinowitz. 
Acha que deve casar-se com voc.
Samuel olhou rapidamente para Terinia, e esta sorriu para ele. Sentiu uma exploso de alegria, que, entretanto, durou pouco.
O Dr. Wal continuou:
- Voc diz que ama nossa filha.
-  v-v-verdade - gaguejou Samuel e procurou falar com mais firmeza. -  isso mesmo, Dr. Wal.
- Muito bem, Samuel. Acha que Terinia poder passar o resto da vida casada com um vendedor ambulante Samuel percebeu no mesmo instante a armadilha, mas no viu jeito 
de livrar-se dela. Tornou a olhar para Terinia e disse:
- No, Dr. Wal.
- Compreende ento o problema, no ? Nenhum de ns quer que Terinia se case com um vendedor ambulante. E voc  um vendedor ambulante, Samuel.
- Mas no serei sempre, Dr. Wal - disse Samuel, com voz forte e segura.
- E que vai ser ento? - perguntou a me de Terinia. - Voc pertence a uma famlia de vendedores ambulantes, que nunca sero mais que isso. E eu no vou consentir 
que minha filha se case com um vendedor ambulante.
Samuel olhou para as trs pessoas reunidas naquela sala, com apreenso e desespero, vira-se elevado s culminncias da alegria e, naquele momento, era de novo mergulhado 
num torvo abismo. O que queriam dele?
- Vamos fazer um trato - disse o Dr. Wal. - Ns lhe daremos um prazo de seis meses para provar que no  apenas um vendedor ambulante. Se no o provar, ao fim desse 
tempo, ela se casar com o rabino Rabinowitz.
Samuel olhou-o, atarantado.
- Seis meses?
Ningum poderia ter sucesso em seis meses, principalmente vivendo no gueto de Cracvia.
- Estamos entendidos? - disse o Dr. Wal.
- Perfeitamente.
Sim, Samuel entendia tudo muito bem. Sentia uma contraco dolorosa no estmago. No precisava de uma soluo, mas de um milagre. A famlia de Terinia s se contentaria 
com um genro que fosse mdico, rabino ou rico. Samuel examinou prontamente todas as possibilidades.
A lei impedia-o de ser mdico.
Ser rabino? Comeava-se a estudar para ser rabino aos treze anos de idade, e Samuel j estava com quase dezoito.
Rico? Era uma coisa fora de cogitao. Se trabalhasse vinte e quatro horas por dia vendendo suas mercadorias como ambulante pelas ruas do gueto, at aos noventa 
anos, no deixaria de ser um homem pobre. Os Wals lhe haviam proposto uma tarefa impossvel. Tinha aparentemente cedido a Terinia, concordando em adiar o casamento 
dela com o rabino, impondo, porm, condies que sabiam que Samuel no poderia cumprir. Terinia era a nica pessoa que acreditava nele. Confiava em que ele conseguisse 
de algum modo a fama ou a fortuna dentro de seis meses.  mais louca do que eu, pensou desesperadamente Samuel.
O tempo comeou a correr. Samuel passava os dias como vendedor ambulante, ajudando o pai. Mas no momento em que as sombras do poente comeavam a cair sobre os muros 
do gueto, ele corria para casa, comia alguma coisa  pressa e ia trabalhar no seu laboratrio. Preparava centenas de frascos de soro e o injectava em coelhos, gatos, 
ces e pssaros, mas todos morriam. So muito pequenos, pensava Samuel. Preciso de um animal maior.
Mas no o conseguia, e o tempo ia passando.
Duas vezes por semana, Samuel ia a Cracvia para renovar o estoque de mercadorias que ele e o pai vendiam. Chegava ao amanhecer diante dos portes fechados e ali 
ficava  espera, cercado pelos outros ambulantes. Mas no os via nem ouvia uma voz spera que lhe dizia:
- Vamos, judeu! V andando!
Samuel levantou os olhos. Os portes tinham sido abertos, e sua carroa estava impedindo a passagem. Um dos guardas, muito zangado, lhe ordenava que prosseguisse. 
Havia sempre dois guardas em servio diante dos portes. Usavam fardas verdes com insgnias especiais e andavam armados de pistolas e pesados cassetetes. Numa corrente 
pendurada na cintura, um deles levava a chave dos portes. ao lado do gueto, corria um pequeno rio sobre o qual havia uma velha ponte de madeira. Do outro lado da 
ponte, estava o posto de polcia, onde os guardas ficavam estacionados. Samuel vira mais de uma vez um judeu infortunado ser arrastado pela ponte. Era sempre uma 
viagem sem volta. Os judeus tinham de estar no interior do gueto ao escurecer, e qualquer judeu surpreendido fora dos portes depois que a noite casse era capturado 
e deportado para um campo de trabalho, Todos os judeus viviam apavorados com a perspectiva de serem encontrados fora do gueto depois do anoitecer.
Os dois guardas eram obrigados a passarem as noites diante dos portes, em servio de patrulha. Mas todos os habitantes do gueto sabiam que, logo que os judeus eram 
trancados, um dos guardas saa dali e ia passar a noite a divertir-se na cidade.
Pouco antes do amanhecer, voltava para ajudar o companheiro a abrir os portes para um novo dia.
Os dois guardas habitualmente postados nos portes chamavam-se Paul e Aram. Paul era um homem agradvel e sempre de bom humor. Aram era inteiramente diferente dele. 
Homem rude, robusto e forte, com braos vigorosos e um corpo que parecia um barril de cerveja, odiava os judeus. Sempre que estava de servio, todos os judeus que 
se achavam fora do gueto faziam questo de voltar a tempo, pois nada encantava mais Aram do que encontrar um judeu do lado de fora, espanc-lo at faz-lo perder 
os sentidos e ento lev-lo atravs da ponte para o temido quartel da polcia.
Era Aram que estava gritando com Samuel para que tirasse sua carroa do caminho. Samuel passou pelos portes e dirigiu-se para a cidade, sentindo o olhar de dio 
de Aram.
O perodo de seis meses concedidos a Samuel minguou rapidamente para cinco meses, depois para quatro, e trs. No havia um s dia, no havia sequer uma hora em que 
Samuel no pensasse numa soluo para o seu problema, mesmo quando estava trabalhando febrilmente no seu diminuto laboratrio. Tentou falar com alguns negociantes 
ricos do gueto, mas poucos tinham tempo para receb-lo e os que o recebiam s estavam dispostos a dar-lhe conselhos inteis.
- Quer ganhar dinheiro? Trate de economizar os nqueis, meu jovem, e um dia voc ter o suficiente para montar um bom negcio como o meu.
Era muito fcil dizer isso, pois quase todos tinham tido pais ricos.
Samuel pensou em raptar Terinia e fugir. Mas, para onde? ao fim de qualquer viagem que fizessem, haveria outro gueto, e ele continuaria a ser um nebbich sem dinheiro. 
No, ele amava demais Terinia para fazer isso com ela. Via-se numa armadilha da qual no era possvel fugir.
O tempo corria inexoravelmente, e os trs meses se tornaram dois e, por fim, s restou um ms. O nico consolo de Samuel era que, durante esse tempo, ele tinha permisso 
de ver sua adorada Terinia trs vezes por semana, sempre sob a vigilncia de algum, evidentemente, e a cada vez que Samuel a via , mais a amava. Era um prazer agridoce, 
pois a cada encontro ficava mais prximo o momento em que iria perd-la para sempre.
- Eu sei que voc vai achar um jeito - no se cansava de dizer Terinia.
Mas faltavam apenas trs semanas, e Samuel no estava mais perto de uma soluo do que quando tinha comeado.
Numa noite, j bem tarde, Terinia procurou Samuel na estrebaria. Abraou-o e disse:
- Vamos fugir, Samuel.
Ele nunca a amara tanto quanto a amou nesse momento ao ver que, por amor a ele, Ela estava disposta a ficar desmoralizada, a abandonar o pai e a me e a desistir 
da boa vida que levava.
Tomou-a nos braos, e disse:
- No podemos, Terinia. Para onde quer que eu v, nunca deixarei de ser um vendedor ambulante.
- No me importo.
Samuel pensou na bela casa onde ela morava, cheia de salas espaosas e de empregados e se lembrou do quartinho srdido em que ele morava com o pai e a tia.
- Mas eu me importo, Terinia.
E ela se afastou.
Na manh seguinte, encontrou-se com Isaac, que tinha sido seu colega de escola e levava uma gua por um cabresto. O animal era cego de um olho, sofria de clicas 
e de esparaves, sendo ainda por cima surdo.
- Bom dia, Samuel.
- Bom dia, Isaac. No sei para onde vai com esse animal, mas  melhor andar depressa. Ele pode morrer a qualquer momento.
- No  preciso que viva muito. Vou levar Lottie para uma fbrica de cola.
Samuel olhou a velha gua com sbito interesse.
- No creio que vo lhe pagar muito por ela.
- Sei disso. Quero apenas dois florins para comprar uma carroa.
O corao de Samuel comeou a bater com mais fora.
- Quem sabe eu no possa lhe poupar a viagem? Estou disposto a trocar minha carroa pela gua.
Depois disso, Samuel tinha apenas de fazer outra carroa e explicar ao pai como perdera a velha e se tornar dono de um animal que estava nas ultimas.
Samuel levou Lottie para a estrebaria. Examinando a gua, viu que o estado dela era bem pior do que havia julgado, mas afagou o animal e disse:
- No se preocupe, Lottie. Voc vai entrar para a histria da medicina.
Poucos minutos depois, Samuel comeou a trabalhar num novo soro.
Em vista das condies insalubres e do super povoamento do gueto, as epidemias eram frequentes. A ltima peste consistia numa febre que produzia tosse sufocante, 
ingurgitamento dos gnglios e uma morte dolorosa. Os mdicos desconheciam a sua causa, e no tinham qualquer idia do tratamento. O pai de Isaac contraiu a doena. 
Logo que Samuel soube disso, foi procurar Isaac.
- O mdico j esteve aqui - afirmou o rapaz, chorando. Disse que nada pode fazer.
Do alto da casa, vinha o terrvel som da tosse, que parecia prolongar-se indefinidamente.
- Quero que faa uma coisa para mim, Isaac - disse Samuel. Consiga-me um leno de seu pai.
- O qu?
- Quero um leno que ele tenha usado. Mas todo o cuidado ser pouco da sua parte. O leno dever estar cheio de germes.
Uma hora depois, Samuel estava de volta  estrebaria e despejava cuidadosamente o contedo do leno num prato cheio de caldo de cultura. Trabalhou durante toda a 
noite e todo o dia seguinte, injectou pequenas doses de substncias na paciente Lottie. Depois aumentou as doses, lutando contra o tempo para tentar salvar a vida 
do pai de Isaac.
Para tentar salvar a prpria vida.
Samuel nunca pde ter certeza posteriormente de que Deus houvesse protegido a ele ou  velha gua, mas a verdade  que Lottie sobreviveu s doses cada vez maiores, 
e Samuel conseguiu a sua primeira partida de antitoxina. A tarefa seguinte era convencer o pai de Isaac a consentir na aplicao dessa substncia.
Na realidade, no foi preciso convenc-lo. Quando Samuel chegou  casa de Isaac, havia muitos parentes que j esperavam a morte do homem doente no andar de cima.
- Resta-lhe pouco tempo de vida - disse Isaac a Samuel.Posso v-lo?
Os dois rapazes subiram. O pai de Isaac estava estendido na cama, com o rosto afogueado pela febre. Cada acesso de tosse sacudia o corpo depauperado, levando-o a 
um espasmo que o enfraquecia ainda mais. Era evidente que estava morrendo., Samuel respirou fundo e disse:
- Quero falar com voc e sua me.
No tinham confiana alguma no pequeno vidro que Samuel tinha levado, mas, ante a iminncia da morte, concordaram com a aplicao do remdio, simplesmente porque 
no havia mais nada a perder.
Samuel injectou o soro no pai de Isaac. Esperou trs horas  cabeceira da cama e no houve qualquer alterao. O soro no estava fazendo efeito. Entretanto, os acessos 
de tosse pareciam menos frequentes. Por fim, Samuel saiu, evitando olhar para Isaac.
Tinha de ir a Cracvia ao amanhecer do dia seguinte, para comprar mercadorias. Estava numa impacincia febril por voltar e ver se o pai de Isaac ainda estava vivo.
Havia muita gente em todos os mercados, e Samuel demorou muito para fazer as compras. S no fim da tarde conseguiu afinal encher a carroa e voltar para o gueto.
Quando Samuel estava ainda a trs quilmetros dos portes, houve o desastre. Uma das rodas da carroa se quebrou e as mercadorias comearam a espalhar-se pelo cho. 
Samuel viu-se diante de um terrvel dilema. Tinha de ir procurar uma roda para substituir a quebrada, e ao mesmo tempo, no podia deixar a carroa com as mercadorias 
abandonadas. Estava comeando a juntar gente, e era visvel o olhar de avidez que muitos lanavam para as mercadorias cadas. Samuel viu um guarda de uniforme aproximar-se, 
um gentio, e compreendeu que estava perdido. Iam tomar-lhe tudo. O guarda abriu caminho entre os curiosos e disse ao apavorado rapaz:
- Sua carroa precisa de uma roda nova.
- ...  verdade.
- Sabe onde encontrar uma?.
- No, senhor.
O guarda escreveu alguma coisa num pedao de papel.
- V procurar este homem. Diga a ele o que precisa.
- Mas eu no posso deixar o carro aqui assim.
- Pode, sim - disse o guarda. - Eu vou ficar aqui. Ande depressa!
Samuel saiu correndo. Seguindo o endereo do papel, chegou a oficina de ferreiro. Quando Samuel explicou a situao, o ferreiro encontrou uma roda do tamanho exacto 
para a carroa.
Samuel pagou a roda, tirando o dinheiro de uma sacola que levava. Depois dessa despesa, ficou apenas com uma dzia de florins.
Correu para a carroa, rolando a roda pelo cho. O guarda ainda estava l e os curiosos haviam se dispersado. As mercadorias estavam a salvo. Com a ajuda do guarda, 
levou mais meia hora para colocar a nova roda e prend-la. Retomou o caminho de casa, pensando no pai de Isaac. Iria encontr-lo vivo ou morto? A incerteza enchia-o 
de dolorosa ansiedade.
J estava apenas a um quilmetro do gueto. Podia avistar os altos muros que se erguiam contra o cu. Mas, nesse momento, o sol desapareceu no horizonte e as ruas 
por onde ele passava mergulharam na escurido. Na agitao de tudo o que havia acontecido, Samuel se esquecera da hora. J havia escurecido e ele ainda estava fora 
dos portes! Comeou a correr, empurrando a pesada carroa, com o corao a bater como se fosse saltar-lhe do peito. Os portes deviam estar fechados. Samuel pensou 
em todas as coisas terrveis que se contavam de judeus que tinham ficado do lado de fora dos portes. Correu mais depressa. Com certeza, s um guarda devia estar 
de servio. Se fosse Paul, o bom homem, Samuel poderia ter uma oportunidade.
Mas, se fosse Aram, no era bom nem pensar no que lhe poderia acontecer. A escurido era mais densa e o envolvia como um nevoeiro negro, ao mesmo tempo em que uma 
leve chuva comeava a cair. Samuel se aproximava dos muros do gueto e, de repente, avistou os grandes portes. J estavam trancados.
Era a primeira vez que os via fechados do lado de fora. Foi como se de sbito a vida lhe tivesse deixado o corpo, e Samuel comeou a tremer de terror. Estava separado 
de sua famlia, do seu mundo, de tudo aquilo que lhe era ntimo e familiar.
Diminuiu o passo e se aproximou dos portes cautelosamente, esperando pelos guardas. No os via e encheu-se de uma sbita esperana delirante. Os guardas talvez 
tivessem sido chamados para alguma emergncia. Samuel descobriria um meio de abrir os portes ou de escalar o muro sem ser visto. ao se aproximar dos portes, viu 
o vulto de um guarda emergir das sombras.
- Continue a andar - ordenou o guarda.
Na escurido, Samuel no podia ver o rosto dele. Mas reconheceu a voz. Era Aram.
- Venha at aqui.
Aram olhava Samuel com um sorriso de satisfao no rosto. O rapaz tropeou.
- Pise firme - disse Aram para anim-lo. - Continue a caminhar.
Samuel se aproximou lentamente do gigante, com o estmago contrado e a cabea a latejar.
- Posso explicar tudo... Tive um acidente. Minha carroa...
Aram estendeu o brao forte, agarrou Samuel pela gola e suspendeu-o no ar.
- Judeu imundo! - exclamou ele. - Pensa que eu quero saber por que voc ficou do lado de fora? Sabe o que  que vai acontecer com voc agora?
O rapaz sacudiu a cabea cheio de terror.
- Pois eu vou-lhe dizer. Temos um novo decreto nesta semana.
Todos os judeus capturados fora dos portes depois do escurecer sero deportados para a Sibria. Dez anos de trabalhos forados. Que tal?
Samuel no pde acreditar.
- Mas... mas eu no fiz nada...
Aram deu um tapa com a mo direita na boca de Samuel, que foi ao cho, e em seguida disse:
- Vamos.
- Para... onde? - perguntou Samuel com a voz embargada de terror.
- Para o quartel. Amanh de manh ser embarcado com o resto da ral. Levante-se.
Samuel cara com o tapa e estava ali, incapaz de coordenar os seus pensamentos.
- Eu... eu tenho de entrar para despedir-me de minha famlia.
Aram riu.
- Ningum vai sentir sua falta.
- Por favor! Deixe-me ir at l. Deixe-me pelo menos mandar um recado.
O sorriso desapareceu do rosto de Aram. Cresceu ameaadoramente para Samuel, mas falou com voz suave:
- Mandei que voc se levantasse, judeu imundo. Se eu tiver de dar-lhe a ordem outra vez, ser a pontaps.
Samuel levantou-se lentamente. Aram agarrou-lhe o brao com mos de ferro e comeou a lev-lo para o quartel da polcia.
Dez anos de trabalhos forados na Sibria! Ningum jamais voltara da Sibria. Olhou para o homem que o levava pela ponte para o quartel da polcia.
- No faa isso - disse Samuel. - Solte-me.
Aram apertou o brao de Samuel com mais fora, a tal ponto que deu a impresso de que o sangue deixara de correr.
- Pea mais, implore mais! - disse Aram. - No h nada de que eu goste mais do que ouvir as splicas de um judeu. Sabe alguma coisa sobre a Sibria? Vai chegar l 
a tempo de passar o inverno. No se preocupe. Dentro das minas, voc vai sentir calor. S quando seus pulmes estiverem pretos de tanto carvo, e voc comear a 
vomit-lo em acessos de tosse, tiraro voc de l para morrer em cima da neve.
 frente deles, do outro lado da ponte, quase invisvel sob a chuva, estava a lgubre construo, o quartel da polcia.
- Mais depressa! - gritou Aram.
Samuel percebeu de repente que no podia deixar que ningum fizesse aquilo com ele. Pensou em Terinia, em sua famlia, no pai de Isaac. Ningum iria roubar-lhe a 
vida. Fosse como fosse, tinha de fugir para salvar-se. Estava atravessando a estreita ponte, sob a qual o rio corria cuidadosamente, engrossado pelas chuvas de inverno. 
Restavam apenas uns trinta metros. O que tivesse de ser feito deveria ser naquele momento. Mas como seria possvel fugir? Aram tinha uma pistola, e ainda que no 
estivesse armado, poderia mat-lo com a maior facilidade. Era quase duas vezes maior que Samuel e muito mais forte. Tinham chegado ao outro lado da ponte, e o quartel 
estava bem diante deles.
- Ande depressa - disse Aram, puxando Samuel pelo brao. Tenho outras coisas para fazer.
Estavam to perto que Samuel podia ouvir os risos dos guardas l dentro. Aram comeou a arrastar o rapaz pelo ptio calado que ficava diante do quartel. Faltava 
apenas alguns segundos, e Samuel levou a mo direita ao bolso, pegando o bornal em que levava cerca de meia dzia de florins. Fechou-o na mo e sentiu no seu nervosismo 
o sangue correr-lhe mais depressa nas veias.
Tirou cuidadosamente o bornal do bolso, puxando ento os cordes que o fechavam, e deixou-o cair. Ele caiu sobre as pedras, fazendo tilintar as moedas.
Aram parou de repente.
- Que foi isso?
- Nada - respondeu prontamente Samuel.
Aram olhou para o rapaz e riu. Sem deixar de segurar firmemente Samuel, deu um passo para trs e viu o bornal de dinheiro aberto.
- Voc no precisar de dinheiro no lugar onde vai - disse Aram.
Curvou-se para apanhar o bornal e Samuel acompanhou-o. Mas no era o bornal que Samuel queria e, sim, uma grande pedra que estava no cho. Quando Aram levantou o 
corpo, Samuel bateu com a pedra no olho direito de Aram com toda a fora, transformando-o numa posta de sangue. Continuou a bater desesperadamente no rosto e na 
cabea. Viu o nariz do guarda afundar, depois a boca e, por fim, todo o rosto virou uma massa sanguenta. Mas Aram continuava de p como se fosse algum monstro cego. 
Samuel olhava-o, cheio de medo, sem coragem de bater de novo. Ento, lentamente, o gigantesco corpo principiou a cair.
Samuel olhou para o guarda morto, sem poder acredita no que havia feito. Ouviu vozes no quartel e compreendeu o terrvel perigo em que ainda se encontrava. Se o 
capturassem naquele momento, no o mandariam para a Sibria. Tratariam de esfol-lo e enforc-lo em praa pblica. A pena por bater num polcia era simplesmente 
a morte. E Samuel matara um deles. Tinha de fugir rapidamente. Poderia tentar atravessar a fronteira, mas, nesse caso, seria um fugitivo perseguido pelo resto da 
vida.
Deveria haver outra soluo. Olhou para o corpo desfigurado e percebeu de repente o que devia fazer. Revistou o guarda at encontrar a grande chave que abria os 
portes. Depois, dominando a repulsa que sentia, agarrou as botas de Aram e comeou a puxar o guarda para a margem do rio. O morto parecia pesar uma tonelada. Samuel 
continuou a puxar, estimulado pelo barulho que vinha do quartel.
Alcanou a margem do rio. Parou um momento para recuperar o flego. Depois, empurrou o corpo pela ribanceira e viu-o cair nas guas tumultuosas embaixo. Continuou 
inclinado sobre a margem por um tempo que lhe pareceu uma eternidade e, por fim, viu o corpo ser levado pelo rio e desaparecer. Ali ficou algum tempo como que hipnotizado, 
cheio de horror pelo que havia feito. Apanhou a pedra que tinha usado e jogou-a na gua. Mas ainda corria enorme perigo. Atravessou a ponte e voltou correndo para 
os grandes portes trancados no gueto. No havia ningum  vista. Com os dedos trmulos, girou a chave na fechadura dos portes e empurrou-os. Nada aconteceu. Eram 
pesados demais. Mas naquela noite nada era impossvel para Samuel. Com uma fora que parecia vir de fora dele, conseguiu por fim abri-los. Empurrou a carroa para 
dentro, fechou os portes e foi correndo para casa. Todos os moradores da casa estavam reunidos na sala e, quando Samuel apareceu, olharam para ele como se fosse 
um fantasma.
- Deixaram voc entrar!
- No compreendo - murmurou o pai. - Pensvamos que voc...
Samuel explicou em breves palavras o que havia acontecido, e a preocupao de todos se transformou em terror.
- Meu Deus! - exclamou o pai de Samuel. - Todos ns seremos mortos!
- Nada acontecer se me escutarem - disse Samuel, e exps o seu plano.
Quinze minutos depois, Samuel, o pai e dois vizinhos estavam juntos aos portes do gueto.
- E se o outro guarda voltar? - perguntou num sussurro o pai de Samuel.
-  um risco que temos de correr. Mas, se isso acontecer, eu assumirei toda a culpa.
Samuel abriu os portes e passou para o lado de fora. Colocou a grande chave na fechadura e deu a volta. Os portes do gueto estavam trancados pelo lado de fora. 
Samuel amarrou a chave a cintura e deu alguns passos  esquerda dos portes. Um momento depois, uma corda deslizou pelo muro como uma cobra. Samuel agarrou-se a 
ela, enquanto do outro lado seu pai e os outros comearam a i-lo. Quando Samuel chegou ao alto, prendeu a corda a uma escpula de ferro e desceu at o cho. Em 
seguida, sacudiu a corda at desprend-la e puxou-a.
- Meu Deus! - exclamou o pai de Samuel. - Que ir acontecer amanh cedo?
- Estaremos batendo nos portes e pedindo que nos deixem sair
- respondeu Samuel.
Ao amanhecer, o gueto estava cheio de polcias e soldados.
Tiveram que descobrir uma chave especial para abrir os portes aos negociantes que queriam ir a Cracvia. Paul, o outro guarda, confessou que havia abandonado o 
posto para ir passar a noite em Cracvia e foi imediatamente preso. Mas isso no resolvia o mistrio do desaparecimento de Aram. Em geral, o desaparecimento de um 
guarda nas proximidades do gueto seria um excelente pretexto para um progrom. Mas a polcia se achava perplexa diante dos portes fechados. Como os judeus estavam 
trancados dentro do gueto, era evidente que nada podiam ter feito ao guarda. Chegaram afinal  concluso de que Aram devia ter fugido em companhia de uma das suas 
numerosas amiguinhas.
Devia ter jogado em algum canto a pesada chave que de nada lhe servia, mas, por mais que procurassem, no a encontraram. E, nunca a encontrariam, pois estava enterrada 
bem fundo sob a casa de Samuel.
Fsica e emocionalmente exausto, Samuel jogara-se e dormira quase num mesmo instante. Acordou com algum ao lado, que gritava e o sacudia. O primeiro pensamento 
de Samuel foi de que haviam encontrado o corpo de Aram e tinham ido prend-lo.
Abriu os olhos. Isaac estava diante dele, muito nervoso.
- Parou, Samuel! A tosse parou! Venha comigo at a minha casa.
O pai de Isaac estava sentado na cama. A febre havia desaparecido como por milagre e a tosse havia parado.
Quando Samuel se aproximou da cama, o velho lhe perguntou:
- No acha que posso tomar um pouco de caldo de galinha?
Samuel comeou a chorar. Num s dia, tirara a vida de um homem e salvara a vida de outro.
A notcia sobre o pai de Isaac se espalhou pelo gueto. As famlias das pessoas doentes cercavam a casa de Samuel, pedindo um pouco de soro mgico. Era impossvel 
atender a todos, e ele foi procurar o Dr. Wal. O mdico j sabia do feito de Samuel, mas ainda se mostrava cptico.
- Tenho que ver com meus prprios olhos - disse ele. Prepare uma partida de soro e eu aplicarei num dos meus clientes.
Havia dezenas de doentes  disposio, e o Dr. Wal preferiu o que lhe parecia mais prximo da morte. No prazo de vinte e quatro horas, o doente estava a caminho 
da recuperao.
O Dr. Wal foi at a estrebaria, onde Samuel trabalhava dia e noite preparando o soro, e disse:
- D resultado, Samuel. Voc conseguiu. O que deseja como dote?
Samuel olhou para ele e respondeu, exausto:
- Outro cavalo.
Aquele ano de 1868 marcou o incio da Roffe and Sons.
Samuel e Terenia se casaram, e Samuel recebeu como dote seis cavalos e um pequeno mas bem equipado laboratrio. Samuel expandiu as suas experincias. Comeou a destilar 
medicamentos de ervas e, em pouco tempo, os vizinhos passaram a ir at seu pequeno laboratrio comprar remdios para os males que os afligiam. Eram bem atendidos, 
e a reputao de Samuel cresceu.
Quando algum no podia pagar, Samuel dizia:
- No se preocupe com isso. Pode levar. - E acrescentava, voltando-se para Terenia: - Remdio  para curar e no para dar lucro.
As vendas aumentaram, e depois de algum tempo, ele disse a Terenia:
- J  tempo de abrirmos uma pequena farmcia onde possamos vender unguentos, ps e outras coisas alm de receitas.
A farmcia foi, desde o incio, um sucesso. Os homens ricos que anteriormente se haviam negado a ajudar Samuel apareceram, oferecendo-lhe dinheiro.
Queriam ser scios e propunham uma fundao de uma rede de farmcias.
Samuel conversava sobre o caso com Terenia, dizendo:
- Tenho muito receio de scios. O negcio  nosso e no me agrada a idia de gente estranha possuir parte de nossa vida.
Terenia concordava com ele.
Quando os negcios cresceram e se expandiram com a abertura de outras farmcias, as ofertas de dinheiro aumentaram. Samuel continuou a recus-las.
Quando seu sogro lhe perguntou o motivo, Samuel respondeu:
- Nunca se deve deixar uma raposa entrar num galinheiro, por mais amistosa que se mostre. Um dia, ela pode ficar com fome.
Do mesmo modo que os negcios, o casamento de Samuel e Terenia floresceu. Tiveram cinco filhos: Abaham, Joseph, Anton, Jan e Piotr. Samuel comemorava o nascimento 
de cada filho abrindo uma nova farmcia, cada uma maior do que a anterior. No comeo, Samuel contratou um homem para auxili-lo. Depois, foram dois e, por fim, tinha 
mais de duas dzias de empregados.
Um dia, Samuel recebeu a visita de um funcionrio do governo.
- Vamos cancelar algumas restries que pesam sobre os judeus - disse ele a Samuel. - Veramos com muito agrado a abertura de uma de suas farmcias em Cracvia.
E Samuel abriu a farmcia. Trs anos depois, tinha prosperado tanto que construiu um prdio prprio no centro comercial de Cracvia e comprou para Terenia uma bela 
casa na cidade. Samuel tinha realizado, afinal, o sonho de sair do gueto.
Mas os seus sonhos no se limitavam a Cracvia.
Quando os seus filhos cresceram, contratou professores para eles e fez cada qual aprender uma lngua diferente.
- Ficou maluco - dizia a sogra de Samuel. - Todos fazem troa deles, pois Abraham e Jan esto aprendendo ingls; Joseph, alemo; Anton, francs; e Piotr, italiano. 
Com quem  que eles vo falar? Ningum aqui fala dessas lnguas brbaras. Os garotos vo acabar sem ter com quem conversarem.
Samuel limitava-se a sorrir e dizia pacientemente:
- Isso faz parte da educao deles.
Quando os rapazes chegaram  adolescncia, viajaram para pases diferentes com o pai. Em cada uma de suas viagens, Samuel preparava-se para os seus futuros planos. 
Quando Abraham completou vinte e um anos, Samuel reuniu a famlia e anunciou que Abraham ia viver nos Estados Unidos.
- No! - exclamou a me de Terenia. -  um pas de ndios.
No deixarei que faa isso com meu neto. O rapaz tem de ficar aqui, onde estar em segurana.
Segurana... Samuel pensou nos pogroms, em Aram e na morte de sua me.
- Ele vai para o estrangeiro - retrucou Samuel. - Abraham, voc vai abrir uma fbrica em Nova York e se encarregar de todos os negcios por l.
Abraham disse orgulhosamente:
- Est muito bem, papai.
Samuel voltou-se para Joseph.
- aos vinte e um anos, voc ir para Berlim.
Joseph fez um gesto de assentimento.
- E eu irei para a Frana - disse Anton. - Paris, assim espero.
- Exactamente - disse Samuel -, mas cuidado. H l entre os gentios algumas mulheres muito bonitas.
Olhou para Jan.
- Voc ir para a Inglaterra.
Piotr, o mais moo, disse ansiosamente:
-  claro que irei para a Itlia. Quando poderei Partir, papai?
Samuel riu e respondeu:
- Esta noite, no, Piotr. Ter de esperar at completar vinte e um anos.
E assim aconteceu. Samuel foi com os filhos ao estrangeiro e ajudou-os a abrir escritrios e fbricas. Sete anos depois, havia filiais da famlia Roffe em cinco 
pases. Era j uma dinastia, e Samuel encarregou um advogado de elaborar estatutos que tornassem cada uma das companhias independente, embora ao mesmo tempo submetida 
 matriz.
- Nada de estranhos - disse Samuel ao advogado. - As aces nunca devem deixar de ser propriedade da famlia.
- Est bem - disse o advogado. - Mas, se seus filhos no puderem vender as suas aces, Samuel, como iro se arranjar?
 natural que queiram viver com conforto.
- Vou tomar providncias para que morem em casas esplndidas.
Ganharo excelentes ordenados e disporo de uma boa verba de representao, mas tudo o mais dever reverter em favor da companhia. Se algum dia quiserem vender as 
suas aces, tero de obter a aprovao unnime dos outros scios. A maioria das aces pertencer sempre a meu filho mais velho e a seus herdeiros. Vamos ser uma 
grande empresa. Vamos ser maiores que os Rothschilds.
Com o correr dos anos, a profecia de Samuel se tornou uma realidade. A empresa cresceu e prosperou. Embora a famlia estivesse vivendo dispersa, Samuel e Terenia 
faziam todo o possvel para uni-la. Os filhos voltavam  casa paterna por ocasio dos aniversrios e festas. Porm, as visitas no eram, apenas, reunies festivas. 
Os filhos e os pais discutiam juntos os negcios da companhia. Tinham a sua rede de espionagem particular. Logo que um dos filhos tinha notcia de um progresso importante 
na indstria farmacutica, participava o facto aos outros, e todos comeavam a fabricar o produto, de modo que estavam sempre  frente dos seus concorrentes.
Com o advento do novo sculo, os cinco irmos se casaram e deram netos ao velho Samuel. Abraham fora para os Estados Unidos aos vinte e um anos, em 1891. Casou-se 
com uma moa americana sete anos depois e, em 1905, ela deu  luz o primeiro neto de Samuel, Woodrow, que gerou um filho chamado Sam. Joseph se casou com uma moa 
alema, e teve um casal de filhos. O filho se casou e teve uma filha, Anna, a qual se casou com um alemo chamado Walther Gassner. Na Frana, Anton se casou com uma 
francesa, tornando-se pai de dois filhos. Um deles cometeu suicdio. O outro se casou e teve uma filha, chamada Hlne, que se casou vrias vezes, mas no teria 
filhos. Jan, em Londres, se casara com uma inglesa. Sua filha nica se casara com um baronete chamado Nichols e tivera um filho, a quem baptizara de Alec. Piotr 
tinha se casado em Roma com uma italiana. Tiveram um filho e uma filha. Quando o filho, por sua vez, se casou, a mulher deu-lhe uma filha, Simonetta, que se casara 
com Ivo Palazzi, um jovem arquitecto.
Eram esses os descendentes de Samuel e Terenia Roffe.
Samuel viveu o bastante para ver os ventos da mudana soprarem pelo mundo. Teve oportunidade de assistir transmisses de telgrafo sem fio e ao voo dos primeiros 
avies.
Emocionou-se quando o casa Dreyfus ocupou as manchetes dos jornais e quando o almirante Peary chegou ao plo norte. O modelo T de Henry Ford era produzido em massa. 
Por quase toda a parte havia luz elctrica e telefones. Em medicina, os germes que causaram a tuberculose, o tifo e a malria foram isolados e debelados.
A Roffe and Sons em pouco menos de meio sculo havia se transformado numa colossal empresa multinacional espalhada por todo mundo.
Samuel e a sua velha gua Lottie haviam criado uma dinastia.
Quando Elizabeth concluiu talvez a quinta leitura do Livro, tornou a guard-lo na sala da Torre. No precisava mais dele.
O Livro ficara incorporado  sua existncia.
Pela primeira vez na vida, Elizabeth sabia quem era e de onde vinha.

Captulo 12
Foi no seu dcimo quinto aniversrio, ao fim do primeiro ano na escola sua, que Elizabeth conheceu Rhys Williams. Ele havia passado pela escola para levar-lhe 
um presente do pai dela.
- Ele queria vir pessoalmente, mas no pde - explicou Rhys.
Elizabeth tentou dissimular sua decepo, mas Rhys no teve dificuldade em perceb-la. Era evidente nela uma sensao de abandono, uma indefesa vulnerabilidade que 
o comoveu. Agindo impulsivamente, perguntou:
- Acha que poderemos jantar juntos?
Elizabeth no gostou da idia. Imaginou-se entrando num restaurante, gorda e com aquele aparelho nos dentes, em companhia daquele rapaz incrivelmente simptico e 
gentil.
- Muito obrigado, mas no  possvel - disse Elizabeth, sem ao menos sorrir. - Tenho de preparar algumas lies.
Rhys Williams no se conformou com a recusa, pensando em todos os aniversrios que passara sozinho. Obteve permisso da directora da escola para levar Elizabeth 
para jantar. Entraram no carro de Rhys e este tomou imediatamente o caminho do aeroporto.
- Neuchtel fica do outro lado - disse Elizabeth.
- E quem foi que disse que vamos para Neuchtel?
- Para onde vamos ento?
- Para o Maxim's.  o nico lugar onde se pode celebrar a passagem dos quinze anos.
Voaram para Paris num jacto da companhia, e o jantar foi soberbo. Comeou com pt de foie gras com trufas, seguido de bisquei de lagosta, pato com laranja e da 
especial salada do Maxim's. Tudo se encerrou com champanha e um bolo de aniversrio. Depois, Rhys e Elizabeth atravessaram os Campos-Elsios de carro e voltaram 
para a Sua a altas horas da noite.
Fora a noite mais emocionante da vida de Elizabeth. Rhys tinha conseguido faz-la sentir-se interessante e bela. Quando Rhys a deixou  porta da escola, ela disse:
- No sei como lhe agradecer. Foi o que de melhor j me aconteceu na vida.
- Agradea a seu pai - disse Rhys, sorrindo. - Foi tudo idia dele.
Mas Elizabeth sabia que isso no era verdade.
Chegou  concluso de que Rhys Williams era o homem mais admirvel que ela j havia visto. E sem dvida o mais bonito.
Foi dormir naquela noite pensando nele. Em dado momento, levantou-se e foi at  sua pequena mesa, em frente  janela.
Pegou um pedao de papel: "Madame Rhys Williams".
Ficou muito tempo olhando para o que escrevera.
Rhys adiou por vinte e quatro horas um encontro com uma glamourosa actriz, mas no se incomodou muito. Foi tambm ao Maxim's com ela e no pde deixar de pensar 
que o jantar com Elizabeth fora bem mais interessante.
Ela seria algum com quem ele poderia contar um dia.
Elizabeth nunca pde ter certeza de quem fora o maior responsvel pela transformao que se operara nela, se o velho Samuel Roffe ou Rhys Williams. A verdade  que 
passou a ter uma nova conscincia de si mesma. Perdeu a compulso de comer constantemente, e seu corpo foi ficando cada vez mais esbelto.
Comeou a gostar de desportos e a se interessar pela escola.
Fazia um esforo para dar-se bem com as colegas, que no podiam acreditar nisso. Tinham sempre convidado Elizabeth para as suas festas de pijamas e ela nunca fora. 
Compareceu inesperadamente uma noite. A festa se realizava num quarto onde dormia quatro moas, e quando Elizabeth chegou, j havia duas dzias de alunas, todas 
de pijamas ou roubes. Umas das moas olhou-a com surpresa e disse:
- Estvamos apostando que voc no viria.
- Pois estou aqui.
O ar estava cheio do aroma acre e adocicado da fumaa dos cigarros. Elizabeth percebeu que muitas garotas estavam fumando maconha, mas ela nunca havia passado por 
essa experincia. Uma das moas do quarto, uma francesa chamada Rene Tocar, aproximou-se de Elizabeth fumando um toco de cigarro marrom.
Deu uma longa tragada e ofereceu a Elizabeth:
- Voc fuma?
Era mais uma afirmao do que uma pergunta.
-  claro - mentiu Elizabeth.
Ela pegou o cigarro, hesitou um momento, colocou-o entre os lbios e deu uma tragada. Sentiu um comeo de nusea e um baque nos pulmes, mas conseguiu sorrir e murmurou:
- Bom.
No momento em que Rene virou as costas, Elizabeth estendeu-se no sof. Sentiu um comeo de vertigem, mas isso passou num instante. Experimentou dar mais uma tragada. 
Comeou a sentir a cabea estranhamente leve. Elizabeth tinha lido alguma coisa sobre o efeito de maconha. Dizia-se que suprimia inibies e fazia a pessoa sair 
de si mesma. Aspirou novamente, bem fundo desta vez, e comeou a ter uma sensao agradvel de flutuao, como se estivesse em outro planeta. Via as moas no quarto 
e as ouvia falar, mas tudo estava confuso e indistinto, imagens e sons. Fechou os olhos. No mesmo instante, saiu flutuando pelo espao. Era uma sensao deliciosa. 
Viu-se a voar sobre os telhados da escola e depois sobre os Alpes cobertos de neve, num mar de nuvens algodoadas. De repente, ouviu algum cham-la pelo nome, trazendo-a 
de volta  terra. Elizabeth abriu os olhos. Rene estava curvada sobre ela, com um ar de preocupao no rosto.
- Voc est bem, Roffe?
Elizabeth sorriu, feliz, e murmurou:
- Estou muito bem. - E confessou na sua infinita euforia.  a primeira vez que fumo maconha.
- Maconha? - exclamou Rene. - Mas eu lhe dei apenas um Gauloise.
Do outro lado da aldeia, havia uma escola de rapazes, e as colegas de Elizabeth aproveitavam todas as oportunidades de encontrar-se com eles. As moas falavam constantemente 
sobre os rapazes. Sobre os corpos deles, o tamanho de seus rgos, o que deixavam os rapazes fazer com elas e o que faziam com os rapazes. As vezes, Elizabeth tinha 
a impresso de que estava perdida dentro de uma escola cheia de ninfomanacas delirantes.
Tinham a obsesso do sexo. Uma das moas ficara completamente nua e se deitava de costas na cama, enquanto outra a acariciava dos seios s coxas. O pagamento era 
um doce comprado na aldeia. Dez minutos de frlage valia um doce. Em dez minutos, a moa em geral chegava ao orgasmo, mas, quando no acontecia, a garota incumbida 
das frlage podia continuar e ganhava mais um doce.
Outro divertimento sexual favorito era usufrudo no banheiro. A escola tinha grandes banheiras antigas, equipadas com chuveiros manuais flexveis que podiam ser 
retirados de um gancho na parede. as moas se sentavam na banheira, ligavam o chuveiro e, quando a gua quente comeava a correr, colocava o chuveiro entre as pernas 
e o movia lentamente para cima e para baixo.
Elizabeth no praticava nem as frlage nem os jogos com o chuveiro, mas os impulsos sexuais eram cada vez mais fortes dentro dela. Foi mais ou menos nessa poca 
que ela fez uma descoberta que a deixou atordoada.
Uma das professoras de Elizabeth era uma mulher pequena chamada Harriot Chantal. Tinha cerca de trinta anos, e era um pouco mais que uma estudante. Tinha feies 
atraentes e quando sorria chegava a ser bela. Era a professora mais simptica de Elizabeth, que sentia profunda atraco por ela. Sempre que se sentia infeliz, Elizabeth 
ia procurar Mlle Harriot e lhe contava seus problemas. A professora era uma ouvinte atenta.
Quando Elizabeth acabava, ela lhe tomava amistosamente a mo, dava-lhe conselhos sensatos e depois lhe oferecia uma xcara de chocolate quente com bolinhos. Imediatamente, 
Elizabeth se sentia melhor.
Mlle Harriot ensinava francs e dava tambm aulas sobre moda, em que acentuava a necessidade de estilo e harmonia de cores, bem como do uso de acessrios convenientes.
- No se esqueam de que o vestido mais elegante do mundo parecer horrvel se for usado com acessrios errados.
"Acessrios" era a divisa de Mlle Harriot.
Sempre que Elizabeth se encontrava na banheira quente, surpreendia-se a pensar em Mlle Harriot, na expresso do seu rosto quando estavam juntas e na maneira pela 
qual a professora lhe acariciava a mo com delicadeza e ternura.
Quando Elizabeth estava em outras aulas, o seu pensamento se voltava para Mlle Harriot e recordava as ocasies em que a professora tinha passado os braos pelo corpo 
dela a fim de consol-la e tinha tocado em seus seios. A princpio, Elizabeth pensava que esses contactos fossem casuais, mas haviam se repetido, e, nessas ocasies, 
Mlle Harriot havia olhado Elizabeth com carinho e interrogao, como se esperasse uma reaco. Em sua imaginao, Elizabeth podia ver Mlle Harriot com seios fartos 
e pernas brancas, e pensou em como ela pareceria nua numa cama. Foi ento que teve a sbita compreenso que a deixou aturdida.
Ela era lsbica.
No estava interessada nos rapazes, porque gostava das mulheres. No das tolinhas que eram suas colegas, mas de uma mulher sensvel e compreensiva como Mlle Harriot. 
Elizabeth podia imaginar as duas juntas, a abraar-se e confortar-se.
Elizabeth tinha lido e ouvido muitas coisas sobre as lsbicas e sabia como a vida era difcil para elas. A sociedade no aprovava o lesbianismo, considerava-o um 
crime contra a natureza. Mas que mal havia, pensava Elizabeth, em amar algum profundamente? Que importncia tinha que se tratasse de um homem ou de uma mulher? 
O importante no era o amor?
Elizabeth pensou como seu pai ficaria horrorizado quando soubesse a verdade. Ora, era uma coisa que ela teria de enfrentar. Era preciso reajustar as suas idias 
sobre o futuro.
Nunca poderia ter uma vida normal como as outras moas, que iriam casar e ter filhos. aonde quer que ela fosse, seria sempre uma mulher excluda e rebelde, que viveria 
longe da corrente da sociedade. Ela e Mlle Harriot Chantal viveriam num apartamento ou talvez numa casinha. Elizabeth decoraria tudo com cores suaves, sem faltar 
um s acessrio necessrio. Teriam graciosos mveis franceses e belos quadros nas paredes. O pai poderia ajudar... No, ela no queria nenhuma ajuda do pai. O mais 
provvel era que ele nunca mais falaria com ela.
Elizabeth pensou no seu guarda-roupa. Poderia ser uma lsbica, mas no se vestiria como as mulheres da espcie. Nada de tweeds, calas compridas, ternos ou chapus 
vagamente masculinos, que funcionariam como as campainhas advertncias dos leprosos para mulheres emocionalmente aleijadas. Procuraria ser sempre to feminina quanto 
possvel.
Resolveu aprender a ser uma grande cozinheira para fazer os pratos favoritos de Mlle Harriot Chantal. Imaginou as duas no seu apartamento ou na casinha, jantando 
 luz de velas os pratos que ela havia preparado. Primeiro, haveria uma vichyssoise, seguida de uma excelente salada. Depois, camares ou talvez lagosta, quem sabe 
um chateaubriand, com um gostoso sorvete de sobremesa, Depois do jantar, sentar-se-iam no cho diante da lareira acesa, vendo a neve cair atravs das janelas.
Neve! Seria, portanto, no inverno. Elizabeth modificou s pressas o menu. Em lugar de uma vichyssoise fria, faria uma sopa de cebola ou talvez uma fondwe. A sobremesa 
seria um sufl. Teria de aprender a tempo para no falhar. Em seguida, as duas ficariam sentadas diante do fogo, lendo poesia uma para a outra. T. S. Eliot talvez. 
Ou V. J. Rajadhon.
"O tempo  inimigo do amor, Ladro que abrevia Todas as nossas horas douradas.
Nunca pude compreender por que Os que amam contam a sua felicidade Em dias, noites e anos, Quando o amor s pode ser medido pElas alegrias, suspiros e lgrimas." 
Ah... Elizabeth podia ver os anos se desenrolarem diante dela at a passagem do tempo dissolver-se num claro dourado e quente.
Adormecia ento.
Elizabeth estava esperando alguma coisa desse tipo, mas, quando aconteceu, colheu-a inteiramente de surpresa. Acordou uma noite ao sentir que algum entrava no seu 
quarto e fechara a porta sem fazer barulho. Abriu os olhos. Viu um vulto atravessar o quarto e aproximar-se da cama dela. A luz do luar que se infiltrava pelas janelas 
atingiu o rosto de Mlle Harriot Chantal. O corao de Elizabeth comeou a bater desordenadamente.
- Elizabeth - disse Chantal num sussurro e deixou cair o robe.
No estava usando nada por baixo. Elizabeth sentiu a boca seca. Pensava tanto naquele momento e, quando tudo estava acontecendo, sentia apenas medo. Na verdade, 
no sabia ao certo o que tinha de fazer ou como proceder. No queria parecer ridcula aos olhos da mulher que amava.
- Olhe para mim - ordenou Chantal.
Elizabeth olhou. Deixou os olhos correrem pelo corpo nu da outra. Harriot Chantal no era exactamente o que Elizabeth havia imaginado. Os seios lembravam maas enrugadas 
e eram um tanto cados. Tinha uma pequena barriga arredondada e o derrire parecia - Elizabeth no encontrou outra palavra no momento - pendurado.
Mas nada disso tinha importncia. O que importava era o que havia sob o exterior, a alma da mulher, a coragem que ela tinha de ser diferente, de desafiar o mundo 
inteiro e de querer passar o resto da vida com Elizabeth.
- Chegue para l, mon petit ang - murmurou ela.
Elizabeth obedeceu, e a professora se deitou ao lado dela. O corpo dela tinha um forte cheiro de animal. Ela virou-se arara.
Elizabeth, abraou-a e disse:
- Oh, chrie, tenho sonhado tanto com este momento!
Beijou-a ento, forando a lngua na boca de Elizabeth e dando pequenos gemidos.
Foi sem dvida a sensao mais desagradvel que Elizabeth j havia experimentado. Deixou-se ficar em estado de choque, enquanto os dedos de Chantal - de Mlle Harriot 
- lhe percorriam o corpo, apertando seus seios, deslizando lentamente abaixo de seu estmago, em direco s suas coxas. E durante todo o tempo ela beijava Elizabeth, 
babando-se como um animal.
Era isso ento. Era esse o momento mgico. "Se fssemos uma s pessoa, voc e eu, faramos juntamente um universo que abalaria as estrelas e moveria os cus." As 
mos de Mlle Harriot estavam acariciando as coxas de Elizabeth, tentando penetrar entre suas pernas. Rapidamente, Elizabeth procurou lembrar-se de todos os seus 
sonhos, dos jantares  luz de vela, dos sufls, das noites diante da lareira, dos anos de felicidade que as duas passariam juntas.
No adiantou. Havia repulsa na carne e no esprito de Elizabeth. Sentiu como se seu corpo estivesse sendo violentado.
Mlle Harriot gemeu.
- Oh, chrie, quero com-la.
E tudo o que Elizabeth conseguiu dizer foi:
- H um problema. Uma de ns no tem os acessrios necessrios.
Comeou ento a chorar e a rir histericamente, lamentando ver morrer a viso dos jantares  luz de velas. Ria porque compreendia que era uma mulher normal, livre 
afinal daquela obsesso.
No dia seguinte, Elizabeth experimentou o esguicho do chuveiro.

Captulo 13
Nas frias da Pscoa, no seu ltimo ano na escola, aos dezoito anos de idade, Elizabeth foi passar dez dias na villa da Sardenha. Aprendera a dirigir e, pela primeira 
vez, tinha liberdade de explorar a ilha sozinha. Fazia longas excurses pela costa e visitava as aldeias de pescadores. Tomava banho de mar na villa, sob o sol quente 
do Mediterrneo, muitas vezes ficava acordada  noite na cama, ouvindo o vento a gemer nos rochedos ocos. Foi a uma festa em Tempos e encontrou toda a aldeia vestida 
com trajes tradicionais. Ocultas sob o anonimato das mscaras, as moas convidavam os rapazes para danas, e todos se sentiam estimulados a fazer coisas que no 
faziam em ocasies normais. Um rapaz podia pensar que conhecia a moa com quem fizera amor  noite, mas na manh seguinte j no tinha tanta certeza. Era, pensou 
Elizabeth, como se a aldeia inteira representasse The guatdsman.
Foi at Punta Murra e viu os sardos assarem carneiros ao ar livre. Os homens da ilha lhe deram seada, um queijo de cabra, coberto de farinha de trigo e mel quente. 
Elizabeth bebeu tambm o delicioso selememont, o vinho local, que no se podia provar em nenhum lugar do mundo, pois era muito delicado para suportar a viagem.
Um dos lugares que Elizabeth gostava de frequentar era a Hospedaria do Leo Vermelho, em Porto Cervo. Era um pequeno restaurante localizado no poro, com dez mesas 
e um bar antigo.
Elizabeth deu quelas frias o nome de Tempo dos Rapazes.
Eram filhos de ricos e chegavam em grupos, convidando Elizabeth para uma ronda constante de banhos de Mar e passeios. Era isso o preldio do acto sexual.
- So todos muito bons partidos - assegurou-lhe o pai.
Para Elizabeth, eram todos uns grosseires. Bebiam demais, falavam demais e apalpavam-lhe o corpo. Tinha certeza de que a procuravam no por ela mesma, nem porque 
ela fosse inteligente ou tivesse valor como ser humano, mas apenas porque ela era uma Roffe, herdeira da fortuna da famlia. Elizabeth no tinha idia de que havia 
se transformado numa bela mulher, porque era muito fcil acreditar nas suas lembranas do passado do que no que lhe dizia nessa poca o espelho.
Os rapazes tomavam vinho e jantavam com ela, tentando depois lev-la para a cama. Percebiam que Elizabeth era virgem e cada qual sentia, na sua vaidade masculina, 
que aquela virgindade lhe estava destinada e que bastaria conquist-la para Elizabeth apaixonar-se e ser uma escrava pelo resto da vida. No desistiam. Fosse para 
onde fosse que levassem Elizabeth, sempre terminavam a noite convidando-a a ir para a cama. Ela recusava com polidez, mas com firmeza.
Os rapazes no podiam compreend-la. Achavam-na bonita e, portanto, devia ser um pouco inteligente. Nunca lhes ocorrera que ela fosse mais inteligente do que eles. 
Quem j ouvira falar de uma moa ao mesmo tempo bonita e inteligente?
Assim Elizabeth saa com os rapazes para fazer a vontade do pai, mas aborrecia-se com todos eles.
Rhys Williams apareceu na villa, e Elizabeth ficou surpresa com o prazer que sentiu ao v-lo. Estava ainda mais simptico do que da outra vez.
Rhys Williams sentiu prazer tambm em v-la.
- Que foi que houve com voc? - perguntou ele.
- Como assim?
- Tem-se olhado ao espelho ultimamente?
Elizabeth se voltou e respondeu:
- No.
Ele se voltou para Sam e disse:
- A menos que todos os rapazes sejam cegos, surdos e mudos, acho que no vamos ter Elizabeth connosco por muito tempo.
Connosco! Elizabeth gostou de ouvi-lo dizer isso. Ficava com os dois homens tanto quanto podia, servindo-lhes bebidas, prestando-lhes pequenos favores, contente 
apenas de olhar para Rhys.
s vezes, Elizabeth ficava num canto da sala, enquanto eles falavam de negcios, e sentia-se fascinada. Falavam de fuses, de novas fbricas, de produtos que tinham 
feito sucesso e de outros que haviam falhado, debatendo as causas. Falaram dos concorrentes e planejavam campanhas e estratgias. Tudo isso parecia empolgante a 
Elizabeth.
Um dia, quando Sam estava trabalhando na sala da torre, Rhys convidou Elizabeth para almoar. Levou-a para o Leo Vermelho, jogou dados com os homens do bar, e Elizabeth 
se admirou de como Rhys parecia  vontade ali. Era um homem que se adaptava a qualquer ambiente. Ouvira um dia uma expresso espanhola, que no compreendera na ocasio. 
Mas, vendo Rhys, entendia o que os espanhis queriam exprimir quando diziam que um homem "cabia bem dentro da sua pele".
Sentaram-se a uma mesinha de canto com uma toalha vermelha e branca e comeram empado de carneiro acompanhado de cerveja.
Rhys lhe perguntou como ia a escola.
- No  to ruim quanto eu pensava - disse Elizabeth. ao menos, tive conscincia da minha ignorncia.
Rhys sorriu.
- So raras as pessoas que adquirem essa conscincia. Voc concluir o curso em junho, No ?
Elizabeth estranhou que ele soubesse disse e respondeu:
-  verdade.
- J sabe o que quer fazer quando sair de l?
Pensara muito nisso e ainda no encontrara uma resposta.
- No. Ainda no sei.
- Tem algum interesse em se casar?
Por um instante, o corao dela falhou uma batida.
Compreendeu ento que a pergunta tinha apenas um interesse geral.
- No. Ainda no Encontrei ningum.
Pensou ento em Mlle Harriot e nos jantares ntimos diante da lareira com a neve caindo l fora, e deu uma risada.
- H algum segredo? - perguntou Rhys.
- Segredos?
Gostaria de contar tudo a ele, mas ainda no o conhecia bem.
Na verdade, quase no o conhecia. Era um desconhecido elegante e simptico que um dia tivera pena dela e a levara para comemorar o seu aniversrio com um jantar 
em Paris. Sabia que ele era brilhante no mundo dos negcios e que seu pai na verdade confiava nele. Mas nada sabia da vida particular dele ou do que ele na realidade 
era. Observando-o, Elizabeth tinha a impresso de que se tratava de um homem de vrias camadas, que s mostrava algumas emoes para esconder aquelas que realmente 
sentia. Era de duvidar que algum o conhecesse de facto.
Rhys Williams foi responsvel pela perda da virgindade de Elizabeth.
A idia de ir para a cama com um homem era a cada dia mais imperiosa para Elizabeth. Em parte, era um impulso fsico que de vez em quando se apoderava dela em ondas 
de frustrao e uma urgncia necessria, difcil de desaparecer. Mas havia tambm a curiosidade, a vontade de saber como era.  claro que no poderia ir para a cama 
com qualquer homem. Tinha de ser algum com quem ela simpatizasse e que simpatizasse com ela.
Num sbado, o pai de Elizabeth deu um jantar de gala na villa.
- Escolha o seu melhor vestido - disse ele  filha. - quero mostr-la a todos.
Emocionada, Elizabeth pensou que seria par de Rhys. Quando Rhys chegou, estava acompanhado de uma princesa italiana loura.
Elizabeth se sentiu insultada e trada, tanto que  meia-noite saiu da festa e foi para a cama com um pintor russo barbudo, chamado Vasslov.
O breve caso foi um desastre. Elizabeth estava to nervosa e o pintor, to bbado, que para ela no houve comeo, meio, nem fim. As manobras preliminares se limitaram 
a Vasslov tirar as calas e se jogar na cama. A essa altura, Elizabeth s tinha vontade de fugir, mas resolveu ir at o fim para castigar Rhys por sua perfdia. 
Despiu-se e deitou-se na cama. Um instante depois, sem qualquer aviso, Vasslov estava a penetr-la. Era uma sensao estranha. No podia ser considerada desagradvel, 
mas tambm no era nada de fazer a terra tremer.
Sentiu o corpo de Vasslov estremecer e, um instante depois, o pintor estava estendido na cama, roncando. Elizabeth ficou ali, com nojo de si mesma. Era difcil 
acreditar que tantas canes, tantos livros, tantos poemas se referissem quilo.
Pensou em Rhys e teve vontade de Chorar.
Silenciosamente, vestiu-se e voltou para casa. Quando o pintor telefonou para ela na manh seguinte, mandou dizer que no estava. No outro dia, Elizabeth voltou 
para a escola.
Voou no jacto da companhia, juntamente com o pai e Rhys. O avio, construdo para comportar cem passageiros, fora transformado numa aeronave de luxo. Havia na calda 
dois camarotes bem decorados, ambos com banheiros completos, um escritrio, uma sala confortvel e uma cozinha totalmente equipada. Elizabeth dizia que o avio era 
o tapete mgico de seu pai.
Os dois homens falaram de negcios a maior parte do tempo.
Quando Rhys ficou livre, jogou uma partida de xadrez com Elizabeth. A partida terminou empatada, e Rhys a elogiou, dizendo que nunca havia pensado que ela jogasse 
to bem.
Elizabeth corou de prazer.
Os ltimos meses na escola passaram rapidamente. Era tempo de comear a pensar no futuro. A pergunta de Rhys: "J sabe o que fazer quando sair de l?", no lhe saa 
do pensamento, mas ainda no sabia. Entretanto, graas ao velho Samuel, Elizabeth ficara encantada com a empresa da famlia. Gostaria de trabalhar nela. No sabia 
ainda o que poderia fazer. Talvez comeasse ajudando o pai. Contavam-se ainda histrias da maravilhosa anfitri que fora sua me, do inestimvel auxlio para Sam.
Comearia procurando ficar no lugar da me. Seria um bom incio.

Captulo 14
A mo do embaixador da Sucia estava apertando as ndegas de Elizabeth, e ela procurou no tomar conhecimento disso enquanto danavam atravs do salo. Sorria e 
com os seus olhos bem-treinados inspeccionava tudo, os convidados elegantemente vestidos, a orquestra, os empregados de libr, o bufe, em que se amontoavam pratos 
exticos e excelentes vinhos, concluindo, satisfeita, que a festa estava muito boa.
Estavam no salo de baile da casa de Long Island. Havia duzentos convidados, todos importantes para a Roffe and Sons.
Elizabeth percebeu que o embaixador apertava o corpo contra o dela, tentando excit-la. Ele tocou com a lngua a orelha dela e murmurou:
- Sabe que dana muito bem?
- E o senhor tambm - disse Elizabeth com um sorriso.
Mas errou o passo deliberadamente e pisou no p do embaixador, com toda fora, com seu salto fino. Ele deu um grito de dor, e Elizabeth exclamou contritamente:
- Perdo, embaixador. Espere aqui que vou buscar-lhe um drinque.
Deixou-o e dirigiu-se para o bar, abrindo caminho por entre os convidados, correndo os olhos cuidadosamente pelo salo, para ver se tudo estava perfeito.
Perfeio - era tudo que o pai exigia. Elizabeth havia sido a anfitri j numa centena de recepes de Sam, mas ainda no aprendera a descontrair-se. Cada festa 
era um acontecimento, uma noite de estreia., com uma poro de coisas que podiam sair erradas. Entretanto, nunca se sentira mais feliz. O seu sonho de menina de 
viver perto do pai, que a queria e precisava dela, havia se tornado realidade. Aprendera a ajustar-se ao facto de que as necessidades de seu pai eram impessoais 
e de que sua importncia se limitava, para ele,  contribuio que pudesse dar  companhia. Era esse o nico critrio de Sam Roffe para julgar as pessoas. Elizabeth 
conseguira preencher a lacuna existente desde a morte de sua me. Passara a ser uma anfitri.
Mas, como Elizabeth era uma moa muito inteligente, passara a ser mais que isso. Comparecia a conferncias comerciais com o pai e o acompanhava em avies, em sutes 
de hotis no estrangeiro, em fbricas, embaixadas e palcios. Via o pai exercer o seu poder, empregando os bilhes de dlares  sua disposio para comprar e vender, 
para derrubar e construir. A Roffe and Sons era uma vasta cornucpia, e Elizabeth via o pai dispensar as suas ddivas aos amigos e recusar qualquer concesso aos 
inimigos. Era um mundo fascinante, cheio de pessoas interessantes, e Sam Roffe dominava tudo.
Quando Elizabeth correu os olhos pelo salo de baile, viu Sam perto do bar, conversando com Rhys, um primeiro-ministro e um senador da Califrnia. O pai a chamou 
e ela se encaminhou para ele, pensando no tempo em que, trs anos antes, tudo comeara.
Elizabeth tinha voado para casa no dia da formatura. Sua casa, ento, era o apartamento em Beekman Place, Nova York.
Rhys estava l com o pai. Ela esperava certamente encontr-lo.
Levava a imagem dele nos recantos secretos dos seus pensamentos e, sempre que estava sozinha, reconfortava-se com as recordaes. A princpio, tudo tinha parecido 
sem esperana.
Ela era uma colegial de quinze anos e ele, um homem de vinte e cinco. Esses dez anos de diferena podiam muito bem ser cem.
Mas, graas a alguma admirvel alquimia matemtica, aos dezoito anos a diferena de idade j parecia ter menos importncia.
Era como se ela estivesse amadurecendo mais depressa do que Rhys, na nsia de alcan-lo.
Os dois homens se levantaram quando ela entrou na biblioteca, onde estavam falando de negcios. Sam disse calmamente:
- Ah, Elizabeth... J chegou?
- J.
- Disse ento adeus  escola?
- Disse, sim.
- Muito bem.
E no passou da a cordialidade com que o pai a recebeu de volta para casa. Rhys, porm aproximou-se dela com um sorriso.
Parecia sinceramente satisfeito de v-la.
- Voc est ptima, Liz! Como foi a formatura? Sam queria muito ir, mas no pde fazer a viagem.
Ele estava dizendo todas as coisas que cabia ao pai dela dizer.
Elizabeth se aborreceu de ter ficado magoada. Sabia que, na verdade, o pai no deixara de am-la, mas estava entregue a um mundo de que ela no fazia parte. Teria 
levado um filho para esse mundo; uma filha, era impossvel. Ela no se ajustava de modo algum  mecnica da companhia.
- Vim interromper - murmurou ela, encaminhando-se para a porta.
- Espere um pouco - disse Rhys. - Ela chegou bem na hora, Sam. Pode ajudar-nos na festa de sbado  noite.
Sam olhou para Elizabeth, examinou-a objectivamente, como se quisesse aquilatar o seu valor. Parecia-se com a me. Tinha a mesma beleza, a mesma elegncia natural. 
Um lampejo de interesse brilhou nos olhos de Sam. Nunca lhe havia ocorrido a idia de que ela pudesse dar uma contribuio positiva aos interesses da Roffe and Sons.
- Voc tem um vestido adequado?
Elizabeth olhou-o, surpresa, e murmurou:
- Eu...
- No tem importncia. Compre o vestido. Sabe o que deve fazer numa festa?
- Sem dvida.  claro que sei o que se deve fazer numa festa.
No era essa uma das vantagens de uma boa escola sua?
Ensinam l todos os princpios e regras da sociedade.
- ptimo. Convidei um grupo da Arbia Saudita. Devem vir mais ou menos...
Voltou-se para Rhys, que sorriu para Elizabeth e disse:
- Mais ou menos umas quarenta pessoas.
- Deixem tudo comigo - disse ento Elizabeth, cheia de confiana.
O jantar foi um desastre completo.
Elizabeth tinha dito ao cozinheiro que preparasse coquetel de caranguejos, seguindo de cassoulets individuais, que seriam servidos com bons vinhos. Infelizmente, 
os cassoulets tinham carne de porco e os rabes no tocavam nem em crustceos, nem em carne de porco. No tomavam, alm disso, bebidas alcolicas.
Os convidados olharam para a comida,, mas no provaram coisa alguma. Elizabeth, sentada  cabeceira da mesa, tendo o pai  outra cabeceira, ficou petrificada de 
vergonha, sentindo a sua derrota.
Foi Rhys Williams que salvou a noite. Desapareceu por um instante no escritrio e telefonou. Voltou ento para o salo de jantar e comeou a distrair os convidados, 
contando histrias divertidas, enquanto os empregados tiravam os pratos da mesa.
Quase no mesmo instante, segundo pareceu, uma frota de camies chegou ao edifcio e, como por encanto, uma variedade de pratos comeou a aparecer na mesa. Cuscuz 
rabe e carneiro en brochete, travessas de peixe e galinha assada, seguidos de doces, queijos e frutas secas. Todos apreciaram a comida, menos Elizabeth. Estava 
to acabrunhada que no conseguia engolir um s bocado. Sempre que olhava para Rhys, este a estava observando com um brilho de cumplicidade no olhar. Elizabeth no 
saberia explicar a razo, mas estava mortificada com o facto de que Rhys no s tivesse assistido  sua desmoralizao, mas ainda a tivesse salvo. Quando tudo terminou 
e os convidados saram com relutncia j s primeiras horas da madrugada, Elizabeth, Sam e Rhys se reuniram na sala de estar.
Rhys estava servindo conhaque.
Elizabeth respirou fundo e voltou-se para o pai.
- Desculpe o que houve no jantar. Se no fosse Rhys...
- Tenho certeza de que da prxima vez voc se sair melhor disse Sam, sem maior interesse.
Mas Sam acertara. Da por diante, quando havia uma recepo, fosse para quatro ou quatrocentas pessoas, Elizabeth fazia pesquisas sobre os convidados, descobria 
seus gostos e preferncias, e at o tipo de acolhimento que lhes agradava.
Tinha um catlogo com fichas de cada pessoa. Os convidados se sentiam envaidecidos de encontrar sempre o vinho, o usque ou os charutos de que gostavam, e de ter 
em Elizabeth uma pessoa que podia conversar com conhecimento de causa sobre o assunto que mais lhes interessava.
Rhys comparecia a quase todas as recepes, sempre acompanhado de belas mulheres. Elizabeth detestava-as todas, mas procurava imit-las. Se Rhys aparecia com uma 
mulher com os cabelos penteados para trs, ela tentava o mesmo penteado.
Procurava imit-las em tudo. Mas nada disso parecia impressionar Rhys. ao contrrio, no notava coisa alguma.
Frustrada, Elizabeth resolveu afinal ser ela mesma e no imitar mais ningum.
Na manh do seu vigsimo primeiro aniversrio, quando Elizabeth desceu para o caf, o pai lhe disse:
- Encomende algumas entradas de teatro para esta noite.
Depois iremos jantar no 21.
Elizabeth pensou que o pai se tivesse lembrado do seu aniversrio e ficou radiante.
Mas Sam acrescentou:
- Seremos doze pessoas. Vamos comemorar os novos contratos bolivianos.
Ela nada disso sobre o aniversrio. Recebeu alguns telegramas de antigas colegas, e foi s. s seis da tarde recebeu um enorme buqu de flores. Elizabeth pensou 
que fosse o pai que as houvesse mandado. Mas o carto que acompanhava as flores dizia:
"Um belo dia para uma bela mulher. Rhys." O pai saiu de casa s sete horas para o teatro. Viu as flores e perguntou:
- Algum pretendente?
Elizabeth teve vontade de dizer que se tratava de um presente de aniversrio, mas de que adiantava? Quando se tem de lembrar o prprio aniversrio a uma pessoa amada, 
ento  tudo intil.
Viu o pai sair e ficou sem saber o que iria fazer naquela noite. Os vinte e um anos sempre tinham lhe parecido um marco importante na vida. Significavam a maioridade, 
a liberdade, a transformao numa mulher. Bem, o dia mgico havia chegado, e ela no se sentia diferente em nada do que tinha sido no ano anterior ou dois anos antes. 
Por que ele no se lembrara? Se fosse um filho, teria esquecido?
O mordomo apareceu para lhe perguntar sobre o jantar.
Elizabeth no estava com fome. Sentia-se sozinha e abandonada.
Sabia que estava pensando demais em si mesma, mas o que podia fazer? O que ela lamentava no era apenas aquele aniversrio solitrio, mas todos os outros aniversrios 
do passado, a dor cresceu sozinha, sem ter uma me, um pai ou qualquer pessoa que tivesse o menor interesse por ela.
s dez horas da noite, estava vestida com um robe, sentada no escuro, diante da lareira. De repente, ouviu uma voz que dizia:
- Parabns pra voc!
As luzes se acenderam e ela viu Rhys Williams. Encaminhou-se para ela e disse:
- Isso  l maneira de festejar o seu aniversrio? Quantas vezes voc pensa que vai fazer vinte e um anos?
- Pensei que voc estivesse com meu pai esta noite - disse ela, agitada.
- Eu estava l. Mas sa quando ele disse que voc tinha ficado em casa. Vista-se e vamos jantar.
Elizabeth abanou a cabea. No queria aceitar a compaixo dele.
- Agradeo muito, Rhys. Mas no estou realmente com fome.
- Mas eu estou com fome e no gosto de comer sozinho. Tem cinco minutos para se vestir. Do contrrio, vou lev-la como est.
Comeram numa lanchonete, em Long Island, hambrgueres com chili, batatas fritas e cebolas, tudo acompanhado de refrigerantes. Conversaram muito, e Elizabeth pensou 
que aquele jantar ainda era melhor do que o do Maxim's. Toda a ateno de Rhys se concentrava nela, e ela comeou a compreender por que ele atraa tanto as mulheres. 
No se tratava apenas de sua aparncia fsica. Era tambm o facto de que ele gostava realmente das mulheres e sentia prazer na companhia delas. Fez Elizabeth sentir-se 
como algum especial, algum cuja companhia ele preferia  de qualquer outra pessoa do mundo. No era de admirar que as outras se apaixonassem por ele.
Rhys contou-lhe um pouco da sua infncia no Pas de Gales e fez tudo parecer admirvel, aventuroso e alegre.
- Sa de casa, Liz porque havia em mim a fome de ver tudo e fazer tudo. Queria ser as pessoas que eu via. Eu no era bastante para mim. Pode compreender isso?
Como ela compreendia bem tudo aquilo!
- Trabalhei em parques, em praias e houve um vero em que trabalhei levando turistas em coracle pelo Rhosili...
- Espere um pouco, Rhys. O que  coracle e o que  o Rhosili?
- O Rhosili  um rio turbulento e veloz, cheio de correntezas e corredeiras. Os caracles so barcos feito de armao de madeira coberta de couro. Devem ser anteriores 
ao tempo dos romanos. Nunca esteve no Pas de Gales, no? Voc adoraria aquilo. H uma cachoeira no vale de Neath que  uma das coisas mais belas do mundo. H tantos 
bonitos para ver!... Aber-Eiddi, Caerbwdi, Porthclais, Kilgetty, Llangwm....
E as palavras lhe rolavam dos lbios como uma cadncia musical.
-  uma terra ainda selvagem e primitiva, cheia de surpresas mgicas.
- Apesar disso, voc deixou o Pas de Gales...
Rhys sorriu e disse:
- Era a fome que havia em mim. Eu queria ser dono do mundo...
O que ele no disse foi que a fome ainda no se lhe aplacara no corao.
No decorrer dos trs anos seguintes, Elizabeth tornou-se indispensvel ao pai. Sua funo era tornar a vida dele confortvel para que pudesse concentrar-se naquilo 
que tinha exclusiva importncia para ele: os negcios. Os detalhes de sua vida particular eram inteiramente confiados a Elizabeth. Ela contratava e despedia empregados, 
abria e fechava vrias casas de acordo com as necessidades do pai e presidia s recepes para ele.
Mais ainda, ela se tornou os olhos e os ouvidos de Sam.
Depois de uma reunio de negcios, Sam pedia a opinio dela sobre este ou aquele homem ou lhe explicava por que motivo tinha agido desta ou daquela maneira. Ela 
o via tomar decises que afectavam a vida de milhares de pessoas e envolviam centenas de milhes de dlares. Tinha visto chefes de Estados pedirem a Sam que abrisse 
uma fbrica ou deixasse de fichar outra.
Depois de uma dessas reunies, Elizabeth disse ao pai:
-  incrvel!  como se voc estivesse governando um pas.
Sam riu e replicou:
- A Roffe and Sons tem uma receita superior  de trs ou quatro dos pases do mundo.
Nas suas viagens com o pai, Elizabeth conheceu as outras pessoas da famlia Roffe, seus primos e primas e as pessoas com quem eram casados.
Quando era mocinha, vira-os quando iam visitar seu pai ou quando ela ia visit-los nas breves frias da escola.
Simonetta e Ivo Palazzi, em Roma, tinham sido sempre os mais agradveis. Eram francos e cordiais, e Ivo sempre fizera Elizabeth sentir-se mulher. Ivo era encarregado 
da diviso italiana da Roffe and Sons, e sempre se sara muito bem. As pessoas gostavam de tratar com ele. Elizabeth se lembrava do que lhe dissera uma das suas 
colegas depois de conhec-lo:
"Sabe por que eu gosto de seu primo? Tem calor e fervor.
Ivo era assim: calor e fervor.
Havia depois Hlne Roffe-Martel e seu marido Charles, em Paris, Elizabeth nunca havia realmente compreendido Hlne, nem se sentia  vontade com ela. Era sempre 
gentil com ela, mas havia uma fria reserva que Elizabeth no conseguia romper.
Charles era o chefe da filial francesa da Roffe and Sons. Era competente, embora, segundo dizia Sam, lhe faltava energia.
Podia cumprir ordens, mas no tinha esprito de iniciativa. Sam nunca o substitura porque, apesar de tudo, a filial francesa era muito rentvel. Elizabeth suspeitava 
de que Hlne Roffe-Martel fosse em grande parte a causa desse sucesso.
Elizabeth gostava da prima alem Anna Roffe Gassner e de seu marido Walther. Lembrava-se de ter ouvido dizer nas conversas de famlia que Anna se cassara com um 
homem socialmente inferior. Walther Gassner era considerado na famlia uma ovelha negra, um caa-dotes, que se casara com uma mulher feia e mais velha do que ele, 
com os olhos no dinheiro dela. Elizabeth no julgava sua prima feia. Achara sempre que se tratara de uma pessoa tmida e sensvel, reservada e um pouco apavorada 
diante da vida. Elizabeth tinha gostado de Walther desde o primeiro instante. Tinha o perfil clssico de um astro de cinema, mas no se mostrava arrogante nem falso. 
Parecia amar sinceramente Anna, e Elizabeth no acreditava nas coisas terrveis que dele contavam.
Entre todos os seus parentes, Alec Nichols era o predilecto de Elizabeth. A me dele tinha sido uma Roffe que se casara com Sir George Nichols, terceiro baronete. 
Era a Alec que Elizabeth havia sempre recorrido quando tinha um problema. Talvez em vista da sensibilidade e da gentileza de Alec, a menina sempre o julgara seu 
igual e s agora compreendia que grande elogio isso representava para Alec. Ele sempre a tratara em p de igualdade, disposto a oferecer-lhe ajuda e conselhos.
Elizabeth se lembrava de que, num momento de grande desespero, resolvera fugir de casa. Arrumou as roupas numa maleta e ento, num sbito impulso, telefonou para 
Alec em Londres a fim de despedir-se dele. Ele estava participando de uma conferncia, mas foi ao telefone e falou com Elizabeth por mais de uma hora. ao fim da 
conversa, Elizabeth resolveu perdoar o pai e dar-lhe mais uma chance.
Assim era Sir Alec Nichols. Vivian, a mulher dele, era, porm, completamente diferente. Tanto quanto Alec era generoso e gentil, Vivian era egosta e imprevidente. 
Era a criatura mais egocntrica que Elizabeth j havia conhecido.
Anos antes, quando Elizabeth estava passando um fim de semana na casa de campo deles, em Gloucestershire, foi fazer um piquenique sozinha. Mas comeou a chover e 
ela voltou para casa. Entrou pela porta dos fundos e atravessava o corredor quando ouviu vozes alteradas no escritrio.
- Estou cansada de servir de bab para essa fedelha - dizia Vivian. - Pode ficar com sua danada priminha e tratar de diverti-la esta noite. Vou a Londres. Tenho 
um compromisso.
- Voc pode cancelar esse compromisso, Vivian. A menina s vai ficar mais um dia connosco e depois...
- Sinto muito, Alec. Estou precisando de homem, e  isso que eu vou fazer esta noite.
- Pelo amor de Deus, Vivian!
- Veja se me esquece! E no tente viver minha vida por mim!
Neste momento, antes que Elizabeth pudesse mover-se, Vivian saiu impetuosamente do escritrio. Olhou de relance o rosto espantado de Elizabeth e disse alegremente:
- J voltou, queridinha?
E subiu.
Alec chegou  porta do escritrio e disse gentilmente:
- Entre, Elizabeth.
Ela acompanhou o primo sem muita disposio. O rosto de Alec estava vermelho de vergonha e confuso. Elizabeth gostaria muito de consol-lo, mas no sabia o que 
dizer. Alec dirigiu-se para uma mesa grande de refeitrio, pegou um cachimbo, encheu-o de fumo e acendeu-o.
Elizabeth teve a impresso de que ele gastara um tempo enorme nisso.
- Voc deve compreender Vivian.
- Alec, no tenho nada com isso. Eu...
- De certo modo tem, Elizabeth. Voc  da famlia e eu no quero que pense mal dela.
Elizabeth no podia acreditar. Depois da horrvel cena que acabara de presenciar, Alec estava querendo defender a mulher.
- s vezes, num casamento - continuou Alec - marido e mulher tm necessidades diferentes. No quero que voc pense mal de Vivian pelo facto de eu no poder atender 
a certas necessidades dela. Vivian no tem culpa...
Elizabeth no pde conter-se.
-Ela costuma... gozar da companhia de outros homens?
- Creio que sim - respondeu Alec.
Elizabeth ficou horrorizada.
- Por que no a deixa ento?
Alec deu-lhe um sorriso.
- No posso, minha filha. Acontece que eu gosto dela.
No dia seguinte, Elizabeth voltou para a escola. Mas, a partir desse dia, sentiu-se mais do que nunca ligada a Alec.
Elizabeth vivia ultimamente muito preocupada com o pai. Ele parecia ter algum problema, e ela no fazia a menor idia do que fosse. Chegara um dia a perguntar-lhe 
e ele dissera:
- Apenas um pequeno problema que tenho de resolver. Depois lhe conto tudo.
Havia se tornado muito reservado, e Elizabeth no tinha mais acesso a seus papis particulares. Quando ele lhe disse que ia partir no dia seguinte para Chamonix 
a fim de fazer um pouco de alpinismo, Elizabeth ficou satisfeita. Sabia que ele precisava de um pouco de repouso. Tinha emagrecido e andava plido e abatido.
- Vou fazer as reservas para voc.
- No precisa, Elizabeth. J esto feitas.
Tambm isso no estava nos hbitos dele. Partiu para Chamonix na manh seguinte. Foi a ltima vez em que o viu. Nunca mais o veria...
Elizabeth ficou deitada no quarto s escuras, recordando.
Havia uma impresso de irrealidade persistente em torno da morte de seu pai.
Ela era a ltima descendente directa da famlia Roffe. Se no fosse ela, o nome desapareceria. Que iria acontecer  empresa?
Seu pai sempre tivera o controle accionrio nas mos. Para quem teria ele deixado as suas aces?
Elizabeth ficou sabendo na tarde seguinte. O advogado de Sam apareceu em sua casa.
- Trouxe uma cpia do testamento de seu pai. Sinto muito importun-la num momento triste como este, mas creio que  bom que fique sabendo o quanto antes.  a herdeira 
universal de seu pai. Isso quer dizer que as Aces que representam o controle da maioria da Roffe and Sons esto em suas mos.
Elizabeth no podia acreditar. Sam no devia ter certamente esperado que ela pudesse dirigir a empresa....
- Porqu? Porqu eu?
O advogado hesitou um pouco e disse:
- Permita-me falar-lhe com toda a franqueza. Seu pai era um homem relativamente novo. Tenho certeza de que esperava ainda ter muitos anos de vida. Com o tempo, ele 
faria naturalmente outro testamento, apontando a pessoa que deveria assumir o controle da companhia. Com toda a certeza, ainda no havia resolvido nada. Mas tudo 
agora no tem importncia. A realidade  que o controle est em suas mos e cabe-lhe decidir o que fazer, bem como escolher a pessoa que dirigir a empresa. Nunca 
houve uma mulher na directoria da Roffe and Sons, mas, no momento pelo menos, ter de tomar o lugar de seu pai. H uma reunio da directoria, na sexta-feira, em 
Zurique. Poder comparecer?
Sam no esperaria outra coisa dela.
E o velho Samuel tambm.
- Estarei l - disse Elizabeth.

LIVRO SEGUNDO

Captulo 15
Portugal. Quarta-feira, 9 de setembro. Meia-noite.
Num quarto de um pequeno apartamento da Rua dos Bombeiros, Numa das ruas escusas e tortuosas do Alto Estoril, estavam rodando uma cena para um filme. Havia quatro 
pessoas no quarto.
Um cameraman, os dois actores sentados na cama, um homem de cerca de trinta anos e uma mulher loura e jovem de uma beleza estonteante, que no usava coisa alguma 
a no ser uma fita vermelha em volta do pescoo. O homem era alto, com ombros largos de atleta e um peito largo, Estranhamente desprovido de plos. Seu pnis, mesmo 
no erecto, era enorme. A quarta pessoa era um espectador, sentado em segundo plano. Usava culos escuros e um chapu preto de abas largas.
O cameraman olhou para o espectador e este lhe fez um sinal.
O cameraman ligou a mquina e disse aos actores:
- Pronto! Aco!
O homem ajoelhou-se ante a mulher, e ela tomou seu pnis na boca, at que ele comeou a endurecer. Numa pausa a mulher disse:
- Nossa, como  grande! E depois,  ordem do cameraman, o homem penetrou-a.
- Devagar, querido. - Ela tinha uma voz alta e lamuriosa.
- Parece que voc est gostando.
- Como posso gostar? Tem o tamanho de uma melancia.
O espectador se inclinava na sua cadeira e acompanhava tudo o que estava acontecendo. Estava com a respirao ofegante.
Aquela mulher era a terceira, e ainda mais bela que as outras.
A mulher comeou a agitar-se e a gemer na cama.
- Sim, sim - gemeu. - No pare! - Ela segurou o homem pelos quadris e puxou-o em sua direco. O homem reagiu fazendo movimentos mais vigorosos e rpidos. Ela enterrou 
suas unhas nas costas nuas do homem. - Oh, sim - ela gemeu -, sim, sim, sim! Vou gozar!
O cameraman voltou-se para o espectador e este fez um sinal, com os olhos a brilhar por trs dos culos escuros.
- Agora! - disse o cameraman ao homem em cima da cama.
A mulher, empolgada nas suas sensaes, nem o ouviu. Enquanto seu rosto se enchia de xtase, as grandes mos do homem se fecharam em torno do seu pescoo e ela comeou 
a debater-se, num esforo desesperado para respirar. Olhou para o homem, espantada, e ento os seus olhos encheram-se de uma sbita e aterrorizada compreenso.
O espectador pensou:  esse o momento! Os olhos dela!
Os olhos estavam dilatados de terror. Lutou em vo para livrar-se das mos de ferro que lhe apertavam o pescoo. O seu orgasmo e os estertores da morte se fundiram.
O espectador tinha o corpo ensopado de suor. A excitao era insuportvel. No meio do mais refinado prazer da vida, a mulher morria.
De sbito, tudo acabou. O espectador estava exausto, abalado por espasmos, com os pulmes cheios de longos haustos entrecortados. A mulher fora punida.
O espectador se sentia como um deus.

Captulo 16
Zurique. Sexta-feira, 11 de setembro. Meio-dia.
A sede mundial da Roffe and Sons ocupava vinte e cinco hectares ao lado do Sprettenbach, nos arredores da parte oeste de Zurique. O edifcio da administrao consistia 
numa estrutura moderna de doze andares com paredes de vidro, elevando-se sobre um imenso conjunto de edifcios de pesquisa, fbricas, usinas, laboratrios experimentais, 
divises de planeamento e ramais de caminhos de ferro. Era o centro nervoso do vasto imprio da Roffe and Sons.
O vestbulo de recepo era arrojadamente moderno, decorado de verde e branco, os mveis dinamarqueses. Uma recepcionista ficava sentada a uma mesa de vidro, e as 
pessoas admitidas no interior do edifcio tinham de ser acompanhadas por um guia.
Nos fundos do vestbulo, do lado direito, havia uma srie de elevadores, um deles reservado para o presidente da companhia.
Naquela manh, esse elevador particular tinha sido usado pelos componentes da directoria. Haviam chegado nas ltimas horas vindos de vrios pontos do mundo, de avio, 
trem, helicpteros e automvel. Estavam reunidos naquele momento no grande salo da directoria, de alto p-direito e paredes revestidas de carvalho. L estavam Sir 
Alec Nichols, Walther Gassner, Ivo Palazzi e Charles Martel. A nica pessoa presente que no fazia parte da directoria era Rhys Williams.
Refrescos e drinques estavam servidos numa mesa ao lado, mas ningum se mostrava interessado. Todos estavam tensos e nervosos.
Kate Erling, uma sua eficiente de quase cinquenta anos, entrou na sala e anunciou:
- O carro da Senhorita Roffe acaba de chegar.
Correu os olhos pela sala a fim de ver se tudo estava em ordem: canetas, blocos de papel e garrafas de prata com gua diante de cada cadeira, charutos e cigarros, 
cinzeiros e fsforos. Kate Erling fora secretria particular de Sam Roffe durante quinze anos. O facto de ele estar morto no era motivo para que ela baixasse os 
seus padres de eficincia. ao ver que tudo estava correcto, retirou-se da sala.
Embaixo, em frente ao edifcio da administrao, Elizabeth Roffe estava saltando de um carro. Usava um costume escuro e uma blusa branca. No tinha qualquer maquilhagem. 
Parecia ter menos do que os seus vinte e quatro anos e estava muito plida e abatida.
Os jornalistas estavam  espera dela. Foi logo cercada pelos reprteres dos jornais e da televiso, munidos de cmaras e microfones.
-Sou do L'Europeu, Senhorita Roffe. Quer fazer alguma declarao.
Quem vai dirigir agora a companhia?
- Olhe para c, Senhorita Roffe. Pode dar um sorriso para os nossos leitores?
- Sou da Associated Press, Senhorita Roffe. Quer falar sobre o testamento de seu pai?
- Do Daily News, de Nova York. Seu pai no era um bom alpinista? J o encontraram?
- Do Wall Street Journal. Quer dizer-nos alguma coisa sobre a situao da companhia?
- Sou do Times, de Londres. Pretendemos escrever um artigo sobre a Roffe e...
Elizabeth seguiu pelo vestbulo, escoltada por trs guardas de segurana que abriam caminho por entre os reprteres.
- Mais uma fotografia, Senhorita Roffe...
Elizabeth se viu por fim no elevador, cujas portas se fecharam. Deu um suspiro e estremeceu. Sam estava morto. Porque no a deixavam em paz?
Alguns instantes depois, Elizabeth entrava na sala da directoria. Alec Nichols foi a primeira pessoa a cumpriment-la. Passou os braos pelos ombros dela e disse:
- Meus sentimentos, Elizabeth. Foi um choque para todos ns.
Vivian e eu tentamos telefonar-lhe, mas...
- Eu sei. Muito obrigada, Alec. Obrigada por sua carta.
Ivo Palazzi aproximou-se e beijou-a nas duas faces.
- O que  que posso dizer, cara? Voc est bem?
- Muito bem. Obrigada, Ivo. - Voltou-se. - Alo, Charles.
- Elizabeth, Hlne e eu ficamos arrasados. Se houver alguma coisa que possamos fazer...
- Obrigada.
Walther Gassner se aproximou de Elizabeth e disse sinhestramente.
- Anna e eu queremos exprimir o nosso grande pesar pelo que aconteceu a seu pai...
- Obrigada, Walther.
No queria estar ali entre toda aquela gente que lhe lembrava o pai. Queria fugir, ficar sozinha.
Rhys Williams estava de lado, pensando: Se no pararem com isso, ela vai ter alguma coisa.
Aproximou-se deliberadamente do grupo, estendeu a mo e disse:
- Alo, Liz.
- Alo Rhys.
Vira-o pela ltima vez quando ele fora at sua casa para dar-lhe a notcia da morte de Sam. Parecia que haviam se passado anos. Fora apenas uma semana antes.
Rhys tinha conscincia do esforo que Elizabeth estava fazendo para manter a linha. Disse ento:
- J que todos esto aqui, por que no comeamos? No vai demorar muito - acrescentou com um sorriso para tranquiliz-la.
Ela sorriu, agradecendo. Os homens tomaram os seus lugares habituais em volta da grande mesa rectangular de carvalho. Rhys levou Elizabeth para a cabeceira da mesa 
e puxou uma cadeira para ela.
A cadeira de meu pai, pensou Elizabeth.
Charles disse ento:
- Como no temos uma agenda, proponho que Sir Alec assuma a direco dos trabalhos.
Alec olhou em torno e, como todos manifestaram a sua aprovao, disse:
- Muito bem.
Apertou um boto que estava  sua frente na mesa e Kate Erling voltou com o caderno de notas. Fechou a porta, puxou uma cadeira, preparou o caderno e as canetas 
e esperou.
- Creio que, em vista das circunstncias, podemos dispensar as formalidades - disse Alec. - Todos ns sofremos uma terrvel perda, mas o essencial agora  que a 
Roffe and Sons mostre ao pblico uma atitude coesa e firme.
- De acordo - disse Charles. - Temos sido muito atacados pela imprensa.
Elizabeth olhou para ele e perguntou:
- Por qu?
Foi Rhys quem explicou:
- A companhia est enfrentando alguns problemas excepcionais nestes ltimos tempos, Liz. Estamos envolvidos em questes jurdicas delicadas, estamos sobre investigao 
do governo e alguns bancos esto fazendo presso sobre ns. Nada disso  bom para a companhia. O pblico adquire produtos farmacuticos porque tem confiana na companhia 
que os fabrica. Se perdermos essa confiana, perderemos os nossos fregueses.
- No h porm, um s problema que no possa ser resolvido disse Ivo. - O essencial  reorganizar imediatamente a companhia.
- Como? - perguntou Elizabeth.
- Vendendo nossas aces ao pblico - respondeu Walther.
Charles acrescentou:
- Dessa maneira, podemos liquidar os nossos emprstimos bancrios e ainda teremos dinheiro de sobra para...
No concluiu a frase e Elizabeth se voltou para Alec.
- Est de acordo com isso?
- Creio que todos ns estamos de acordo, Elizabeth.
Ela se recostou na cadeira, pensando. Rhys se aproximou dela com alguns papis.
- J mandei preparar todos os documentos necessrios. Ter apenas que assinar.
Elizabeth olhou para os papis  sua frente e perguntou:
- Se eu assinar esses documentos, o que vai acontecer?
Foi Charles quem falou:
- Temos cerca de uma dzia de escritrios internacionais de corretagem prontos a formar um consrcio para subscrever a nossa emisso. Garantiro a venda pelo preo 
que mutuamente assentarmos. Numa oferta to grande assim, haver compras de instituies e de particulares em grande nmero.
- Por exemplo, bancos e companhias de seguro? - perguntou Elizabeth.
- Exactamente.
- E haver homens de confiana deles na directoria da companhia?
-  de praxe...
- Quer dizer que, na realidade, eles passariam a controlar a Roffe and Sons?
- Ns continuaramos na directoria - apressou-se em dizer Ivo.
Elizabeth voltou-se para charles.
- Disse que h um consrcio de correctores, ainda no entraram em aco?
- No compreendo, Elizabeth...
- Escute, se todos aqui esto de acordo em que a melhor coisa para a companhia  deixar de pertencer  nossa famlia e passar s mos de estranhos, por que isso 
ainda no foi feito?
Houve um silncio constrangido, e afinal Ivo disse:
- Uma deciso assim exige um consenso unnime. Toda a directoria tem de concordar.
- Quem no concordava?. - perguntou Elizabeth.
O silncio foi mais longo desta vez.
- Sam - disse finalmente Rhys.
Elizabeth compreendeu ento o que a havia perturbado desde que entrara naquela sala. Todos tinham manifestado as suas condolncias, o choque e o pesar que sentiam 
com a morte do pai dela, mas, ao mesmo tempo, havia na sala uma atmosfera de ansiedade e expectativa, um sentimento de vitria! No lhe era possvel fugir dessa 
impresso. Todos os papis estavam prontos para ela. Teria apenas de assinar. Mas, se o que pretendiam era certo, por que o pai dela se opusera? Fez essa pergunta 
em voz alta.
- Ora, Sam tinha l as suas ideias - disse Walther. - Seu pai era, s vezes, muito obstinado em certas coisas.
Como o velho Sam, pensou Elizabeth. Nunca se deve deixar uma raposa dcil entrar no galinheiro. Um dia, a raposa pode ter fome. E Sam no quisera vender. Deveria 
ter tido muito boas razes.
Ivo disse:
- Creio, cara, que  melhor deixar tudo isso connosco. Voc no entende dessas coisas.
- Mas gostaria de entender - disse calmamente Elizabeth.
- Porqu incomodar-se com essas coisas? - perguntou Walther.
- Quando as aces forem vendidas, ter uma enorme fortuna, mais do que conseguir gastar. Poder ir viver onde quiser e gozar a vida.
O que Walther dizia era sensato. Por que iria ela envolver-se naquelas coisas? Bastava assinar os papis que estavam  sua frente e ir-se embora.
- Elizabeth, estamos simplesmente perdendo tempo - disse Charles, com impacincia. - No pode fazer outra coisa.
Foi nesse momento que Elizabeth compreendeu que poderia fazer o que quisesse, como seu pai. Podia afastar-se e deixar que eles fizessem o que bem entendessem com 
a companhia ou ficar e descobrir por que estavam todos eles to ansiosos por vender as aces e exerciam sobre ela uma presso to visvel. No s visvel como quase 
material. Todos naquela sala desejavam que ela assinasse o quanto antes aqueles papis.
Olhou para Rhys. Gostaria de saber o que ele estava pensando.
Mas a sua expresso era indefinvel. Olhou para Kate Erling, que tinha sido por muito tempo secretria de seu pai. Elizabeth gostaria de ter uma palavra em particular 
com ela. Todos olhavam para Elizabeth,  espera de que ela assinasse.
- No vou assinar - disse ela. - Pelo menos, por enquanto.
Houve um momento de atnito silncio. Walther disse ento:
- No compreendo, Elizabeth.  claro que voc deve assinar.
Tudo j est providenciado nesse sentido.
- Walther tem razo! - exclamou Charles irritadamente. - Voc tem de assinar!
Comearam a falar ao mesmo tempo, numa confuso exaltada de palavras que iam quebrar-se de encontro a Elizabeth.
- Por que no quer assinar? - perguntou afinal Ivo.
Ela no podia dizer: "Porque meu pai no assinaria. Porque vocs esto me forando". Tinha a ntida impresso de que havia alguma coisa errada em tudo aquilo, e 
estava decidida a descobrir o que era. Mas, naquele momento, disse apenas:
- Quero um pouco de tempo para pensar no assunto.
Os homens se entreolharam.
- Quanto tempo, cara? perguntou Ivo.
- No sei ainda. Gostaria de compreender os factos e as questes em jogo.
Walther exclamou iradamente:
- Ora essa! No podemos...
Mas Rhys atalhou firmemente:
- Acho que Elizabeth tem razo.
Os outros voltaram-se para ele.
- Ela deve ter oportunidade de ver com clareza os problemas que a companhia est enfrentando e chegar a uma deciso.
Todos pensaram no que Rhys havia dito.
- Concordo com isso - disse Alec.
- No faz diferena concordarmos ou no - disse amargamente Charles. - Elizabeth  quem tem o controle de tudo.
Ivo olhou para Elizabeth.
- Precisamos de uma deciso rpida, cara.
- Est bem.
Todos a olharam, cada qual ocupado com os seus pensamentos.
Um deles pensava: "Ela tambm ter de morrer".

Captulo 17
Elizabeth estava impressionada.
Havia estado outras vezes na sede da companhia em Zurique, mas sempre como visitante. O domnio sobre tudo aquilo pertencia a seu pai. Agora, o domnio era dela. 
Olhava para o enorme escritrio e sentiu-se como uma intrusa.
A sala fora magnificamente decorada por Ernst Hohl. Num canto, havia um armrio de Roentgen, sobre o qual se via uma paisagem de Millet. Diante da lareira, havia 
um sof de camura, com uma mesa de caf e quatro poltronas. Nas paredes, telas de Renoir, Chagall e Klee, bem como dois quadros da primeira fase de Courbet. A mesa 
era um bloco slido de mogno preto. ao lado dela, numa mesa menor, havia um complexo de comunicaes - telefones em ligao directa com as filiais da companhia atravs 
do mundo. Havia dois telefones vermelhos com dispositivos para baralhar as palavras, um sistema sofisticado de interfones, um telgrafo de fitas e outros equipamentos.
Atrs da mesa via-se um retrato do velho Samuel Roffe.
Uma porta levava a uma sala particular com armrios de cedro e gavetas forradas. Tinham levado dali todas as roupas de Sam, e Elizabeth ficou satisfeita com isso. 
Depois da sala, havia um banheiro revestido de ladrilhos, com uma banheira e box. Havia toalhas limpas nos cabides. O armrio de remdios estava vazio.
Todas as coisas de uso pessoal de seu pai tinham sido retiradas dali, talvez pela secretria. Elizabeth pensou por um instante na possibilidade de que Kete Erling 
tivesse amado Sam.
Havia ainda, como partes do escritrio de Sam, uma grande sauna, um ginsio bem equipado, uma barbearia e uma grande sala de jantar, com acomodao para cem pessoas. 
Quando se recebiam convidados estrangeiros, uma pequena bandeira do pas deles era colocada no ornamento floral ao centro da mesa.
Alm disso, havia a sala de jantar particular de Sam, decorada com muito gosto e com paredes ornadas de murais.
Kate Erling havia explicado a Elizabeth:
- H dois cozinheiros de servio durante o dia e um  noite.
Se houver mais de doze convidados para o almoo ou para o jantar, eles precisam ser avisados apenas duas horas antes.
Naquele momento, Elizabeth estava sentada  mesa abarrotada de papis, memorandos, estatsticas e relatrios, e no sabia por onde comear. Pensou no pai ali sentado 
naquela cadeira e sentiu-se dominada por uma terrvel impresso de abandono. Sam era to competente, to brilhante! Como precisava dele naquele momento!
Elizabeth vira Alec apenas por alguns instantes antes que ele partisse para Londres.
- Tenha calma - dissera ele. - No deixe ningum for-la a fazer coisa alguma.
Ele tinha percebido os sentimentos dela.
- Alec, acha mesmo que eu devo permitir a venda das aces da companhia ao pblico?
Ele sorriu e dissera com algum constrangimento:
- Acho que sim, minha filha, mas acontece que eu sou interessado no caso. Nossas aces no tm valor para qualquer de ns enquanto no pudermos vend-las. Cabe 
a voc decidir.
Elizabeth pensava nessa conversa ao ver-se ali sentada no grande escritrio. A tentao de telefonar para Alec era quase irresistvel. Bastava que dissesse que havia 
mudado de ideia.
Poderia ento ir-se embora. Aquele no era o lugar dela.
Sentiu-se deslocada e incapaz.
Olhou para os botes do interfone na mesa do lado. Pensou um momento e ento apertou o boto que tinha o nome de Rhys Williams.
Rhys estava sentado diante dela. Elizabeth sabia muito bem o que ele estava pensando. Era o mesmo que os outros. Ela no tinha o que fazer ali.
- Voc jogou uma verdadeira bomba hoje, na reunio - disse Rhys.
- Sinto muito a surpresa que causei.
- Surpresa no  bem a palavra - disse ele com um sorriso. Voc aniquilou todo mundo. Julgava-se o caso pronto e resolvido. Os comunicados  imprensa j estavam 
at prontos.
Escute, Liz. Por que voc resolveu no assinar?
Como  que ela podia explicar? Como podia dizer que tudo no havia passado de uma vaga intuio? Rhys iria rir dela.
Entretanto, Sam Roffe nunca vendera as aces da companhia. Ela estava empenhada em saber o motivo.
Como se lhe tivesse adivinhado os pensamentos, Rhys disse:
- Seu trisav fundou a companhia como um negcio de famlia, fechado aos estranhos. Mas no tempo de seu trisav, a companhia era pequena. As coisas mudaram muito 
desde ento. Hoje, temos uma das maiores indstrias de produtos farmacuticos do mundo.
Quem se sentar a na cadeira de seu pai ter de tomar todas as decises importantes.  uma responsabilidade tremenda.
Seria aquela a maneira de Rhys dizer-lhe que tinha de sair?
- Est disposto a ajudar-me?
- Voc bem sabe que sim.
Elizabeth sentiu uma onda de alvio e compreendeu quanto havia contado com ele.
- A primeira coisa que temos de fazer - disse ento Rhys -  lev-la para correr as fbricas aqui em Zurique. Sabe alguma coisa sobre a estrutura fsica da companhia?
- Quase nada.
No era bem verdade. Elizabeth havia comparecido nos ltimos anos a muitas reunies de Sam e tinha alguma cincia do funcionamento da Roffe and Sons. Mas queria 
saber tudo do ponto de vista de Rhys.
- Ns fabricamos apenas medicamentos, Liz. Produzimos tambm substncias qumicas, perfumes, vitaminas, sprays para cabelos e pesticidas. Fabricamos produtos de 
beleza e outros bioeletrnicos. Temos ainda uma diviso de alimentos e outra de nitratos animais. Publicamos revistas adesivos, material de proteco para construo 
e explosivos plsticos.
Elizabeth notara o entusiasmo dele pelo que dizia e, ao perceber-lhe um tom de orgulho na voz, lembrou-se estranhamente do pai.
- A Roffe and Sons tem fbricas e companhias que possuem a maioria das aces de outras em mais de cem pases. Todas elas directamente subordinadas a este escritrio. 
- Fez uma pausa, como se quisesse ter certeza de que ela estava compreendendo.
- O velho Samuel comeou com uma gua velha e um tubo de ensaio. Tudo se expandira em sessenta fbricas atravs do mundo, dez centros de pesquisas e um conjunto 
de milhares de vendedores e propagandistas.
Elizabeth sabia que eram eles que visitavam os mdicos e os hospitais.
- No ano passado, Liz, s nos Estados Unidos, gastaram-se catorze bilies de dlares em medicamentos, e uma parte substancial desse movimento foi nossa.
Apesar disso, a Roffe and Sons enfrentava problemas com os bancos. Alguma coisa devia estar errada.
Rhys levou Elizabeth para correr as fbricas da sede da companhia. A diviso de Zurique constava de doze fbricas espalhadas por setenta e cinco edifcios nos vinte 
e cinco hectares de terreno. Era um mundo em miniatura, completamente auto-suficiente. Visitaram as fbricas, os departamentos de pesquisa, os laboratrios de toxicologia, 
os depsitos. Rhys levou Elizabeth a um estdio de cinema onde se faziam filmes para pesquisas e para as divises de publicidade e de produtos do mundo inteiro.
- Usamos mais filmes aqui - disse Rhys - do que qualquer grande estdio de Hollywood.
Passaram pelo departamento de biologia molecular e pelo centro de lquido, onde cinquenta gigantescos tanques de ao inoxidvel estavam cheios de lquidos prontos 
para serem engarrafados. Viram as salas de comprimidos, onde diversas espcies de p recebiam a forma de comprimidos, que eram marcados com o nome Roffe, embalados 
e rotulados sem que a pessoa tocasse neles. Alguns dos produtos eram destinados a venda sob prescrio mdica, ao passo que outros podiam ser livremente vendidos 
nas farmcias.
Separados dos outros, havia vrios edifcios menores.
Destinavam-se aos cientistas: analistas, qumicos, bioqumicos, qumicos orgnicos, parasitologistas, patologistas.
- Mais de trezentos cientistas trabalham aqui - disse Rhys.
- Agora, vou mostrar-lhe a Sala dos Cem Milhes de Dlares.
Era um edifcio de tijolo isolado dos outros, vigiado por um guarda armado. Rhys mostrou a sua carteira de director, e ele e Elizabeth entraram por um cumprido corredor 
ao fim do qual havia uma porta de ao. O guarda usou duas chaves para abrir a porta, e Elizabeth e Rhys entraram. A sala no tinha janelas. Do cho ao tecto estava 
cheia de estantes, nas quais se via uma extensa variedade de frascos, jarros e tubos.
- Por que se chama isto aqui de Sala dos Cem Milhes de Dlares? - perguntou Elizabeth.
- Porque foi o que se gastou para ench-la. Est vendo esses recipientes nas prateleiras? Nenhum deles tem nome, mas apenas um nmero. So as substncias que no 
deram resultado. So os nossos insucessos.
- Mas, por que cem milhes?
- Para cada novo medicamento aprovado, h talvez mil outros que terminam nesta sala e ento abandonados. Um medicamento pode custar cinco ou dez milhes de dlares 
em trabalhos de pesquisa, at chegar  concluso que no serve para o fim a que se destina ou que algum o fabricou antes de ns. No jogamos nada fora, pois pode 
acontecer que algum dos nossos moos brilhantes faa uma descoberta que torne valiosa alguma coisa existente nesta sala.
As quantias envolvidas em tudo aquilo eram fantsticas.
- Agora, vou lhe mostrar a Sala do Prejuzo.
Ficava noutro edifcio e, como a outra, estava cheia de estantes de vidros.
- Perdemos uma fortuna aqui - disse Rhys. - Mas tudo foi planeado.
- No compreendo.
Rhys pegou duma prateleira um vidro que tinha o rtulo "Botulismo".
- Sabe quantos casos de Botulismo nos Estados Unidos, no ano passado? Vinte e cinco apenas. Mas, quando recorreram a ns, tnhamos em estoque o medicamento necessrio, 
muito embora isso nos custasse milhes de dlares. Esta sala est cheia de medicamentos para doenas raras - venenos de determinadas cobras, plantas venenosas, etc. 
Fornecemos esses medicamentos gratuitamente s foras armadas e aos hospitais, como um servio pblico.
- Gosto disso - murmurou Elizabeth, e pensou que o velho Samuel teria gostado tambm.
Rhys levou Elizabeth  diviso de cpsulas, onde frascos vazios eram transportados atravs de esteiras rolantes. ao sair da sala, os vidros tinham sido esterilizados, 
enchidos de cpsulas, rotulados, tapados com algodo e fechados. Todo o processo era automtico.
Havia uma fbrica de frascos, uma diviso de arquitectura para o planeamento de novos edifcios e uma diviso imobiliria para tratar da compra e da adaptao dos 
terrenos.
Num edifcio, havia dezenas de redactores escrevendo bulas e prospectos em cinquenta lnguas, ao lado de impressoras que os imprimiam.
Alguns departamentos fizeram Elizabeth pensar no 1984 de George Orwell. As salas de esterilizao eram banhadas em fantsticas luzes ultravioletas. As salas adjacentes 
eram pintadas de cores diferentes - branco, verde ou azul -, e as pessoas que nelas trabalhavam usavam roupas de cores correspondentes. Cada vez que uma delas entrava 
ou saa da sala, tinha de passar por uma cmara especial de esterilizao.
Os trabalhadores de roupa azul ficavam trancados o dia inteiro.
Antes que pudessem comer, descansar ou ir ao banheiro, tinham de tirar a roupa, entrar numa zona verde neutra, vestir outra roupa, e inverter o processo quando voltassem.
- Creio que vai achar isso muito interessante - disse Rhys.
Iam pelo corredor cinzento de um edifcio de pesquisa.
Chegaram a uma porta, na qual se via o letreiro: "Reservado No entre". Rhys empurro a porta e entrou com Elizabeth.
Passaram por outra porta, e Elizabeth se viu numa sala iluminada com uma luz fraca. Havia centenas de gaiolas com animais. A sala estava quente e hmida, e ela se 
sentiu de repente transportada para uma selva. Quando habituou os olhos  luz fraca, viu que as gaiolas estavam cheias de macacos, hamsters, gatos e ratos brancos. 
Muito dos animais tinham excrescncias de aspecto repulsivo a projectar-se de vrias partes do corpo. Alguns animais estavam com as cabeas raspadas e mostravam 
elctrodos que lhes tinham sido implantados nos crebros. Muito deles gritavam em tremenda algazarra, correndo dentro das gaiolas, enquanto outros pareciam em estado 
comatoso e letrgico. O barulho e o mau cheiro eram insuportveis. Era uma espcie de inferno.
Elizabeth aproximou-se de uma gaiola em que havia um gatinho branco. O crebro do animal estava exposto, dentro de um revestimento claro de plstico, do qual se 
projectava meia dzia de fios.
- Para... para que isso? - perguntou Elizabeth.
Um homem alto e barbado, que tomava algumas notas em frente das gaiolas, explicou:
- Estamos testando um novo tranquilizante.
- Espero que d resultado - murmurou Elizabeth. - Bem que eu ando precisando disso.
E saiu da sala antes de comear a passar mal.
Rhys estava ao lado dela no corredor.
- Est sentindo alguma coisa, Liz?
Ela respirou fundo e disse:
- Estou bem... Mas h mesmo necessidade de tudo isso?
- Essas experincias salvam muitas vidas, Liz. Mais de um tero das pessoas que nasceram depois de 1950 esto vivas graas s drogas modernas. Pense nisso.
Elizabeth assim o fez.
Levaram seis dias inteiros para conhecer os principais edifcios, e quando tudo terminou, Elizabeth estava exausta, atordoada com a vastido de tudo o que vira. 
E compreendia que vira apenas uma parte das instalaes da companhia. Havia dezenas delas espalhadas pelo mundo.
Os factos e os nmeros eram espantosos.
"So necessrios cinco ou dez anos para lanar no mercado um novo medicamento, e, em geral, de cerca de duas mil substncias testadas, s aproveitamos trs produtos..." 
"A Roffe and Sons tem trezentas pessoas trabalhando s no controle de qualidade..." "H pelo menos meio milho de pessoas ao servio da companhia..." "Nossa receita 
bruta no ano passado foi de..." Elizabeth escutava, procurando assimilar os incrveis nmeros que Rhys lhe revelava. Sabia que a companhia era grande, mas "grande" 
era um adjectivo quase abstracto. Ter essa grandeza traduzida em termos de pessoas e de dinheiro era estarrecedor.
Naquela noite, Elizabeth ficou na cama a pensar em tudo o que havia visto e ouvido, e foi tomada por um poderoso sentimento de impotncia.
Ivo lhe dissera que no devia se meter com essas coisas que no entendia, deixando tudo com eles.
Alec achava que ela devia assinar, embora tivesse interesse na venda das aces.
Walther era de opinio que ela devia assinar, receber uma fortuna e gozar a vida como quisesse.
Eles tm razo, pensou Elizabeth. Vou me afastar e deixar que faam com a companhia o que quiserem. Eu no sou do ramo.
Depois de chegar a essa deciso, o seu alvio foi enorme.
Adormeceu quase imediatamente.
O dia seguinte, era o incio de um fim de semana prolongado por um feriado. Quando Elizabeth chegou ao escritrio, mandou chamar Rhys para comunicar-lhe a sua deciso.
- O Sr. Williams teve de tomar o avio para Nairbi, ontem  noite - informou-lhe Kete Erling. - Pediu-me que lhe dissesse que estar de volta na tera-feira. No 
serve outra pessoa?
- Faa ento uma ligao para Sir Alec.
- Est bem, Senhorita Roffe - disse Kate Erling, com uma nota de hesitao na voz. - A polcia lhe mandou hoje um pacote com os objectos de uso pessoal deixados 
por seu pai em Chamonix.
A noo de Sam reavivou no mesmo instante a sua dor.
- A polcia pediu desculpas por no haver entregue o pacote ao seu mensageiro. J lhe havia sido remetido.
- Meu mensageiro?
- Sim, o homem que mandou a Chamonix para pegar tudo.
- Mas eu no mandei ningum a Chamonix. Onde est o pacote?
- perguntou Elizabeth, julgando tratar-se de alguma confuso burocrtica.
- Guardei no seu armrio.
Encontrou uma mala Vuitton com as roupas de Sam. Havia tambm uma mala trancada, tendo ao lado a chave. Devia ser papis da companhia. Entregaria tudo a Rhys para 
ver de que se tratava.
Lembrou-se, ento, de que ele estava ausente. Bom, decidiu ela, tambm vou passar o fim de semana fora. Olhou ento para a pasta e pensou que talvez contivesse alguma 
coisa pessoal e ntima de Sam. Primeiro tinha que olhar.
Kate Erling falou pelo interfone.
- Sinto muito, Senhorita Roffe, mas Sir Alec no est no escritrio.
- Deixe ento um recado para que me telefone logo que puder.
Estarei na Villa da Sardenha. D o mesmo recado ao Sr. Palazzi, ao Sr. Gassner e ao Sr. Martel.
Diria a todos que ia desistir e que eles podiam vender as aces e fazer o que quisessem.
Pensou com prazer no fim de semana que a esperava. A Villa da Sardenha era um retiro, um casulo protector, onde ela poderia ficar sozinha e pensar em si mesma e 
no seu futuro. Os acontecimentos haviam se passado com tal rapidez que ela no tivera tempo de ver as coisas sob outro prisma. O acidente de Sam... Elizabeth ainda 
no aceitava a palavra "morte". Depois, a sua herana do controle da companhia, a presso da famlia para que ela vendesse as aces ao pblico, a prpria companhia, 
a pulsao vibrante de um poder colossal que abarcava o mundo. Era difcil enfrentar tudo isso de uma vez.
Naquela noite, quando tomou o avio para a Sardenha, Elizabeth levava a pasta do pai.

Captulo 18
Ela pegou um txi no aeroporto. A Villa estava fechada, e Elizabeth no comunicara a ningum a sua chegada. Entrou e percorreu lentamente as grandes salas, to suas 
conhecidas, e teve a impresso de que nunca sara dali. S ento deu-se conta da falta que sentira de Sardenha e da Villa. Parecia que as poucas lembranas felizes 
de sua infncia ali estavam encerradas. E era muito estranho, estar sozinha naquele labirinto onde sempre tinha havido meia dzia de empregados a cozinhar, polir 
e arrumar tudo. Naquele momento, porm, estava sozinha, com os ecos do passado.
Deixou a pasta de Sam no hall de entrada e levou a sua mala para o andar de cima. Como de costume dirigiu-se para seu quarto, no centro do corredor, e ento parou. 
O quarto do pai ficava no fim do corredor. Elizabeth caminhou at l. Abriu lentamente a porta porque, embora compreendesse a realidade, um profundo instinto atvico 
a fazia esperar ver Sam ali, e ouvir o som de sua voz.
O quarto estava logicamente vazio e nada havia mudado nele desde que Elizabeth o vira pela ltima vez. Continha uma cama grande, uma cmoda com espelho, duas poltronas 
confortveis e um sof diante da lareira. Elizabeth deixou a mala no cho e foi at  janela. As persianas de metal estavam fechadas contra o sol de fim de setembro 
e os reposteiros, cerrados. Escancarou tudo e deixou que o ar fresco das montanhas entrasse livremente, leve e frio, com a promessa de outono. Dormiria naquele quarto.
Depois desceu e entrou na biblioteca. Sentou-se numa das confortveis poltronas de couro, passando as mos pelos lados.
Era sempre ali que Rhys se sentava quando tinha uma conferncia com Sam.
Pensou em Rhys e desejou que ele estivesse ali com ela.
Lembrou-se da noite em que ele a levara de volta  escola, depois do jantar em Paris, e de como ela escrevera repetidamente num pedao de papel "Sra. Rhys Williams".
Num impulso, Elizabeth foi at a mesa, pegou numa caneta e calmamente escreveu "Sra. Rhys Williams". Depois, pensou, com um sorriso: "Quem sabe quantas idiotas esto 
fazendo a mesma coisa neste momento".
Procurou deixar de pensar em Rhys, mas ele permaneceu na sua mente, agradavelmente reconfortante. Levantou-se e passou uma vista de olhos pela casa. Entrou na grande 
cozinha antiga, com o seu fogo a lenha e os dois fornos.
Abriu a geladeira. Estava vazia. No era de esperar outra coisa com a casa fechada. Mas, ao ver a geladeira vazia, de repente sentiu fome. Vasculhou os armrios 
e encontrou duas pequenas latas de atum, um vidro de Nescaf e um pacote fechado de biscoitos. Se ia passar o fim de semana ali, era preciso fazer os seus planos. 
Em lugar de sair e fazer todas as refeies na cidade, seria melhor ir a um dos pequenos armazns de Cala di Volpe e fazer compras para vrios dias. Havia sempre 
um jipe na garagem. Olhou pela porta da cozinha e verificou que o jipe ainda estava l. As chaves estavam penduradas numa tbua, na parede ao lado do armrio. Pegou 
a chave do jipe e foi at a garagem. Ser que havia gasolina no tanque? Girou a chave e pisou o acelerador. O motor comeou a funcionar quase imediatamente. Esse 
problema estava, portanto, eliminado. No dia seguinte pela manh, iria comprar tudo o que fosse necessrio.
Voltou para casa. ao pisar no cho ladrilhado do hall de entrada, ouviu um eco surdo e um tanto assustador dos prprios passos. Desejou que Alec lhe telefonasse 
e, como por encanto, nesse momento o telefone tocou. Apanhou um susto e foi atender.
- Alo.
- Elizabeth? Aqui  Alec.
Elizabeth deu uma risada.
- De que est rindo?
- Voc no acreditaria se eu lhe dissesse. Onde  que voc est?
- Em Gloucester.
Elizabeth sentiu o urgente impulso de v-lo, de comunicar-lhe a sua deciso sobre as aces da companhia. Mas no por telefone.
- Quer fazer-me um favor, Alec?
- Claro. Que ?
- Pegue um avio e venha passar o fim de semana aqui na Sardenha. Quero conversar sobre uma coisa muito importante com voc.
Houve apenas uma breve hesitao, e Alec disse:
- Est bem.
Nem uma palavra sobre compromissos j assumidos, sobre os possveis transtornos. Apenas "Est bem". Alec era assim.
- Pode trazer Vivian - disse Elizabeth com algum esforo.
- Creio que isso no ser possvel. Ela est agora mesmo...
em Londres. Estarei a amanh de manh. Certo.
- ptimo. Telefone-me quando souber a hora e irei esper-lo no aeroporto.
- Ser muito mais simples eu pegar um txi.
- Est bem. Muito obrigada, Alec. No sabe o quanto lhe agradeo.
Quando desligou o telefone, Elizabeth sentiu-se infinitamente melhor.
Sabia que a sua deciso estava certa. S se via naquela posio porque Sam tinha morrido antes de ter tempo de apontar um sucessor.
Quem seria o novo presidente da Roffe and Sons? A directoria resolveria isso. Tentou pensar no caso do ponto de vista de Sam, e o nome que lhe veio no mesmo instante 
 cabea foi Rhys Williams. Os outros eram competentes nos seus sectores, mas Rhys era a nica pessoa que tinha conhecimento completo e eficiente do funcionamento 
global da companhia. Era inteligente e dinmico. O nico problema  que ele no era elegvel para a presidncia. No sendo um Roffe, nem casado com uma Roffe, no 
podia nem ao menos participar das reunies de directoria.
Chegou ao hall e viu a pasta de seu pai. Hesitou. No havia sentido em se submeter quilo naquele momento. Daria tudo a Alec quando ele chegasse na manh seguinte. 
Entretanto, podia haver alguma coisa muito pessoal ali...
Levou-a para a biblioteca, colocou-a em cima da mesa, pegou a chave e abriu os dois fechos laterais. No centro da pasta encontrou um grande envelope. Elizabeth abriu-o 
e tirou dele um mao de folhas dactilografadas dentro de uma pasta de cartolina, na qual estava escrito:
 SAM ROFFE CONFIDENCIAL SEM CPIAS  Era, evidentemente, um relatrio, mas sem qualquer nome, e Elizabeth no podia saber quem o redigira. Comeou a passar os olhos 
pelas folhas e, em dado momento, leu mais atentamente e parou. No podia acreditar no que estava lendo. Levou os papis para uma poltrona, tirou os sapatos, encolheu 
as pernas e recomeou a leitura da primeira pgina.
Leu todas as palavras e ficou horrorizada.
Era um documento espantoso, o relatrio confidencial de uma investigao em torno de uma srie de factos ocorridos no ano anterior.
No Chile, uma usina de produtos qumicos de propriedade da Roffe and Sons havia sofrido uma exploso, espalhando toneladas de substncias venenosas por uma rea 
de vinte e cinco quilmetros quadrados. Houve a morte de cerca de dez pessoas e centenas tinham sido internadas em hospitais. Todos os animais da rea haviam morrido 
e a vegetao ficara envenenada. Toda a regio tivera de ser evacuada. As aces de indemnizao impetradas contra a companhia subiram a centenas de milhes de dlares. 
Mas o espantoso era que a exploso fora criminosa.
Dizia o relatrio: "A investigao do governo chileno sobre o acidente foi superficial. A concluso oficial parece ter sido a de que a companhia era rica e o povo, 
pobre, em vista do que, a companhia tinha de pagar. No h qualquer dvida no esprito da nossa equipa de investigao de que houve um acto de sabotagem, da autoria 
de pessoa ou pessoas desconhecidas, por meio de explosivos plsticos. Em vista da atitude de antagonismo das autoridades locais, ser impossvel provar alguma coisa".
Elizabeth se lembrava muito bem do caso. Jornais e revistas haviam publicado reportagens com fotografias das vtimas. A imprensa do mundo inteiro atacara a Roffe 
and Sons, acusando a companhia de negligncia e indiferena para com o sofrimento humano.
O facto havia prejudicado consideravelmente a reputao da empresa.
Em seguida, o relatrio tratava de importantes projectos de pesquisa em que os cientistas da Roffe and Sons vinham trabalhando havia vrios anos. Entre eles, quatro 
projectos de inestimvel valor. O seu desenvolvimento ao todo tinha custado mais de cinquenta milhes de dlares. Em todos os casos, a firma rival havia requerido 
patentes para os produtos antes da companhia, apresentando frmulas idnticas. O relatrio continuava: "Um caso isolado poderia ser atribudo a simples coincidncia. 
Num campo em que dezenas de companhias trabalham em sectores correlatos,  invivel que vrias firmas desenvolvam o mesmo tipo de produto. Mas o facto de que isso 
tenha acontecido quatro vezes no curto espao de alguns meses fora a concluir que algum, a servio da Roffe and Sons, deu ou vendeu o material de pesquisa  firma 
concorrente. Em vista da natureza secreta das experincias e do facto de que elas se realizaram em laboratrios bem distantes uns dos outros, dentro de condies 
da mxima segurana,  lgico supor que as pessoas responsveis tenham acesso aos arquivos mais secretos da companhia. Assim, podemos chegar  concluso de que se 
trata de algum situado no mais alto escalo da Roffe and Sons".
Havia mais.
Uma grande quantia de substncias txicas fora erradamente rotulada e despachada. Antes que ela pudesse ser recolhida, tinha havido vrias mortes, com pssima publicidade 
para a companhia. Ningum sabia quem tinha colocado os rtulos errados.
Uma toxina mortfera desaparecera de um laboratrio sob pesada guarda. Uma hora depois, uma pessoa no foi identificada havia comunicado o facto aos jornais e desencadeara 
um alarma.
As sombras da tarde se alongavam l fora e a noite chegou.
Elizabeth continuava totalmente absorvida pelo documento que tinha nas mos. Quando a sala ficou escura, ela acendeu uma luz e continuou a ler aquela srie de horrores.
Nem mesmo o tom seco e sucinto do relatrio podia dissimular o drama que havia em tudo aquilo. Uma coisa era clara. Algum estava metodicamente tentando prejudicar 
ou destruir a Roffe and Sons.
Algum no mais alto escalo executivo da companhia. Na ltima pgina, havia uma nota  margem escrita com a letra precisa e inconfundvel de seu pai: "Presso sobre 
mim para vender as aces da companhia ao pblico?  preciso desmascarar o patife!" Lembrou-se ento de como Sam lhe parecera preocupado nos ltimos tempos. Vivia 
angustiado por aquele terrvel segredo e no tinha em quem confiar. A nota na primeira pgina dizia que no havia cpias.
Elizabeth julgava que o relatrio provinha de uma agncia de investigao particular. Por conseguinte, s Sam tinha conhecimento daquele relatrio. Depois de Sam, 
ela. A pessoa culpada no tinha ideia de que estava sob suspeita. Teria Sam interpelado de algum modo a pessoa antes do acidente? Ela no tinha como descobrir. Elizabeth 
sabia, que havia um traidor.
Algum no mais alto escalo executivo da companhia.
Ningum mais teria oportunidade ou capacidade de levar a cabo tanta destruio em nveis to diferentes. Era por isso que Sam se recusara a vender aces ao pblico? 
Estaria procurando primeiro descobrir quem era o culpado? Depois da companhia vendida, seria impossvel realizar uma investigao secreta, pois todas as providncias 
tomadas seriam logo do conhecimento de um grupo de estranhos.
Elizabeth pensou na reunio da directoria que participara, durante a qual todos lhe haviam recomendado que vendesse.
Sentiu-se de repente muito sozinha naquela casa. Deu um salto ao ouvir o telefone tocar. Foi atender.
- Alo?
- Liz?  Rhys. Acabo de receber o seu recado.
Era bom ouvir a voz dele, mas lembrou-se de repente do motivo pelo qual quisera falar com ele. Era para dizer que resolvera assinar e deixar que vendessem a companhia. 
Mas em poucas horas tudo havia mudado. Olhou para o retrato do velho Samuel, que fundara a companhia e tinha lutado por ela, dedicando-lhe toda a sua vida.
- Rhys, quero uma reunio da directoria na tera-feira, s duas horas. Quer tomar as providncias necessrias?
- Tera-feira, s duas horas? Est bem. Mais alguma coisa?
- No. S isso. Muito obrigada.
Elizabeth desligou o telefone. Ia lutar contra todos eles.
Estava no alto de uma montanha, escalando-a em companhia do pai. "No olhe para baixo", dizia constantemente o pai, e Elizabeth desobedecia. Olhava para baixo e 
no via seno milhares de metros de espao vazio. De Repente, houve o surdo ronco de um trovo e um raio veio ziguezagueando na direco deles. Atingiu a corda de 
Sam, incendiou-a e Sam comeou a cair no espao vazio. Elizabeth viu o corpo do pai rolar e comeou a gritar, mas seus gritos eram abafados pelo ribombar dos troves.
Acordou em sobressalto, com a camisola ensopada de suor e o corao a bater descompassadamente. Houve um trovo mais forte, e Elizabeth viu a chuva entrar pelas 
janelas abertas.
Levantou-se e fechou-as. Pelas vidraas viu as nuvens de tempestade que enchia o cu e os relmpagos que iluminavam o horizonte, mas no prestou ateno a nada disso.
Estava pensando no sonho que tivera.
Pela manh, a tempestade passara sobre a ilha, deixando apenas uma chuva fina. Elizabeth esperava que o mau tempo no retardasse a chegada de Alec. Depois da leitura 
do relatrio, tinha ardente necessidade de falar com algum. Enquanto isso, seria bom guardar o relatrio num lugar seguro. Havia um cofre na sala da torre, e ela 
o colocaria l. Tomou um banho, vestiu um suter e calas velhas e foi ento  biblioteca pegar o relatrio.
No estava mais l.

Captulo 19
Parecia que um furaco havia passado pela sala. A tempestade abrira as janelas, e o vento e a chuva haviam espalhado e desarrumado tudo. Algumas pginas do relatrio 
estavam em cima do tapete molhado, mas o resto fora evidentemente levado pelo vento.
Foi at  janela. No via papis no gramado, mas o vento poderia ter levado pela borda do penhasco. Fora certamente isso o que acontecera.
No havia cpias. Tinha, portanto, de descobrir o nome do investigador que Sam contratara. Talvez Kete Erling soubesse.
Mas j no podia ter certeza de que Sam confiava em Kete Erling. Tudo se tornara um jogo terrvel, em que ningum podia confiar em ningum. Da por diante, devia 
ter cuidado em tudo o que fizesse.
Lembrou-se, de repente, de que estava sem comida em casa.
Podia ir fazer contas em Cala di Volpe e estar de volta antes que Alec chegasse. Foi at o armrio embutido do hall e apanhou uma capa e uma charpe para a cabea. 
Mais tarde, quando a chuva parasse, procuraria as outras folhas do relatrio nos arredores da casa. Pegou a chave do jipe e dirigiu-se  garagem.
Ligou o motor e manobrou cuidadosamente para sair da garagem, dirigindo com todo o cuidado, em vista do cho molhado pela chuva. Virou depois  direita para seguir 
a estreita estrada da montanha que ia para a aldeia de Cali di Volpe, mais abaixo.
No havia movimento na estrada quela hora. Na verdade, era difcil hav-lo a qualquer hora, pois raras eram as casas construdas naquela altura.  esquerda, o mar 
estava escuro e parecia revolto, ainda agitado pela tempestade da vspera.
Dirigia com muito cuidado, pois aquele trecho da estrada era traioeiro. Muito estreito, com duas pistas, abria-se no flanco da montanha, ao lado de um enorme precipcio. 
De um lado, o paredo de pedras da montanha; do outro, uma descida de centenas de metros at o mar. Elizabeth seguia beirando a outra pista, freando um pouco para 
contrabalanar o impulso da descida.
O carro aproximou-se de uma curva fechada. Ela pisou automaticamente nos freios para controlar a descida do jipe.
Os freios no funcionaram!
O facto levou algum tempo para ser consciencializado. Elizabeth tornou a frear, pisando no pedal com toda sua fora, mas sentiu o corao bater mais forte ao ver 
que o jipe continuava a ganhar velocidade na descida. Fez a curva, mas viu que estava rodando desabafadamente pela ngreme estrada da montanha e que o jipe ganhava 
mais velocidade a cada segundo. Tornou a pisar nos freios. No havia mais freios.
Outra curva surgiu  frente. Elizabeth tinha medo de olhar para o velocmetro e sentiu-se dominada pelo terror. Chegou  curva em alta velocidade e derrapou. As 
rodas traseiras chegaram prximo da beira do precipcio, mas ela conseguiu controlar o jipe e seguiu em frente estrada abaixo. No havia mais nada que pudesse faz-lo 
parar, nem barreiras, nem controles. Continuaria naquela desabalada descida pela montanha, cheia de curvas fatais.
Pensou destemperadamente num meio de salvar-se. Teve a ideia de pular do carro. Arriscou-se a olhar para o velocmetro e viu que ia a cento e dez quilmetros, com 
a velocidade aumentando a cada momento, e que estava encurralada entre a montanha e o precipcio. Se saltasse, morreria. Numa sbita revelao, Elizabeth compreendeu 
que estava sendo assassinada, e que Sam tambm fora assassinado. Sam tinha lido o relatrio e fora morto. Ela tambm iria ser morta. No tinha ideia de quem fosse 
o assassino, de quem os odiava a ponto de fazer aquela coisa terrvel. Talvez tudo fosse mais tolervel se partisse de um estranho. Mas tinha de ser um deles, algum 
situado no mais alto escalo executivo da companhia... Alec... Ivo...
Walther... Charles...
A morte dela seria atribuda a um acidente, como a de Sam. As lgrimas rolaram pelo rosto de Elizabeth e se misturaram com a chuva fina que caa. O jipe fugia constantemente 
do seu controle no cho molhado. Elizabeth lutava para mant-lo na estrada, mas sabia que era apenas uma questo de segundos para que fosse atirada para o precipcio 
e o aniquilamento. O corpo ficou rgido com a tenso, e as mos se tornaram dormentes devido  fora que ela fazia para segurar a direco. Estava sozinha no universo, 
a descer vertiginosamente a estrada, enquanto o vento lhe zumbia em torno e empurrava o carro para a borda do penhasco. Houve outra derrapagem e Elizabeth lutou 
destemperadamente para controlar o carro, lembrando-se do que aprendera. V sempre a favor da derrapagem. Finalmemte, as rodas traseiras se firmaram e o jipe continuou 
a sua descida alucinante. Elizabeth tornou a olhar de relance o velocmetro.
Cento e trinta quilmetros por hora! Havia uma curva bem fechada  frente e sabia que no poderia passar dali.
Alguma coisa em seu esprito pareceu congelar-se, e foi como se uma trmula veia se estendesse entre ela e a realidade. Ouviu a voz de seu pai perguntar-lhe o que 
ela fazia sozinha no escuro e depois sentiu-se nos braos de Sam e levada para a cama.
No mesmo instante, estava no palco a danar enquanto Mme Netturova gritava com ela (ou era o vento?), mas ela no podia parar. Algum ento lhe perguntava quantas 
vezes uma pessoa faz vinte e um anos, e Elizabeth pensou que nunca mais viria Rhys.
Gritou o nome dele e o vu desapareceu, mas o pesadelo ainda estava presente. A curva perigosa estava mais prxima e o carro corria para ela como uma bala. Cairia 
pelo precipcio. Pelo menos, que tudo acontecesse bem depressa.
Nesse momento,  direita, um pouco antes da curva, Elizabeth viu um estreito caminho. Tinha de tomar uma deciso rpida. No tinha ideia da utilidade ou do destino 
daquele caminho. Sabia apenas que subia  beira do precipcio e que podia quebrar o mpeto da descida. Entrou por ele, virando a direco para a direita com toda 
a fora. As rodas traseiras comearam a derrapar, mas as da frente j estavam no saibro do caminho e a velocidade deu bastante traco ao carro para se estabilizar.
Elizabeth procurou mant-lo no estreito caminho. Viu algumas rvores  frente, e alguns galhos lhe fustigaram o rosto e as mos. De repente, viu,  sua frente, o 
ar Tirando, l embaixo.
O caminho era apenas um breve acostamento  margem do penhasco.
No havia a menor segurana!
Estava cada vez mais perto da borda, e ia to depressa que no podia saltar. Quando o jipe se aproximou da borda, derrapou violentamente, e a ltima coisa de que 
Elizabeth teve conscincia foi de uma rvore  sua frente e de uma exploso que pareceu eluminar o resto do universo.
Depois, o mundo ficou tranquilo, branco, pacfico e silencioso.

Captulo 20
Quando abriu os olhos, estava numa cama de hospital, e a primeira pessoa que viu foi Alec Nichols.
- No h nada l em casa para voc comer - murmurou Elizabeth, e comeou a chorar.
Os olhos de Alec mostravam a sua tristeza. Aproximou-se e abraou-a.
- Elizabeth!
- Tudo bem agora, Alec - murmurou ela.
E estava. Sentia contuses por todo o corpo, mas ainda estava viva, por mais incrvel que isso parecesse. Lembrou-se do horror da descida sem freios pela montanha, 
e sentiu um arrepio.
- H quanto tempo estou aqui, Alec?
- Trouxeram-na para c h dois dias. Chegou inconsciente e s agora est voltando a si. O mdico acha que se trata de um milagre. De acordo com os que viram o local 
do acidente, voc devia estar morta. Quando uma turma de socorro trouxe voc, estava inconsciente e cheia de contuses, mas felizmente no havia fracturas. Agora, 
escute. por que  que voc estava correndo tanto naquela estrada?
Elizabeth contou tudo. Viu o horror estampado no rosto de Alec enquanto falava da sua terrvel corrida estrada abaixo.
Quando acabou, Alec estava muito plido.
- Que acidente horrvel e idiota!
- No foi acidente, Alec.
- Como assim? No compreendo!
No podia mesmo compreender, pois no havia lido o relatrio.
- Mexeram nos freios de propsito para que isso acontecesse.
- No, Elizabeth - disse ele, sacudindo a cabea. - Que motivo teria algum para fazer uma coisa dessas?
Ainda no podia dizer nada a ele. Confiava mais em Alec do que nos outros, mas s podia falar depois que estivesse mais forte e tivesse algum tempo para pensar.
- No sei, Alec. Mas tenho certeza de que mexeram nos freios.
Notou a mudana de expresso no rosto dele. Da incredulidade passara ao espanto e, por fim,  raiva.
- Nesse caso, temos de descobrir quem foi!
Pegou o telefone e da a poucos minutos estava falando com o delegado de polcia de Olbia.
- Aqui  Alec Nichols. Sim, ela est passando bem, muito obrigado. Direi isso a ela, sim. Estou lhe telefonando a respeito do jipe que ela estava dirigindo. Pode 
me dizer onde  que est... Muito bem. Pode deix-lo a, e conseguir-me um bom mecnico? Estarei a daqui a meia hora Desligou e disse a Elizabeth:
- O jipe est na garagem da polcia. Vou at l.
- Vou com voc - disse Elizabeth.
Ele olhou-a, surpreso.
- O mdico disse que voc devia passar ainda dois dias em repouso e observao.
- Ele pode ter dito isso, mas vou com voc.
Quarenta e cinco minutos depois, Elizabeth, ainda bem machucada, saa do hospital sob os protestos do mdico e seguia em companhia de Alec Nichols para a garagem 
da polcia.
Luigi Ferraro, delegado de polcia de Olbia, era um sardo robusto de meia-idade, com uma enorme barriga e pernas arqueadas. Tinha a seu lado o detective Bruno Campagna, 
um homem musculoso, de cerca de cinquenta anos e grande competncia, bem mais alto do que o delegado. Estavam ambos, em companhia de Elizabeth e de Alec, vendo um 
mecnico examinar a parte inferior do jipe levantado por um macaco hidrulico. O pra-lamas esquerdo e o radiador estavam destroados e mostravam fragmentos da rvore 
em que batera. Elizabeth sentiu um comeo de vertigem ao ver o carro, e teve de apoiar-se em Alec para no cair.
- Tem certeza de que vai resistir? - perguntou Alec.
- Absoluta - disse Elizabeth, que se sentia fraca e cansada, mas estava disposta a ver tudo pessoalmente.
O mecnico limpou as mos num pano cheio de graxa e aproximou-se do grupo.
- Desses, no fazem mais hoje em dia - disse ele.
Graas a Deus, pensou Elizabeth.
- Qualquer outro carro teria sido reduzida a pedacinhos.
- E os freios? Esto em perfeitas condies.
Elizabeth sentiu que estava de novo entrando numa zona de irrealidade.
- Que est dizendo?
- Os freios esto funcionando muito bem. A batida no teve a menor aco sobre eles. Foi por isso que eu disse que no faziam mais...
-  impossvel! - exclamou Elizabeth. - Os freios desse jipe no estavam funcionando.
- A Sra. Roffe acredita que algum mexeu nos freios, inutilizando-os - disse o delegado Ferrraro O mecnico sacudiu negativamente a cabea.
- De jeito nenhum!
Aproximou-se do carro no alto do macaco.
- S h duas maneiras de danificar os freios de um jipe. Ou se cortam as bielas dos freios ou se desatarraxa esta porca e se deixa o leo dos freios escorrer. Como 
pode ver, esta biela est firme e eu verifiquei o tambor dos freios. Est cheio.
Ferraro olhou para Elizabeth e disse:
- Posso muito bem compreender que no seu estado...
- Um momento! - exclamou Alec, e voltou-se para o mecnico.
- No  possvel que algum tenha cortado esses bielas, substituindo-as depois, e que essa mesma pessoa tenha tornado a encher o tambor dos freios e depois de esvazi-los?
- No, no  possvel. Ningum tocou nestas bielas. Est vendo esta porca? Se algum a tivesse afrouxado, haveria marcas recentes de chave inglesa nela, e no h 
nenhuma. Pelo menos, h seis meses ningum toca nesta porca. No h nada com estes freios e eu vou mostrar-lhes.
Foi at a parede e ligou um comutador. O macaco hidrulico principiou a descer o jipe para o cho. O mecnico entrou no jipe, ligou o motor e deu marcha  r no 
carro. Quando estava quase encostando na parede dos fundos na direco do detective Campagna. Elizabeth deu um grito, e neste instante o carro parou de sbito a 
alguns centmetros do homem. O mecnico no tomou conhecimento do olhar irado do detective e disse:
- Viram, Os freios esto perfeitos.
Todos se voltaram para Elizabeth, que sabia muito bem o que estavam pensando. Mas isso no diminura o terror daquela descida pela montanha. Sentira perfeitamente 
o seu p comprimir o freio sem que nada acontecesse. O mecnico da polcia tinha provado que os freios estavam em ordem. A no ser que tambm estivesse metido na 
trama. E o delegado tambm... Estou  ficando paranica, Pensou Elizabeth.
Alec murmurou desalentadamente:
- Elizabeth...
- Quando eu estava dirigindo o jipe, os freios no funcionavam.
Alec perguntou ento ao mecnico:
- Vamos supor que algum tivesse tomado providncias para que os freios desse jipe no funcionassem. Que mais poderia fazer?
- Poderia ter molhado as lonas do freio - disse o detective Campagna.
Elizabeth sentiu o nervosismo crescer dentro dela.
- Que aconteceria se algum fizesse isso?
- Quando as lonas do freio comprimissem o tambor, no haveria traco.
- Tem razo - disse o mecnico, e perguntou a Elizabeth: - Os freios estavam funcionando logo que saiu com o jipe?
Elizabeth se lembrara de que manobrara o jipe para sair da garagem e chegara s primeiras curvas usando os freios.
- Estavam funcionando, sim - disse ela.
- Est a a explicao - disse o mecnico vitoriosamente. A chuva molhou a lona dos freios.
- Espere um pouco - disse Alec. - Algum no poderia ter molhado tudo antes que ela sasse?
- Nesse caso - disse o mecnico pacientemente -, os freios no teriam funcionado desde o incio.
O delegado falou com Elizabeth.
- A chuva pode ser muito perigosa, Senhorita Roffe, especialmente nas estradas estreitas de montanha. Casos assim acontecem com muita frequncia.
Alec olhava indeciso para Elizabeth. Ela se sentiu mal.
Afinal de contas, tudo no passara de um acidente. Queria sair dali o mais depressa possvel. Olhou para o delegado.
- Desculpe ter-lhe causado todo esse incmodo.
- Sinto muito pelo acidente, mas tive muito prazer em servi-la. O detective Campagna ir lev-la de carro para a sua Villa.
Alec disse a ela:
- No leve a mal, mas voc est terrivelmente abatida. Quero que v para a cama e passe alguns dias sem se levantar. Vou pedir alguns mantimentos pelo telefone?
- Se eu ficar na cama, quem vai cozinhar?
- Ora essa, eu! - exclamou Alec.
Naquela noite, preparou o jantar e levou-o para Elizabeth na cama.
- Creio que no sou muito bom cozinheiro - disse Alec, colocando a bandeja diante de Elizabeth.
Falando assim, Alec estava sendo muito pretensioso. No havia um s prato que no estivesse queimado ou salgado demais. Mas Elizabeth conseguiu comer, no s porque 
estava com fome, mas tambm para no melindrar Alec. Conversaram sobre um milho de assuntos durante o jantar. Alec no se referiu  situao que ela criara na garagem 
da polcia. Elizabeth ficou-lhe muito grata por isso.
Os dois passaram mais alguns dias na Villa. Elizabeth continuou na cama e Alec, a fazer confuso na cozinha, lendo de vez em quando para ela. Ivo e Simonetta telefonavam 
diariamente para saber como ela estava e o mesmo faziam Hlne e Charles e Walther. At Vivian telefonou para saber dela. Todos se ofereciam para ir fazer-lhe companhia 
na ilha.
- Estou passando bem - dizia ela. - No h motivo para que venham aqui. Voltarei para Zurique dentro de poucos dias.
Rhys Williams telefonou. Elizabeth s compreendeu a falta que ele lhe fazia quando ouviu a voz dele.
- Ouvi dizer que voc quis fazer concorrncia a Hlne como piloto - disse ele, brincando, mas ela notou preocupao na voz dele.
- Em descida de montanha, duvido que ela seja preo para mim.
Parecia-lhe incrvel que estivesse pilheriando com o que acontecera.
- Fico muito contente de que voc esteja bem, Liz.
O tom e as palavras dele encheram-na de alegria. Estaria ele naquele momento em companhia de outra mulher? Se estivesse, devia ser uma mulher muito bela.
Dane-se!
- Sabe que voc saiu nos jornais do mundo inteiro?
- No.
Falaram pelo telefone durante meia hora, e ao desligar Elizabeth estava se sentindo muito melhor. Rhys parecia sinceramente interessado nela. Gostaria de saber se 
ele fazia todas as outras mulheres sentirem-se assim. Aquilo fazia parte do encanto dele. Lembrou-se do jantar de aniversrio. Sra. Rhys Williams.
Alec entrou no quarto e perguntou:
- O que houve? Est rindo  toa?
- Estou.
Rhys sempre lhe dera aquela sensao de felicidade. Talvez fosse melhor falar a Rhys sobre o relatrio confidencial.
Alec tinha providenciado para que um avio da companhia os levasse para Zurique.
- No gostaria que voc sasse daqui ainda - disse ele -, mas h alguns assuntos urgentes que devem ser resolvidos o quanto antes.
O voo para Zurique foi calmo. Reprteres esperavam-na no aeroporto. Elizabeth fez uma breve declarao sobre o acidente.
Em seguida, Alec levou-a para o carro, e os dois partiram para a sede da companhia.
Ela estava na sala de reunies com todos os membros da directoria presente, alm de Rhys. A reunio j durava trs horas, e o ar estava impregnado da fumaa dos 
charutos e cigarros. Elizabeth ainda estava abalada pelo acidente e sentia uma tremenda dor de cabea. Os mdicos haviam-na tranquilizado, dizendo que as dores de 
cabea eram uma consequncia do abalo nervoso e dentro em pouco passariam.
Olhou para os rostos cheios de tenso e de raiva que a cercavam.
- Resolvi no vender - tinha dito Elizabeth.
Pensaram que ela estava sendo arbitrria e obstinada. Se soubessem a tentao que ela teve de ceder! Mas agora era impossvel. Algum dentro daquela sala era um 
inimigo, e se ela batesse em retirada, esse inimigo seria vitorioso.
Tinham tentado convenc-la, cada qual  sua maneira.
Alec apresentara argumentos lgicos.
- A companhia precisa de um presidente experiente.
Particularmente agora, Elizabeth. Para o seu bem e para o bem de todos, gostaria de v-la afastada disso.
Ivo fez uso do seu encanto.
- Voc  bela e jovem, carissima. O mundo inteiro  seu. Por que escravizar-se a uma coisa to enfadonha quanto os negcios, quando pode divertir-se, viajar...
- J viajei muito - disse Elizabeth.
Charles usou a clara razo francesa.
- Voc passou a deter o controle accionrio em consequncia de um trgico acidente, mas no  sensato voc querer, por isso, dirigir a companhia. Ns temos problemas 
muito graves, e sua direco s servir para agrav-los.
Walther falou agressivamente.
- A companhia est em situao muito difcil, a tal ponto que voc  incapaz de imaginar. Se no vender agora, depois ser tarde demais.
Elizabeth sentia-se acuada. Ouvia a todos, estudando-os e pesando o que diziam. Todos eles baseavam os seus argumentos no bem da companhia; no entanto, um deles 
estava empenhado em destru-la.
Uma coisa era clara. Todos queriam que ela se afastasse, que os deixasse vender as suas aces e levar pessoas estranhas para a Roffe and Sons. Elizabeth sabia que 
no momento em que fizesse isso as probabilidades de descobrir quem estava por trs de tudo aquilo estariam perdidas. Enquanto permanecesse ali, haveria possibilidade 
de descobrir o sabotador. Ficaria por tanto tempo quanto fosse necessrio. No passara aqueles trs ltimos anos com Sam sem aprender alguma coisa a respeito de 
negcios. Com a ajuda do pessoal qualificado que ele havia preparado, poderia prosseguir nas directrizes do pai. A insistncia de todos para que ela sasse s servia 
para reforar a sua determinao de ficar.
Resolveu encerrar a reunio.
- Tomei a minha deciso - disse ela -, e no pretendo dirigir a companhia sozinha. Sei muito bem quanto ainda tenho que aprender. Quero que todos aqui presentes 
me ajudem.
Enfrentaremos os problemas um por um.
Ivo abriu os braos num gesto desconsolado.
- Ser que ningum pode convenc-la do que  lgico?
- Creio que todos devem concordar com o que ela quiser fazer
- disse Rhys, olhando para Elizabeth e sorrindo.
- Obrigada, Rhys. H mais uma coisa, senhores. Como vou ocupar o lugar de meu pai, parece conveniente oficializar o facto, no acham?
Charles perguntou, arregalando os olhos:
- Est querendo ser presidente?
- Presidente ela j  - disse Alec. - Est apenas fazendo a gentileza de nos homologar uma situao de facto.
Charles hesitou e, por fim, disse:
- Est bem. Proponho que Elizabeth Roffe seja eleita presidente da Roffe and Sons.
A proposta foi aprovada.
O ano no  bom para presidentes, pensou ele tristemente.
Muitos tm sido assassinados.

Captulo 21
Ningum tinha mais conscincia do que Elizabeth da enorme responsabilidade que havia assumido. Agora que estava dirigindo a companhia, o emprego de milhares de pessoas 
dependia dela.
Precisava de ajuda, mas no sabia ao certo em quem confiar.
Alec, Rhys e Ivo eram os que lhe pareciam mais dignos de confiana, mas no estava ainda preparada para isso. Era muito cedo. Mandou chamar Kate Erling.
- Pronto, Senhorita Roffe.
Elizabeth no sabia por onde comear. Kate Eerling tinha trabalhado durante muitos anos para seu pai. No podia deixar de ter algum conhecimento das correntezas 
subterrneas que fervilhavam sob a aparente calma. Devia estar a par dos segredos da companhia e dos sentimentos e planos de Sam Roffe.
Podia ser uma valiosa aliada.
- Meu pai tinha mandado fazer uma espcie de relatrio confidencial, Kate. Sabe alguma coisa a respeito disso?
Kate Erling franziu a testa num esforo para concentrar-se, mas acabou sacudindo a cabea.
- Ele nunca falou nisso comigo, Senhorita Roffe.
Elizabeth tentou descobrir alguma coisa por outro caminho.
- Se meu pai tivesse querido uma informao confidencial, a quem procuraria?
- Naturalmente a nossa diviso de segurana - disse ela, sem hesitao.
O ltimo lugar que ele teria procurado.
- Est bem. Muito obrigada - disse Elizabeth.
No havia ningum com quem ela pudesse falar.
Havia em sua mesa um relatrio financeiro. Elizabeth leu-o com crescente assombro. Depois, mandou chamar o tesoureiro.
Chamava-se Wilton Kraus e era mais moo do que ela esperava.
Parecia inteligente e activo, ao mesmo tempo que ostentava um leve ar de superioridade. Devia ter sido diplomata pela Escola Wharton e talvez pela Universidade de 
Harvard.
Elizabeth entrou directamente no assunto.
- Como pode uma empresa como a Roffe and Sons estar em dificuldades financeiras?
Kraus olhou para ela e encolheu os ombros. Era claro que no estava habituado a entender-se com uma mulher. Disse ento com condescendncia:
- No posso resumir tudo...
- No resuma nada. Vamos comear pelos factos. At h dois anos atrs, a Roffe and Sons sempre dispunha de todo capital de que precisava.
Ela viu a expresso dele mudar.
- Isso  verdade.
- Por que ento estamos agora devendo tanto aos bancos?
- Bem, h alguns anos, tivemos um perodo de expanso excepcionalmente pesado. Seu pai e os outros membros da directoria julgaram melhor levantar o dinheiro necessrio 
para a expanso tomando emprstimos a curto prazo nos bancos. Em consequncia, temos agora compromissos com vrios bancos no montante de seiscentos e cinquenta milhes 
de dlares. Alguns desses emprstimos esto para vencer.
- J venceram - disse Elizabeth.
- Isso mesmo. J venceram.
- Estamos pagando os juros combinados e mais um por cento de mora. Por que no pagamos os emprstimos vencidos e no diminumos o montante dos outros?
O homem j havia passado da fase da surpresa.
- Isso aconteceu... em face de algumas ocorrncias imprevistas e infortunadas. Por isso, o movimento de casa da companhia  consideravelmente menor do que fora previsto. 
Em condies normais, pediramos prorrogao aos bancos.
Entretanto, diante dos problemas, dos vrios acordos de indemnizao, dos prejuzos em nossos laboratrios experimentais e...
Elizabeth estudava o homem, tentando adivinhar de que lado ele estava. Olhou de novo para os balanos, procurando ver precisamente onde as coisas tinham comeado 
a desandar. Os balanos mostravam acentuado declnio nos ltimos trs trimestres, principalmente em razo dos pagamentos das indemnizaes relacionadas sob a rubrica: 
"Despesas extraordinrias sem recorrncia". Elizabeth pensou na exploso no Chile, na nuvem de substncias txicas que se erguera no ar.
Pensou nos gritos das vtimas. Uma dzia de pessoas mortas.
Centenas de pessoas levadas para os hospitais. No fim, todo o sofrimento humano era reduzido a dinheiro e consignado como "Despesas extraordinrias".
- De acordo com o seu relatrio, Sr. Kraus os nossos problemas so de carcter temporrio. Somos a Roffe and Sons.
Representamos ainda um risco da primeira classe para qualquer banco do mundo.
Agora era o homem quem estudava Elizabeth. Sua auto-suficincia havia desaparecido, mas ele se tornara cauteloso.
- Deve compreender, Senhorita Roffe, que a reputao de uma firma de produtos qumicos e farmacuticos  to importante quanto seus produtos.
Quem tinha dito isso a ela? Seu pai? Alec? Lembrou-se: Tinha sido Rhys.
- Continue.
- Nossos problemas se tornaram muito conhecidos. O mundo dos negcios  uma selva sem lei. Quando os concorrentes suspeitarem que voc est ferido, preparam-se para 
dar o golpe final.
- Por outras palavras - disse Elizabeth -, os nossos concorrentes fazem negcios com os nossos banqueiros e sabem de tudo.
- Exactamente. Os bancos tm um limite de fundo para emprstimos, e quando se convencem de que A  melhor risco do que B...
- E esto convencidos disso?
O homem passou nervosamente a mo pelos cabelos.
- Desde a morte de seu pai, recebi vrios telefonemas de Herr Julius Badrutt, presidente do consrcio bancrio com o qual negociamos.
- O que ele queria saber?
- Quem ia ser o novo presidente da Roffe and Sons.
- J sabe quem  o novo presidente?
- No.
- Sou eu. Que acha que vai acontecer quando Her Badrutt souber disso?
- Sem dvida, aumentar a presso sobre ns - disse Wilton Kraus.
- Vou falar com ele - disse Elizabeth, sorrindo e recostando-se na cadeira. - Quer tomar caf?
- No, obrigado.
Elizabeth viu Kraus tranquilizar-se. Sabia que fora testado e passara no teste.
- Gostaria de saber sua opinio, Sr. Kraus. Se estivesse no meu lugar, que faria?
O leve ar de superioridade voltou, e ele disse confidencialmente:
- Na minha opinio, tudo  muito simples. O activo da Roffe and Sons  enorme. Se vendermos um bloco substancial de aces ao pblico teremos dinheiro em quantidade 
mais do que suficiente para cobrir todos os nossos emprstimos bancrios.
Elizabeth j sabia de que lado ele estava.

Captulo 22
Hamburgo. Sexta-feira, 1 de outubro. 2 horas.
O vento soprava do mar e o ar da madrugada era frio e hmido.
No bairro Reeperbahn, em Hamburgo, as ruas estavam cheias de visitantes ansiosos por experimentarem os prazeres proibidos da cidade. Bebidas, drogas, garotas e rapazes 
estavam  disposio... mediante um preo.
Os bares com fachadas profusamente iluminadas ficavam na rua principal, enquanto a Grosse Freiheit apresentava os mais lascivos shows de striptease. A Herbertstrasse, 
a um quarteiro de distncia, estava cheia de prostitutas que se exibiam s janelas de seus quartos com as roupas de dormir to transparentes, que no ocultavam 
nada. O Reeperbahn era um vasto mercado onde se podia comprar tudo o que se quisesse em matria de sexo, desde que se pagasse.
O camaraman andou lentamente pela rua sem dar maior ateno s pessoas at que se aproximou de uma loura que no devia ter mais de dezoito anos. Estava conversando 
com uma amiga. Sorriu quando o homem se aproximou.
- Gostaria de divertir-se, Liebchen? Minha amiga e eu podemos atend-lo.
O homem olhou para ela e disse:
- S voc.
A outra mulher encolheu os ombros e afastou-se:
- Como se chama?
- Hildy.
- Quer trabalhar no cinema?
- No me venha com essa histria de Hollywood, que isso no engana mais ningum.
O camaraman sorriu, tranquilizando-a.
- Nada disso. A minha proposta ser: Fao filmes porn para um amigo meu.
- Vai custar quinhentos marcos. Adiantados.
- Gut.
Ela se arrependeu no mesmo instante de no ter pedido mais.
Ora, daria um jeito de ganhar uma gratificao.
- Que  que tenho de fazer? - perguntou Hildy.
Hildy estava nervosa.
Estendida na cama, no apartamento mal mobiliado, olhava para os trs homens e achava que havia alguma coisa estranha em tudo aquilo. Tinha apurado os seus instintos 
nas ruas de Berlim, Munique e Hamburgo. Aprendera a se virar por eles, e eles lhe diziam que havia naqueles trs alguma coisa que no merecia confiana. Tinha vontade 
de sair dali antes que comeassem. S no fazia isso porque j recebera quinhentos marcos, e os sujeitos lhe haviam prometido mais quinhentos marcos se ela trabalhasse 
bem.
Ia trabalhar bem. Era uma profissional e tinha orgulho do seu trabalho. Olhou para o homem nu na cama ao lado dela. Era forte e tinha corpo liso, sem plos. O que 
inquietava Hildy era o rosto do homem. Parecia velho demais para fazer filmes daquela espcie. Mas era o espectador sentado nos fundos do quarto que mais afligia 
Hildy. Usava um grande capote, chapu de abas largas e culos escuros. Hildy no sabia se era homem ou mulher. As vibraes eram ruins. Hildy levou os dedos  fita 
vermelha que lhe tinham pedido que amarrasse ao pescoo, sem que compreendesse o motivo.
- Muito bem - disse o camaraman. - Estamos prontos. Aco.
Comearam a rodar o filme. Hildy tinha recebido todas as instrues necessrias. Quando as manobras preliminares terminaram, o camaraman disse ao homem:
- Entre nela!
O acto na cama se desenvolvia rapidamente. Nos fundos do quarto, o espectador se inclinava para a frente, sem perder um s movimento. Hildy, na cama, fechou os olhos.
Ela est estragando tudo!
- Os olhos! - exclamou o espectador.
Assustada, Hildy abriu os olhos. Olhou o homem sobre ela. Era impetuoso e forte. Assim  que ela gostava. Ele comeou a fazer movimentos mais rpidos, e a reaco 
dela foi imediata. No era comum ela ter orgasmos. Quase sempre fingia, e os homens nem sabiam a diferena. Mas o camaraman a havia avisado que, se ela no sentisse 
um orgasmo, no recebia o dinheiro da gratificao. Pensou em todas as coisas boas que ia comprar com o dinheiro e sentiu um orgasmo aproximar-se. Seu corpo comeou 
a estremecer O espectador fez um sinal e o camaraman exclamou:
- Agora!
As mos do homem moveram-se para o pescoo de Hildy. Ela sentiu a presso, olhou para os olhos do homem, viu o que havia neles e foi dominada pelo terror. Quis gritar, 
mas j no podia nem respirar. Lutou desesperadamente, mas no havia meio de livrar-se daquelas mos de ferro que a estrangulavam.
O espectador, do seu canto, no perdia um s detalhe da cena, contemplando os olhos que perdiam o brilho e vendo a mulher ser punida.
O corpo de Hildy estremeceu pela ltima vez e ficou imvel.

Captulo 23
Zurique. Segunda-feira, 4 de outubro. 10 horas.
Quando Elizabeth chegou ao seu escritrio, encontrou um envelope fechado, com a rubrica "Confidencial", em cima de sua mesa. Era um relatrio de qumica e estava 
assinado por Emil Joeppli. Estava cheio de termos tcnicos, e Elizabeth leu-o do princpio ao fim sem compreender nada. Leu pela segunda e terceira vez, sempre mais 
vagarosa e atentamente. Quando afinal percebeu a significao, disse a Kate:
- Voltarei dentro de uma hora.
E foi procurar Emil Joeppli.
Era um homem alto, de cerca de trinta e cinco anos, com o rosto magro e sardento e que ostentava no alto da cabea apenas um tufo de cabelos avermelhados. Ficou 
muito nervoso, pois no estava habituado a receber visitas no seu pequeno laboratrio.
- Li o seu relatrio - disse Elizabeth. - H muitas coisas nele que no compreendo. Quer ter a bondade de explicar-me tudo?
O nervosismo de Joeppli desapareceu por encanto. Comeou imediatamente a falar, seguro e confiante.
- Tenho feito experincias com um novo mtodo de inibir a diferenciao rpida dos colagnios por meio de tcnicas de bloqueio com mucopolissacardeos e enzimas. 
Os colagnios so, naturalmente, a base fundamental de protenas de todo o tecido conjuntivo.
- Est bem - disse Elizabeth.
No se esforou por compreender a parte tcnica das explicaes de Joeppli. O que Elizabeth compreendia era que o projecto em que o homem estava trabalhando poderia 
retardar o processo de envelhecimento. Era uma ideia empolgante.
Continuou a ouvir, pensando na revoluo que uma descoberta dessa ordem representaria para a humanidade. Segundo Joeppli, no haveria razo alguma para que os homens 
no chegassem aos cem anos ou a cento e cinquenta e at duzentos.
- No seria nem preciso tomar injeces - dizia Joeppli. Com esta frmula, os ingredientes podem ser tomados via oral, sob a forma de comprimidos.
As possibilidades eram incrveis. Isso representaria nada menos que uma revoluo social e se converteria em bilies de dlares para a Roffe and Sons. A companhia 
fabricaria o produto e concederia licenas a outras empresas. Ningum com mais de cinquenta anos de idade, deixaria de tomar os comprimidos para manter-se jovem. 
Elizabeth tinha dificuldade em ocultar o seu interesse.
- Em que p esto as suas pesquisas neste projecto?
- Como disse no meu relatrio, h quatro anos que venho fazendo testes com animais. Os ltimos resultados tm sido positivos. J posso comear a fazer experincias 
com seres humanos.
Ela gostava do entusiasmo dele.
- Quem mais sabe disso?
- Seu pai sabia. Trata-se de um projecto da Pasta Vermelha, o que quer dizer absolutamente secreto. S devo fazer as minhas comunicaes ao presidente da companhia 
e a um dos directores.
- Qual dos directores? - perguntou Elizabeth, sentindo um arrepio.
- Walther Gassner.
- De hoje em diante, quero que faa as suas comunicaes exclusivamente a mim.
Joeppli olhou-a com surpresa e disse:
- Est bem, Senhorita Roffe.
- Quando poderemos lanar esse produto no mercado?
- Se tudo correr bem, dentro de um ano e meio a dois anos.
- Muito bem. Se precisar de alguma coisa, dinheiro, pessoal, equipamento, fale comigo. Quero que trabalhe o mais depressa possvel.
- Muito obrigado.
Elizabeth levantou,-se e Emil Joeppli acompanhou-a, dizendo, com um sorriso:
- Tive muito prazer em conhec-la. Gostava muito de seu pai.
- Muito obrigada - disse Elizabeth.
Sam tinha tido conhecimento daquele projecto. Seria essa uma das razes pelas quais se negara a vender as aces da companhia?
Quando ela j ia saindo, Emil Joeppli lhe disse:
- Isso tem que dar resultado em gente.
- Claro - disse Elizabeth.
Era preciso.
- Como um projecto de Pasta Vermelha  executado?
- Desde o incio? - perguntou Kate Erling.
- Desde o incio.
- Bem, como sabe, temos vrias centenas de produtos novos em fase experimental.
- Quem os autoriza?
- At determinar a verba, os chefes dos departamentos interessados.
- Qual o limite da verba?
- Cinquenta mil dlares.
- E acima disso?
- O projecto tem de ser aprovado pela directoria.  claro que um projecto no passa  categoria de Pasta Vermelha seno depois de bem sucedido nas experincias iniciais.
- Isso , s depois que tenha probabilidades de dar resultados.
- Exactamente.
- Como funciona a proteco ao projecto?
- Se o projecto  considerado importante, todo o trabalho  transferido para um laboratrio de mxima segurana. Todos os papis so retirados dos arquivos gerais 
e levados para um arquivo de Pasta Vermelha. S trs pessoas tm acesso a esses arquivos, o cientista encarregado do projecto, o presidente da companhia e um dos 
directores.
- Quem escolhe o director?
- Seu pai escolheu Walther Gassner.
No momento em que acabou de falar, Kate Erling percebeu o seu erro. As duas mulheres se olharam, e Elizabeth disse:
- Muito obrigada, Kate.  s isso.
Elizabeth no havia mencionado o projecto de Joeppli.
Entretanto, Kate compreendera do que Elizabeth estava falando.
Havia duas possibilidades. Ou Sam havia confiado em Kate e lhe falara sobre o projecto de Joeppli ou ela soubera dele por si mesma, a servio de algum.
Era muito importante no dar margem a que alguma coisa desse errado. Ela verificaria pessoalmente a segurana. Tinha tambm de falar com Walther Gassner. Estendeu 
a mo para o telefone e parou. Havia um meio melhor.
Naquela mesma tarde, Elizabeth embarcou num voo regular para Berlim.
Walther Gassner parecia nervoso.
Estavam sentados a uma mesa de um canto do salo do andar superior do Restaurante Papillon, no Kurfrstendamm. Sempre que Elizabeth ia a Berlim, Walther insistia 
em receb-la para jantar em casa, em companhia de Anna. Dessa vez, nem falaram nisso e sugerira o restaurante, ao qual havia chegado s.
Walther Gassner ainda tinha as feies bem-marcadas de ume jovem artista de cinema, mas j se notava alguma deteriorao na fachada. O rosto mostrava rugas de tenso 
e as mos nunca ficavam paradas. Parecia estar sob o domnio de extraordinria tenso. Quando Elizabeth perguntou por Anna, respondeu vagamente:
- Anna no est passando bem. No pde vir.
- Algum problema grave?
- No. Isso passa. Ficou em casa descansando.
- Vou telefonar para saber dela.
-  melhor no perturb-la.
Era uma conversa surpreendente, pois Walther, a quem Elizabeth sempre conhecera animado e extrovertido, estava reservado e reticente.
Ela falou ento no projecto de Emil Joeppli.
- Precisamos muito do que ele est fazendo.
- Vai ser uma grande coisa - murmurou Walther.
- Pedi-lhe que no lhe comunicasse mais nada - disse Elizabeth.
As mos de Walther ficaram de repente imveis.
- Por que fez isso, Elizabeth?
- No  nada pessoal contra voc, Walther. Eu faria a mesma coisa com qualquer outro director que estivesse trabalhando com ele. O que acontece  que quero cuidar 
do projecto  minha maneira.
- Compreendo - disse ele, ainda sem mover as mos.
-  um direito seu. - Fez uma pausa e continuou com um sorriso forado, que mostrava quanto aquilo estava lhe custando. - Escute, Elizabeth, Anna possui muitas aces 
da companhia. Mas no as pode vender sem a sua aprovao. Isso  muito importante para ns...
- Sinto muito, Walther, mas no posso concordar por enquanto com a venda das aces.
Neste momento, as mos de Walther voltaram a agitar-se nervosamente.

Captulo 24
Julius Badrutt era um homem magro e frgil, que parecia um louva-a-deus metido num terno preto. Era como um boneco desenhado por uma criana, com pernas e braos 
angulosos e um rosto magro e inacabado desenhado no alto do corpo. Estava sentado  mesa da directoria da Roffe and Sons, diante de Elizabeth. Havia mais cinco banqueiros 
em companhia dele.
Todos usavam ternos pretos com colete, camisas brancas e gravatas escuras. Elizabeth pensava que estavam no apropriadamente vestidos, mas fardados. Vendo os rostos 
impassveis e frios em volta da mesa, Elizabeth no conseguia dominar seus receios. Antes da reunio, Kate Erling tinha levado para a sala uma bandeja com doces. 
Os banqueiros recusaram o caf e os doces, do mesmo modo que antes no tinham aceito o convite dela para almoar. Era mau sinal. Queriam dizer com isso que estavam 
ali apenas para receber o dinheiro que lhes era devido.
- Antes de mais nada - disse Elizabeth -, quero agradecer a presena de todos.
Houve polidos resmungos ininteligveis em resposta.
Ela respirou fundo e continuou:
- Pedi que viessem at aqui para discutirmos uma prorrogao dos emprstimos contrados com os senhores pela Roffe and Sons.
Julius Badrutt sacudiu a cabea em breves movimentos quase convulsivos.
- Sinto muito, Senhorita Roffe. J informamos...
- Ainda no acabei - disse Elizabeth. - Se eu estivesse no lugar dos senhores tambm recusaria.
Os banqueiros se entreolhavam, confusos.
- Se estavam preocupados com os emprstimos quando meu pai, que era um homem brilhante, estava dirigindo a companhia, por que iriam conceder uma prorrogao a uma 
mulher inexperiente como eu?
- Creio que deu resposta cabal  pergunta que fez - disse Julius Badrutt secamente. - No temos a inteno de...
- Espere um pouco. Ainda no acabei.
Observaram-na agora com mais cautela. Ela olhou para cada um dos homens, a fim de ter certeza de que estava merecendo toda a ateno deles. Tratava-se de banqueiros 
suos, respeitados e invejados no mundo inteiro. Escutavam todos atentamente, e a sua atitude anterior de impacincia e enfado cedera lugar  curiosidade.
- Todos os senhores conhecem a Roffe and Sons h muito tempo.
E tenho certeza de que conheceram e respeitaram meu pai.
Alguns homens fizeram sinais de assentimento.
- Imagino que devem ter-se engasgado com o caf da manh quando leram a notcia de que eu havia ficado no lugar dele.
Um dos banqueiros sorriu, depois riu francamente e disse:
- Tem toda a razo, Senhorita Roffe. Se todos ns estamos de acordo, como disse, todos ns nos engasgamos com o caf da manh.
- No o censuro - disse Elizabeth, rindo. - Eu teria reagido da mesma maneira.
Outro banqueiro tomou a palavra.
- Desculpe a curiosidade, Senhorita Roffe. Se todos ns estamos de acordo quanto ao resultado desta reunio, o que estamos fazendo aqui?
- Esto aqui porque desejei reunir nesta sala os maiores banqueiros do mundo. E agi assim porque no posso acreditar que tenham tido xito encarando tudo exclusivamente 
do ponto de vista do dinheiro. Se fosse assim, qualquer guarda-livros poderia ter sucesso como banqueiro. No pode ser s isso!
- Claro que no  - disse outro banqueiro. - Somos antes de mais nada homens de negcios e...
- E a Roffe and Sons  um grande negcio. S tive uma ideia exacta da grandeza desta companhia depois que me sentei na cadeira de meu pai. No sabia quantas vidas 
haviam sido salvas por esta companhia em todo mundo. As contribuies que fizemos  medicina so inestimveis. Muitos milhares de pessoas dependem da Roffe and Sons 
para viver...
Julius Badrutt interrompeu-a.
- Tudo isso  muito meritrio. Mas parece que estamos nos afastando do assunto. Sei que lhe foi sugerido que liberasse as aces da companhia. Neste caso, haveria 
dinheiro em quantidade mais que suficiente para cobrir todos os emprstimos.
Era o primeiro erro dele. Sei que lhe foi sugerido...
A sugesto fora feita no segredo de uma reunio da directoria da companhia, em que tudo era confidencial. Algum que estava na reunio havia falado. Era algum que 
queria exercer presso sobre ela. Pretendia descobri-lo, mas isso podia ficar para depois.
- Posso fazer uma pergunta? - disse Elizabeth. - Se os emprstimos forem pagos, ter alguma importncia para os senhores de onde veio o dinheiro?
Julius Badrutt olhou-a, ruminando a pergunta,  procura de alguma armadilha. Disse por fim:
- No. No tem importncia de onde o dinheiro venha, contanto que os nossos ttulos sejam pagos.
- Muito bem! Pouco importa que o dinheiro provenha da venda das aces da companhia a terceiros ou dos nossos recursos financeiros prprios. Tudo o que devem saber 
agora  que a Roffe and Sons no vai fechar as portas. Nem hoje, nem amanh, nem nunca. Estou pedindo apenas a gentileza de uma prorrogao de prazo.
Julius Badrutt passou a lngua pelos lbios secos e disse:
- Acredite, Senhorita Roffe, que conta com toda a nossa simpatia.
Compreendemos a tremenda tenso emocional por que est passando, mas no podemos...
- Trs meses - disse Elizabeth. - Noventa dias.  claro que devero cobrar juros adicionais.
Houve um silncio em volta da mesa. Mas era um silncio negativo. Elizabeth viu os rostos hostis e frios. tentou ento um lance de desespero.
- No sei se devo revelar - murmurou ela com deliberada hesitao. - Em todo caso, peo-lhes que guardem o maior sigilo possvel. A Roffe and Sons est em vsperas 
de uma descoberta que vai revolucionar toda a indstria farmacutica. - Fez uma pausa para causar maior efeito. - Esta companhia tem em estudos um novo produto que 
vai sobrepujar todos os medicamentos actualmente existentes no mercado!
Sentiu perfeitamente que tinha havido uma mudana no ambiente.
Foi Julius Badrutt quem mordeu primeiro a isca.
- De que tipo...  esse medicamento?
Elizabeth sacudiu a cabea.
- Desculpe, Sr. Badrutt. Talvez eu j tenha falado mais do que devia. S lhes posso dizer que ser a maior inovao na histria de nossa indstria. Exigir uma imensa 
expanso de nossas instalaes. Teremos de duplic-las, talvez triplic-las.  claro que iremos precisar de novos financiamentos em grande escala.
Os banqueiros olhavam uns para os outros, trocando sinais silenciosos. O silncio foi quebrado por Badrutt.
- Se ns lhe dermos um prazo de noventa dias, esperamos naturalmente que a Roffe and Sons trabalhe connosco em todas as futuras transaces.
- Naturalmente.
Houve nova troca de olhares significativos. Funciona como os tambores na selva, pensou Elizabeth.
- Enquanto isso - disse Badrutt -, ns teremos a sua garantia de que ao fim de noventa dias todos os seus ttulos vencidos seriam resgatados?
- Teriam, sim.
Durante um instante, Badrutt ficou olhando para o espao. Em seguida, olhou para Elizabeth e para cada um dos seus companheiros, recebendo sinais silenciosos.
- Da minha parte - disse ele -, estou disposto a concordar.
No creio que um novo prazo, com os juros correspondentes,  claro, faa algum mal.
Um por um, os outros banqueiros concordaram.
- Estamos com voc, Julius...
E tudo foi combinado. Elizabeth recostou-se na cadeira, tentando dissimular a sua satisfao. Ganhara noventa dias.
Ia precisar de todos os minutos desse prazo.

Captulo 25
Era como se ela estivesse no centro de um furaco.
Tudo convergia para a mesa de Elizabeth, das centenas de departamentos da sede, das fbricas de Zaire, dos laboratrios da Grenlndia, dos escritrios da Austrlia 
e da Tailndia, dos quatro cantos da Terra.
Havia relatrios sobre novos produtos, demonstrativos de vendas, projeces estatsticas, campanhas de publicidade, programas experimentais.
Era preciso tomar decises sobre a construo de novas fbricas, venda de fbricas velhas, compra de companhias, admisso e demisso de directores. Elizabeth dispunha 
de pareceres tcnicos em todas as fases dos negcios, mas as decises finais tinham de ser tomadas por ela. Assim tinha sido Sam, e ela era grata pelos trs anos 
que havia trabalhado com ele. Sabia muito mais sobre a companhia do que havia imaginado, e, ao mesmo tempo, sabia muito menos. A extenso da companhia era incalculvel. 
Elizabeth havia concebido a companhia como um reino. Via agora que se tratava de uma srie de reinos, cada qual com seu vice-rei, e que o escritrio do presidente 
era como uma sala do trono. Cada um dos seus primos se incumbia do seu domnio prprio; alm disso, supervisionava alguns territrios estrangeiros. Por isso, todos 
viajavam constantemente.
Elizabeth compreende que tinha um problema especial. Era uma mulher no mundo masculino, e descobriu que isso fazia alguma diferena. Nunca havia realmente acreditado 
que os homens aceitassem como uma verdade o mito de inferioridade das mulheres, mas agora via que as coisas no se passavam de outra maneira. Ningum dizia isso 
abertamente em palavras ou actos, mas Elizabeth tinha de enfrentar diariamente essa realidade.
Era uma atitude oriunda de velhos preconceitos e no se podia fugir dela. Os homens no gostavam de receber ordens de uma mulher. No lhe agradava a idia de que 
uma mulher pusesse em dvida as suas concluses ou discordasse dos seus conceitos. O facto de Elizabeth ser jovem e bela agravava a situao. Todos procuravam faz-la 
compreender que o seu lugar era numa cama o numa cozinha, deixando os negcios aos cuidados dos homens.
Elizabeth marcava reunies todos os dias com diversos chefes de departamento. Nem todos eram hostis. Alguns eram ousados. Uma mulher bonita na cadeira da presidncia 
era um desafio irresistvel para certos coraes masculinos. Pensavam que, se conseguissem lev-la para a cama, poderiam control-la e a companhia tambm.
Eram uma verso adulta dos rapazes da Sardenha.
Os homens atacavam Elizabeth pelo lado errado. Deviam atac-la pelo esprito, pois, no fundo, era dali que ela os controlava. Subestimavam-lhe a inteligncia e se 
enganavam redondamente.
Calculavam mal a sua capacidade de exercer autoridade, e esse era outro erro.
No levavam em considerao a sua energia, e esse era o maior de todos os erros. Ela era uma Roffe, descendente do velho Samuel e de Sam, com o esprito e a determinao 
deles.
Enquanto os homens a cercavam e procuravam usar Elizabeth, ela  que os usava. Apropriava-se dos conhecimentos, das experincias e da intuio que eles possuam 
e passava a usar tudo isso como lhes pertencesse. Deixava os homens falarem e escutava. Fazia perguntas e guardava na memria as respostas.
Estava aprendendo.
Levava todas as noites duas pesadas pastas, cheias de relatrios a serem estudados. Trabalhava s vezes at s quatro horas da madrugada. Uma tarde, um fotgrafo 
registou para um jornal um flagrante de Elizabeth, que saa do edifcio acompanhada de uma secretria com as duas pastas. A fotografia foi publicada no dia seguinte 
com a legenda: "Uma herdeira que trabalha".
Elizabeth se tornara uma celebridade internacional da noite para o dia. A histria de uma mulher jovem e bela que herdava uma companhia de muitos bilies de dlares 
e resolvia assumir a sua direco era irresistvel. A imprensa explorou-a em todos os ngulos. Elizabeth era bela, inteligente e simples, uma combinao de qualidades 
muito raras entre as celebridades.
Atendia aos jornalistas sempre que possvel, tentando recompor a imagem um pouco desgastada da companhia, e eles apreciavam essa solicitude. Quando ela no tinha 
a resposta  pergunta de algum reprter, no tinha a menor dvida em pegar o telefone e perguntar a algum. Os primos iam de avio a Zurique para as reunies semanais. 
Elizabeth passava com eles tanto tempo quanto possvel. Via-os juntos e reunia-se com cada um deles separadamente. Falava com eles e estudava-os, pensando encontrar 
algum indcio de que um deles fosse capaz de deixar pessoas inocentes morrerem numa exploso, de vender segredos a concorrentes e de procurar destruir a Roffe and 
Sons. Um de seus primos.
Ivo Palazzi, com o seu irresistvel encanto.
Alec Nichols, tipo perfeito, o prprio gentleman, sempre solcito quando Elizabeth precisava dele.
Charles Martel, um homem dominado e amedrontado. Homens assim podiam ser perigosos quando acuados.
Walther Gassner. O tipo do heri alemo. Belo e extremamente afvel. Como seria ele no ntimo? Casara-se com Anna, treze anos mais velha do que ele. Casara-se por 
amor ou por dinheiro?
Quando Elizabeth estava com eles, observava, escutava, sondava. Mencionava a exploso no Chile e observava as reaces de cada um. Falava das patentes que a Roffe 
tinha perdido para outras companhias e discutia as indemnizaes a serem pagas.
No conseguia apurar nada. Fosse quem fosse, era muito hbil para se deixar trair. Teria de ser colhido numa armadilha.
Lembrou-se da nota do prprio punho de Sam no relatrio. Era preciso apanhar o patife. Ela teria de encontrar um meio.
Elizabeth ficava cada vez mais fascinada com o funcionamento interno da indstria farmacutica.
As ms notcias eram deliberadamente espalhadas. Quando se sabia que algum doente morrera depois de ter tomado um medicamento de um concorrente, meia hora depois 
cerca de dez homens estavam dando telefonemas atravs do mundo. "Sabe o que esto dizendo?" Entretanto, aparentemente, todas as companhias pareciam viver nas melhores 
relaes possveis. Os chefes de algumas das grandes firmas reuniam-se regularmente em encontros informais.
Elizabeth foi convidada para uma dessas reunies. Foi a nica mulher presente. Os homens debateram os seus problemas comuns.
O presidente de uma das grandes companhias, um homem de meia-idade que tinha seguido Elizabeth a noite inteira, disse-lhe em dado momento:
- As restries so cada vez mais absurdas. Se a aspirina fosse descoberta hoje, duvido muito que as autoridades a aprovassem. Por falar nisso, minha bela jovem, 
tem alguma idia de h quanto tempo ns temos a aspirina?
A bela jovem respondeu:
- Desde quatrocentos anos antes de Cristo, quando Hipcritas descobriu a salicina na casca do salgueiro.
O homem olhou para ela e o sorriso morreu em seus lbios.
- Certo - murmurou ele, e afastou-se.
Todos os chefes de companhia concordavam em que um dos seus maiores problemas era o das firmas sem escrpulos que roubavam as frmulas dos produtos que tinham xito, 
mudavam os nomes e lanavam os medicamentos no mercado. Isso custava s empresas de boa reputao centenas de milhes de dlares por ano.
Na Itlia, no havia sequer a necessidade de roubar.
- A Itlia  um pas que no tem regulamento de patentes a respeito de medicamentos - disse um dos directores a Elizabeth.
- Por algumas centenas de milhares de liras, qualquer pessoa pode comprar as frmulas e vender os produtos com outro nome.
Gastamos milhes de dlares em pesquisas. E eles se limitam a arrecadar os lucros.
- Isso acontece apenas na Itlia? - perguntou Elizabeth.
- A Itlia e a Espanha so os piores lugares. A Frana e a Alemanha Ocidental, mais ou menos. S nos Estados Unidos e na Inglaterra  que no acontece isso.
Elizabeth olhava para aqueles homens indignados e tinha vontade de saber quantos deles estariam envolvidos nos roubos das patentes da Roffe and Sons.
Elizabeth tinha a impresso de que estava passando a maior parte da vida a bordo de avies. O seu passaporte ficava bem  mo, na primeira gaveta de sua mesa. Uma 
vez por semana, pelo menos, havia uma chamada angustiosa do Cairo, da Guatemala ou de Tquio, e poucas horas depois, Elizabeth estava a bordo de um avio com alguns 
homens de sua confiana para atender a alguma emergncia.
Encontrava-se com gerentes de fbricas e suas famlias em cidades grandes como Bombaim ou em pontos remotos como Puerto Vallarta, e pouco a pouco principiou a ver 
a Roffe and Sons sob outra perspectiva. No era mais um acmulo impessoal de relatrios e estatsticas. Chegava um relatrio da Guatemala e isso significava Emilio 
Nez, sua mulher gorda e feliz e seus doze filhos. Copenhague era Nils Bjorn e a me invlida com quem ele vivia. O Rio de Janeiro fazia lembrar uma noite passada 
com Alexandre Duval e sua vivaz companheira.
Elizabeth mantinha-se regularmente em contacto com Emil Joeppli. Telefonava-lhe sempre por uma linha privativa e s vezes ia visit-lo  noite em seu pequeno apartamento 
no Aussershl.
Era cautelosa at pelo telefone.
- Como vo as coisas?
- Um pouco mais lentamente do que eu esperava, Senhorita Roffe.
- Precisa de alguma coisa?
- No. S de tempo. Encontrei um problema, mas creio que j resolvi.
- Muito bem. Telefone-me se precisar de alguma coisa, seja l o que for.
- Est bem. Muito obrigado, Senhorita Roffe.
Elizabeth desligara o telefone com vontade de dizer mais alguma coisa, de apress-lo, pois sabia que o vencimento dos emprstimos contrados com os bancos estava 
prximo. Precisava muito do produto em que Joeppli estava trabalhando, mas sabia que pouco adiantava pression-lo e continha sua impacincia. As experincias no 
podiam evidentemente estar terminadas antes do prazo concedido pelos banqueiros. Mas ela tinha um plano.
Pretendia levar Julius Badrutt secretamente at o laboratrio para que ele visse pessoalmente o projecto. Os bancos dariam o tempo necessrio.
Elizabeth trabalhava cada vez mais em conjunto com Rhys Williams, e com frequncia ficavam juntos at altas horas da noite.
Quase sempre trabalhavam sozinhos. Jantavam na sala privativa do escritrio ou no elegante apartamento que ela passara a ocupar. Era um edifcio moderno em Zurichberg, 
com as janelas dando para o lago de Zurique, amplo , arejado e bem-iluminado.
Elizabeth estava cada vez mais consciente do poderoso magnetismo animal de Rhys, mas, se ele sentia qualquer atraco por ela, tinha o maior cuidado em no dar a 
maior demonstrao.
Era sempre gentil e simptico. A sua atitude era mais ou menos protectora, e essa palavra tinha no esprito de Elizabeth ressonncia pejorativa.
Queria se apoiar nele, confiar nele, mas sabia que precisava tomar cuidado. Mais de uma vez, estivera a ponto de contar a Rhys tudo sobre os actos de sabotagem na 
companhia, mas recuava sempre. No era ainda tempo de falar sobre o assunto com ningum. Tinha de saber mais.
Elizabeth estava adquirindo confiana em si mesma. Na reunio de vendas, tinham discutido o caso de um preparado para os cabelos que estava tendo pouca sada.
- H muitas devolues das farmcias - disse um dos chefes de vendas. - O produto no pegou. Precisamos de mais publicidade.
- Nossa verba de publicidade est esgotada - disse Rhys. Temos de tomar uma providncia diferente.
- Vamos tirar o produto das farmcias - disse ento Elizabeth.
- Como? - perguntaram todos, voltando-se para ela.
-  isso mesmo. Devemos continuar a campanha de publicidade e passar a vender o produto exclusivamente nos sales de beleza. Procurem dar a impresso de que  uma 
mercadoria exclusiva, difcil de encontrar.
Rhys pensou um pouco e disse:
- Muito bem. Agrada-me a idia.
As vendas do produto subiram da noite para o dia.
Depois, Rhys deu-lhe os parabns.
- Voc no  apenas uma mulher bonita - disse ele com um sorriso.
Ento, ele estava comeando a not-la.

Captulo 26
Londres. Sexta-feira, 2 de novembro. 14 horas.
Alec Nichols estava na sauna do clube quando a porta se abriu e um homem entrou na pea de vapor, com uma toalha amarrada  cintura. Foi sentar-se no banco de madeira 
ao lado de Alec.
- Isto aqui est quente como um colo de feiticeira, no  mesmo, Sir Alec?
Alec voltou-se. Era Jon Swinton.
- Como conseguiu entrar aqui?
- Disse que estava  minha espera - respondeu Swinton, piscando o olho. - E est mesmo, no ?
- No. J lhe disse que preciso de um pouco mais de tempo.
- Disse tambm que sua priminha ia consentir na venda das aces que, depois disso, nos daria o dinheiro.
- Ela... ela mudou de idia.
- Pois  melhor voc convenc-la a no mudar de idia.
- Vou convenc-la.  apenas uma questo de...
-  apenas uma questo de quanto papo-furado vamos tolerar de sua parte - disse Jon Swinton, chegando mais perto e fazendo Alec escorregar pelo banco para afastar-se 
dele. - No queremos ser duros, porque  sempre bom ter um amigo de confiana no Parlamento. Mas acontece que h um limite para tudo... Ns lhe fizemos um favor. 
Agora, est na hora de voc pagar. Tem de conseguir uma remessa de drogas para ns.
- No!  impossvel! No posso fazer isso...
Alec viu de repente que tinha sido empurrado para aponta do banco, bem prximo ao recipiente de metal cheio de pedras quentes.
- Cuidado! - gritou Alec.
Swinton agarrou o brao de Alec e torceu-o, empurrando-o na direco das pedras. Alec sentiu que os plos de seu brao comeavam a chamuscar.
- No!
No instante seguinte, o brao foi comprimido contra as pedras, e Alec soltou um grito de dor. Em seguida, rolou pelo cho. Swinton inclinou-se para ele e disse:
- D um jeito. Depois a gente se v.

Captulo 27
Berlim. Sbado, 3 de novembro. 18 horas.
Anna Roffe Gassner no sabia por quanto tempo poderia aguentar aquilo.
Era uma prisioneira dentro de sua prpria casa. A no ser nas poucas horas m que a faxineira aparecia uma vez por semana, ela e os filhos ficavam sozinhos e inteiramente 
 merc de Walther.
Este nem se dava mais ao trabalho de esconder o seu dio. Anna estava no quarto das crianas, ouvindo um disco que gostava muito.
- Estou farto de ouvir isso! - gritou Walther, entrando impetuosamente.
Quebrou o disco, enquanto as crianas se encolhiam de terror.
Anna tentou acalm-lo.
- Desculpe, Walther. No sabia que voc estava em casa. Quer alguma coisa?
Walther avanou para ela, com os olhos fuzilantes, e disse:
- Temos de nos librar das crianas, Anna.
Colocou as mos nos ombros dela.
- O que acontecer nesta casa ser nosso segredo.
Nosso segredo. Nosso segredo. Nosso segredo.
Sentiu as palavras ressoarem-lhe na cabea enquanto os braos de Walther a apertavam at que ela no pde mais respirar.
Perdeu os sentidos.
Quando Anna voltou a si estava deitada em sua cama. As cortinas estavam descidas. Olhou para o relgio na mesa-de-cabeceira. Seis horas da tarde. A casa estava em 
silncio, num silncio sinistro. Pensou imediatamente nas crianas.
Levantou-se com as pernas trmulas e foi at  porta do quarto. Estava trancada por fora. Encostou o ouvido  porta, procurando escutar. Devia estar ouvindo o barulho 
das crianas.
No podiam deixar de procur-la.
Se pudessem, se ainda estivessem vivas...
Suas pernas tremiam tanto que teve dificuldade em ir at ao telefone. Rezou em silncio ao tirar o fone do gancho. Ouviu o rudo e hesitou, pensando no que Walther 
faria se a surpreendesse de novo. Comeou a discar com as mos trmulas.
Por isso, discou errado. Pela segunda vez tambm. Comeou a chorar. Havia to pouco tempo! Procurando dominar-se, e com movimentos muito lentos, discou 110. Ouviu 
a campainha tocar e em seguida uma voz milagrosa de homem.
- Aqui fala o Socorro Urgente da Polcia.
Anna no conseguiu articular uma s palavra.
- Fala o Socorro Urgente da Polcia. Que deseja?
- Por favor! Mande algum aqui! Estou em grande perigo! Mande algum...
Walther apareceu diante dela, arrancando-lhe o telefone da mo e atirou-a na cama com um empurro. Com a respirao entrecortada arrancou o fio do telefone da parede 
e voltou-se para Anna.
- As crianas... - murmurou ela. - O que voc fez com as crianas?
Walther no respondeu.
A Diviso Central da polcia Criminal de Berlim ficava na Keithstrasse, 2832, num bairro de aspecto comum, em que havia tantos edifcios de apartamentos quanto de 
escritrios. O nmero de emergncia do Departamento de Delitos Pessoal era dotado de um dispositivo automtico que no permite que uma ligao fosse desfeita enquanto 
no fosse cortada electronicamente pela mesa da polcia. Graas a isso, era possvel apurar a procedncia de todos os telefonemas, por mais breve que tivesse sido 
a conversao. Esse dispositivo era um equipamento moderno de que o departamento se orgulhava.
Cinco minutos depois do telefonema de Anna Gassner, o detective Paul Lange entrou no gabinete do seu chefe, o major Wageman, tendo na mo um toca-fitas.
- Gostaria que escutasse isso - disse o detective e apertou um boto.
Ouviu-se uma voz metlica dizer: "Aqui fala o Socorro Urgente da Polcia. Que deseja?" Ouviu-se ento uma voz de mulher, cheia de terror: "Por favor! Mandem algum 
aqui! Estou em grande perigo! Mandem algum..." Houve um estalo, depois um baque, e o telefone ficou mudo.
- Identificou o telefonema? - perguntou o major Wageman.
- Sabemos de que casa foi dado o telefonema - respondeu o detective.
- Qual  o problema ento? Fale com a Central para mandar um carro imediatamente para l.
- Quero a sua autorizao primeiro - disse Lange, colocando uma folha de papel na mesa diante do major.
- Epa! - exclamou Wageman. - Tem certeza?
- Tenho, major.
Wageman olhou para a folha de papel. O telefone constava da lista em nome de Walther Gassner, chefe da diviso alem da Roffe and Sons, uma das grandes empresas 
da Alemanha.
No havia necessidade de discutir as consequncias. S um idiota poderia desconhec-las. Um passo em falso, e ambos poderiam ser demitidos.
- Muito bem - disse Wageman, depois de reflectir um pouco. Acho que voc deve ir pessoalmente. E tenha muito cuidado, entendeu?
- Entendi, major.
A propriedade de Gassner ficava em Wannsee, um subrbio de classe alta na parte sudoeste de Berlim. O detective Lange seguiu pelo caminho mais longo, o da Hohenszollerndamm, 
e no pela Autobahn, para encontrar o trfego livre. Atravessou o Clayalle e passou pelo edifcio da CIA, escondido por trs de mais de um quilmetro de cercas de 
arame farpado. Passou pelo quartel-general do exrcito americano e virou  direita para o que fora conhecido em outros tempos como Rodovia 1, a estrada mais longa 
da Alemanha, que ia da Prssia Oriental s fronteiras da Blgica.  sua direita, ficava a Brck der Einheit, a Ponte da Unidade. O detective Lange saiu da grande 
estrada para as colinas cobertas de florestas de Wannsee.
O lugar era muito bonito. s vezes, aos domingos, o detective Lange ia com a mulher para aqueles lados s para apreciarem as lindas casas.
Encontrou o endereo que procurava pelo longo caminho que levava  casa de Walther Gassner. A dinastia Roffe era bastante poderosa para derrubar governos. Seguindo 
o conselho do seu chefe, o detective Lange estava empenhado em ter o mximo de cuidado.
Parou o carro  porta da casa de trs andares, saltou, tirou o chapu e tocou a campainha. Esperou. Havia o pesado silncio de uma casa deserta. Sabia que isso era 
impossvel e tornou a tocar. Nada seno aquele silncio completo e opressivo. J estava pensando em ir tentar os fundos da casa quando a porta se abriu inesperadamente. 
Uma mulher apareceu. Era de meia-idade e de feies comuns. O detective Lange pensou que fosse a governanta. Mostrou a sua carteira de identificao e disse:
- Gostaria de falar com a Sra. Walther Gassner. Tenha a bondade de dizer-lhe que  o detective Lange.
- Sou a Sra. Gassner - disse a mulher.
O detective Lange conseguiu esconder a sua supresa. Tinha uma idia inteiramente diferente da dona de uma casa como aquela.
- Recebemos na polcia ainda h pouco um chamado daqui.
Ela o olhou, com o rosto impassvel e desinteressado. Lange tinha a impresso de que estava tratando erradamente do caso, no sabia por qu. Parecia-lhe que no 
estava levando em conta alguma coisa importante.
- O telefonema foi seu, Sra. Gassner?
- Foi, sim, mas tudo no passou de um engano.
Havia um tom surdo, forado, na voz da mulher que no lhe agradava, principalmente quando o comparava com o apelo nervoso e angustiado pelo telefone.
- S para constar dos nossos registos, que espcie de engano, senhora?
Houve um instante de pequena hesitao.
- Dei por falta de uma de minhas jias e pensei que tivesse sido roubada. Mas j encontrei a jia.
O nmero do telefone de emergncia era para casos graves, assaltos, homicdio, agresso. Mas era preciso agir com cuidado.
- Est bem - disse o detective, com vontade de entrar na casa e ver o que ela estava escondendo, mas nada mais podia fazer.
- Muito obrigado, Sra. Gassner. Desculpe o incmodo.
O detective ficou frustrado e viu a porta ser fechada em sua cara. Voltou para o carro e foi embora.
Atrs da porta, Anna se voltou.
Walther disse com voz mansa:
- Saiu-se muito bem, Anna. Agora, vamos voltar l para cima.
Ele se dirigiu para a escada. Anna pegou numa tesoura grande que levava escondida nas dobras do robe e cravou-a nas costas dele.

Captulo 28
Roma. Domingo, 4 de novembro. Meio-dia.
Ivo Palazzi pensava que o dia estava prefeito para aquela visita  Villa d'Este, em companhia de Simonetta e das trs belas filhas do casal. Enquanto passeava pelos 
fabulosos jardins do Tivoli, de brao dado com sua mulher, ao ver as meninas que corriam de uma fonte para a outra, ia pensando se Pirro Ligorio, que construra 
o parque para a famlia D'Este, sonhara com a alegria que proporcionaria no futuro a milhes de pessoas.
A Villa D'Este ficava a nordeste de Roma, no alto dos montes Sabinos. Ivo j estivera muitas vezes ali, mas sempre sentia um prazer especial em ficar no ponto mais 
alto e olhar para as dezenas de fontes luminosas, cada qual artisticamente desenhada e diferente das outras.
Uma vez, Ivo tinha levado at ali Donatella e seus trs filhos. Como tinha adorado o passeio! Essa lembrana entristeceu Ivo. No vira Donatella, nem falara com 
ela, desde aquela horrvel tarde no apartamento. Lembrava-se ainda das tremendas unhadas que recebera dela. Sabia que remorso ela devia estar sentindo, ao mesmo 
tempo que desejava a volta dele. No fazia mal que ela sofresse um pouco, como ele havia sofrido.
Imaginava ouvir a voz de Donatella a dizer durante o passeio:
"Vamos. Por aqui, meninos".
Ouviu a voz de Donatella to claramente que chegava a parecer-lhe real. Ouviu-a dizer:
- Ande mais depressa, Francesco!
Voltou-se e viu Donatella atrs dele em companhia dos trs filhos, encaminhou-se determinadamente para onde estavam ele, Simonetta e as trs meninas. No primeiro 
momento, Ivo pensou que a presena de Donatella ali nos jardins do Tivoli fosse pura coincidncia, mas logo viu a expresso no rosto dela, ficou sabendo da verdade. 
A grande putana estava reunindo as duas famlias para arruin-lo. Agiu ento como um alucinado.
Gritou para Simonetta:
- Quero mostrar-lhe uma coisa. Vamos andar depressa, todo mundo!
Levou ento rapidamente a famlia pela sinuosa escadaria de pedra abaixo, empurrando quem encontrava no caminho para abrir passagem e de vez em quando lanando olhares 
desesperados para trs. Donatella e as crianas j estavam chegando ao alto da escadaria. Ivo sabia que, se os meninos o vissem, tudo estaria perdido. Bastava que 
um deles gritasse "Papai!" e ele no teria outro remdio seno afogar-se numa das fontes. Apressou Simonetta e as filhas, sem lhes dar oportunidade sequer para respirar.
- Para onde vamos? - perguntou Simonetta. - Porqu esta correria?
-  uma supresa. Voc vai ver - disse Ivo, tentando mostrar-se alegre e despreocupado.
Arriscou outro rpido olhar para trs. Donatella e os trs rapazes no estavam visveis no momento.  frente, havia um labirinto, com um lano de degraus para baixo 
e outro para cima. Ivo escolheu o ltimo.
- Vamos! - disse ele para as meninas. - Quem chegar primeiro l em cima ganhar um prmio!
- Estou exausta, Ivo - disse Simonetta. - No podemos descansar um instante?
- Descansar? Nem me fale em descansar! Isso estragaria a supressa! Vamos!
Pegou Simonetta pelo brao e arrastou-a pelos degraus acima enquanto as trs meninas corriam  frente. Ivo sentiu de repente falta de flego e pensou por um momento 
que seria bem feito para as duas mulheres que ele casse ali fulminado por um ataque do corao. A verdade era que no se podia confiar nas mulheres. Precisavam 
obrig-lo a fazer aquilo? No o adoravam?
Mas ele ia matar aquela cadela!
Imaginou estrangular Donatella na cama. Ela estava nua e lhe pedia perdo. Sentiu ento desejo ao invs de raiva.
- No podemos parar agora? - perguntou Simonetta.
- No! Estamos quase chegando!
Chegaram de novo ao alto. Ivo correu os olhos em torno e no viu Donatella e as crianas.
- Para onde voc est nos levando, Ivo?
- Vocs vo ver. sigam-me! - disse Ivo nervosamente, levando-as para a sada.
- Mas j vamos sair, papai? - perguntou Isabella, a filha mais velha. - Chegamos ainda h pouco...
- Vamos para um lugar melhor - disse Ivo, ofegante.
Olhou para trs e viu Donatella, que subia a escada com os filhos.
- Mais depressa, meninas.
Um momento depois, Ivo e uma de suas famlias estavam fora dos portes da Villa d'Este, correndo para o carro, que havia ficado na grande praa.
- Nunca vi voc agir dessa maneira - murmurou Simonetta.
- Nunca agi assim.
Ligou o motor antes mesmo que as portas estivessem fechadas e saiu do estacionamento como se os demnios o estivessem perseguindo.
- Ivo!
Ele bateu tranquilizadoramente na mo de Simonetta.
- Quero que todo mundo agora fique calmo. Como prmio especial, vou levar vocs para almoarem no Hassler.
Sentaram-se a uma mesa diante de uma grande janela, de onde se via a Escada Espanhola e, ao longe, em todo o seu esplendor, a Baslica de So Pedro.
Simonetta e as crianas gostaram muito do almoo. Ivo tinha a impresso que estava comendo papel. Suas mos tremiam tanto que mal conseguia segurar o talher. No 
aguento mais, pensava ele. No vou deixar que ela me arruine a vida.
No tinha mais dvidas de que era exactamente isso que Donatella pretendia fazer. A sorte estava lanada. A no ser que ele encontrasse um meio de dar o dinheiro 
a Donatella.
Tinha de conseguir o dinheiro. Pouco importava como...

Captulo 29
Segunda-feira, 5 de novembro. 18 horas.
No momento em que Charles Martel entrou em casa, viu que estava em dificuldades. Hlne achava-se  espera dele em companhia dela estava Pierre Richaud, o joalheiro 
que fizera as imitaes das jias roubadas.
- Entre, Charles - disse Hlne com um subtom na voz que gelou de terror o corao de Charles. - Creio que voc e M.
Richaud j se conhecem.
Charles olhou-a, calado, sabendo que qualquer coisa que dissesse poderia conden-lo. O joalheiro voltara os olhos para o cho e era evidente que no se sentia  
vontade.
- Sente-se, Charles.
Era uma ordem, e ele obedeceu.
- O que est enfrentando agora, mon cher mari,  um processo criminal como ladro. Roubou minhas jias e substituiu-as por imitaes baratas feitas por M. Richaud.
Charles descobriu, horrorizado, que estava urinando nas calas, coisa que no lhe acontecia desde garotinho. Ficou muito vermelho e teve vontade de sair dali para 
ir trocar de roupa. No, o que ele queria mesmo era fugir dali e nunca mais voltar.
Hlne sabia de tudo. Pouco importava como descobrira. No havia escapatria e no havia piedade. J era por demais aterrador que Hlne tivesse descoberto o roubo. 
Pior seria quando ela soubesse o motivo, quando soubesse que ele planeava tirar o dinheiro de Hlne para fugir dela. O inferno em que vivia iria ter redobrada a 
violncia. Ningum conhecia Hlne mais que Charles. Era une sauvage1 , capaz de tudo.
Destru-lo-ia sem um momento de hesitao e o transformaria num clochard, num dos tristes vagabundos esfarrapados que dormem nas ruas de Paris. A vida dele se tornaria 
de repente uma merda.
- Pensou mesmo que poderia ter xito com uma coisa to imbecil? - perguntou Hlne.
Charles ficou miseravelmente calado. Sentia as calas mais molhadas ainda, mas no tinha coragem de olhar para ela.
- Consegui convencer M. Richaud a contar-me tudo.
Convencer... Charles no queria nem pensar como.
- Tenho cpias fotostticas do recibo do dinheiro que voc me roubou. Posso faz-lo passar vinte anos na cadeia. - Fez uma pausa e acrescentou: - Se eu quiser.
As palavras dela s serviam para agravar o pnico de Charles.
A experincia lhe demonstrava que a generosidade de Hlne era ainda mais perigosa do que a clera. Charles no tinha nimo de olhar para ela. No conseguia imaginar 
o que ela exigiria dele.
Devia ser alguma coisa monstruosa.
Hlne voltou-se para Pierre Richaud.
- No diga uma palavra sobre isto a ningum at eu resolver o que fazer.
- Sem dvida alguma, Mme Roffe-Martel, sem dvida. E agora, posso...?
Hlne assentiu, e Pierre Richaud deixou rapidamente a casa.
Hlne viu-o sair e, em seguida voltou-se para o marido.
Podia sentir o cheiro do medo dele. E de alguma coisa mais.
Urina. Sorriu. Charles tinha-se urinado de medo. Havia-o adestrado bem. Estava contente com Charles. Era um casamento muito satisfatrio. Ensinara Charles, e ele 
havia reagido muito bem. Era um produto dela. As inovaes que ele introduzira na Roffe and Sons eram brilhantes, mas tinham partido todas da cabea de Hlne. Ela 
era uma Roffe. Era rica por direito prprio, e os seus casamentos anteriores lhe haviam dado ainda mais dinheiro. Mas no era por dinheiro que se interessava e, 
sim, pelo controle da companhia. Tinha planeado usar as suas aces para comprar mais aces, as aces dos outros. J conversara com eles sobre isso. Todos haviam 
concordado em cooperar com ela para a formao de um grupo minoritrio. Mas Sam tinha sido um obstculo aos seus planos e, depois, Elizabeth. Hlne, porm, no 
tencionava deixar que Elizabeth, ou fosse l quem fosse, a impedisse de conseguir o que desejava. Charles ia conseguir tudo para ela. Se acontecesse algum contratempo, 
ele serviria de bode expiatrio.
Naquele momento, entretanto, ele devia ser punido por sua pequena revolta. Olhou para ele e disse:
- Ningum me rouba, Charles. Ningum. Voc est liquidado. A no ser que eu resolva salv-lo.
Charles estava sentado, desejava v-la morta, apavorado diante dela. Hlne se aproximou dele e quase lhe roou o rosto com as coxas.
- Quer que eu o salve, Charles?
- Quero - disse ele, a voz rouca.
Hlne estava tirando a saia com os olhos faiscando, e ele pensou: Oh, no! Agora no!
- Escute ento o que lhe vou dizer. A Roffe and Sons  minha companhia. Quero o controle accionrio dela.
Charles levantou os olhos para ela do fundo da sua angstia e disse:
- Sabe muito bem que Elizabeth no vai vender.
Hlne tirou a blusa e as calas.
- Voc deve ento fazer alguma coisa com ela. Ou isso ou vinte anos de cadeia. No se preocupe, que eu lhe direi o que tem de fazer. Mas, primeiro, venha c, Charles.

Captulo 30
No dia seguinte, s dez horas da manh, o telefone directo de Elizabeth tocou. Era Emil Joeppli. Ela lhe havia dado o nmero do telefone para que ningum soubesse 
das conversas entre eles.
- Seria muito bom se eu pudesse v-la - disse ele, numa voz em que a ansiedade era visvel.
- Estarei a dentro de quinze minutos.
Kate Erling mostrou surpresa quando viu Elizabeth sair do escritrio com o casaco e a bolsa.
- Tem hora marcada com.... - disse ela.
- Cancele tudo por hora - disse Elizabeth e saiu.
No Edifcio de Desenvolvimento, um guarda examinou o carto de Elizabeth.
- Ultima porta  esquerda, Senhorita Roffe.
Joeppli estava sozinho no laboratrio e recebeu-a com entusiasmo.
- Terminei os ltimos testes ontem  noite. D resultado. As enzimas tolhem inteiramente o processo de envelhecimento.
Levou-a at uma gaiola onde havia quatro jovens coelhos irrequietos e animados de incessante vitalidade. Numa gaiola ao lado, viam-se tambm quatro coelhos, estes 
mais velhos e apticos.
- Esta  a gerao nmero 500 a receber a enzima - disse Joeppli.
- Parecem sdios - disse Elizabeth, olhando para a gaiola.
- Este  o grupo de controle - disse Joeppli, sorrindo. - Os mais velhos esto  esquerda.
Elizabeth olhou para os coelhos cheios de vida que se agitavam na gaiola e quase no pde acreditar.
- Tero uma sobrevida trs vezes maior que os outros.
Quando se aplicasse essa relao aos seres humanos, os resultados seriam assombrosos. Elizabeth no podia dissimular seu interesse.
- Quando poder comear a fazer experincias com seres humanos, Joeppli?
- Estou reunindo minhas anotaes. Depois disso, preciso de mais trs ou quatro semanas, no mximo.
- No fale nisso com ningum, sim?
- Claro que no, Senhorita Roffe. Estou trabalhando sozinho e redobrarei os cuidados.
Toda a tarde foi tomada por uma reunio de directoria e tudo correu bem. Walther no apareceu. Charles ventilou novamente o assunto da venda das aces, porm Elizabeth 
ops firmemente o seu veto. Depois disso, Ivo foi encantador como sempre, e Alec se mostrou mais cavalheiro do que nunca. Charles parecia excepcionalmente preocupado. 
Elizabeth gostaria de saber porqu.
Convidou todos a ficarem em Zurique e jantarem com ela. To displicentemente possvel, Elizabeth mencionou os problemas constantes do relatrio, esperando alguma 
espcie de reaco, mas no notou nervosismo nem culpa. E todos os que podiam estar envolvidos no caso,  excepo de Walther, estavam sentados  mesa.
Rhys no comparecera  reunio nem ao jantar. Dissera a Elizabeth que tinha um caso urgente para resolver, e ela imaginou logo que se tratava de alguma mulher. Sabia 
que sempre que Rhys ficava trabalhando com ela at altas horas da noite, tinha de cancelar algum encontro. Certa vez, quando ele no conseguira avisar a tempo a 
mulher, esta apareceu no escritrio. Era uma ruiva sensacional, com um corpo que fazia Elizabeth sentir-se humilhada. Estava furiosa e no procurava ocultar o desagrado 
que sentia. Rhys levou-a at o elevador e voltou.
- Desculpe, Elizabeth - disse ao voltar.
Elizabeth no se conteve.
- Ela  encantadora. O que faz na vida?
-  mdica, especializava em neurocirurgia.
Elizabeth riu, mas soube no dia seguinte que a ruiva era realmente mdica especializada em neurocirurgia.
Tinha havido outras, e Elizabeth sentiu-se mal em todos os casos. Gostaria de compreender Rhys melhor. Conhecia o Rhys Williams gregrio e pblico. Queria conhecer 
o Rhys Williams ntimo, que vivia escondido sob o outro. Mais de uma vez, tinha pensado que quem deviria estar dirigindo a companhia era Rhys, em lugar de receber 
ordens dela. Gostaria muito de poder ser franca e ficar sabendo o que Rhys pensava disso.
Naquela noite, depois do jantar, quando os membros da directoria j se haviam despedido para embarcar em comboios e avies de volta para casa, Rhys entrou no escritrio 
onde Elizabeth estava trabalhando com Kate Erling.
- Resolvi vir ajudar um pouco - disse ele simplesmente.
No explicou onde tinha estado. Por que teria de me dar explicaes?, pensou Elizabeth. Ele no me deve nenhuma justificativa.
Todos comearam a trabalhar, e o tempo correu clere. Rhys estava inclinado sobre alguns papis., examinando-os rapidamente, mas sem perder um s detalhe. Encontrou 
vrias falhas em contratos importantes, que no tinham sido notadas pelos advogados. Por fim, levantou-se, espreguiou-se e olhou para o relgio.
- Ih! J passa de meia-noite! Estou cansado e tenho um encontro. Virei amanh bem cedo para acabar de examinar estes contratos.
Elizabeth perguntou-se se o encontro seria com a neurocirrgica ou com outra. Conteve-se, porm. O que Rhys Williams fazia com a sua vida particular era assunto 
exclusivamente dele.
- Desculpe - disse ela. - No sabia que j era to tarde.
Pode ir. Kate e eu ainda vamos ler alguns papis.
- At amanh, ento. Boa noite, Kate.
- Boa noite, Sr. Williams.
Elizabeth viu Rhys sair e voltou ao trabalho. Mas, um momento depois, pensava em Rhys de novo. Devia ter contado a ele os resultados alcanados por Emil Joeppli 
com o seu projecto.
Gostaria de partilhar tudo com ele. Dentro em breve, talvez...
 uma hora da madrugada, resolveram encerrar o trabalho.
- Mais alguma coisa, Senhorita Roffe? - perguntou Kate Erling.
- No. No h mais nada. Obrigada, Kate. No se importe com a hora de entrada amanh.
Elizabeth levantou-se e s ento percebeu como estava cansada.
- Muito obrigada. Amanh  tarde, baterei tudo isso  mquina.
- ptimo, Kate.
Elizabeth pegou o casaco e a bolsa e ficou  espera de Kate.
Saram juntas para o corredor e se encaminharam para o elevador privativo que estava com a porta aberta  espera. As duas entraram no elevador. Quando Elizabeth 
ia primir o boto do trreo, ouviram o telefone tocar no escritrio.
- Vou atender, Senhorita Roffe. Pode ir descendo - disse Kate Erling saindo do elevador.
Embaixo, o vigia do trreo olhou para o painel de controle dos elevadores quando uma luz vermelha se acendeu e o elevador privativo comeou a descer. Isso significava 
que a Senhorita Roffe vinha descendo. O vigia voltou-se para o chofer dela, que cochilava a um canto, com um jornal na mo.
- Sua patroa j vem.
O chofer levantou-se e espreguiou-se.
A campainha de alarme quebrou de repente o silncio do vestbulo.
O vigia olhou para o painel de controle. A luz vermelha descia rapidamente, descontrolada, indicando a queda do elevador.
- Meu Deus! - exclamou o vigia.
Correu para o painel dos elevadores e apertou o boto de emergncia, para accionar os freios, mas a luz vermelha continuou sua descida veloz. O chofer tinha se aproximado, 
viu a fisionomia transtornada do vigia e perguntou:
- O que est havendo?
- Saia daqui! - gritou o vigia. - O elevador vai cair.
Correram para bem longe. O vestbulo comeava a vibrar com a velocidade do carro desgovernado. dentro do poo, e o guarda desejou que a Senhorita Roffe no estivesse 
dentro do elevador.
Quando o elevador passou pelo vestbulo, veio do seu interior um grito de terror. Um instante depois, houve um estrondo no fundo do poo, e o edifcio tremeu como 
se tivesse sido atingido por um terremoto.

Captulo 31
O inspector-chefe Otto Schmied, da Polcia Criminal de Zurique, estava sentado  sua mesa, respirando profundamente de acordo com os princpios da ioga, procurando 
acalmar-se e controlar a fria que o dominava.
Havia no processo policial regras to bsicas e evidentes que ainda ningum julgara necessrio inclu-las nos manuais da polcia. Eram coisas naturais e simples 
como respirar, dormir e comer. Por exemplo, quando ocorria um acidente fatal, a primeira coisa que um detective fazia, o primeiro movimento simples, bvio, natural 
de um detective que valia o po que comia era visitar o local do acidente. Nada poderia ser mais elementar do que isso. Entretanto, bem ali na mesa do inspector-chefe 
Otto Schmied estava um relatrio do detective Max Hornung que representava uma violao de todas as normas policiais conhecidas. Eu s poderia esperar isso, pensou 
o inspector. Por que estou to surpreso?
O detective Hornung era uma pedra no sapato, a bte noire, a Moby do inspector Schmied, que era um admirador entusistico do livro Melville. O inspector respirou 
de novo profundamente e deixou o ar escapar muito lentamente. S ento, mais calmo, apanhou o relatrio de Max Hornung e leu-o de novo, desde o princpio.
"Relatrio
Quarta-feira, 7 de novembro. Hora: 1:15 Assunto: Comunicado da mesa telefnica central de um acidente no edifcio da administrao da Roffe and Sons, na fbrica 
da Eichenbahn.
Tipo do acidente: Desconhecido.
Causa do acidente: Desconhecida.
Nmeros de mortos e feridos: Desconhecido.
Hora: 1:27 Assunto: Segundo comunicado da mesa telefnica, um acidente na Roffe and Sons.
Tipo do acidente: Queda de elevador Causa do acidente: Desconhecida.
Nmeros de mortos e feridos: Uma mulher, morta.
Iniciei uma investigao limitada.  1:35 da madrugada, obtive o nome do superintendente do edifcio da administrao da Roffe And Sons e soube dele o nome do primeiro 
arquitecto no prdio.
2:30 da madrugada. Encontrei o primeiro arquitecto, que estava comemorando o seu aniversrio em La Puce. Deu-me o nome da firma que instalou os elevadores no prdio: 
Rudolf Schatz, A. G.
s 3:15 da madrugada, telefonei para a casa do Sr. Rudolf Schatz e pedi-lhe que procurasse imediatamente as plantas dos elevadores. Solicitei tambm os oramentos, 
com os clculos preliminares e as despesas totais. Solicitei ainda uma relao completa de todo o material mecnico elctrico empregado." Neste ponto, o inspector 
Schmied sentiu uma contraco espasmdica na face direita. Respirou profundamente vrias vezes e continuou a ler.
"6:15. Os documentos solicitados foram-me entregues aqui na chefura pela esposa do Dr. Schatz. Depois de examin-los, fiquei convencido do seguinte:
a) no houve emprego de material inferior na construo dos elevadores; b) em vista da boa reputao da firma, deve ser excluda a hiptese de trabalho de montagem 
inferiore como a causa do acidente; c) as medidas de segurana de que foram dotados os elevadores foram satisfatrias; d) minha concluso, portanto,  que a causa 
da queda do elevador no foi acidente.
(assinado) Max Hornung, detective.
N.B. Como os meus telefonemas foram feitos de madrugada,  possvel que a polcia receba queixas das pessoas a quem eu possa ter despertado." O inspector Schmied 
jogou o relatrio com raiva para um canto da mesa. "Pessoas a quem possa ter despertado!" O inspector-chefe tinha passado a manh sob o fogo cruzado dos telefonemas 
das autoridades do governo suo. O que ele pensava que a polcia era? Alguma Gestapo? Como se atrevera a acordar o presidente de uma respeitvel empresa construtora 
e ordenou-lhe a entrega de documentos no meio da noite? Como tivera coragem de suspeitar da integridade de uma firma com a Rudolf Schatz? E assim por diante...
Mas o que era mais espantoso, o que era at incrvel, era que o detective Max Hornung s havia aparecido no local do acidente catorze horas depois da comunicao 
do mesmo! Quando l chegara, a vtima j fora removida, identificada e autopsiada. Meia dzia de outros detectives tinham examinado o local do acidente, interrogado 
testemunhas e redigido relatrios.
Quando o inspector-chefe Schmied acabou de ler o relatrio do detective Max Hornung, mandou cham-lo ao seu gabinete.
O simples aspecto do detective Max Hornung j bastava para enfurecer o inspector-chefe. Max Hornung era um homem baixo, gordo e calvo. O rosto parecia o resultado 
de uma hora de divertimento de algum humorista. A cabea era muito grande e as orelhas muito pequenas. A boca parecia uma ameixa comprida. Alm de tremendamente 
mope, Max Hornung ficava dez centmetros abaixo da altura exigida pelos regulamentos da Polcia Criminal de Zurique. Como se tudo isso no bastasse, ainda era arrogante. 
Havia unanimidade de sentimentos na polcia em relao a Max Hornung. Todos o odiavam.
A mulher do inspector-chefe perguntara um dia por que ele no demitia Hornung, e ele quase batera nela.
A razo pela qual Max Hornung continuava a fazer parte da polcia de Zurique era que ele, por si s, havia contribudo mais para a receita nacional da Sua do que 
todas as fbricas de relgios e chocolates do pas juntas. Max Hornung era contador, um verdadeiro gnio matemtico, dotado de um conhecimento enciclopdico de assuntos 
fiscais, de um instinto infalvel para as traas humanas e de uma pacincia que fazia J chorar de inveja. Max tinha sido funcionrio do Betrug Abtelunh, o departamento 
encarregado de fiscalizar as fraudes financeiras, as irregularidades na venda de aces e as transaces bancrias, e a entrada e sada de dinheiro do territrio 
suo. Foi Max Hornung quem bloqueou o contrabando de dinheiro ilegal para a Sua, desmascarando engenhosos golpes financeiros no valor de muitos bilhes de dlares, 
o que levara para a priso uma dezena dos mais respeitveis lderes do mundo dos negcios. Pouco importava como o dinheiro fosse dissimulado, misturado, remisturado, 
mandado para as Seychelles, para ali ser manejado e transferido por meio de uma srie complexa de empresas fantasmas. ao fim de tudo, Max Hornung apurava a verdade. 
Em suma, tornara-se o terror da comunidade financeira sua.
Acima de todas as coisas, os suos consideravam sagrada a sua privacidade. Com Max Hornung  solta, no podia haver vida particular.
O salrio de Max como um co de guarda financeiro era bem modesto. Tinham tentado suborn-lo com um milho de francos suos numa conta numerada, um chal em Cortina 
d'Ampezo, um iate e, em meia dzia de oportunidades, belas mulheres, todas adolescentes. Em todos os casos, o suborno fora rejeitado, sendo as autoridades devidamente 
notificadas. Max Hornung no dava importncia ao dinheiro. Poderia tornar-se milionrio se aplicasse a sua sagacidade financeira no mercado de aces, mas essa idia 
nunca lhe ocorrera. Max Hornung s estava interessado numa coisa: surpreender aqueles que se desviavam do caminho da probidade financeira. Havia outra ambio no 
fundo do corao de Max Hornung, e essa ambio foi uma bno para a comunidade financeira. Por motivos que s ele poderia aprofundar, Max Hornung desejava ardentemente 
ser um detective policial. Via-se como uma espcie de Sherlock Holmes ou de Maigret, seguindo infatigavelmente um labirinto de indcios at desentocar o criminoso 
do seu covil. Quando um dos principais financeiros da Sua teve por acaso conhecimento dessa ambio de Max Hornung, reuniu-se imediatamente com alguns amigos de 
prestgio e, quarenta e oito horas depois, Max recebeu a oferta de um lugar de detective na polcia de Zurique. Aceitou pressurosamente, sem quase acreditar na sua 
sorte. Toda a comunidade financeira da Sua deu um suspiro de alvio e retomou as suas actividades ocultas.
O inspector-chefe Schmied no fora consultado sobre o caso.
Recebera um telefonema do mais influente lder poltico da Sua, fora instrudo, e o assunto terminara ali. Ou melhor, ali  que tudo havia comeado. Para o inspector-chefe, 
fora o comeo de uma agonia que no mostrava o menor sinal de chegar ao fim. Tentara honestamente dissimular o seu ressentimento pela imposio de um detective, 
por mais competente que fosse.
Presumiu que devia haver fortes motivos polticos para um procedimento to inusitado. Mas resolveu cooperar, na esperana de poder manobrar facilmente a situao.
A sua confiana foi abalada no momento em que Max Hornung se apresentou. A aparncia do novo detective era por si s suficientemente ridcula. Mas o que assombrou 
o inspector Schmied foi a atitude de superioridade que se desprendia daquele farrapo de gente, era como se ele dissesse: "Bem, Max Hornung chegou! Descansem e no 
se preocupem mais com coisa alguma".
As idias de fcil cooperao do inspector desapareceram.
Decidiu tomar uma atitude que deixasse Max Hornung encostado, transferindo-o de uma seco para outra e designando-o para servios sem a menor importncia. Hornung 
trabalhou na polcia tcnica, na diviso de identificao, na seco de desaparecidos. Mas ele sempre acabava voltando.
Havia na polcia uma regra segundo a qual todo detective tinha de dar planto nocturno no mnimo uma vez, de trs em trs meses. Invariavelmente, em todos os plantes 
de Max Hornung, acontecia alguma ocorrncia importante, e, enquanto os outros detectives do inspector Schmied se esfalfavam investigando pistas, Max resolvia o caso. 
Era de exasperar.
No sabia absolutamente nada de processo policial, criminologia, medicina legal, balstica ou psicologia criminal, coisas em que os outros detectives eram competentemente 
treinados, mas apesar disso, vivia resolvendo casos que desafiavam os outros. O inspector-chefe Schmied tinha de chegar  concluso de que Max Hornung era o homem 
mais sortudo do mundo.
Na realidade, a sorte nada tinha que ver com o caso. O detective Max Hornung esclarecia os casos policiais da mesma maneira que o contador Max Hornung desmascarava 
centenas de planos engenhosos para fraudar os bancos e o governo. Max Hornung tinha uma mente de tacanha, por sinal. Precisava apenas de um fio solto, um pequeno 
fragmento que no se ajustasse ao resto da trama. Comeava ento a desenrol-lo at que o plano que o criminoso considerava brilhante comeasse as estourar nas costuras.
O facto de Max Hornung possuir uma memria fotogrfica enlouquecia os seus colegas. Max podia se lembrar instantaneamente de qualquer coisa que tivesse visto, lido 
ou ouvido.
Outra circunstncia que depunha contra ele, se mais alguma coisa fosse necessria, referia-se  sua conta de despesas, que era uma fonte de perplexidade e confuso 
para todo o corpo de detectives. Na primeira vez em que ele apresentara uma conta de despesas, o Oberleutnant1 chamou-o ao seu gabinete e dissera cordialmente:
- Notei alguns erros de clculo nas suas contas, Max.
Isso equivalia acusar um campeo de xadrez a ter sacrificado a sua dama por descuido.
- Erros nas minhas contas?
- Sim, Max. Por exemplo, transporte atravs da cidade, oitenta cntimos. Volta, oitenta cntimos. O mnimo que gastaria num txi seria trinta e quatro francos de 
ida e outro de volta.
- Exactamente. Foi por isso que tomei o autocarro.
- Autocarro? - perguntou o Oberleutnant, espantado.
Nenhum dos detectives andava de autocarro quando estava investigando alguns casos. Nunca se ouvira falar nisso. A nica observao que lhe ocorreu fazer foi a seguinte:
- Muito bem, Hornung, No incentivamos desperdcios ou extravagncias na polcia. Mas temos uma margem para despesas bem razovel. Outra coisa. Voc trabalhou durante 
trs dias neste caso. Esqueceu-se de incluir as despesas com suas refeies.
- Est enganado, Herr Oberleutnant. De manh, tomo apenas caf. Preparo o almoo em casa e sempre o levo numa marmita. O jantar dos trs dias est relacionado aqui.
E estava. Trs jantares por dezasseis francos. Devia ter comido em alguma cantina do Exrcito de Salvao.
O Oberleutant disse friamente:
- Detective Hornung, este departamento existia havia mais de cem anos quando o Sr. veio trabalhar aqui, e continuar a existir pelo menos mais cem anos depois que 
sair. H aqui certas tradies que devem ser observadas. Pense, pelo menos, nos seus colegas e faa uma reviso dessa prestao de contas.
- Certo, senhor. Sinto muito que no tenha sido correcto.
- No tem importncia. Afinal de contas,  novo aqui.
Meia hora depois, Max Hornung voltava com a prestao de contas revista. Diminura as despesas feitas em cerca de trs por cento.
Naquele dia de novembro, o inspector-chefe Schmied tinha nas mos o relatrio do detective Max Hornung, o qual se achava de p diante dele. Hornung estava com um 
terno azul-marinho, sapatos castanhos e meias brancas. Apesar de suas resolues e dos seus exerccios respiratrios, o inspector-chefe Schmied falava aos gritos:
- Voc estava de planto quando foi recebida a comunicao.
Cabia-lhe investigar o acidente, voc s chegou catorze horas depois. Durante esse tempo, toda a polcia da Nova Zelndia podia ter vindo at aqui e voltado, depois 
de investigar o caso.
- No inspector! Est enganado. O tempo de uma viagem da Nova Zelndia at aqui num avio a jacto  de...
- Ora, cale a boca!
Schmied passou a mo pelos cabelos, pensando no que iria dizer quele homem. No era possvel insult-lo, nem tentar argumentar com ele. Era apenas um pobre imbecil 
de sorte.
- No posso tolerar incompetncia no meu departamento, Hornung. Quando os outros detectives chegaram aqui e viram a comunicao, foram imediatamente para o local 
do acidente.
Chamaram uma viatura, levaram o corpo para o necrotrio, depois de identific-lo... Em suma, Hornung, fizeram tudo o que um bom detective tinha de fazer. Enquanto 
isso, voc esteve calmamente sentado, acordando pelo telefone metade dos homens mais importantes da Sua...
- Pensei que...
- No  preciso pensar. Passei a manh toda pedindo desculpas pelo telefone por sua causa.
- Eu tinha de saber...
- Retire-se, Hornung!
- Est bem. Posso ir ao enterro hoje de manh?
- Pode, sim!
- Obrigado, inspector! Eu...
- Pode ir!
S meia hora depois, o inspector-chefe Schmied conseguiu respirar normalmente.

Captulo 32
A capela funerria em Sihlfeld estava repleta. Era um velho edifcio de pedra e mrmore, com salas de velrio e um crematrio. Cerca de duas dezenas de directores 
e empregados da Roffe and Sons ocupava a primeira fila de cadeiras. Mais ao fundo, encontrava-se pessoas amigas, representantes da comunidade e reprteres. Na ltima 
fila, estava o detective Hornung, pensando em como a morte era uma coisa ilgica. O homem atingira seu auge e ento, quando tinha o mximo para viver e para dar, 
morria. No podia haver maior desperdcio e ineficincia.
O caixo era de mogno e estava coberto de flores. Mais desperdcio, pensou Hornung. O caixo estava fechado, e ele compreendia o motivo.
Um ministro estava falando com uma voz de dia de Juzo Final
- "...a morte no meio da vida, nascida do pecado, das cinzas"-, mas Max no prestava muita ateno s palavras. Observava as pessoas presentes.
- "O Senhor deu a vida e o Senhor a tomou"-, e as pessoas comearam a levantar-se e encaminhar-se para a sada. A cerimnia estava encerrada.
Max permaneceu prximo  porta e, quando um homem e uma mulher se aproximaram dele, deu um passo em direco  mulher e disse:
- Senhorita Elizabeth Roffe? Poderia dar-me uma palavra?
O detective Max Hornung estava sentado com Elizabeth Roffe e Rhys Williams num reservado de uma confeitaria defronte a capela. Pela vitrina, viram o caixo ser levado 
para um cofre cinzento. Elizabeth olhou para o outro lado.
- Que deseja? - perguntou Rhys. - A Senhorita Roffe j prestou declaraes  polcia.
O detective Max Hornung disse:
-  o Sr. Williams, no ? H apenas alguns detalhes que desejo verificar.
- No pode deixar para depois? A Senhorita Roffe ainda est abalada com o que aconteceu...
Elizabeth tocou no brao de Rhys.
- No tem importncia, desde que eu possa ajudar em alguma coisa. Que deseja saber, detective Hornung?
Max olhou para Elizabeth e pela primeira vez em sua vida sentiu lhe fugirem as palavras. As mulheres eram to estranhas para Max, como seres de outro planeta. Eram 
ilgicas, imprevisveis, sujeitas a reaces mais emocionais que racionais. No era possvel contar com elas. Max tinha poucos impulsos sexuais, pois era orientado 
pelo crebro, mas podia apreciar a lgica exacta do sexo. Era a construo mecnica de partes mveis que se ajustavam num todo coordenado e funcional que lhe interessava. 
Era essa a poesia do amor para Max. Era dinamismo puro, e Max notava que os poetas em geral no viam isso. As emoes eram imprecisas e incertas, um desperdcio 
de energia capaz de mover um gro de areia, enquanto a lgica podia impulsionar o mundo.
O que espantava Max era o facto de ele se sentir  vontade com Elizabeth. Isso o inquietava. Nenhuma mulher at ento agira sobre ele daquela maneira. Ela no parecia 
encar-lo como um homem frio e ridculo, como faziam as outras. Procurou desviar os olhos a fim de concentrar-se.
- Tinha o hbito de trabalhar at altas horas da noite, Senhorita Roffe?
- Quase sempre.
- At que horas?
- Variava. s vezes, at s dez horas. s vezes, at  meia-noite ou um pouco mais.
- Quer dizer, ento, que era costume seu? As pessoas que a cercam tinham conhecimento disso?
Elizabeth o olhou, um tanto confusa, e murmurou:
- Creio que sim.
- Na noite em que o elevador caiu, trabalhou com o Sr.
Williams e Kate Erling at tarde?
- Sim.
- Mas no saram ao mesmo tempo?
- Eu sa mais cedo. Tinha um compromisso - disse Rhys.
Max olhou-o por um momento e ento voltou-se de novo para Elizabeth.
- A senhorita saiu do escritrio quanto tempo depois do Sr.
Williams?
- Seguramente uma hora.
- Saiu em companhia de Kate Erling?
- Sa. Pegamos os casacos e bolsas e fomos para o corredor.
O elevador j estava l,  nossa espera.
O elevador directo e privativo.
- Que aconteceu ento?
- Quando entramos no elevador, o telefone do escritrio tocou. Kate Erling disse que ia atender. Ela j ia saindo, quando me lembrei que havia pedido um telefonema 
para o exterior, cuja ligao no se completara. Ento eu disse a ela que atenderia. - Elizabeth parou, os olhos subitamente cheios de lgrimas. - Eu sa no elevador. 
Ela me perguntou se queria que esperasse, e eu lhe disse que no precisava. Ela apertou o boto do trreo e eu voltei ao escritrio. Quando estava abrindo a porta, 
ouvi o barulho...
No pde continuar, com a voz embargada pelas lgrimas.
Rhys olhou para Max Hornung com o rosto cheio de indignao.
- No acha que j basta? O que significa tudo isso?
Max Hornung teve vontade de dizer que tudo isso queria dizer crime de morte. Algum tinha planeado matar Elizabeth Roffe.
Max ficou ali concentrando-se e tentando se lembrar das informaes que obtivera nas ltimas quarenta e oito horas sobre a Roffe and Sons. Era uma empresa profundamente 
comprometida, forada a pagar indemnizaes astronmicas, solapada por uma publicidade negativa. Perdia clientes e devia quantias enormes aos bancos, que estavam 
ficando impacientes.
O presidente, Sam Roffe, que detinha o controle accionrio, havia morrido num acidente nas montanhas, embora fosse um excelente alpinista. O controle accionrio 
havia passado para a filha dele, Elizabeth, que quase morrera num acidente com um jipe na Sardenha e escapara havia pouco de morrer num elevador, o qual passara 
pouco antes por uma reviso peridica. Algum estava empenhado em matar.
O detective Max Hornung devia ser no momento um homem feliz.
Encontrara um fio solto. Mas tinha conhecido Elizabeth Roffe, e ela j no era simplesmente um nome, uma equao num enigma matemtico. Era uma pessoa muito especial, 
e Max sentia necessidade de proteg-la.
- Perguntei o que significa isso - disse Rhys.
- Nada - disse vagamente Max. - Rotina da polcia. Apenas.
Agora, com licena.
Tinha um trabalho urgente para fazer.

Captulo 33
O inspector-chefe Schmied tivera uma manh cheia. Tinha havido uma manifestao poltica diante do escritrio das Linhas Areas Ibria e trs homens haviam sido 
detidos para averiguaes. Houvera um incndio de origem suspeita numa fbrica de papel em Brunau. Uma moa fora estrupada no parque de Platspitz. Tinha havido um 
roubo com vitrinas quebradas em Guebelin e outro em Grima, perto do Baur-au-Lac. E, como se no bastasse, o detective Max Hornung estava de volta, com uma das suas 
hipteses idiotas. O inspector-chefe recomeou a abanar-se furiosamente..
- Os cabos do elevador foram cortados - disse Max. - Quando o elevador caiu, todos os dispositivos de segurana pifaram Parece...
- Vi os laudos dos tcnicos, Hornung. Tudo foi resultado de um desgaste normal dos cabos e dos dispositivos.
- No, inspector. Estudei minuciosamente as especificaes.
Tudo devia durar mais cinco ou seis anos.
Schmied sentiu uma contraco no rosto.
- Que est querendo dizer?
- Algum sabotou o elevador.
- Por que iria fazer isso?
-  o que eu gostaria de descobrir.
- Quer voltar  Roffe and Sons?
- No, inspector. Quero ir a Chamonix.
A cidade de Chamonix fica sessenta e cinco quilmetros a sudeste de Genebra, mil e cinquenta metros acima do nvel do mar, no departamento francs de Haute-Savoie, 
entre o macio monte Branco e a cadeia de Aiguille Rouge, com uma das vistas mais deslumbrantes do mundo.
O detective Max Hornung estava completamente indiferente ao cenrio quando desembarcou do combio na estao de Chamonix, carregando uma velha maleta barata. Recusou 
um txi e dirigiu-se a p para a delegacia de polcia, num pequeno prdio da praa principal, no centro da cidade. Max entrou, sentiu-se no mesmo instante  vontade, 
confiante na camaradagem existente entre os polcias do mundo inteiro. Era um deles.
O sargento francs olhou de sua mesa e perguntou:
- Ser que posso ajudar?
- sim. - respondeu Max, todo alegre.
Comeou ento a falar. Max atacava todas as lnguas estrangeiras da mesma forma. Abria caminho atravs da selva impenetrvel dos verbos regulares, pretritos e particpios, 
usando a sua lngua materna como um faco. Enquanto ele falava, a expresso no rosto do sargento se transformou de confuso em incredulidade. O povo francs levava 
centenas de anos desenvolvendo lnguas, abbadas palatinas e laringes para formar a gloriosa musicalidade da lngua francesa. Aquele homem diante dele conseguira 
transform-la numa srie de rudos horrveis e incompreensveis.
Afinal, o sargento no aguentou mais. Interrompeu-o e perguntou:
- Afinal, o que est querendo dizer?
Max respondeu:
- No compreendeu? Estou falando francs.
O sargento curvou-se sobre a mesa e perguntou com sincera curiosidade.
- Voc est falando francs agora?
Max pensou que aquele idiota no sabia sequer falar a sua prpria lngua. Tirou a sua carteira e passou-a s mos do sargento. Este a examinou com todo cuidado, 
olhando de vez em quando para Max. Era impossvel crer que o homem que estava  sua frente fosse um detective.
Devolveu por fim a carteira a Max e perguntou:
- Em que posso servi-lo?
- Estou investigando um acidente que houve aqui h dois meses. O nome da vtima era Sam Roffe.
- Lembro-me desse caso - disse o sargento.
- Gostaria de falar com algum que pudesse me dar alguma informao sobre o acidente.
- Deve procurar a organizao de socorros aos alpinistas. O nome Exacto  Socit Chamoniarde de Secours en Montagne. Fica no Place du Mont Blanc. O nmero do telefone 
 531689. Pode obter tambm alguma informao na clnica. Fica na Rue du Valai, telefone 530182. Espere que eu escrevo tudo.
- No preciso - disse Max. - Socit Chamoniarde de Secours en Montagne, Place du Mont Blanc, 531689. A clnica  na Rue du Valai, 530182.
O sargento ainda parecia espantado muito tempo depois de Max ter sado.
A Socit Chamoniarde de Secours estava sob a guarda de um moo moreno e de aspecto atltico, sentado a uma velha mesa de pinho. Ele viu Max entrar e no mesmo instante 
pensou que era bem pouco provvel que aquele homem esquisito pretendesse escalar alguma montanha.
- Que deseja?
- Sou o detective Max - disse, mostrando a sua carteira.
- Em que posso servi-lo, detective Hornung?
- Estou investigando a morte de um homem chamado Sam Roffe.
- Pois no. Eu gostava muito do Sr. Roffe. Foi um acidente muito triste.
- Estava presente quando ocorreu o acidente?
- No. Subi com minha turma de socorro logo que recebi os sinais, mas infelizmente nada mais pudemos fazer. O corpo do Sr. Roffe tinha cado numa ravina profunda. 
Nunca mais ser encontrado.
- Como foi que tudo aconteceu?
- O grupo era composto de quatro alpinistas. O Sr. Roffe e o guia eram os ltimos. Segundo me parece, estavam atravessando uma morena glacial. O Sr. Roffe escorregou 
e caiu.
- No estava usando equipamento de proteco?
- Estava, mas a corda rebentou.
-  comum acontecer uma coisa dessas?
- S aconteceu uma vez - disse o homem com um sorriso por sua gracinha, mas viu a cara do detective e apressou-se em acrescentar: - Os alpinistas experientes sempre 
verificam o seu equipamento cuidadosamente antes de qualquer subida, mas, ainda assim, acontecem acidentes.
Max pensou por um momento.
- Gostaria de falar com o guia de Sam Roffe.
- O guia habitual do Sr. Roffe no pde subir nesse dia.
- Por qu?
- Se no me engano, estava doente. Outro guia tomou o seu lugar.
- Sabe como se chama?
- Se esperar um pouco, posso lhe dizer.
O homem desapareceu numa sala contnua e voltou minutos depois, com um papel na mo.
- Aqui est o nome do guia: Hans Bergmann.
- Onde posso encontr-lo?
- Ele no  daqui. Mora numa aldeia chamada Lesgets. Fica a cerca de sessenta quilmetros daqui.
Antes de Max sair de Chamonix, passou pela portaria do Kleine Scheidegg Hotel e falou com a recepcionista.
- Estava trabalhando quando Sam Roffe esteve hospedado aqui?
- Estava, sim. Foi uma coisa triste aquele acidente.
- O Sr. Roffe estava sozinho?
- No. Estava com um amigo.
- Um amigo? Tem certeza?
- Tenho. O Sr. Roffe fez as reservas dos quartos para os dois.
- Pode me dizer o nome desse amigo?
- Sem dvida.
Abriu o livro de registro, virou algumas pginas, Correu o dedo e disse:
- Aqui est...
Max levou quase trs horas para chegar a Lesgets no Volkswagen, o carro mais barato que encontrou para alugar em Chamonix. Quase passou recto. No era sequer uma 
aldeia. Algumas lojas, uma cabana alpina e um armazm com uma bomba de gasolina.
Max parou o carro e entrou na cabana. Havia meia dzia de homens conversando diante da lareira acesa, mas a conversa cessou no momento que ele entrou.
- Desculpem, mas quero falar com o Sr. Hans Bergnann.
- Com quem?
- Com Hans Bergnan, o guia. Ele est na aldeia.
Um velho com um rosto bastante enrugado cuspiu na lareira e disse:
- Devem ter feito uma brincadeira com o senhor. Nunca ouvi falar de nenhum Hans Bergnann.

Captulo 34
Era o primeiro dia em que Elizabeth ia ao escritrio depois da morte de Kate Erling, uma semana antes. Entrou nervosamente no vestbulo do trreo, respondendo mecanicamente 
aos comprimentos do porteiro e do guarda. Viu, nos fundos, operrios que consertavam as portas destrudas do elevador.
Pensou em Kate Erling e imaginou o terror que ela devia ter sentido, quando caiu para a morte da altura de doze andares.
Elizabeth sabia que nunca mais seria capaz de entrar naquele elevador.
Quando entrou no escritrio, a sua correspondncia j tinha sido aberta por Henriette, a nova secretria, que havia colocado tudo bem arrumado em cima de sua mesa. 
Elizabeth passou os olhos rapidamente por tudo, escrevendo notas para as respostas e encaminhando os casos para vrios departamentos.
Embaixo, havia um grande envelope fechado com uma observao:
"Elizabeth Roffe - Pessoal". Abriu-o com os olhos esbugalhados.
Preso  fotografia, havia o seguinte bilhete: "Este  meu belo filho John. Foram as drogas que provocaram isso. Vou mat-la".
Elizabeth deixou cair o bilhete e a fotografia e percebeu que suas mos estavam trmulas. Henriette entrou na sala com alguns papis.
- Aqui esto alguns papis para serem assinados - disse ela, mas viu o rosto de Elizabeth e perguntou: - Aconteceu alguma coisa?
- Por favor, pea ao Sr. Williams para vir at aqui.
A Roffe and Sons no podia ser responsvel por uma coisa to horrvel quanto aquela.
- A culpa foi nossa - disse Rhys. - Uma partida de medicamentos com rtulos errados. Conseguimos recolher quase tudo, mas em alguns casos no foi possvel...
- H quanto tempo aconteceu isso?
- H quase quatro anos.
- Quantas pessoas foram prejudicadas?
- Cerca de cem. Todas foram indemnizadas. Nem todos os casos foram to graves assim. Escute, Elizabeth, temos o mximo cuidado. Todas as precaues de segurana 
so tomadas, mas, afinal, as pessoas so humanas e podem errar.
Elizabeth continuava a olhar para a fotografia.
- Isso  horrvel!
- No deviam ter deixado esta carta chegar s suas mos. Passou a mo pelos bastos cabelos pretos e acrescentou: - A ocasio  horrvel, mas devo dizer-lhe que temos 
problemas mais importantes do que este..
- No acredito, mas pode falar.
- A Administrao Federal de Drogas acaba de chegar a uma deciso contra ns no caso sprays. Dentro de dois anos, os produtos com aerossol sero inteiramente proibidos.
- O que significa isso para ns?
- No poderia ser pior. Teremos de fechar meia dzia de fbricas atravs do mundo e perder um dos nossos melhores produtos.
Elizabeth pensou em Emil Joeppli e no medicamento que ele estava preparando, nada disse a Rhys.
- Que mais?
- J leu os jornais?
- No.
- A esposa de um ministro belga, Mme Van den Logh, tomou alguns comprimidos de Benexan.
-  um dos nossos medicamentos?
- Sim. Um anti-histamnico.  contra-indicado para as pessoas portadoras de hipertenso. O rtulo contm a advertncia. Ela tomou os comprimidos, apesar disso.
- E que foi que aconteceu?
- Est em coma. Talvez no escape. Os jornais salientam o facto de que se trata de um produto nosso. H cancelamento de encomendas em todo mundo. A Administrao 
Federal de Drogas j nos avisou que vai iniciar uma investigao, mas isso durar no mnimo um ano. E enquanto no acabarem, poderemos continuar a vender o medicamento.
- Quero que ele seja retirado do mercado - disse Elizabeth.
- No h motivo para fazer isso.  um remdio muito bom para...
- J teve efeitos prejudiciais em outras pessoas?
- Centenas de milhares de pessoas foram beneficiadas - disse Rhys. - Estou lhe dizendo que  um dos nossos melhores medicamentos.
- No respondeu  minha pergunta.
- Creio que houve alguns casos isolados, mas...
- Quero que seja retirado do mercado. Imediatamente.
Rhys ficou alguns instantes calado, procurando dominar a sua irritao. Por fim, perguntou:
- Quer saber quanto isso vai custar  companhia?
- No.
- Est bem. At agora s soube das boas notcias. As ms: os banqueiros querem nova reunio com voc. Agora mesmo. Querem receber o dinheiro.
Elizabeth ficou no escritrio sozinha, pensando no menino mongolide e na mulher que estava em coma porque tomara um remdio produzido pela companhia. Ela bem sabia 
que tragdias dessa espcie atingiam outras companhias de produtos farmacuticos e no apenas a Roffe and Sons. Os jornais publicavam quase diariamente casos semelhantes, 
mas a reaco dela nunca fora to forte. Sentia-se pessoalmente responsvel.
Ia ter uma conferncia com os chefes dos departamentos para ver a possibilidade de se reforarem as medidas de segurana.
"Este  meu belo filho John." "Mme Van den Logh est em coma e pode morrer." "Os banqueiros querem receber o dinheiro." Sentia-se atordoada, como se tudo comeasse 
a desabar ao mesmo tempo sobre sua cabea. Pela primeira vez,, Elizabeth duvidou seriamente de que fosse capaz de enfrentar tudo aquilo.
As cargas eram muito pesadas e estavam se acumulando com muita rapidez. Voltou-se um pouco na cadeira para olhar na parede o retracto do velho Samuel. Parecia to 
capaz e to seguro! No entanto, ela sabia das dvidas, das incertezas e dos desesperos que o haviam acometido. Mas ele havia superado tudo. Ela conseguiria sobreviver 
tambm. Era uma Roffe.
Notou que o retracto estava ligeiramente inclinado. Devia ser consequncia da queda do elevador. Levantou-se para endireit-lo. No momento em que tocou no retracto, 
o gancho que o prendia  parede se soltou e o quadro caiu. Elizabeth nem olhou para ele. Estava com os olhos fixos na parede. No lugar onde estivera o retracto, 
havia um pequeno microfone preso  parede.
Eram quatro horas da madrugada e Emil Joeppli ainda estava trabalhando. Nos ltimos tempos, costumava trabalhar at muito tarde. Ainda que Elizabeth Roffe no tivesse 
estabelecido um prazo para a concluso dos seus trabalhos, Joeppli sabia como o seu projecto era importante para a companhia e queria acabar o mais depressa possvel. 
Tinha ouvido rumores alarmantes sobre a situao da Roffe and Sons. Queria fazer tudo o que estivesse ao seu alcance para ajudar a companhia que havia sido muito 
boa para ele. Recebia um bom trabalho e gozava de inteira liberdade. Gostava muito de Sam Roffe, e gostava da filha dele tambm. Elizabeth Roffe nunca saberia disso, 
mas aquelas horas extras de trabalho eram um presente especial para ela.
Debruou-se sobre a sua mesa, conferindo os resultados de sua ltima experincia. Eram mais promissoras do que ele havia esperado. Ficou sentado, em profunda concentrao. 
No tomava conhecimento do mau cheiro dos animais engaiolados no laboratrio, da unidade intensa da sala ou do adiantado da hora. A porta se abriu, e Sepp Nolan, 
o vigia nocturno, entrou.
Nolan detestava aquele servio. Dava-lhe arrepios andar  noite pelos laboratrios experimentais desertos. Os cheiros dos animais presos provocavam-lhe engulhos. 
Nolan gostaria de saber se os animais ali mortos tinham alma e voltavam para aterrorizar os corredores. Devia requerer um pagamento extra para aturar os fantasmas 
dos bichos. Todo mundo no edifcio j fora para casa h muito tempo. S o cientista louco ainda estava ali entre seus bichos.
- Vai demorar muito ainda, doutor? - perguntou Nolan.
Joeppli levantou a vista, tomando pela primeira vez conhecimento do vigia.
- O qu?
- Se vai ficar aqui ainda, posso ir buscar uma sanduche ou o que quiser. Estou indo  cantina.
- S caf - murmurou Joeppli, voltando aos seus papis.
- Vou fechar a porta principal para ir  cantina. No demoro.
Joeppli nem o ouviu.
Dez minutos depois, a porta do laboratrio foi de novo aberta, e algum disse:
- Est trabalhando at bem tarde, Emil.
Joeppli levantou a vista, espantado. Quando viu quem era, ergueu-se da cadeira. De certo modo, era uma honra que aquele homem tivesse ido v-lo.
-  preciso, chefe - murmurou.
- O projecto da Fonte da Juventude  muito secreto, no ?
Emil Joeppli hesitou. A Senhorita Roffe havia dito que ningum devia saber dos seus trabalhos. Mas, sem dvida, essa determinao no podia estender-se quela pessoa. 
Fora aquele homem o responsvel por sua entrada na companhia. Por isso, sorriu e disse:
- Sim, senhor. Muito secreto.
- ptimo. Continue assim. Como vai tudo?
- Magnificamente.
O visitante se encaminhou para uma das gaiolas de coelhos, e Emil Joeppli o acompanhou.
- Quer que lhe explique alguma coisa?
- No  preciso - disse o homem, sorrindo. - Estou mais ou menos a par de tudo.
Quando o visitante se voltou para sair, roou o brao num prato vazio de raes que estava numa prateleira e o prato caiu no cho.
- Desculpe.
- Pode deixar que eu apanho - disse Joeppli.
Quando se abaixou para pegar o prato, sentiu a parte posterior da cabea explodir numa chuva rubra e a ltima coisa de que teve conscincia foi de que o cho subia 
ao seu encontro.
O toque insistente da campainha do telefone acordou Elizabeth. Sentou-se na cama, tonta de sono, e olhou para o relgio digital na mesinha. Cinco horas da manh. 
Pegou o telefone.
Uma voz muito nervosa disse:
- Senhorita Roffe?  o guarda de segurana aqui da fbrica. Houve uma exploso num dos laboratrios, que ficou inteiramente destrudo.
- Houve alguma vtima? - perguntou Elizabeth, j completamente acordada.
- Houve, sim, senhora. Um dos cientistas morreu queimado.
Elizabeth no precisava de perguntar o nome dele.

Captulo 35
O detective Max Hornung estava pensando. a sala dos detectives ressoava o barulho das mquinas de escrever, de vozes empenhadas em discusses, de campainhas de telefone, 
mas Hornung no ouvia nada disso. Estava pensando no contrato social da Roffe and Sons, tal como fora estabelecido pelo velho Samuel para manter a companhia sob 
o controle da famlia. Era um dispositivo engenhoso mas tambm muito perigoso. Fazia Hornung lembrar-se da tontine, o plano italiano de seguros concebido pelo banqueiro 
Lorenzo Tonti, em 1695. Todos os scios da tontine entravam com a mesma quota de dinheiro.
Quando um deles morria, os sobreviventes herdavam a sua quota.
Isso proporcionou um forte motivo para a eliminao dos outros scios. Na Roffe and Sons estava acontecendo a mesma coisa. Era uma tentao muito grande fazer as 
pessoas herdarem aces no valor de muitos milhes e, ao mesmo tempo, impedi-las de vender, a menos que houvesse acordo unnime.
Max sabia que Sam Roffe no havia concordado com a venda.
Estava morto. Elizabeth Roffe tambm no havia concordado com a venda. E j escapara duas vezes da morte. Eram acidentes demais. O detective Max Hornung no acreditava 
em acidentes.
Foi falar com o inspector-chefe Schmied.
O inspector escutou o que Hornung lhe disse sobre o acidente de alpinismo de Sam Roffe e resmungou:
- Est bem. Houve uma confuso com o nome do guia.
Dificilmente isso pode constituir um indcio de homicdio, pelo menos no meu departamento.
O detective retrucou pacientemente:
- Na minha opinio, no  apenas isso. A Roffe and Sons est envolvida em graves problemas internos. Talvez algum tivesse pensado que o afastamento de Sam Roffe 
poderia resolver esses problemas.
Scmied encarou firmemente o detective Hornung. Decerto no havia em tudo aquilo seno as hipteses malucas do detective.
Mas a perspectiva de ver o detective Max Hornung fora das suas vistas era uma coisa que o enchia de alegria. A ausncia dele levantaria o moral de todo o departamento. 
E havia outro ponto importante a levar em conta. Hornung pretendia investigar nada menos que a poderosa famlia Roffe. Em circunstncias normais, teria ordenado 
que Hornung no se aproximasse nem em pensamento dos Roffes. Entretanto, se Hornung os irritasse - e isso no poderia deixar de acontecer -, tinham bastante prestgio 
para expuls-lo da polcia. E ningum teria qualquer acusao contra o inspector-chefe Schmied. No havia forado de maneira alguma o pequeno detective. Em vista 
de tudo isso, disse a Max Hornung.
- Fica encarregado do caso. Pode levar o tempo que julgar necessrio.
- Muito obrigado - disse Max, todo feliz.
Quando Max ia pelo corredor em direco  sua sala, encontrou-se com o mdico-legista.
- Posso explorar a sua memria um minuto, Hornung?
- Como assim?
- A patrulha acaba de pescar um corpo na gua.  uma mulher.
Quer olh-la um instante?
- Est bem.
No era uma tarefa que agradasse a Max, mas ele achava que aquilo fazia parte de seus deveres.
O corpo da mulher estava depositado numa gaveta de metal impessoal do necrotrio. Era loura e devia ter no mximo vinte anos. O corpo estava inchado, devido  longa 
permanncia na gua, e nu, apenas com uma fita vermelha amarrada no pescoo.
Havia sinais de relaes sexuais pouco antes da morte. A mulher fora estrangulada e depois jogada  gua.
- No morreu afogada, pois no h gua nos pulmes. No temos no arquivo as impresses digitais dela. J a viu em algum lugar?
O detective Max Hornung olhou atentamente para o rosto da mulher e disse:
- No.
Saiu ento para pegar um autocarro para o aeroporto.

Captulo 36
Quando o detective Max Hornung desembarcou no aeroporto da Costa Esmeralda, na Sardenha, alugou o carro mais barato que pde achar, um Fiat 500, e tomou o caminho 
de Olbia. Diferente do resto da Sardanha, Olbia era uma cidade industrial e os seus arredores, desprovidos de qualquer beleza, eram uma extenso de usinas e fbricas, 
um depsito de lixo e um gigantesco cemitrio de carros velhos. ao v-lo, Max reflectiu que todas as cidades do mundo tinham esses depsitos de automveis, como 
se fossem monumentos da civilizao.
Chegando ao centro da cidade, parou diante de um prdio em cuja fachada se lia o seguinte letreiro: "Questure di Sassiri
- Commissariato di Polizia, Olbia". No momento em que entrou no edifcio, ele sentiu o carcter familiar de identidade, de participao, Luigi Ferraro. Este se levantou 
com um sorriso no rosto. O sorriso se desvaneceu quando ele viu a figura que o procurava. Havia na aparncia de Max Hornung alguma coisa que no se ajustava ao conceito 
que o delegado fazia de um "detective".
- Pode mostrar-me a sua identificao?
De posse da carteira, o delegado examinou-a cuidadosamente, devolvendo-a em seguida. Formulou ento a idia de que a Sua devia estar enfrentando uma grande escassez 
de gente para a polcia, pois, do contrrio, no admitiria um homem como aquele.
- Que deseja?
Max comeou a explicar-se em italiano fluente. O problema foi que o delegado Ferraro demorou um pouco para descobrir que lngua Max estava falando. Quando compreendeu 
a inteno do homem, levantou a mo e disse:
- Basta! Fala ingls?
-  claro - respondeu Max.
- Peo-lhe ento que conversemos em ingls.
Quando Max acabou de falar, o delegado disse:
- Est enganado, sinore. Posso lhe assegurar que est perdendo o seu tempo. Meus mecnicos j examinaram o jipe e todos concordaram em que foi acidente.
- Mas eu ainda no o examinei - disse imperturbavelmente Max Hornung.
- Muito bem. O jipe est agora  venda numa garagem. Mandarei um dos meus homens lev-lo at l. Gostaria de ver o local do acidente?
Max iscou os olhos e perguntou:
- Para qu?
O detective Bruno Campagna foi designado como acompanhante de Max.
- J verificamos tudo - disse Campagna. - Foi um acidente.
- No - replicou Max.
O jipe estava num canto da garagem ainda com a frente amassada e com vestgios da seiva verde da rvore.
- Ainda no tive tempo para consert-lo - disse o mecnico da garagem.
Max se aproximou do jipe e comeou a examin-lo.
- Como foi que sabotaram os freios? - perguntou ele.
- Gess! O senhor tambm? - exclamou o mecnico, irritado. H vinte anos que sou mecnico, signore, e examinei esse jipe pessoalmente. A ltima vez que algum tocou 
nesses freios foi quando o carro saiu da fbrica.
- Mexeram nos freios - disse Max.
- Como? - perguntou o mecnico, exasperado.
- No sei ainda, mas vou descobrir - declarou Max, confiantemente.
Lanou um ltimo olhar ao jipe e ento virou as costas e saiu da garagem.
O delegado olhou para o detective Bruno Campagna e perguntou:
- O que voc fez com ele?
- No fiz nada. Levei-o  garagem, onde ele quase fez o mecnico ficar fora de si. Depois, ele me disse que queria dar uma volta sozinho.
- Inacreditvel!
Max estava na praia, olhando as guas esmeraldinas do Tirreno, mas no viu coisa alguma. Estava concentrado, procurando juntar todos os fragmentos. Tudo era como 
um gigantesco quebra-cabea. Tudo se encaixava exactamente no seu lugar, quando se sabia onde a pea devia se ajustar. O jipe era uma parte pequena mas importante 
do enigma. Os freios tinham sido examinados pelos mecnicos, de cuja honestidade e competncia no havia motivos para duvidar. Aceitava, portanto, o facto de que 
no tinham tocado nos freios do jipe. Mas como Elizabeth tinha dirigido o jipe e algum desejava a sua morte, tinha tambm de aceitar o facto de que haviam mexido 
nos freios. Max estava diante de uma coisa executada com muita habilidade. E isso tornava tudo mais interessante.
Deu alguns passos na areia, fechou os olhos e procurou concentrar-se de novo. Pensou nos elementos do enigma, mudando-os de lugar, dissecando-os, reagrupando tudo.
Vinte minutos depois, a ltima pea se encaixou. Max abriu os olhos e pensou com admirao no homem que imaginara aquilo.
Tinha de conhec-lo.
Depois disso, o detective Max Hornung tinha duas coisas a fazer, uma fora de Olbia e a segunda, nas montanhas. Pegou o ltimo avio da tarde para Zurique.
Classe turista.

Captulo 37
O chefe da segurana da Roffe and Sons disse a Elizabeth:
- Tudo aconteceu com muita rapidez, Senhorita Roffe. Nada pudemos fazer. No momento em que conseguimos colocar o aparelhamento de combate ao fogo em aco, o laboratrio 
j estava destrudo!
Tinham encontrado os restos do corpo carbonizado de Emil Joeppli. No se podia saber se a sua frmula fora retirada do laboratrio antes da exploso.
- O Edifcio de Desenvolvimento estava sobre vigilncia ininterrupta, no estava?
- Estava, sim. Ns...
- H quanto tempo chefia o nosso departamento de segurana?
- Cinco anos. Eu...
- Est despedido.
O homem ia dizer alguma coisa, mas mudou de idia e murmurou:
- Est bem.
- Quantos homens trabalham sob suas ordens?
- Sessenta e cinco.
Sessenta e cinco homens! E no tinham conseguido salvar Emil Joeppli.
- Esto todos despedidos. Tm o prazo de vinte e quatro horas para sair daqui.
- Escute, Senhorita Roffe, acha que est sendo justa.
Elizabeth pensou em Emil Joeppli, nas preciosas frmulas e no microfone escondido no seu escritrio e que ela esmagara com o salto do sapato.
- Saia daqui - disse ela.
Passou a manh toda esforando-se por afastar a imagem do corpo carbonizado de Emil Joeppli e do seu laboratrio cheio de animais queimados. Procurou no pensar 
no prejuzo que a companhia teria com a perda daquela frmula. Era possvel que dentro em pouco uma companhia rival a patenteasse. No havia nada que pudesse fazer. 
Vivia numa selva sem lei. Quando os concorrentes acreditaram que a vtima estava sem foras, acorriam para o golpe final. Mas, no caso, no se tratava de um concorrente, 
e, sim, de um amigo, um amigo fatal.
Elizabeth tomou providncias para a contratao de uma nova fora de segurana constituda de profissionais. sentir-se-ia mais segura cercada de estranhos.
Telefonou para o Hspital Internationale de Bruxelas para ter notcias de Mme Van den Longh, a esposa do ministro belga.
Disseram-lhe que ela ainda estava em coma e que as possibilidades eram incertas.
Elizabeth ainda estava pensando em Emil Joeppli, no menino mongolide e na mulher belga, quando Rhys Williams entrou no escritrio. Olhou para o rosto dela e perguntou:
- As coisas esto to ruins assim?
Ela fez tristonhamente um sinal afirmativo.
Rhys viu seu rosto abatido e esgotado. Era difcil saber at onde ela poderia resistir. Aproximou-se, tomou nas mos as mos de Elizabeth e disse:
- H alguma coisa que eu possa fazer para ajud-la?
Pode fazer tudo, pensou Elizabeth. Precisava desesperadamente de Rhys. Precisava da energia, da ajuda e do amor dele. Os olhos de ambos se encontraram, e ela se 
viu prestes a cair nos braos dele e dizer-lhe tudo o que havia acontecido, tudo o que estava acontecendo
- Alguma novidade sobre Mme Van den Logh? - perguntou Rhys.
O momento havia passado.
- No - disse Elizabeth.
- J recebeu algum telefonema a propsito do comentrio feito pelo Wall Streel Journal?
- Que comentrio?
- Ainda no leu?
- No.
Rhys Mandou buscar o jornal em sua sala. O comentrio enumerava os recentes problemas da Roffe and Sons e sugeria que a companhia precisava de uma pessoa experiente 
e capaz de dirigi-la.
- Que mal nos far esse comentrio? - perguntou Elizabeth quando acabou de ler.
- O mal j est feito. Continuaremos a perder mercado.
O interfone tocou e Elizabeth apertou o boto.
- Pronto.
- O Sr. Julius Badrutt est na linha 2. Diz que  urgente.
Elizabeth olhou para Rhys. Ela vinha adiando o encontro com os banqueiros.
- Pode ligar - disse  secretria e, um instante depois: Bom dia, Sr. Badrutt.
- Bom dia - disse o banqueiro, com uma voz que parecia um pouco spera do outro lado do fio - Tem algum tempo livre hoje  tarde?
- Acho que sim...
- Est bem. s quatro horas.
Houve um murmrio seco ao telefone e Elizabeth compreendeu que Badrutt ainda estava falando.
- Sinto muito o que aconteceu com o Sr. Joeppli - disse ele.
O nome de Joeppli no fora mencionado no noticirio de nenhum jornal a respeito da exploso.
Desligou e viu que Rhys a estava olhando.
- Os tubares farejam o sangue - murmurou ele.
Houve muitos telefonemas  tarde. Entre eles o de Alec.
- Voc leu o jornal hoje de manh, Elizabeth?
- Li, sim. O Wall Street Journal est exagerando.
Houve uma pausa, e ento Alec disse:
- No  s do Wall Street Jurnal que estou falando.  do Financial Times, que traz um artigo com grande destaque sobre a Roffe and Sons. O artigo no  favorvel 
e os telefones no param de tocar. Os cancelamentos tm sido enormes. O que vamos fazer?
- Falarei com voc mais tarde, Alec?
Ivo telefonou.
- Carissima, prepare-se para levar um choque.
- Estou preparada, Ivo. Pode falar.
- Um banqueiro italiano foi detido h poucas horas, sob a acusao de aceitar suborno.
Elizabeth teve um pressentimento do que viria depois.
- Continue.
- No tivemos culpa. Ele se tornou ambicioso demais e facilitou. Foi preso no aeroporto quando tentava sair da Itlia clandestinamente com o dinheiro. Apurou-se 
que o dinheiro era nosso.
Ainda que Elizabeth estivesse preparada para o pior havia uma nota de incredulidade em sua voz.
- Porque estvamos subornando esse banqueiro?
- Se no agssemos desse modo, no poderamos fazer negcios na Itlia. O costume aqui  esse. Nosso crime no foi subornar o banqueiro, cara. Foi deixar que ele 
fosse apanhado.
Ela se recostou na cadeira, sentindo a cadeira rodar.
- E agora?
- Sugiro uma reunio o quanto antes com os advogados da companhia. Mas no se preocupe. S os pobres vo para a cadeia, aqui na Itlia.
Charles telefonou de Paris, e sua voz estava quase histrica pela preocupao. A imprensa francesa atacava a companhia por todos os lados. Elizabeth tinha que consentir 
na venda das aces enquanto a companhia tinha ainda alguma reputao.
- Nossos fregueses esto perdendo a confiana - dissera Charles. - E sem confiana no h companhia.
Elizabeth pensou nos telefonemas, nos banqueiros, nos primos, na imprensa. Era muita coisa acontecendo com muita rapidez.
Algum devia estar por trs de tudo isso. Ela tinha de descobri-lo.
O nome ainda estava no caderno particular de Elizabeth. Maria Martinelli. Era uma moa alta e de pernas compridas que tinha sido sua colega na Sua. Correspondiam-se 
de vez em quando. Maria havia se tornado modelo e mandara dizer a Elizabeth que estava noiva do director de um jornal de Milo. Elizabeth no levou mais que quinze 
minutos para falar com Maria. Depois da troca de cumprimentos, Elizabeth perguntou pelo telefone:
- Voc ainda est noiva do jornalista?
- Claro. Vamos nos casar logo que o divrcio dele seja homologado.
- Quero um favor seu, Maria.
-  s dizer o que .
Menos de uma hora depois, Maria Martinelli telefonava para ela.
- J tenho a informao que voc quer. O banqueiro que foi apanhado quando tentava levar dinheiro para fora da Itlia foi vtima de uma traio. Meu noivo diz que 
algum o denunciou  polcia de fronteira.
- Ele conseguiu o nome do delator?
- Ivo Palazzi.
O detective Max Hornung havia feito uma descoberta interessante. Apurara que a exploso nos laboratrios da Roffe and Sons fora provocada criminosamente e causada 
por um explosivo, Rylar X, fabricado exclusivamente para as foras armadas numa das unidades da Roffe and Sons. Com um simples telefonema, Max soube onde ficava 
a fbrica.
Era nos arredores de Paris.
s quatro da tarde em ponto, Julius Badrutt acomodou o corpo anguloso numa cadeira e disse sem prembulos:
- Por mais que quisssemos atend-la, Senhorita Roffe, parece que as responsabilidades que temos para com os nossos accionistas tm prioridade.
Badrutt devia dizer mais ou menos a mesma coisa s vivas e aos rfos, a quem no podia perdoar no vencimento das hipotecas. Mas dessa vez ela estava preparada 
para Badrutt.
- Em vista disso, recebi instrues da directoria para informar-lhe que nosso banco exigir o pagamento imediato dos ttulos devidos pela Roffe and Sons.
- Mas tive a promessa de um prazo de noventa dias - disse Elizabeth.
- Infelizmente, as circunstancias mudaram, para pior. Devo dizer-lhe que os outros bancos com os quais vocs trabalham chegaram  mesma concluso.
Como os bancos se negavam a ajud-la, no havia possibilidade de manter a companhia fechada a novos accionistas.
- Sinto muito dar-lhe essas ms notcias, Senhorita Roffe, mas achei que devia vir falar-lhe pessoalmente.
- No pode desconhecer que a Roffe and Sons ainda  uma companhia slida e forte.
- Sem dvida.  uma grande companhia.
- Ainda assim, no nos quer dar mais tempo.
Badrutt pensou por um momento e ento disse:
- O banco julga que os seus problemas podem ser resolvidos, Senhorita Roffe. Mas...
- Parece-lhe que no h ningum em condies de resolver esses problemas, no ?
- Infelizmente,  isso mesmo.
- E se eu passasse a presidncia da Roffe and Sons a outra pessoa? - perguntou Elizabeth.
O banqueiro sacudiu a cabea.
- J discutimos essa possibilidade e, infelizmente, chegamos  concluso de que nenhum dos membros da actual directoria tem a capacidade necessria para enfrentar...
- Eu estava pensando em Rhys Williams.

Captulo 38
O agente Thomas Hiller, da Diviso da Polcia Martima do Tamisa, via-se numa situao terrvel. Estava com sono, fome, sexualmente excitado e ensopado. E no sabia 
ao certo qual dessas desgraas era a pior.
Estava com sono porque sua noiva, Flo, passara a noite discutindo com ele e no o deixara dormir. Estava com fome porque, quando Flo acabara de discutir, j estava 
na hora de ir para o trabalho e no havia mais tempo de comer nada. Estava excitado porque ela se recusava energicamente a deixar que a tocasse. E estava todo molhado 
porque a lancha de dez metros da patrulha do Tamisa no era feita exactamente para dar conforto aos seus ocupantes e porque o vento insistente tangia a chuva para 
a casa do leme onde ele estava.
Num dia como aquele, havia pouco para ver e menos a fazer. A circunscrio da patrulha se estendia por oitenta e cinco quilmetros do rio, de Dartford Creek a Staines 
Brige. Em geral, Hiller gostava do servio de patrulha, mas no quando se via naquele estado. O diabo levasse todas as mulheres! Pensou em Flo nua na cama, com os 
grandes seios em movimento, a brigar com ele. Olhou para o relgio. Mais meia hora e o servio chegaria ao fim. A lancha j se encaminhava para o cais de Waterloo. 
O seu problema agora era decidir o que fazer primeiro: comer, dormir ou ir para a cama com Flo. Talvez tudo ao mesmo tempo, por que no? Esfregou os olhos para afugentar 
o sono e olhou para o rio lamacento e denso, salpicado pelas borbulhas da chuva.
Aquilo apareceu de repente. Parecia um grande peixe boiando de barriga para cima. O primeiro pensamento de Hiller foi: "se o puxar para bordo, vai ser um mau cheiro 
insuportvel".
Estava a cerca de dez metros a nordeste e a lancha estava se afastando dele. Se ele abrisse a boca, o maldito peixe retardaria a hora de largar o servio. Seria 
preciso pegar o peixe com um gancho e pux-lo para bordo ou reboc-lo. Fosse o que fosse, faria com que se atrasasse na volta a Flo. Ora, ele bem podia calar a boca. 
Quem podia afirmar que ele tinha visto alguma coisa? E estava cada vez mais longe.
O agente Hiller ergueu a voz:
- Sargento, h um peixe flutuando vinte graus a boreste.
Parece um grande tubaro.
O motor diesel de cem cavalos mudou subitamente de ritmo e a lancha comeou a seguir em marcha lenta. O sargento Haskins aproximou-se dele.
- Onde est?
O vulto tinha desaparecido, oculto pela chuva.
- Ali daquele lado.
O sargento Haskins hesitou. Estava tambm ansioso para ir para casa e a vontade que tinha era de no tomar conhecimento do tal peixe.
- Acha que  to grande que possa ameaar a navegao?
O policial Hiller lutou consigo mesmo, e perdeu.
- Acho, sim.
Assim, a lancha da patrulha virou e seguiu na direco em que o objecto fora visto. Este apareceu inesperadamente quase sob a proa da lancha, e ambos viram o corpo 
de uma jovem loura.
Estava nua, mas tinha uma fita vermelha amarrada ao pescoo.

Captulo 39
No momento em que o policial Hiller e o sargento Haskins estavam recolhendo o corpo da jovem assassinada do Tamisa, a quinze quilmetros de distncia, do outro lado 
de Londres, o detective Max Hornung entrava no vestbulo de mrmore cinza e branco da Nova Scotland Yard. O simples acto de entrar no imponente edifcio dava-lhe 
uma sensao de orgulho. Fazia parte daquela grande fraternidade. Apreciava muito o facto de que o endereo telegrfico da Scotland Yard fosse Algemas. Max gostava 
muito dos ingleses. O seu nico problema estava na dificuldade que experimentava de comunicar-se com eles. Os ingleses falavam a sua lngua de maneira estranha.
O guarda sentado  mesa de recepo perguntou:
- Que deseja o senhor?
- Tenho hora marcada com o inspector Davidson.
- Nome, por favor?
Max disse lenta e distintamente:
- Inspector Davidson.
O guarda olhou-o com interesse.
- Perdo, mas o seu nome  inspector Davidson?
- Meu nome no  inspector Davison. Meu nome  Max Hornung.
- Desculpe, mas o senhor fala ingls?
Cinco minutos depois, Max estava sentado na sala do inspector Davidson, que era um homem tipicamente britnico, de meia-idade, com rosto vermelho e dentes amarelos 
e irregulares.
- Disse pelo telefone que estava interessado em obter informaes sobre Sir Alec Nichols como possvel suspeito de um homicdio.
- Ele  suspeito com mais uma meia dzia de pessoas.
- J sei o que fazer - disse o inspector. - Vou encaminh-lo ao Departamento de Registros Criminais C-4. Se no houver nada sobre ele l, tentaremos o Servio Secreto 
Criminal C-11 e o C-14.
O nome de Sir Alec Nichols no constava de qualquer dos arquivos consultados. Mas Max j sabia onde conseguir a informao.
Logo cedo, naquela manh, Max telefonara para vrios homens de negcios que trabalhavam na City, o centro financeiro de Londres.
As reaces de todos foram idnticas. Quando Max declarou seu nome, ficaram inquietos, pois todos que tratavam de negcios na City tinham alguma coisa para esconder, 
e a reputao de Max Hornung como um anjo vingador financeiro era internacional.
Mas, no momento em que Max dizia estar procurando informaes sobre outra pessoa, dispunham-se at a cooperar com ele.
Max passou dois dias visitando bancos e companhias financeiras, organizaes de crditos e centros de registos estatsticos. No se interessava em falar com as pessoas 
nesses lugares; queria falar com os seus computadores.
Max era um gnio com os computadores. Sentava-se diante das mesas de controle e os digitava como um mestre. No importava a lngua que se houvesse ensinado ao computador 
na fbrica, pois Max falava todas elas. Falava com computadores digitais e com computadores de linguagem de baixo e de alto nvel. Estava no seu elemento com o Fortran 
e o Fortran IV, com o gigante 370 da IBM, com o 10 e o 1 da PDP e o 68 da Algol.
Entendia tanto de Cobol, programado para os negcios, quanto do Basic usado pela polcia e do APL de alta velocidade, que s se exprimia por meio de mapas e grficos. 
Max falava com o LISP, o APT e o PL-1. Mantinha conversaes em cdigo binrio e interrogava os grupos aritmticos e os CPV, recebendo as respostas em alta velocidade 
 razo de mil e cem linhas por minuto. Os computadores gigantes tinham sugado informaes como bombas insaciveis, armazenando-as, analisando-as, recordando-as, 
e estavam despejando tudo nos ouvidos de Max, sussurrando-lhe os seus segredos nas suas criptas com ar condicionado.
Nada era sagrado, nem seguro. A vida particular na civilizao actual era uma iluso, um mito. Todo cidado vivia exposto, e os seus segredos mais ocultos estavam 
 mostra,  espera de que os lesse. As pessoas eram registadas se tinham um nmero de matrcula na Previdncia Social, uma aplice de seguro, uma carteira de motorista 
ou uma conta bancria. Eram relacionadas se tinham pago impostos ou haviam recebido seguro desemprego ou algum fundo de assistncia social. Os seus nomes eram armazenados 
nos computadores quando eram beneficiadas por algum plano de seguro mdico, quando compravam uma casa com um emprstimo sob garantia hipotecria, quando tinham um 
automvel ou at uma bicicleta ou quando eram depositantes em alguma poupana ou conta corrente de banco. Os computadores sabiam os nomes das pessoas que tinham 
passado por hospitais, que tinham feito servio militar, que haviam tirado licena de caa ou pesca, que haviam tirado passaporte, que haviam pedido ligao de telefone 
ou energia elctrica para suas casas, que tinham se casado ou divorciado, ou mesmo nascido.
Quando se sabia onde procurar e se tinha pacincia, todos os factos estavam  disposio.
Max Hornung e os computadores tinham relacionamento admirvel. Os computadores no riam do sotaque de Max, do seu aspecto, dos seus gestos ou das suas roupas. Para 
os computadores, Max era um gigante. Respeitavam-lhe a inteligncia, admiravam-no, amavam-no. Perevoavam-lhe com prazer os seus segredos, comunicavam-lhe deliciosos 
rumores sobre as loucuras de que os mortais so capazes. Eram como velhos amigos que conversavam.
- Vamos falar sobre Sir Alec Nichols - disse Max.
E os computadores comearam. Deram a Max um perfil matemtico de Sir Alec, traado em algarismos, cdigos binrios e grficos. Duas horas depois, Max tinha um retracto 
complexo do homem, um relatrio financeiro dele.
Cpias de recibos de bancos, cheques cancelados e contas lhe foram apresentados. O que primeiro chamou a ateno de Max foi uma srie de cheques de quantias vultosas, 
todos ao portador, emitidos por Sir Alec Nichols. Para onde fora o dinheiro? Mas procurou ver se ele fora consignado como despesas pessoais ou comerciais, talvez 
como uma deduo de impostos. Nada. Voltou s listas de despesas: um cheque para o White's Club, uma conta de aougue, que no fora paga... u vestido de noite de 
John Bates... o Guinea... uma conta de dentista, que no fora paga... Anabelleks... um vestido de challis de Yves Saint-Laurent... uma conta do White Elephant, que 
no fora paga... uma conta de avaliaes... John Wydhan, salo de beleza, por pagar... quatro vestidos de Yves Saint-Lorent, River Gauche... salrios dos empregados 
domsticos...
Max formulou uma pergunta ao computador no Centro de Licenciamento de veculo.
Positivo. "Sir Alec possui um Bentley e um Morris." Faltava alguma coisa. No havia contas de oficinas mecnicas.
Max fez os computadores efectuarem uma pesquisa em suas memrias. Em sete anos, no tinha havido uma s conta de oficina.
"Esquecemos alguma coisa?" perguntaram os computadores.
"No, no esqueceram", respondeu Max.
Sir Alec no precisava de mecnicos. Ele mesmo consertava seus carros. Um homem dotado dessa habilidade no tinha a menor dificuldade em preparar u desastre com 
um elevador ou com um jipe. Max Hornung se debruou sobre os dados secretos fornecidos pelos seus amigos com a mesma ansiedade com que um egiptlogo decifraria hierglifos 
recm-descobertos. Descobriu outros mistrios. Sir Alec estava gastando muito mais do que ganhava.
Outro fio solto.
Os amigos de Max na City tinham ligaes com muitos sectores.
Dois dias depois, Max soube que Sir Alec tinha tomado dinheiro emprestado a Tod Michaels, dono de um clube no Soho.
Max procurou os computadores da polcia e formulou perguntas.
Os computadores ouviram e responderam: "Sim, podemos dar-lhe Tod Michaels. J foi acusado de vrios cremes, mas nunca condenado. Suspeito de estar envolvido em chantagem, 
prostituio e agiotagem".
Max foi ao Soho e fez mais perguntas. Ficou sabendo que Sir Alec no jogava, mas que a mulher dele era uma jogadora inveterada.
Quando Max acabou, no tinha a menor dvida de que Sir Alec Nichols estava sendo chantageado. Deixara de pagar as contas e precisava sempre de dinheiro com urgncia. 
Tinha aces que valeriam milhes se ele pudesse vend-las. Mas Sam Roffe fora um obstculo no seu caminho, como o era Elizabeth Roffe.
Sir Alec Nichols tinha um motivo para assassinar.
Max verificou Rhys Williams. As mquinas fizeram o possvel, mas o retracto saiu muito vago.
Os computadores informaram a Max que Rhys Williams era do sexo masculino, nascido no Pas de Gales, tinha trinta e quatro anos e era solteiro. Alto funcionrio da 
Roffe and Sons.
Ganhava oitenta mil dlares por ano, sem contar as gratificaes. Uma poupana em Londres com saldo de vinte e cinco mil libras. Tinha um depsito num banco em Zurique, 
de contedo desconhecido. Tinha todas as contas e cartes de crdito. Muitos dos artigos comprados com eles se destinavam a mulheres. Rhys Williams no tinha antecedentes 
criminais. Era empregado da Roffe and Sons havia nove anos.
No bastava, pensou Max. No bastava de modo algum. Parecia at que Rhys Williams estava se escondendo por trs dos computadores. O homem se mostrava muito protector 
quando Max fizera perguntas a Elizabeth depois do funeral de Kate Erling.
Estava protegendo a quem? A Elizabeth Roffe? Ou a si mesmo?
s seis horas daquela tarde, Max embarcou na classe turstica num vo da Alitlia com destino a Roma.

Captulo 40
Ivo Palazzi tinha passado quase dez anos construindo com habilidade e cuidado uma dupla vida de que nem mesmo as pessoas mais ntimas dele tinham desconfiado.
Max e seus amigos, os computadores, levaram menos de vinte e quatro horas para desvendar tudo. Max discutiu o caso com os computadores no Edifcio Anagrafe, onde 
estavam registrados dados biogrficos e administrativos, visitando tambm os computadores do SID e dos bancos. Todos receberam Max muito bem.
"Falem-me de Ivo Palazzi", disse Max.
"Com prazer", responderam os computadores.
As conversaes comearam.
Uma conta de armazm de Amici... uma conta no salo de beleza de Sergio na Via Condoti... u terno azul de Angelo.. flores da Carducci... dois vestidos de noite de 
Irene Galitzne... uma bolsa Pucci... contas de luz e telefone.
Max lia os impressos, examinando, analisando, farejando. Uma coisa estava errada. Havia pagamentos de colgio para seis crianas.
"Ser que erraram?", perguntou Max.
"Que tipo de erro?" "Os computadores do Anagrafe disseram que Ivo Palazzi registrado como pai de trs filhas Confirmaram seis contas de colgio?" "Confirmamos." 
"Do o endereo de Ivo Palazzi em Olgiata?" "Exacto." "Mas ele est pagando um apartamento na Via Montemignaio?" "Est." "H dois Ivo Palazzi?" "No. Um s. Duas 
famlias. Trs filhas com a esposa. Trs filhos com Donatella Spolini." Max ficou sabendo das preferncias da amante de Ivo Palazzi, do nome do seu salo de beleza 
e dos nomes dos trs filhos ilegtimos de Ivo. Sabia que Simonetta era loura e Donatella, morena. Sabia dos nmeros dos manequins, dos sutias e dos sapatos de cada 
uma e quanto custava cada artigo.
Entre as despesas, vrios itens interessantes chamaram a ateno de Max. As quantias eram pequenas, mas as mercadorias comparadas se destacavam. Havia recibos pela 
compra de um torno, uma plaina de uma serra. Ivo gostava de trabalhos manuais. Mas No se esqueceu do facto de que, sendo arquitecto, devia entender um pouco de 
elevadores.
"Ivo Palazzi solicitou recentemente um grande emprstimo bancrio", informaram os computadores.
"Conseguiu?" "No. Os bancos exigiram a assinatura da mulher dele, e Ivo desistiu do emprstimo." Max tomou o autocarro para o Centro di Polizia Scientifica, onde 
havia um computador gigantesco numa grande sala circular.
"Ivo Palazzi tem antecedentes criminais?", perguntou Max.
"Positivo. Ivo Palazzi foi condenado por assalto com violncia aos vinte e trs anos. A vtima teve de ir para o hospital. Ivo passou dois meses na priso." "Mais 
alguma coisa?" "Ivo sustenta uma amante na Via Montemignaio." "Obrigado. J sei disso." "H vrias queixas dos vizinhos  polcia." "Que espcie de queixas?" "Perturbao 
da ordem. Brigas, gritaria. Um dia, a mulher quebrou todos os pratos da casa. Isso tem importncia?" "Muita. Obrigado." Isso queria dizer que Ivo Palazzi tinha temperamento 
exaltado. E Donatella Spolini tambm. Teria havido alguma coisa entre eles? Estaria ela a ameaar denunci-lo? Fora por isso que ele solicitara um grande emprstimo 
ao banco? At que extremos poderia ir um homem como Ivo Palazzi para proteger seu casamento, sua famlia, sua maneira de viver?
Havia um detalhe final a que o detective deu muita ateno.
A seco financeira da polcia de segurana italiana fizera um grande pagamento a Ivo Palazzi. Era uma recompensa, uma percentagem em dinheiro encontrado com o banqueiro 
a quem Ivo havia denunciado. Se Ivo estava precisando tanto de dinheiro, que mais seria capaz de fazer para consegui-lo?
Max despediu-se dos computadores e embarcou para Paris, no vo do meio-dia da Air France.

Captulo 41
O txi marca do Aeroporto Charles de Gaulle at as proximidades da Notre-Dame setenta francos, sem contar a gorjeta. A passagem pelo autocarro 351 para o mesmo lugar 
custa sete francos e meio, tambm sem gorjetas. O detective Max Hornung tomou o autocarro. Hospedou-se no barato Htel Meubl e comeou a fazer telefonemas.
Falou com pessoas que tinham nas mos os segredos dos cidados da Frana. Os franceses eram normalmente mais desconfiados do que os suos, mas mostravam-se ansiosos 
em cooperar com Max Hornung. Em primeiro lugar, Max Hornung era um perito no seu sector, grandemente admirado, sendo uma honra cooperar com um homem assim. Em segundo 
lugar, tinham pavor dele. No havia segredos para Max. O homenzinho esquisito, com o seu sotaque impossvel, desmascarava todo mundo.
- Sem dvida - disseram a Max. - Pode usar  vontade nossos computadores. Tudo deve ser, porm, confidencial.
-  claro.
Max passou pelo Inspecteur des Finances, pelo Crdit Lyonnais e pela Assurannce Nationale, para conversar com os computadores de impostos. Visitou os computadores 
da Gendarmerie em Rosny-sous-Bois e os da Prfecture de police, na Ile de la Cit.
Comearam a conversa leve e calma de velhos amigos.
"Quem so Charles e Hlne Roffe-Martel?", perguntou Max.
"Charles e Hlne Roffe-Martel, residncia Rue Franois Premier, 5, Vsinet, casados a 24 de maio de 1970 em Neuilly, sem filhos. Hlne trs vezes divorciada, nome 
de solteira Roffe, conta bancria no Crdit Lynnais na Avenue Montaigne, no nome de Hlne Roffe-Martel, saldo mdio de mais de vinte mil francos." "Despesas?" "Pois 
no. Uma conta de livros da Librairie Marceau... conta de dentista com tratamento de canais para Charles Martel...
contas de hospital para Charles Martel... conta de exame de Charles Martel." "Resultado do diagnstico?" "Pode esperar? Terei de falar com outro computador." "Por 
favor." Max esperou.
A mquina com o relatrio do mdico principiou a falar.
"Tenho o diagnstico." "Pode dizer?" "Esgotamento nervoso." "Mais alguma coisa?" "Equimoses e contuses graves nas coxas e nas ndegas." "Alguma explicao?" "No 
foi dada nenhuma." "Faa o favor de continuar." "Uma conta de um par de sapatos de homem de Pinet... um chapu de Rose Valois... foie gras da Fauchon... salo de 
beleza Carita... jantar no Maxim's para oito pessoas... pratas de Christofle... um robe de homem da Sulka.." Max interrompeu o computador. Havia uma coisa a respeito 
das contas que lhe chamou a ateno. Todas as compras tinham sido assinadas por Mme Roffe-Martel, inclusive as de roupas para homens e as contas de restaurantes. 
Tudo em nome dela.
Interessante!
E ento surgiu o primeiro fio solto.
Uma companhia chamada Belle Paix havia comprado um selo de imposto territorial. Um dos proprietrios da Belle Paix se chamava Charles Dessain. O nmero do Seguro 
Social de Charles Dessain era o mesmo de Charles Martel. Segredo.
"Fale-me sobre a Belle Paix", disse Max.
"A Belle Paix  propriedade de Ren Duchamps e Charles Dessain, tambm conhecido como Charles Martel." "Que faz a Belle Paix?" "Possui um vinhedo." "De quanto  
o capital da companhia?" "Quatro milhes de francos." "Onde Charles Martel conseguiu a sua cota de capital?" "Chez ma tange." "Na casa de sua tia?" "Desculpe.  
uma expresso de gria francesa. Quer dizer no penhor, no Crdit Municipal." "O vinhedo tem dado lucro?" "No. A companhia faliu." Max tinha de saber mais. Continuou 
a falar com seus amigos, sondando, lisonjeando, exigindo. Foi o computador dos seguros que falou a Max de uma advertncia arquivada referente a uma possvel fraude 
de seguros. Max sentiu uma emoo deliciosa.
"Fale-me sobre isso", disse ele.
E falaram como duas velhas que trocam segredos enquanto lavam a roupa suja na manh de segunda-feira.
Depois disso, Max foi procurar um joalheiro chamado Pierre Richaud.
Meia hora depois, Max sabia exactamente o valor das jias de Hlne Roffe-Martel que tinham sido imitadas: pouco mais de dois milhes de francos, a quantia que Charles 
Martel investira no vinhedo. Por conseguinte, Charles Dessain-Martel tinha precisado tanto de dinheiro que no hesitara em roubar as jias da mulher.
Que outros actos de desespero haveria ele cometido?
Havia outro facto que interessava a Max. Podia ter pouca significao, mas Max o arquivou rapidamente na memria. Era uma nota de um par de botas de alpinismo. Isso 
fazia Max pensar, pois o alpinismo no se ajustava  imagem que fazia de Charles Martel-Dessain, um homem dominado pela mulher que no podia comprar coisa alguma 
em seu nome e nem tinha conta bancria pessoal, a tal ponto que era forado a roubar para fazer um investimento.
No era possvel imaginar Charles Martel escalando montanhas Voltou aos seus computadores.
"A conta que me mostrou ontem da loja de artigos desportivos. Gostaria de ter detalhes dela." "Certamente." A conta apareceu na tela diante dele. Nmero das botas: 
3. Um nmero de mulher. A alpinista era Hlne Roffe-Martel.
Sam Roffe fora morto nas montanhas.

Captulo 42
A Armengaud era uma rua tranquila de Paris, marginada dos dois lados por residncias de um e dois andares, com telhados de calha inclinados. Destacava-se entre os 
outros prdios o do nmero 26, uma estrutura moderna de vidro, ao e pedra de oito andares, que servia de sede  Interpol.
O detective Max Hornung estava falando com um computador na grande sala com ar condicionado do poro, quando um dos funcionrios entrou e disse:
- Vo passar um filme assassino l em cima. Quer v-lo?
Max levantou a vista e disse:
- No sei. O que significa exactamente um filme assassino?
- Suba e ver.
Havia cerca de vinte homens e mulheres sentados na grande sala de projeco do terceiro andar. Havia funcionrios da Interpol, inspectores de polcia Sret francesa, 
detectives  paisana e alguns policiais fardados.
Na frente da sala, diante da tela, Ren Almedin, secretrio assistente da Interpol, estava falando. Max entrou e sentou-se numa das ltimas filas.
- Nestes ltimos anos - dizia Ren Almedin. -, temos tido notcias de filmes assassinos, isto , de filmes pornogrficos em que ao fim do acto sexual a vtima  
assassinada diante das cmaras. No havia provas de que tais filmes realmente existissem, embora houvessem um motivo para essa escassez de provas. Esses filmes no 
eram ou no so feitos para o pblico.
So feitos para exibio particular a homens ricos que encontram prazer dessa maneira deformada e sdica.
Ren Almedin tirou os culos e continuou:
- Como j disse, tudo era boato e especulao. Isso, porm, muda agora. Dentro de alguns momentos, vocs vo assistir a algumas cenas de um filme assassino autntico. 
H dois dias, um homem que levava uma pasta foi atropelado numa rua de Passy por um carro cujo o motorista fugiu. O homem morreu a caminho do hospital e ainda no 
foi identificado. A Sret encontrou este rolo de filme na sua pasta e mandou revel-lo no seu laboratrio. Vejam.
Fez um sinal, e a exibio comeou.
Na tela, apareceu uma moa loura que devia ter no mximo dezoito anos. Causava um penoso constrangimento, como se estivesse diante de uma coisa irreal, ver aquela 
criatura to linda praticar algumas perverses sexuais com o homem que estava na cama com ela. A cmara fechou em close para focalizar a introduo do enorme pnis 
na mulher. Em seguida, moveu-se e focalizou o rosto do homem. Max Hornung teve a certeza instantnea de que j tinha visto um dia aquele rosto. E havia alguma coisa 
mais que j conhecia. Era a fita amarrada no pescoo da mulher. Reavivou-lha a lembrana da fita vermelha.
Onde? A mulher na tela comeou a entusiasmar-se com o acto e, quando ia atingir o orgasmo, o homem fechou as mos em torno do pescoo dela e principiou a estrangul-la. 
A expresso no rosto da mulher se transformou de prazer em horror. Debateu-se desenfreadamente para fugir, mas as mos do homem apertaram com mais fora, e ela morreu 
no momento final do orgasmo. A cmara focalizou em close rosto dela. O filme terminara, e as luzes se acenderam na sala de projeco. Max lembrou-se.
A moa que fora pescada num rio, em Zurique.
J estavam chegando  sede da Interpol em Paris respostas de toda a Europa s mensagens urgentes enviadas por cabo. Seis mortes semelhantes haviam ocorrido em Zurique, 
Londres, Roma, Portugal, Hamburgo e Paris.
Ren Almedin disse a Max que as caractersticas das vtimas eram semelhantes.
- So todas jovens e louras. Foram estranguladas durante o acto sexual e estavam nuas, com uma fita vermelha amarrada no pescoo. Estamos diante de um perigoso assassino, 
que dispe de um passaporte e dinheiro suficiente para fazer todas essas viagens por sua conta ou s expensas de algum.
Um detective apareceu nesse momento.
- Estamos com sorte. J descobriram a origem do filme virgem usado.  produzido numa pequena fbrica em Bruxelas que tem um problema com o equilbrio das cores, 
o que facilitou a identificao do filme. J obtivemos uma lista das firmas que comparam os filmes nestes ltimos tempos.
- Posso ver essa lista, quando a tiverem? - perguntou Max Hornung.
- Sem dvida - disse Ren Almedin.
Olhou para o pequeno detective. Na opinio dele, ningum no mundo podia parecer-se menos com um detective que Max Hornung.
Entretanto, fora ele quem dera o primeiro indcio seguro no caso dos filmes assassinos.
- Temos com voc uma dvida de gratido - disse Almedin.
- Ora essa! Porqu?

Captulo 43
Alec Nichols no havia desejado comparecer ao banquete, mas achara que Elizabeth no devia ir sozinha. Ambos tinham sido convidados a falar. O banquete era em Glasgow, 
cidade que Alec detestava. O carro o esperava defronte do hotel, a fim de lev-lo para o aeroporto assim que ele pudesse sair sem ser descorts. J fizera o seu 
discurso, mas, naquele momento, estava pensando em outra coisa. Sentia-se muito nervoso e no estava passando bem do estmago. Algum imbecil tivera a pssima idia 
de servir haggi o prato escocs que ele achava horripilante. Alec mal o provara.
- Est sentindo alguma coisa, Alec? - perguntou Elizabeth, que estava sentada ao lado dele.
- No  nada - disse ele para tranquiliz-la.
Os discursos estavam quase terminados quando um garo se inclinou e sussurrou a Sir Alec:
- Telefonema interurbano para o senhor. Pode atender no escritrio.
Alec seguiu o garo e passou do salo de jantar para o pequeno escritrio atrs da portaria. Pegou no telefone.
- Alo?
Ouviu ento a voz de Swinton.
- Este  o ltimo aviso!
Em seguida, o telefone foi desligado.

Captulo 44
A ltima cidade na agenda do detective Max Hornung era Berlim.
Os amigos computadores estavam  sua espera. Max falou com o exclusivo computador Nixdorf, ao qual s se tinha acesso com um carto especial, perfurado. Falou com 
os grandes computadores de Allianz e Schuff e com os do Bundeskriminalamt em Wiesbaden, centro de colecta de dados sobre todas as actividades criminais da Alemanha.
"Que podemos fazer?", perguntaram eles.
"Falem-me de Walther Gassner." E os computadores falaram. Quando acabaram de revelar os segredos a Max Hornung, a vida de Walther Gassner estava exposta diante do 
detective em belos smbolos matemticos. Max podia ver o homem to claramente quanto se estivesse olhando para uma fotografia. Sabia das preferncias dele em matria 
de roupas, vinhos, comidas e hotis. Tinha sido um jovem e belo professor de esqui que vivia  custas das mulheres e se casara com uma herdeira muito mais velha 
do que ele.
Houve um ponto que pareceu curioso a Max. Tratava-se de um cheque compensado de duzentos marcos feito em favor do Dr.
Heissen. Estava escrito no cheque "para consulta". Que espcie de consulta? O cheque fora recebido no Dresdner Bank, em Dsseldorf. Quinze minutos depois, Max falava 
com o gerente do banco. Sim. o gerente conhecia bem o Dr. Heissen, um velho cliente.
Que espcie de mdico era ele?
Psiquiatra.
Quando Max desligou, ficou sentado com os olhos fechados, pensando. Um fio solto. Por fim pegou o telefone e ligou para o Dr. Heissen, em Dsseldorf.
Uma recepcionista toda cerimoniosa disse a Max que o mdico no podia ser perturbado. Max insistiu, e afinal o prprio Dr.
Heissen pegou o telefone e informou rudemente a Max que no costumava dar informaes a respeito dos seus clientes e que no tinha a inteno de discutir tais assuntos 
pelo telefone.
Desligou sem esperar qualquer resposta.
Max voltou aos computadores: "Falem-me de Heissen." Trs horas depois, tornava a falar com o Dr. Heissen pelo telefone.
- Fique sabendo - disse o mdico asperamente - que, se quiser alguma informao a respeito de qualquer dos meus clientes, ter que aparecer aqui no meu consultrio 
com um mandado judicial.
- No me  possvel no momento ir a Dsseldorf - disse o detective.
- O problema  seu. Mais alguma coisa? Sou um homem ocupado.
- Sei disso. Tenho aqui em mos as suas declaraes de impostos de renda nos ltimos cinco anos.
- E da?
- Escute, doutor, no quero lhe criar problemas, mas vem sonegando ilegalmente vinte e cinco por cento de sua renda. Se preferir, poderei encaminhar as suas declaraes 
s autoridades alems do Imposto de Renda e dizer-lhes onde devem procurar a sonegao. Poderei tambm falar do seu cofre num banco em Munique e de sua conta numerada 
em Basileia.
Houve um longo silncio, e ento o mdico perguntou:
- Quem o senhor disse que era?
- Detective Max Hornung, da Polcia Criminal da Sua.
Houve um longo silncio, e ento o mdico perguntou:
- O que exactamente deseja saber?
Quando o Dr. Heissen comeou a falar, no houve mais jeito de parar. Sim, lembrava-se perfeitamente de Walther Gassner. O homem tinha ido procur-lo sem marcar hora 
e tinha insistido em ser imediatamente atendido. No quisera dar o nome, dizendo que desejava discutir apenas os problemas de um amigo.
-  claro que isso logo me ps em guarda - disse o Dr.
Heissen. -  uma sndrome clssica de pessoas que tm receio de enfrentar os seus prprios problemas.
- Qual era o problema dele, doutor?
- Disse ele que o amigo era esquizofrnico e seria capaz de matar algum, se no o impedissem. Perguntou se havia alguma espcie de tratamento capaz de atenuar esse 
estado. Acrescentou que no podia encarar a idia de ver o amigo internado num hospcio.
- O que o senhor lhe disse?
_ Expliquei que, em primeiro lugar, eu teria de examinar esse amigo dele. Adiantei que alguns tipos de doenas mentais eram susceptveis de tratamento por meio de 
terapias medicamentosas e psiquitricas, ao passo que outras eram incurveis. Disse tambm que, no caso como o que ele em linhas gerais me expunha, o tratamento 
poderia ser muito demorado.
- O que aconteceu ento?
- Nada. Foi s isso. Nunca mais vi o homem, e sinceramente gostaria de ter feito alguma coisa por ele. A sua visita ao meu consultrio teve todas as caractersticas 
de um pedido de socorro. Era como se um assassino tivesse escrito na parede do apartamento de sua vtima: "Prendam-me, seno vou matar de novo!" Havia uma coisa 
que Max ainda estranhava.
- Disse que ele no quis dar o nome. Entretanto, deixou nas suas mos um cheque assinado.
- Disse-me que havia se esquecido de pegar o dinheiro ao sair de casa. Estava muito aflito com isso e, no fim, teve de me dar um cheque. Foi assim que fiquei sabendo 
o nome dele. Deseja saber mais alguma coisa.
- No.
Alguma coisa ainda estava desafiando Max. Era um fio solto que fugia do seu alcance. Tinha de encontr-lo... Mas nada havia a fazer com os computadores. O resto 
era com ele.
Quando Max voltou a Zurique na manh seguinte, encontrou um teletipo da Interpol em cima de sua mesa. Continha a relao dos fregueses que haviam comprado a partida 
de filme virgem com defeito e com o qual fora feito o filme assassino.
Havia oito nomes na lista.
Um deles era a Roffe and Sons.
O inspector-chefe Schmied estava ouvindo o detective Max Hornung e pensando que indiscutivelmente, graas a um golpe de sorte, o pequenino detective tropeara em 
outro caso importante.
-  uma de cinco pessoas - dizia Max. - Todas elas tinham um motivo e tiveram a oportunidade. Estavam todas em Zurique numa reunio da directoria no dia em que o 
elevador caiu. Qualquer delas poderia estar na Sardenha quando houve o acidente com o jipe.
- Espere ai, Hornung - disse o inspector-chefe Schmied. Est falando em cinco suspeitos. Mas, na reunio da directoria, s havia quatro directores presentes alm 
de Elizabeth Roffe.
Quem  o seu quinto suspeito?
- O homem que estava em Chamonix com Sam Roffe quando ele foi assassinado, Rhys Williams.

Captulo 45
Sra. Rhys Williams.
Elizabeth nem poda acreditar. Tudo parecia um sonho como nos seus tempos de mocinha, quando tinha escrito o nome muitas e muitas vezes nos seus cadernos. Sra. Rhys 
Williams. Olhava sem acreditar para o anel que levava no dedo.
- De que est rindo? - perguntou Rhys.
Estava sentado  frente dela, numa poltrona a bordo do luxuoso Being 707-320. Estavam dez mil metros acima do oceano Atlntico e faziam uma refeio de caviar iraniano 
com Dom Prignon gelado. Era um completo clich de La dolce vita, e Elizabeth no pde deixar de rir.
- Alguma coisa que eu disse? - perguntou Rhys.
Elizabeth maneou a cabea. Viu como ele era bonito. E era seu marido.
- Estou to feliz! - murmurou ela.
Ele nunca saberia at que ponto ela era feliz. Como poderia Elizabeth dizer-lhe o que aquele casamento representava para ela? Ele no poderia compreender, porque 
para Rhys aquilo no era um casamento; era um acordo comercial. Mas ela amava Rhys.
Tinha a impresso de que sempre o amara. Queria passar o resto da vida com ele e dar-lhe muitos filhos. Queria pertencer a ele e fazer que ele pertencesse a ela. 
Mas era preciso antes resolver um problema. Tinha de fazer Rhys apaixonar-se por ela.
Elizabeth tinha falado em casamento a Rhys no dia em que se encontrara com Julius Badrutt. Depois que o banqueiro saiu, Elizabeth ajeitou os cabelos e foi  sala 
de Rhys. Respirou fundo e perguntou:
- Quer se casar comigo, Rhys?
Viu a surpresa estampada no rosto dele e continuou apressadamente, querendo parecer eficiente e fria:
- Seria um acordo puramente comercial. Os bancos esto dispostos a prorrogar o prazo de emprstimos se voc assumir a presidncia da Roffe and Sons. A nica maneira 
de voc conseguir isso  casando-se com uma mulher da famlia, e parece que a nica disponvel sou eu.
Nas ltimas palavras, a voz se tornou imprevisivelmente esganiada. Elizabeth ficou muito vermelha e no pde levantar a vista para ele.
-  claro - continuou Elizabeth - que no seria um verdadeiro casamento no sentido usual do termo... Voc teria inteira liberdade de fazer o que quisesse...
Ele ficou a olh-la, sem ajud-la em nada. Elizabeth queria que ele falasse, que dissesse alguma coisa, fosse l o que fosse.
- Rhys...
- Desculpe, Elizabeth - disse ele, sorrindo. - Mas no  todos os dias que se recebe um pedido de casamento de uma mulher bonita.
Ele estava querendo ganhar tempo, procurando um jeito de livrar-se daquilo, sem ofender os sentimentos dela. "Desculpe, Elizabeth, mas"...
- Combinado, Elizabeth - disse ele.
De repente, ela sentiu como se a tivesse aliviado de um tremendo peso. No compreendera at aquele momento o quanto aquilo era importante para ela. Ganhara tempo 
de sobra para saber quem era o inimigo. Juntos, Rhys e ela poderiam acabar com todas aquelas coisas terrveis que estavam acontecendo. Mas uma coisa era preciso 
esclarecer desde daquele instante.
- Voc ser o presidente da companhia, mas o controle accionrio permanecer nas minhas mos.
Rhys franziu a testa.
- Se eu vou presidir  companhia...
- Vai, sim.
- Mas o controle accionrio...
- Continuar em meu nome. Quero ter a certeza de que as aces no podero ser vendidas.
- Compreendo.
Ela sentia a reprovao de Rhys. Gostaria de dizer-lhe que decidira transformar a firma numa sociedade aberta e deixar os directores venderem as suas aces. Com 
Rhys na presidncia, Elizabeth no teria mais receio de que os estranhos chegassem e se apossassem de tudo. Rhys saberia cont-los. Mas no podia deixar que isso 
acontecesse enquanto ela no soubesse que estava tentando destruir a companhia. Gostaria muito de dizer todas essas coisas a Rhys, mas sabia que ainda no era hora.
Limitou-se a dizer:
- Fora esse ponto, voc ter o controle total da companhia.
Rhys ficou a olh-la em silncio durante um tempo que pareceu a Elizabeth intoleravelmente longo. Por fim, perguntou:
- Quando  que voc quer se casar, Elizabeth?
- O mais depressa possvel.
 exepo de Anna e Walther, que estava em casa doente, todos compareceram ao casamento em Zurique: Alec e Vivian, Hlne e Charles, Simonetta e Ivo. Pareciam todos 
muito felizes com o casamento, a tal ponto que Elizabeth em alguns momentos sentiu-se como uma impostora, pois no estava se casando realmente e, sim, fazendo um 
acordo comercial.
Alec abraou-a e disse:
- Sabe muito bem que eu lhe desejo tudo de bom.
- Sei sim, Alec. Muito obrigada.
Ivo parecia em xtase.
- Carissima, tanti auguri e figli mashi. Ficar rico  o sonho dos mendigos, mas ter amor  o sonho dos reis.
- Quem disse isso?
- Eu mesmo - disse Ivo. - S espero que Rhys saiba apreciar a sorte que tem.
-  o que eu me canso de dizer a ele - disse Elizabeth rindo.
Hlne levou Elizabeth para um canto.
- Voc  cheia de surpresas, ma chre. Nem sabia que voc e Rhys se interessavam um pelo outro.
E afastou-se.
Depois da cerimnia, houve uma recepo no Baur-au-Lac. Na superfcie, tudo foi alegre e festivo, mas Elizabeth podia sentir as correntes submersas. Pairava na sala 
uma maldio, mas ela no podia dizer de quem partia. Sabia apenas que uma das pessoas presentes a odiava. Era uma convico profunda, ainda que em volta dela s 
visse sorrisos e rostos amigos.
Charles fez um brinde, mas ela recebera um relatrio segundo o qual o explosivo que destrura o laboratrio fora fabricado nos arredores de Paris.
Ivo tinha um sorriso cordial, mas o banqueiro capturado quando tentava sair com dinheiro da Itlia fora denunciado por ele. Alec? Walther? Qual deles?, perguntava-se 
Elizabeth.
Na manh seguinte, houve uma reunio da directoria, e Rhys Williams foi eleito, por unanimidade, presidente e principal executivo da Roffe and Sons. Charles levantou 
a questo que estava no esprito de todos.
- Agora que est dirigindo a companhia, vai permitir as vendas das aces?
Elizabeth pde sentir subitamente a tenso dominar a sala.
- O controle accionrio ainda est nas mos de Elizabeth informou Rhys. - Cabe a ela decidir.
Todas as cabeas se voltaram para Elizabeth.
- No vamos vender - declarou ela.
Quando Elizabeth e Rhys ficaram sozinhos, ele perguntou:
- Gostaria de ir passar a lua-de-mel no Rio?
Elizabeth olhou-o e sentiu o corao bater mais forte. Mas Rhys acrescentou, com a maior calma do mundo.
- O nosso gerente l est ameaando demitir-se e  preciso resolver esse caso. Planeava tomar o avio amanh. Pareceria estranho se eu fosse sem minha mulher.
-  claro - disse Elizabeth.
E pensou: Voc  uma tola. Tudo isso foi idia sua. No se trata de um casamento, mas sim de um acordo comercial. Voc no tem o direito de esperar coisa alguma 
de Rhys. Entretanto, quem sabe o que pode acontecer numa viagem dessas?
Quando desembarcaram do avio no Aeroporto do Galeo, fazia calor, e Elizabeth se lembrou de que no Rio era vero.
 espera deles havia um Mercedes 600 com um motorista, um homem magro de pouco mais de vinte anos.
- Onde est Lus? - perguntou-lhe Rhys ao entrar no carro.
- Lus est doente, Sr. Williams. Mas eu estarei  disposio do senhor e de sua mulher.
- Diga a Lus que desejo seu pronto restabelecimento.
O chofer olhou-os pelo retrovisor e respondeu:
- Direi, sim.
Meia hora depois, rolavam pela avenida ao longo de Copacabana. Pararam  porta de um hotel moderno, e, um momento depois, os empregados j estavam cuidando da bagagem 
deles.
Foram levados para uma enorme sute de quatro quartos, uma bela sala, uma cozinha e um grande terrao de frente para o mar.
Havia flores em profuso, champanha, usque e bombons. O gerente os havia levado pessoalmente at a sute.
- Se desejarem alguma coisa, seja l o que for, estou s ordens vinte e quatro horas por dia - disse ele, antes de retirar-se.
- So sem dvida muito atenciosos - disse Elizabeth.
Rhys riu e respondeu:
- Tm motivos para ser. Este hotel lhe pertence.
- Oh, eu no sabia disso.
- Est com fome?
- Ainda no...
- Um pouco de champanha?
- Isso sim... Obrigada.
Tinha a impresso de que no estava falando naturalmente. No sabia ao certo como proceder, nem o que devia esperar de Rhys.
Ele se tornara de repente uma pessoa estranha, e ela no podia esquecer um s momento que estava sozinha com ele numa sute de hotel, que estava ficando tarde e 
que, dentro em pouco, seria hora de ir para a cama.
Viu Rhys abrir com facilidade a garrafa de champanha. Tudo o que ele fazia era assim, com aquela facilidade e a segurana de quem sabe o que quer e como consegui-lo. 
O que queria ele?
Rhys levou a champanha para Elizabeth e fez um brinde.
- A um bom comeo.
- A um bom comeo - repetiu Elizabeth, e acrescentou intimamente: E a um final feliz.
Beberam. Deviam quebrar as taas para comemorar, pensou ela.
Acabou de beber o champanha.
Estavam em lua-de-mel no Rio e ela queria Rhys. No s naquele momento, mas para sempre.
O telefone tocou. Rhys atendeu e disse algumas palavras.
Depois que desligou, disse a Elizabeth:
- J  tarde. Por que no vai para a cama?
Para Elizabeth, a palavra "cama" ficou pairando no ar.
- J vou - disse ela com voz fraca.
Levantou-se e foi para o quarto onde tinha deixado as suas malas. Havia uma cama enorme no centro do quarto. Uma camareira abrira as malas e preparava a cama. De 
um lado havia uma fina camisola de seda; do outro, um pijama azul de homem. Hesitou um momento e comeou a despir-se. Quando ficou nua, passou ao quarto de vestir 
espelhado e tirou cuidadosamente a maquiagem.
Amarrou uma toalha na cabea, entrou no banheiro e tomou um demorado banho de chuveiro, ensaboando bem o corpo e deixando a gua quente descer-lhe por entre os seios 
e sobre seu ventre e coxas, como se compridos dedos quentes a afagassem.
Tentava no pensar em Rhys, mas no podia pensar em mais nada. Pensava nos braos dele em torno do seu corpo e o corpo dele nela. Tinha se casado com ele para ajudar 
a salvar a companhia ou isso fora apenas um pretexto, pois na verdade era a ele que queria? No sabia mais. O seu desejo se transformava numa ardente necessidade. 
Era com se a menina de quinze anos que ela fora estivesse durante todo o tempo  espera por ele sem ter conscincia de que a ansiedade se transformara numa fome 
imperiosa. Saiu do chuveiro, enxugou-se, vestiu a camisola de seda e deitou-se. Ficou esperando, pensando no que ia acontecer, apenas com uma vaga idia de como 
seria tudo e com o corao a bater com fora. Ouviu a porta abrir-se e Rhys apareceu. Estava inteiramente vestido.
- Vou sair, Liz.
- Aonde... Aonde vai?
- Tenho de resolver um problema de negcios - disse ele, e saiu.
Elizabeth passou o resto da noite acordada, a virar-se na cama de um lado para outro, sacudida por emoes contraditrias, ora grata a Rhys por observar o acordo 
que tinham feito, ora furiosa por ter sido rejeitada por ele.
O dia j estava amanhecendo quando ouviu Rhys voltar. Os seus passos se encaminharam para o quarto e ela fechou os olhos, fingindo que dormia. Chegou a ouvir a respirao 
de Rhys quando ele se aproximou da cama. Ficou ali a olh-la durante muito tempo. Por fim, voltou-se e foi para o outro quarto.
Poucos minutos depois, Elizabeth adormecia.
Nas ltimas horas da manh, fizeram a primeira refeio no terrao. Rhys estava muito agradvel e falava com muita animao da cidade e do seu aspecto no tempo do 
carnaval. Mas no disse coisa alguma sobre onde passara a noite, e Elizabeth no perguntou. Um garo apareceu para saber o que queriam almoar. Elizabeth notou 
que foi outro garom que serviu pouco depois o almoo. Mas no deu muita ateno a isso. como tambm s camareiras que a todo momento entravam e saam.
Elizabeth e Rhys estavam na fbrica de Roffe and Sons nos arredores do Rio, sentados no escritrio do gerente. Roberto Tumas, um homem de meia-idade, que transpirava 
copiosamente.
- Deve compreender as coisas - dizia ele a Rhys. - A Roffe me  mais cara do que a prpria vida.  como se fosse minha famlia. Quando sair daqui, sentir-me-ei como 
se tivesse abandonado o meu lar. Meu corao ficar dilacerado. Mas tenho uma excelente proposta de outra companhia . Tenho mulher, filhos e uma sogra em quem pensar. 
Compreende, no  mesmo?
Rhys estava descansando confortavelmente numa poltrona e disse:
-  claro, Roberto. Sei muito bem o que a companhia representa para voc e quantos anos voc j passou aqui dentro.
Mas compreendo tambm que  um homem e tem de pensar na famlia.
- Obrigado, Rhys. Eu sabia que voc iria compreender.
- E o seu contracto connosco?
Roberto encolheu os ombros.
- Ora, o meu contracto com a Roffe sempre foi mera formalidade. Que valor tem um contracto quando obriga um homem a trabalhar sentindo-se infeliz?
- Foi por isso que tomamos o avio at aqui, Roberto.
Queremos que voc se sinta feliz.
- Pena que seja muito tarde... Agora, eu j acertei ir trabalhar em outra companhia.
- Essa outra companhia sabe que voc pode ir para a priso?
- perguntou Rhys displicentemente.
- Para a priso?
- O governo dos Estados Unidos obrigou toda a empresa de negcio no exterior a revelar todos os subornos pagos nos ltimos dez anos. Infelizmente, voc est envolvido 
nisso, Roberto. Alm disso, deixou de cumprir vrias leis brasileiras.
Estvamos dispostos a proteg-lo de todas as maneiras, como um verdadeiro membro da famlia. Mas, desde que vai sair da companhia, no h mais motivos para isso, 
no acha?
Roberto estava muito plido.
- Mas tudo o que eu fiz foi em benefcio da companhia. Estava apenas cumprindo ordens.
- Tenho certeza de que poder explicar tudo durante o seu julgamento - disse Rhys, levantando-se. - Bem, no temos mais nada a fazer aqui. Vamos, Elizabeth.
- Espere um pouco! - exclamou Roberto. - No pode abandonar-me assim!
- Creio que est fazendo um pouco de confuso. Quem quer nos abandonar  voc.
Tumas enxugou o suor da testa, foi at a janela e olhou para fora, enquanto um profundo silncio reinava na sala. Finalmente, voltou-se para Rhys e disse:
- Se eu ficar na companhia, posso contar com a proteco da Roffe?
- Total e absoluta - disse Rhys.
Quando estavam de novo no Mercedes de volta  cidade, Elizabeth disse a Rhys:
- O que voc fez com ele foi chantagem.
- Decerto, mas no podamos perder o homem para uma companhia rival. Ele sabe muito sobre nossos negcios e trataria de revelar isso fora daqui.
Elizabeth ficou pensando que ainda tinha muito que aprender com Rhys.
Naquela noite, foram jantar num restaurante, o Mirnder. Rhys se mostrou encantador, divertido e impessoal. Elizabeth tinha a impresso de que ele estava se escondendo 
por trs de uma cortina de fumaa de palavras e gentilezas para no revelar os seus verdadeiros sentimentos.
Quando acabaram de jantar, j passava da meia-noite.
Elizabeth tinha esperana de que fossem voltar para o hotel, mas Rhys disse:
- Vou lhe mostrar um pouco da vida nocturna do Rio.
Fizeram a ronda das boates e todo mundo parecia conhecer Rhys. Em todos os lugares, era o centro das atenes e encantava a todos. Eram convidados para as mesas 
de outros casais, e muitas pessoas iam sentar-se  mesa deles. No ficavam um nico minuto a ss. Sem dvida, Rhys estava fazendo aquilo de propsito para estabelecer 
uma barreira entre eles.
Em outros tempos, tinham sido amigos. Tinham passado a ser...
o qu?
Na quarta boate, onde tinham ido para uma mesa cheia de amigos de Rhys. Elizabeth chegou  concluso de que j bastava. Interveio na conversa entre Rhys e uma linda 
moa espanhola.
- Desculpe, mas ainda no dancei uma s vez com meu marido.
Com licena.
Rhys olhou-a com surpresa e levantou-se, dizendo aos outros:
- Creio mesmo que estou esquecendo minha mulher.
Tomou o brao de Elizabeth e levou-a para a pista de dana.
Ela estava um pouco rgida, e ele murmurou:
- Voc est brava.
Tinha razo, mas Elizabeth estava zangada consigo mesmo.
Impusera as regras do jogo e estava aborrecida porque Rhys no tratava de desrespeit-las. Mas no era s isso. O pior de tudo era no ter certeza dos verdadeiros 
sentimentos de Rhys. Estava cumprindo o acordo apenas porque tinha senso de dignidade ou porque ela no lhe interessava? Elizabeth tinha de saber.
- Desculpe toda essa gente, Elizabeth - disse ele. - Todos esto ligados ao mundo dos negcios e, de uma forma ou de outra, podem nos ser teis.
Isso mostrava que ele compreendia os sentimentos dela. Era muito agradvel ter o brao dele passado por ela e o corpo bem junto ao seu. Tudo em Rhys era exactamente 
como ela queria. Um se ajustava ao outro. Ela sabia disso. Mas saberia ele o quanto ela precisava dele?
O amor-prprio no lhe permitia dizer coisa alguma. Mas ele no podia deixar de sentir alguma coisa. Encostou-se mais a ele. O tempo havia parado e no havia nada 
no mundo seno os dois, a msica e a magia daquele momento. Ela poderia continuar danando para sempre nos braos dele. Descontraiu-se, abandonou-se inteiramente 
a ele e, pouco depois, sentiu a dureza masculina contra as coxas. Abriu os olhos e viu nos olhos dele alguma coisa que nunca vira antes, uma urgncia e uma necessidade 
que eram reflexos do que ela sentia.
Finalmente, ele disse, com voz rouca:
- Vamos voltar para o hotel.
Ela nem conseguia falar.
Quando ele a ajudava a colocar o casaco, os dedos dele lhe queimavam a pele. Sentaram-se no carro separados um do outro, com receio de qualquer contacto.
Elizabeth sentia-se a arder. Pareceu-lhe terem levado uma eternidade para chegar  sute. Sentiu que no podia esperar um s momento mais. Logo que a porta se fechou, 
juntaram-se num abrao impetuoso, que a ambos tirou o flego.
Estava nos braos dele, e havia nele uma ferocidade que ela nunca pressentira. Ele a tomou nos braos e levou-a para o quarto. No conseguiram despir-se com a rapidez 
que desejavam.
Elizabeth pensou que eram como duas crianas ansiosas, e ficou sem saber por que Rhys tardava tanto. Mas pouco importava agora. O que importava era a nudez e o maravilhoso 
contacto de um corpo contra o outro.
Acariciaram-se longamente e, quando no aguentaram mais, ele se moveu com lentido sobre o corpo dela e penetrou-a lenta e profundamente, em gentis movimentos circulares, 
at que ela comeou a mover-se ao ritmo dele, ao ritmo de ambos, ao ritmo do universo, e tudo se moveu cada vez mais depressa, a girar descontroladamente at que 
houve uma exploso maravilhosa e a terra voltou a ser tranquila e pacfica.
Ficaram ali abraados, e Elizabeth pensou com alegria: Sra.
Rhys Williams.

Captulo 46
- Perdo, Sra. Williams - disse Henriette pelo interfone. Est aqui o detective Hornung, que deseja v-la. Diz que  urgente.
Elizabeth olhou para Rhys, intrigada. Tinham chegado a Zurique, vindo do Rio, na noite anterior, e estavam no escritrio havia poucos minutos apenas. Rhys encolheu 
os ombros.
- Diga-lhe que mande o homem entrar. Vamos saber que urgncia  essa.
Pouco depois, estavam os trs sentados no escritrio de Elizabeth.
- Que deseja? - perguntou Elizabeth.
Max Hornung no era homem de rodeios.
- Algum est tentando mat-la - disse ele.
Ao ouvir essas palavras, Elizabeth ficou muito plida. Diante disso, Max Hornung pensou que devia ter tido mais tacto apresentando os factos de outra maneira.
- O que est dizendo, afinal de contas? - perguntou Rhys Williams.
Max continuou a dirigir-se a Elizabeth.
- J houve duas tentativas de morte contra a sua pessoa.
Haver provavelmente outras.
- Acho... que deve estar enganado - murmurou Elizabeth.
- No estou, no. O desastre do elevador visava a sua pessoa.
Ela o encarou em silncio, com os olhos negros cheios de espanto e outras emoes que Max no podia definir.
- E o desastre com o jipe tambm.
Elizabeth conseguiu falar:
- Est enganado. Foi um acidente. No havia nada no jipe. A polcia de Sardenha examinou-o.
- No.
- Eu vi os mecnicos examinarem o jipe - disse Elizabeth.
- No, senhora. A senhora viu os mecnicos examinarem um jipe. No era o seu.
Ambos o olhavam, estupefactos.
Max continuou:
- O seu jipe nunca esteve naquela garagem. Fui encontr-lo num ferro-velho, em Olbia. A porca que fechava o cilindro principal foi afrouxada, deixando escoar todo 
o leo do freio.
Foi por isso que a senhora ficou sem freios. O pra-lamas esquerdo ainda estava amassado e havia marcas verdes da seiva da rvore contra a qual bateu. Verifiquei 
tudo e vi que conferia.
O pesadelo estava de volta. Elizabeth sentiu-se dominada por ele, e as comportas dos seus temores ocultos se reabriam subitamente, revivendo o terror daquela descida 
pela montanha.
- No compreendo - disse Rhys. - Como foi possvel isso?
Max voltou-se para Rhys.
- Todos os jipes se parecem. Eles se aproveitaram disso.
Quando ele bateu na rvore em vez de rolar pelo precipcio como esperavam, tiveram de improvisar. No podiam deixar ningum examinar o jipe, pois tudo tinha que 
parecer um acidente.
Tinham esperado que ele fosse parar no fundo do mar. Talvez a tivessem liquidado ali mesmo, se no tivesse chegado uma turma de socorro que a levou para o hospital. 
Conseguiram ento outro jipe, simularam uma batida e fizeram a mudana antes que a polcia chegasse.
- Quem so essas pessoas a quem se refere? - perguntou Rhys.
- Quem fez tudo aquilo teve auxlio.  por isso que falo no plural.
- Quem... quem poderia querer matar-me? - perguntou Elizabeth.
- A mesma pessoa que matou seu pai.
Ela teve uma sbita impresso de irrealidade, como se nada daquilo tivesse acontecido. Era tudo um pesadelo que em breve se dissiparia.
- Seu pai foi assassinado - continuou Max. - Escalou a montanha com um falso guia, que o matou. Seu pai no foi a Chamonix sozinho. Havia algum com ele.
- Quem? - perguntou Elizabeth com um fio de voz.
Max olhou para Rhys e disse:
- Seu marido.
Essas palavras ressoaram sinistramente nos ouvidos de Elizabeth. Parecia vir de muito longe, crescendo e diminuindo.
Elizabeth teve a impresso de que estava perdendo o juzo.
- Liz, eu no estava com Sam quando ele foi morto - disse Rhys.
- Esteve em Chamonix com ele - insistiu Max.
- 'verdade. Mas parti de Chamonix antes que Sam iniciasse a sua escalada!
- Por que no me disse isso, Rhys? - perguntou Elizabeth.
Rhys pareceu hesitar um momento. Em seguida, tomou uma deciso e comeou a falar:
- Era um assunto que eu no podia discutir com ningum. No ano passado algum tinha comeado a sabotar a Roffe and Sons.
Tudo era feito com muita habilidade, para que parecesse simplesmente uma srie de acidentes. Mas eu comecei a perceber que havia um plano por trs de tudo. Fui falar 
com Sam e ento combinamos em contactar uma agncia particular para investigar os factos.
Elizabeth sabia o que ele ia dizer e foi dominada ao mesmo tempo por uma onda de alvio e por um sentimento de culpa. Rhys sabia do relatrio. Devia ter confiado 
nele, devia ter contado tudo a ele, em lugar de guardar os receios para si mesma.
Rhys continuou a falar com Max Hornung.
- Sam Roffe recebeu um relatrio que confirmou as minhas suspeitas. Ele me convidou a ir at Chamonix para discutir o caso com ele. Fui. Resolvemos guardar sigilo 
sobre tudo at sabermos quem era o responsvel pelo que estava acontecendo.  evidente que o sigilo no foi absoluto. Sam foi morto porque algum sabia que estvamos 
nos aproximando da verdade. O relatrio desapareceu.
- Eu vi o relatrio - disse Elizabeth, a quem Rhys olhou com surpresa. - Estava entre os objectos de Sam recolhidos pela polcia em Chamonix. O relatrio indicava 
que o culpado era algum da directoria da Roffe and Sons. Mas todos eles tm aces da companhia. Por que haveriam de querer destru-la?
Max explicou:
- No esto tentando destru-la, Sra.. Williams. O que procuram  criar problemas suficientes para que os banqueiros fiquem impacientes e comecem a exigir o pagamento 
dos seus emprstimos. Queriam com isso forar seu pai a transformar a companhia numa sociedade aberta e vender as aces. O culpado de tudo isso ainda no conseguiu 
o que queria. Por isso, a sua vida continua em perigo.
- Ento  preciso dar proteco a ela - disse Rhys.
Max piscou os olhos e disse:
- No se preocupe com isso, Sr. Williams. Ela tem estado sob nossas vistas desde o dia em que se casou com o senhor.

Captulo 47
Berlim. Segunda-feira, 1 de dezembro. 10 horas.
A dor era insuportvel e havia semanas que ele sofria.
O mdico deixara-lhe alguns comprimidos, mas Walther Gassner tinha medo de Tom-los. Devia ficar constantemente alerta para que Anna no fizesse outra tentativa 
de mat-lo ou fugir.
- Deve ir para um hospital - havia dito o mdico. - Perdeu muito sangue...
Era isso o que Walther absolutamente no queria. Ferimentos feitos a faca ou com instrumentos pontiagudos eram comunicados  polcia. Havia se tratado com um mdico 
da companhia, na certeza de que ele no faria qualquer comunicao  polcia, pois Walther no podia tolerar que ela se metesse na sua vida.
ao menos naquele momento. O mdico tinha dado, em silncio, alguns pontos no ferimento, com os olhos cheios de curiosidade.
Perguntara depois:
- Quer que mande uma enfermeira, Sr. Gassner?
- No, minha mulher cuidar de mim.
Isso havia acontecido j fazia um ms, Walther telefonara para sua secretria e lhe dissera que devido a um acidente, iria passar algum tempo em casa.
Pensou no terrvel momento em que Anna tentara mat-lo com a tesoura. Ele se havia voltado no momento exacto, e a lmina lhe atingira o ombro em vez de acertar-lhe 
o corao. Quase desmaiara com a dor e o choque, mas ainda conservara a conscincia o tempo suficiente para arrastar Anna para o quarto e tranc-la. E durante o 
tempo ela no parara de gritar: "O que voc fez com as crianas? O que voc fez com as crianas?" Desde ento, Walther a mantinha trancada. Preparava a comida dela. 
Levava uma bandeja ao quarto de Anna, abria a porta e entrava. Ela ficava sempre encolhida num canto, com medo dele, e s vivia perguntando num sussurro: "O que 
voc fez com as crianas?" s vezes, ele abria a porta e a encontrava com o ouvido colado  parede, procurando escutar as vozes do filho ou da filha. A casa estava 
vazia agora, e s os dois estavam l dentro.
Walther sabia que havia muito pouco tempo a perder. Os seus pensamentos foram, de repente, interrompidos por um leve rudo.
Escutou. Tornou a ouvir. Algum estava andando pelo corredor do andar de cima. Entretanto, a casa devia estar vazia. Ele mesmo fechara todas as portas.
No andar de cima, a Sra. Mendler estava arrumando a casa.
Trabalhava como faxineira e era a segunda vez que ia quela casa. No gostava de l. Quando trabalhava ali na quarta-feira anterior, o Sr. Gassner a havia acompanhado, 
como se tivesse receio de que ela roubasse alguma coisa. Quando ela se preparava para subir, ele falara bruscamente com ela, pagara o dia e a mandara embora. Havia 
alguma coisa no jeito do homem que lhe metia medo.
Naquele dia, ainda no o vira, graas a Deus. A Sra. Mandler havia entrado na casa com a chave que tinha pegado na semana anterior e subido para o andar superior. 
A casa estava em completo silncio, e ela julgou que o homem tivesse sado. J havia arrumado um dos quartos, onde no encontrara nada seno algumas moedas espalhadas 
e uma caixinha dourada de plulas.
Seguiu ento o corredor at o quarto vizinho e tentou abrir a porta. Estava trancada. Estranho. Talvez o homem guardasse alguma coisa de muito valor l dentro. Forou 
a maaneta e ento ouviu uma voz de mulher vinda de dentro do quarto perguntar:
- Quem ?
A Sra. Mandler recuou, assustada.
- Quem ? Quem est a?
- Sou eu, a faxineira. No quer que arrume seu quarto?
- No pode entrar. Estou trancada. Socorro! Por favor, chame a polcia! Diga que meu marido matou meus filhos! Agora, vai me matar! Depressa! Saia daqui antes que 
ele...
Nesse momento, agarraram violentamente a Sra. Mendler pelo brao e ela se viu frente a frente com o Sr. Gassner, que estava mortalmente plido.
- O que est espionando aqui? - perguntou ele, apertando-lhe dolorosamente o brao.
- No estou espionando nada. Sou a faxineira e hoje  meu dia. A agncia me disse...
- Eu disse  agncia que no queria mais ningum. Eu...
Procurou lembrar-se. Havia telefonado mesmo para a agncia?
Pensara em fazer isso, mas sentira tantas dores que talvez tivesse esquecido...
A Sra. Mandler olhava para ele, aterrada.
- No me disseram nada...
Ele ficou parado para ver se escutava algum barulho por trs da porta fechada. Mas o silncio era completo.
Voltou-se para a faxineira:
- V embora daqui. E no volte.
A Sra. Mandler saiu o mais depressa que pde da casa. O homem no lhe pagara o dia. Mas ela pegara a caixinha dourada de plulas e as moedas que encontrara espalhadas 
pelo quarto. Tinha pena da pobre mulher trancada no quarto. Gostaria de ajud-la, mas no queria envolver-se no caso. Tinha ficha na polcia.
Em Zurique, o detective Max Hornung lia o seguinte teletipo recebido da sede da Interpol em Paris:
"Nmero da factura do filme virgem usado no filme assassino vendido a Roffe and Sons no pde ser obtido pois funcionrio no trabalha mais na companhia. Estamos 
investigando e comunicaremos todas as informaes obtidas".
Em Paris, a polcia retirava das guas do Sena o corpo nu de uma mulher de quase vinte anos, loura. Tinha uma fita vermelha amarrada no pescoo.
Em Zurique, Elizabeth Williams fora colocada sob proteco permanente da polcia.

Captulo 48
A luz branca se acendeu, indicando que havia uma ligao para a linha directa de Rhys Williams. Nem meia dzia de pessoas sabiam desse nmero. Pegou o telefone.
- Alo?
- Bom dia, querido.
No era possvel confundir aquela voz gutural e diferente.
- Voc no devia telefonar para mim.
A mulher riu.
- Voc nunca se preocupou com essas coisas. No me diga que Elizabeth j o dominou.
- O que voc quer? - perguntou Rhys.
- Quero v-lo hoje  tarde.
- Impossvel!
- Olhe que eu me zango, Rhys. Quer que eu v at Zurique?
- No, no posso v-la aqui... Est bem. Irei at a.
- Assim, sim. No lugar do costume, chri.
E Hlne Roffe-Martel desligou.
Rhys colocou o fone no gancho e ficou pensando. Para Rhys, no tinha passado de um breve caso puramente sexual com uma mulher interessante, mas estava encerrado 
havia algum tempo.
Mas Hlne no era mulher que pudesse ser abandonada com facilidade. Ela estava cansada de Charles e queria Rhys: "Voc e eu formamos um par perfeito", dizia, e 
Hlne Roffe-Martel podia ser muito determinada e extremamente perigosa. Rhys chegou  concluso de que a viagem a Paris era necessria.
Tinha de faz-la compreender de uma vez por todas que no podia haver mais nada entre eles.
Momentos depois, entrou na sala de Elizabeth, e os olhos dela faiscaram. Abraou-o e disse:
- Estava pensando em voc. Vamos para casa e trataremos de ter uma folga pelo resto do dia.
Ele sorriu.
- Voc est ficando manaca em matria de sexo.
Ela se aconchegou a ele.
- Sei disso. E no  bom?
- Infelizmente, tenho de tomar o avio para Paris hoje  tarde, Liz.
Ela procurou dissimular a sua decepo e perguntou:
- Devo ir com voc?
- No  o caso, Liz. H um pequeno problema que eu tenho de resolver pessoalmente. Estarei de volta  noite. Jantaremos um pouco mais tarde.
Quando Rhys entrou no pequeno hotel da River Gauche, que conhecia to bem, j encontrou Hlne  espera dele. Era organizada e eficiente, extraoordinariamente bela, 
inteligente e maravilhosa amante. Faltava-lhe, no entanto, alguma coisa.
Hln era uma mulher sem compaixo. Havia nela intensa crueldade, um verdadeiro instinto assassino. Rhys j vira outros massacrados por ela, e no tinha a inteno 
de se tornar uma de suas vtimas. Sentou-se diante dela.
- Voc est com muito bom aspecto, meu querido.  evidente que est se dando bem com o casamento. Elizabeth tem sido satisfatria para voc na cama?
Ele sorriu para atenuar a rudeza do que ia dizer.
- No  da sua conta.
Ela se curvou para a frente e segurou uma das mos dele.
- Ah, , sim, cheri.  da nossa conta.
Comeou a acariciar-lhe a mo, e ele pensou nela na cama.
Parecia um tigre, selvagem,  espreita e insacivel. Rhys afastou a mo.
Os olhos de Hlne ficaram frios.
- Escute, Rhys. Como  ser presidente da Roffe and Sons?
Ele quase havia esquecido o quanto ela era ambiciosa.
Lembrou-se das longas conversas que j haviam tido. Ela alimentava a obsesso de dominar a companhia. Voc e eu, Rhys.
Se Sam estivesse fora do caminho, ns dois poderamos dirigir a companhia.
At nos momentos mais arrebatadores de amor ela murmurava: A companhia  minha, meu bem. Tenho nas veias o sangue de Samuel Roffe. A companhia  minha. Eu a quero. 
Foda-me,  minha. Eu a quero. Foda-me, Rhys.
O poder era o afrodisaco de Hlne. O perigo tambm.
- O que voc quer comigo, Hlne?
- Acho que j est na hora de ns dois fazermos alguns planos.
- No sei do que voc est falando.
- Eu o conheo bem, Rhys. Voc  ainda mais ambicioso do que eu. Por que acompanhou Sam como uma sombra quando teve ptimas propostas para dirigir outras companhias? 
Sabia muito bem que um dia iria dirigir a Roffe and Sons.
- Fiquei porque gostava de Sam.
-  claro, chri - disse ela, rindo. - E hoje est casado com a filhinha encantadora dele.
Tirou um cigarro da bolsa e acendeu-o com um isqueiro de platina.
- Charles me disse que Elizabeth mantm o controle accionrio da companhia e ainda se recusa a abrir mo dele.
-  verdade, Hlne.
- Naturalmente, j deve ter pensado que, se ela sofrer um acidente, voc herdar tudo, no ?
Rhys olhou demoradamente para ela.

Captulo 49
Ivo Palazzi estava em sua casa, em Olgiata, e olhava pela janela quando viu uma coisa simplesmente horripilante.
Donatella e os trs garotos vinham chegando pela entrada de carros. Simonetta estava no andar de cima, cochilando.
Ivo saiu s pressas ao encontro de sua segunda famlia. Estava com tanta raiva que tinha vontade de matar. Tinha sido to bom, to amigo, to carinhoso para com 
aquela mulher, e a recompensa que ela lhe dava era a tentativa deliberada de destruir-lhe a carreira, o casamento e a vida. Viu Donatella saltar do Lancia Flava 
que ele to generosamente lhe dera Para dizer a verdade, ela nunca lhe parecera to bela quanto aquele instante. Os garotos saltaram tambm para abra-lo e beij-lo. 
Ivo sentiu que os amava demais. Desejava apenas que Simonetta no acordasse naquele momento.
- Vim falar com sua mulher - disse cerimoniosamente Donatella,. - Vamos entrar, garotos.
- No! - ordenou Ivo.
- Como voc vai impedir? Se eu no falar com ela hoje, falarei amanh.
Ivo estava imprensado contra a parede e no via sada. Sabia, porm, que no podia deixar que ningum lhe destrusse aquilo que lhe custava tanto a construir. Ivo 
se considerava um homem de bem e detestava o que tinha de fazer. Mas era preciso, no s por ele, mas por Simonetta, por Donatella e por todos os seus filhos.
- Eu lhe darei seu dinheiro - disse a Donatella. - Daqui a cinco dias.
- Est bem. Cinco dias - disse Donatella, com os olhos fixos nele.
Em Londres, Sir Alec Nichols estava tomando parte num debate na Cmara dos Comuns. Fora escolhido para fazer um importante discurso poltico a respeito das repetidas 
greves que estavam desarticulando a economia britnica. Tinha, porm, dificuldades de concentrar-se. Pensava na srie de telefonemas que recebera naquelas ltimas 
semanas. Conseguiam encontr-lo onde quer que ele estivesse: no clube, no barbeiro, nos restaurantes, em reunies comerciais. Alec sempre desligava sem dizer uma 
palavra. Sabia o que estavam querendo era apenas o comeo. Depois que o tivessem sob controle, achariam um jeito de apoderar-se das suas aces e deteriam ento 
uma parcela da gigantesca indstria farmacutica que fabricava drogas de todas as espcies. No incio, telefonavam-lhe quatro ou cinco vezes por dia, at que os 
seus nervos ficaram em petio de misria.
O que preocupava Alec naquele dia era no ter recebido ainda qualquer telefonema. Havia esperado o telefonema de manh na hora do caf e, mais tarde, quando almoava 
no White's. Mas ningum lhe telefonara, e ele no podia livrar-se da idia de que aquele silncio era mais sinistro que todas as ameaas.
Procurou, entretanto, esquecer-se de tudo ao ocupar a tribuna da Cmara.
"Ningum  mais amigo dos trabalhadores do que eu. Nossa fora de trabalho  que d a grandeza ao pas. Os trabalhadores alimentam as nossas usinas e movem as nossas 
fbricas. So a verdadeira elite do pas, a espinha dorsal que torna a Inglaterra alta e forte entre as naes." Fez uma pausa e continuou: "H todavia perodos 
na vida de toda a nao em que  preciso fazer sacrifcios..." Falava mecanicamente, pensando todo o tempo se a sua atitude teria afugentado os chantagistas. Afinal 
de contas, no passavam de chantagistas vulgares. E ele era Sir Alec Nichols, baronete e membro do Parlamento. Nada poderiam fazer contra ele.
Com toda a certeza, tinham desistido de vez. Da por diante, deix-lo-iam em paz.
Terminou seu discurso entre aplausos entusisticos do plenrio.
J ia saindo quando um funcionrio se aproximou dele.
- Tenho um recado para o senhor, Sir Alec.
- Que ?
- Deve ir para casa o mais depressa possvel. Houve um acidente.
Estavam levando Vivian para uma ambulncia quando Alec chegou a casa. Havia um mdico ao lado dela. Alec parou o carro junto ao meio-fio e saiu correndo, mas parou 
de repente. Olhou para o rosto inconsciente de Vivian e perguntou ao mdico:
- O que houve?
- No sei, Sir Alec. Recebi um telefonema annimo que falava de um acidente. Quando cheguei, encontrei Lady Nichols cada no quarto com as rtulas perfuradas por 
dois regos cravados no cho.
Alec fechou os olhos, lutando contra o acesso de nusea que o invadia. Sentia a bile subir-lhe  garganta.
- Faremos tudo o que estiver ao nosso alcance. Mas convm que prepare o esprito para uma coisa: talvez ela nunca mais possa andar.
Alec sentia dificuldades de respirar. Encaminhou-se para a ambulncia.
- Ela est sob o efeito de um sedativo bem forte - disse o mdico. No poder reconhec-lo.
Alec subiu para a ambulncia e se sentou num banco ao lado da mulher, sem ver as portas se fecharem e sem ouvir o silvo da sirene logo que o veculo comeou a mover-se. 
Segurou as mos frias de Vivian.
- Alec - murmurou ela, abrindo os olhos.
Os olhos de Alec ficaram cheios de lgrimas.
- Oh, minha querida...
- Dois homens mascarados... me agarraram... quebraram minhas pernas... Nunca mais poderei danar... Vou ficar aleijada...
Voc me quer assim mesmo, Alec?
Ele encostou a cabea no ombro dela e chorou. Eram lgrimas de desespero e de agonia e de mais alguma coisa que ele hesitava em reconhecer. Havia uma espcie de 
angustiado conforto no seu sentimento. Se Vivian ficasse aleijada, ele poderia cuidar dela com todo o carinho e ela no o deixaria por mais ningum...
Alec sabia, porm, que os seus problemas no estariam terminados. Os inimigos ainda no deviam estar satisfeitos.
Aquilo era apenas um aviso. A nica maneira de livrar-se deles era dar-lhes o que queriam.
O mais depressa possvel.

Captulo 50
Zurique. Quinta-feira, 4 de dezembro.
Era exactamente meio-dia quando a ligao chegou  mesa telefnica da sede da Polcia Criminal em Zurique. O telefonema foi encaminhado ao inspector-chefe Schmied 
e quando acabou de falar, mandou chamar o detective Max Hornung.
- Est tudo acabado - disse ele a Max. - O caso Roffe est resolvido. J encontraram o assassino. Pode ir para o aeroporto. Tem o tempo exacto para pegar o avio.
- E para onde eu vou? - perguntou Max.
- Para Berlim.
O inspector-chefe Schmied telefonou para Elizabeth Williams.
- Tenho boas notcias para lhe dar. No tem mais necessidade de proteco da polcia. O assassino foi capturado.
Elizabeth segurava nervosamente o telefone. Ia afinal saber o nome do seu implacvel inimigo.
- Quem  ele, inspector?
- Walther Gassner.
Iam em alta velocidade pela Autobahn, em direco a Wannsee.
Max ia no banco de trs, em companhia do major Wageman. Dois detectives estavam no banco da frente. Tinham ido esperar Max no aeroporto de Tempelhof, e o major Wageman 
havia explicado a situao. A casa estava cercada, mas deviam agir com cuidado, pois a esposa de Gassner estava detida por ele como refm.
- Como descobriram que Walther Gassner  o culpado? perguntou Max.
- Graas ao senhor. Foi por isso que pensamos que gostaria de estar presente  captura.
- Graas a mim?
- Falou-me do psiquiatra a quem ele foi consultar. Baseado nisso, mandei a descrio de Gassner a outros psiquiatras e apurei que ele consultou uma meia dzia deles. 
Usava cada vez um nome diferente e ento desaparecia. Sabia que estava doente.
A mulher dele nos telefonou pedindo socorro alguns meses antes.
Mandamos um dos nossos homens at l, mas ela o despistou com evasivas. Hoje de manh, recebemos um telefonema de uma faxineira, a Sra. Mandler. Disse-me que tinha 
ido trabalhar na casa de Gassner na segunda-feira e que falou com a mulher dele atravs da porta fechada de um quarto. A Sra. Gassner disse a ela que o marido matara 
os dois filhos do casal e pretendia mat-la.
Max piscou os olhos.
- Isso aconteceu na segunda-feira? E a tal mulher s telefonou para a polcia hoje?
- A Sra. Mandler tem uma longa ficha de contravenes e teve receios de nos procurar. Ontem  noite, discutiu o caso com o companheiro dela, e os dois resolveram 
falar.
Haviam chegado a Wannsee. Pararam o carro a alguma distncia da casa de Gassner, atrs de uma sebe. Um homem saiu do carro e dirigiu-se ao encontro do major Wageman 
e Max.
- Ele ainda est na casa, major. Os meus homens esto cercando tudo.
- Sabe se a mulher ainda est viva?
- No d para ver. Todas as cortinas esto fechadas.
- Muito bem. Vamos avanar com rapidez e silncio. Dentro de cinco minutos.
O homem saiu s pressas. O major Wageman tirou do carro um pequeno aparelho-transmissor. Comeou ento a dar ordens. Max no o estava escutando. Pensava em alguma 
coisa que o major Wageman lhe dissera havia poucos minutos e que no fazia sentido.
Mas no havia tempo de falar sobre isso. Os homens estavam comeando a avanar para a casa, escondendo-se por trs das rvores e arbustos.
- Vamos Hornung? - disse o major Wageman.
Max teve a impresso de que havia um verdadeiro exrcito a infiltrar-se pelo jardim. Alguns deles portavam fuzis de mira telescpica e couraas blindadas. Outros 
carregavam metralhadoras portteis e bombas de gs lacrimogneo. A operao foi executada com preciso matemtica. A um sinal do major Wageman, as bombas de lacrimogneo 
foram lanadas atravs das janelas dos dois andares da casa. No mesmo instante, as portas da frente e dos fundos foram arrombadas por homens que usavam mscaras 
contra gs. Foram seguidos por um enxame de detectives de pistola em punho.
Quando o major Wageman e Max entraram na casa pela porta da frente, encontraram o hall ainda cheio da acre fumaa, que, entretanto, comeava a dissipar-se pelas 
janelas abertas. Dois detectives aparecem com Walther Gassner algemado. Estava de pijama e robe. Tinha a barba crescida, o rosto abatido e os olhos vermelhos.
Max olhou para ele. Era a primeira vez que o via pessoalmente. Pareceu-lhe de certo modo irreal. O outro Walther Gassner  que era real, o homem do computador, cuja 
vida fora retractada em algarismos. Qual deles era a sombra e qual era o real?
- Est preso, Sr. Gassner - disse o major Wageman. - Onde est sua esposa?
Walther Gassner respondeu com voz rouca:
- No est aqui... Desapareceu...
Ouviu-se no andar de cima o barulho de uma porta sendo forada. Um detective gritou ento do alto:
- Encontrei-a. Estava trancada no quarto.
Em seguida, o detective apareceu na escada, apoiando Anna Gassner, que tremia. Estava desgrenhada e soluava.
- Graas a Deus, vieram! - exclamou ela. - Graas a Deus!
O detective levou-a delicadamente para o grupo reunido no hall. Quando Anna viu o marido, comeou a dar gritos.
- Tudo est bem agora, Sra. Gassner - disse o major Wageman.
- Ele no pode fazer-lhe nada mais.
- Meus filhos! - exclamou ela. - Ele matou meus filhos.
Max estava observando o rosto de Walther Gassner, que olhava para a mulher com uma expresso de completo desalento. Parecia esgotado e exausto.
- Anna... Anna... - murmurou.
O major Wageman disse.
- Tem o direito de ficar calado ou de chamar um advogado.
Para seu prprio bem, espero que coopere connosco.
Walther no o estava escutando.
- Por que voc tinha de cham-los, Anna? Por qu? No ramos felizes juntos?
- As crianas esto mortas! - gritou Anna Gassner.
O major Wageman olhou para Walther Gassner e perguntou:
-  verdade?
Walther fez um sinal afirmativo, e os seus olhos pareciam velhos e abatidos.
- Sim... Esto mortas.
- Pode dizer-nos onde esto os corpos?
Walther Gassner estava chorando. As lgrimas desciam-lhe pelo rosto, e ele no conseguia falar.
- Onde esto as crianas? - tornou a perguntar o major Wageman.
Foi Max quem respondeu:
- As crianas esto enterradas no cemitrio de Saint Paul.
Todos se voltaram para olh-lo, e Max explicou:
- Morreram ao nascer, h cinco anos.
- Assassino! - gritou Anna Gassner para o marido.
E todos viram a loucura brilhando nos olhos dela.

Captulo 51
Zurique. Quinta-feira, 4 de dezembro. 0 horas.
A noite fria de inverno havia cado, apagando o breve crepsculo. Comeava a nevar, e um manto de fina poeira branca se estendia sobre a cidade. No edifcio da administrao 
da Roffe and Sons, as luzes dos escritrios desertos brilhavam na escurido com luas amarelas.
Elizabeth estava trabalhando sozinha em sua sala, esperando por Rhys, que fora participar de uma reunio em Genebra. Estava ansiosa por sua volta. Todo mundo j 
deixara havia muito o edifcio. Elizabeth sentia-se nervosa e incapaz de concentrar-se. No conseguia deixar de pensar em Walther e Anna. Lembrava-se de Walther 
tal como conhecera, jovem e belo, loucamente apaixonado por Anna. Apaixonado ou fingia que estava. Era muito difcil acreditar que Walther fosse responsvel por 
todos aqueles terrveis actos. Pensava em Anna com grande ternura. Tentara vrias vezes, sem resultados, falar com ela pelo telefone. Logo que pudesse, iria at 
Berlim para confort-la da melhor forma possvel.
A campainha do telefone assustou-a. Atendeu. Alec estava do outro lado da linha, e Elizabeth teve prazer em ouvir a voz dele.
- J soube de Walther? - perguntou Alec.
- J.  horrvel. Nem posso acreditar.
- No acredite mesmo, Elizabeth.
Ela pensou que no tivesse ouvido bem.
- Como?
- No acredite. Walther no  culpado.
- Mas a polcia disse....
- A polcia errou. Walther foi a primeira pessoa que eu e Sam investigamos. Foi liberado por ns. No era o homem que estvamos procurando.
Elizabeth sentiu-se mergulhar em completa confuso. "No era o homem que estvamos procurando"...
- No compreendo o que est falando, Alec.
-  difcil dizer essas coisas pelo telefone, mas ainda no tive oportunidade de falar com voc sozinha.
- Falar comigo de qu?
- Desde o ano passado, algum vem sabotando a companhia.
Houve uma exploso numa de nossas fbricas na Amrica do Sul, houve roubos de patentes, e drogas perigosas foram trocadas de embalagem. No tenho tempo agora de 
lhe relatar tudo o que houve. Mas fui procurar Sam e lhe sugeri que contratasse uma agncia particular para encontrar o culpado. Combinamos no falar sobre isso 
com mais ningum.
Foi como se a terra se tivesse aberto aos ps de Elizabeth.
Era Alec que falava pelo telefone, mas a voz que ela ouvia era a de Rhys, a dizer-lhe a mesma coisa, a afirmar-lhe que tinha discutido o caso com Sam e que tinham 
resolvido contactar uma agncia particular.
Alec prosseguiu:
- Quando a agncia concluiu o relatrio, Sam o levou para Chamonix e ns o discutimos pelo telefone.
Rhys havia dito que Sam o chamara a Chamonix para discutir o relatrio e que tinham resolvido manter o segredo entre os dois at descobrirem o culpado.
Elizabeth estava com dificuldade para respirar. Procurou normalizar a voz e perguntou:
- Quem mais sabia desse relatrio, Alec, alm de Sam e voc?
- Mais ningum. Isso era da maior importncia. O relatrio indicava que o culpado era algum que ocupava uma posio bem alta na administrao da companhia.
Rhys no havia dito que estivera em Chamonix at o detective mencionar o facto...
Perguntou ento, arrancando a custo as palavras da garganta:
- Acha que Sam disse alguma coisa a Rhys?
- No. Por qu?
Havia somente uma maneira de Rhys saber o que estava no relatrio. Tinha-o roubado. Havia somente um motivo para ele ter ido a Chamonix. Matar Sam.
Elizabeth no ouviu o resto das palavras de Alec. O zumbido em seus ouvidos abafava todas as palavras. Deixou cair o gancho, com a cabea a rodar, lutando contra 
o horror que ia lhe invadindo a alma. Sentia na cabea um tumulto de imagens caticas. Por ocasio do acidente com o jipe, mandara dizer a Rhys que ia para a Sardenha. 
Na noite da queda do elevador, Rhys no tinha ido  reunio de directoria, mas aparecera depois, quando ela e Kate estavam trabalhando sozinhas. Logo depois, deixara 
o edifcio. Ou no tinha deixado? Elizabeth tremia da cabea aos ps. Tudo aquilo era um tremendo equvoco. No podia ser Rhys! Todo o seu ser se insurgia contra 
isso. No! Era o grito angustiado do seu corao.
Levantou-se e, com as pernas trpegas, passou pela porta que ligava a sua sala  de Rhys. A sala estava s escuras. Acendeu as luzes e ficou parada, indecisa, sem 
saber o que esperava encontrar. No ia procurar provas que incriminassem Rhys, mas, sim, provas de sua inocncia. Era intolervel pensar que o homem que ela amava, 
o homem que a tivera cheia de amor nos braos, fosse uma assassino insensvel.
Havia uma agenda de compromissos em cima da mesa de Rhys.
Elizabeth folheou-a,  procura do fim de semana em setembro, quando ocorrera o acidente com o jipe. Naquela data estava marcada a viagem a Nairobi. Teria de examinar 
o passaporte dele para verificar se fora mesmo para l. Comeou a procurar o passaporte, sentindo-se culpada e certa de que haveria uma explicao que o inocentasse.
Uma das gavetas estava trancada. Elizabeth hesitou. Sabia que no tinha o direito de abri-la. Seria um abuso de confiana, a violao de uma fronteira proibida de 
que no poderia mais redimir-se. Rhys saberia que ela tinha feito aquilo, e ela teria de explicar-lhe tudo. Mas, apesar de tudo, tinha de saber.
Abriu a gaveta com uma esptula e encontrou uma pilha de papis, notas e memorandos. Pegou tudo. Encontrou um envelope endereado a Rhys com uma letra de mulher. 
Tinha o carimbo de Paris e datada de poucos dias. Elizabeth hesitou um momento e abriu a carta. Era de Hlne e comeava assim:
"Chri, no consegui falar com voc pelo telefone.  urgente que nos encontremos de novo para assentarmos os nossos planos..." Elizabeth no acabou de ler a carta. 
Estava a olhar para o relatrio roubado, no fundo da gaveta.
Sr. Sam Roffe confidencial sem cpias Elizabeth sentiu a sala girar em torno dela e teve de apoiar-se na mesa para no cair. Ficou ali muito tempo, com os olhos 
fechados, esperando a vertigem passar. O assassino j tinha um rosto. Era o rosto de seu marido.
O silncio foi quebrado pelo toque insistente de um telefone distante. A Elizabeth custou muito a identificar de onde vinha o som. Por fim, voltou a passos lentos 
para sua sala e pegou o telefone.
Era o porteiro do trreo.
- S queria saber se ainda estava a, Sra. Williams. Seu marido j vai subir.
Vai preparar outro acidente!
A vida dela era o nico obstculo que separava Rhys do controle total da Roffe and Sons. No podia enfrent-lo, no podia fingir que nada havia acontecido. No momento 
em que ele a visse, saberia de tudo.
Tinha de fugir. Atordoada pelo medo, Elizabeth pegou a bolsa e cassaco e saiu correndo do escritrio. De repente, parou.
Tinha se esquecido do passaporte. Tinha de fugir de Rhys, ir para algum lugar onde ele no pudesse encontr-la. Abriu apressada a gaveta, pegou o passaporte e saiu 
pelo corredor, com o corao a bater como se fosse estourar. O elevador privativo estava subindo...
Oito... nove... dez.....
Elizabeth comeou a descer as escadas s carreiras, para salvar a vida.

Captulo 52
Havia uma balsa entre Civitavecchia e a Sardenha. Elizabeth subiu para bordo dirigindo um carro alugado, perdido entre dzias de outros carros. Os aeroportos podem 
ter registos de passageiros, mas a grande balsa era annima. Elizabeth era apenas uma das muitas pessoas que faziam a travessia para a Sardenha em busca de um pouco 
de lazer. Tinha certeza de que no fora seguida, mas isso no a impedia de sentir um medo absurdo. Rhys tinha ido muito longe, e no podia mais recuar diante de 
alguma coisa. Ela s podia desmascar-lo, e, sobretudo por isso, ele teria de livrar-se dela.
Quando fugira do edifcio, no fazia idia do lugar para onde iria. Sabia apenas que devia sair de Zurique e esconder-se, mas tinha certeza de que no estaria em 
segurana enquanto Rhys no fosse apanhado. A Sardenha foi o primeiro lugar em que pensou.
Alugou um carro e, no meio da estrada, na Itlia, tentou telefonar para Alec. No o encontrou. Deixou recado para que ele telefonasse para a Sardenha. No conseguiu 
tambm falar com o detective Max Hornung e deixou o recado para ele. Iria para a Villa na Sardenha, mas desta vez no estaria sozinha, pois teria a polcia para 
proteg-la.
Quando a balsa chegou a Olbia, Elizabeth viu que no seria necessrio procurar a polcia. Esta a esperava no cais, na pessoa de Bruno Campagna, o detective que ela 
conhecera em companhia do delegado Ferraro. Fora Campagna quem a levara para ver o jipe na garagem depois do acidente. O detective correu para o carro de Elizabeth.
- J estava nos causando preocupaes, Sra. Williams - disse ele.
Elizabeth olhou-o surpresa, e Campagna explicou:
- Recebemos um telefonema da polcia sua, pedindo que a vigissemos. Temos homens apostos em todos os cais de balsa e aeroportos.
Elizabeth sentiu-se cheia de gratido. Max Hornung recebera o seu recado.
- Quer que eu dirija o carro? - perguntou o detective Campagna, vendo como Elizabeth estava abatida.
- Quero, sim. Muito obrigada.
Sentou-se no banco de trs, e o detective tomou posio no volante.
- Para onde prefere ir e esperar? Para a delegacia ou para a sua Villa?
- Para a Villa, se algum puder ficar l comigo. No quero ficar sozinha l em cima.
- No se preocupe. Temos ordens de vigi-la bem. Passarei a noite na Villa e, alm disso, teremos um carro equipado com rdio estacionado na entrada. Ningum poder 
aproximar-se da senhora.
O detective falava com tanta confiana que Elizabeth ficou tranquilizada. Campagna dirigiu o carro com rapidez e segurana, deixando as pequenas ruas de Olbia para 
tomar a estrada de montanha que levava para a Costa Esmeralda. Todos os lugares por onde passavam faziam Elizabeth lembrar-se de Rhys.
Perguntou ento:
- H alguma notcia do meu marido?
- Ainda no - disse Campagna, depois de lanar-lhe um olhar de compaixo. - Ainda est solto, mas no poder ir longe.
Esperam captur-lo at amanh cedo.
Elizabeth sabia que devia sentir alvio ao ouvir isso, mas uma dor cruciante lhe atingiu o corao. Era de Rhys que estavam falando. Era o seu Rhys que estava sendo 
caado como um animal. Ele a arrojara quele terrvel pesadelo e naquele momento estava tambm vivendo um pesadelo, lutando para salvar a vida como ela havia feito. 
E como havia confiado nele! Como acreditara na bondade, na rectido e no amor de Rhys!
Estremeceu, e o detective Campagna lhe perguntou:
- Est sentindo frio?
- No, estou bem.
Sentiu-se at febril. Um vento quente parecia passar silvando pelo carro, fazendo-a ficar nervosa. Pensou a princpio que era sua imaginao, mas o detective Campagna 
disse:
- O siroco vai soprar com fora esta noite. Vai ser uma noite muito agitada.
Elizabeth compreendia o que ele queria dizer. O siroco podia alucinar homens e animais. Era um vento que vinha do Saara, quente, seco e carregado de partculas de 
areia, com um macabro silvo agudo que tinha efeito terrivelmente desastroso sobre o sistema nervoso. O ndice de criminalidade sempre subia quando soprava o siroco, 
e os juizes costumavam ser complacentes com os acusados.
Uma hora depois a Villa surgiu da escurido  frente deles.
O detective Campagna seguiu pela entrada de carros, parou diante da porta da casa e desligou o motor. Depois, deu a volta em torno do carro e abriu a porta do lado 
de Elizabeth.
- Seria bom que ficasse bem junto de mim, Sra. Williams.
Ningum sabe o que pode acontecer.
- Est bem.
Encaminharam-se para a porta da frente da Villa s escuras.
- Tenho certeza de que ele no est aqui, mas no vou facilitar. Quer me dar a chave?
Elizabeth entregou-lhe a chave. O detective f-la chegar um pouco para o lado e abriu a porta com a pistola em punho.
Entrou e ligou o interruptor. O hall ficou todo iluminado.
- Gostaria que me mostrasse a casa - disse o detective Campagna. - Temos de olhar tudo.
Comearam a percorrer a casa, e o detective Campagna ia acendendo a luz em todas as peas. Revistava os armrios e os cantos e examinava se as janelas estavam bem 
fechadas. Quando voltaram  grande sala do trreo, Campagna disse:
- Agora, se me d licena, vou telefonar para a delegacia.
- Est bem - disse Elizabeth, levando-o para o escritrio.
Campagna pegou o telefone e discou. Um momento depois, disse:
- Fala o detective Campagna. Estamos na Villa. Vou passar a noite aqui. Mandem um carro da patrulha para ficar estacionado na entrada da Villa... Sim, ela est muito 
bem. Apenas um pouco cansada. Mais tarde, telefonarei de novo.
Elizabeth deixou-se cair numa poltrona. Estava muito nervosa e sabia que no dia seguinte iria ser pior, muito pior. Ela estaria em segurana, mas Rhys poderia estar 
morto ou jogado numa priso. Fosse como fosse, apesar de tudo o que ele havia feito, essa idia era intolervel.
O detective Campagna olhava-a com um ar de preocupao.
- Sabe que eu gostaria de uma xcara de caf agora? E a senhora?
- Vou fazer - disse Elizabeth, fazendo meno de levantar-se.
- Nada disso. Fique onde est. Minha mulher diz que ningum faz caf como eu.
Elizabeth sorriu e tornou a recostar-se na poltrona. No percebera at ento como estava emocionalmente esgotada. Pela primeira vez, reconhecia que, mesmo durante 
a conversa pelo telefone com Alec, julgara que devia haver algum engano e que Rhys era inocente. Ainda durante a fuga, alguma coisa em seu corao lhe dizia que 
no era possvel que ele tivesse feito aquelas coisas terrveis, que tivesse matado Sam, que a tivesse amado e, apesar disso, quisesse mat-la. S um monstro seria 
capaz de fazer tudo aquilo. E, graas a isso, uma pequena luz de esperana brilhava dentro dela. Quase morrera quando o detective dissera que ele no podia ir muito 
longe e estaria preso at o dia seguinte.
Era muito doloroso pensar em tudo isso, mas ela no podia pensar em mais nada. Desde quando Rhys planeava apoderar-se da companhia? Com certeza, desde o momento 
em que conhecera numa escola da Sua uma impressionvel mocinha solitria de quinze anos. Decidira, naquele momento, que iria lograr Sam por intermdio da filha 
dele. Tudo fora muito fcil para ele. O jantar no Maxim's, as longas conversas amistosas atravs dos anos e o encanto, o irresistvel encanto de Rhys. Fora muito 
paciente. Esperava at que ela se tornasse uma mulher, e o mais revoltante de tudo era que Rhys no se dera ao trabalho de fazer-lhe a corte. Ela lhe facilitara 
tudo, e como ele devia ter rido! Pensou em Hlne. Estaria ela metida tambm em toda essa trama suja? Onde estaria Rhys? Seria morto pela polcia quando fosse encontrado? 
Comeou a chorar inconsolavelmente.
- Sra. Williams...
O detective Campagna estava do lado dela com uma xcara de caf.
- Tome o caf e se sentir melhor.
- Desculpe - disse Elizabeth. - No costumo proceder assim...
- Ora essa! Acho que est reagindo muito bem.
Elizabeth tomou um gole de caf. Ele havia acrescentado alguma coisa. Olhou para o detective e ele sorriu.
- Achei que um gole de usque no caf no lhe faria mal algum.
Sentou-se perto dela em silncio. O homem era uma boa companhia. Jamais conseguiria ficar ali sozinha. Tinha de saber antes o que acontecera a Rhys, se ele estava 
preso ou fora morto. Acabou de tomar o caf.
O detective Campagna olhou para o relgio e disse:
- O carro da patrulha deve chegar a qualquer momento. Dois homens ficaro vigiando tudo a noite inteira. Eu vou ficar aqui embaixo. No me leve a mal, mas acho melhor 
a senhora subir e procurar dormir um pouco.
- Eu no conseguiria dormir - murmurou Elizabeth.
Mas no mesmo instante em que disse isso um imenso cansao a dominou. A longa viagem e a tenso sob a qual estava vivendo comeavam a ter efeito sobre ela.
- Em todo o caso, vou me deitar um pouco.
Tinha dificuldade em articular as palavras.
Elizabeth estava deitada na cama, lutando contra o sono. No lhe parecia direito dormir enquanto Rhys estava sendo caado.
Imaginou-o abatido a tiros em alguma rua escura e sentiu um arrepio pelo corpo. Procurou manter os olhos abertos, mas as plpebras lhe pesavam terrivelmente. Quando 
fechou os olhos, sentiu-se escorregar sem esforo no brando colcho do nada.
Algum tempo depois, ela foi acordada por gritos.

Captulo 53
Elizabeth sentou-se na cama com o corao a bater descompassadamente e sem saber o que a acordara. Tornou a ouvir. Era um grito lgubre e longo, como algum que 
estivesse morrendo. Parecia vir da janela. Elizabeth correu para a janela e abriu-a. A noite, iluminada por uma fria lua de inverno, parecia uma paisagem de Daumier. 
As rvores escuras eram sacudidas por um vento impetuoso. ao longe, muito abaixo, o mar se encapelava.
Ouviu de novo o grito. Compreendeu ento o que era. As rochas cantantes. O siroco estava forte e soprava pelos rochedos, produzindo aquele som, que era quase um 
grito de socorro humano. Identificou-o sem demora com a voz de Rhys chamando por ela, pedindo a sua ajuda. Desvairada, tapou os ouvidos com as mos, mas no deixou 
de escutar.
Foi at a porta do quarto e ficou espantada de ver como estava fraca. A exausto lhe toldava as idias. Saiu para o corredor e comeou a descer as escadas. Tentou 
chamar o detective Campagna, mas da garganta s lhe saiu um fio de voz.
Desceu agarrando-se ao corrimo para no cair.
Conseguiu levantar a voz e chamar o detective Campagna. No houve resposta. Foi de sala em sala, agarrando-se aos mveis.
O detective Campagna no estava em casa.
Ela estava sozinha.
Ficou parada no hall, completamente confusa, tentando raciocinar. O detective havia sado um instante para falar com os homens da patrulha. Sem dvida. Foi at a 
porta da frente, abriu-a e olhou para fora.
No viu ningum. S a noite escura e o vento gemente. Com um sentimento crescente de medo, encaminhou-se para o escritrio.
Ia telefonar para a delegacia de polcia e saber o que acontecera.
Pegou o telefone e percebeu que estava inteiramente mudo.
Foi nesse momento que todas as luzes da casa se apagaram.

Captulo 54
Em Londres, no Hospital Westminster, Vivian Nichols recobrava a conscincia ao ser levada da sala de operaes pelo longo corredor sombrio. A operao havia durado 
oito horas. Apesar de tudo o que haviam feito os competentes cirurgies, ela nunca mais poderia andar. Quando acordou, sentia terrveis dores e murmurava sem cessar 
o nome de Alec. Precisava dele a seu lado dizendo-lhe que no deixaria de am-la.
O pessoal do hospital no conseguiu encontrar Sir Alec.
Em Zurique, na sala de comunicaes da Polcia Criminal, era recebida uma mensagem da Interpol procedente da Austrlia. O homem que comprara o filme para a Roffe 
and Sons fora descoberto em Sydney. Tinha morrido de um ataque cardaco trs dias antes. As suas cinzas iam ser mandadas para a Inglaterra.
A Interpol no conseguira mais nenhuma informao sobre a compra do filme e aguardava instrues.
Em Berlim, Walther Gassner estava sentado na sala de espera de um sanatrio particular, nos arredores da cidade. Estava ali havia quase dez horas. De vez em quando, 
uma enfermeira parava e conversava com ele, oferecendo-lhe alguma coisa para comer.
Walther nem sequer ouvia a enfermeira. Estava esperando a sua Anna.
Seria uma espera muito longa.
Em Olgiata, Simonetta Palazzi estava ouvindo uma mulher dizer pelo telefone:
- Meu nome  Donatella Spolini. Nunca a vi, Sra. Palazzi, mas ns duas temos muita coisa em comum. Quer almoar comigo amanh no Bolognese, na Piazza de Popolo? 
 uma hora da tarde, est bem?
Simonetta tinha hora marcada no salo de beleza, mas adorava mistrios.
- Como poderei reconhec-la?
- Meus trs filhos estaro comigo.
Em sua Villa em Le Vsinet, Hlne estava lendo uma carta que encontrara no consolo da lareira. Era de Charles, que tinha fugido e a deixara. Dizia ele: "Nunca mais 
me ver. No tente procurar-me". Hlne Roffe-Martel rasgou a carta em pedacinhos.
Iria v-lo de novo. Iria encontr-lo.
Em Roma, Max Hornung encontrava-se no aeroporto Leonardo da Vinci. Estava tentando havia duas horas falar pelo telefone com a Sardenha, mas as comunicaes estavam 
todas interrompidas, e ele foi conversar de novo com o gerente de operaes do aeroporto.
- Tem de me conseguir um avio que me leve at a Sardenha dizia ele. Acredite no que estou lhe dizendo.  uma questo de vida ou morte.
- Acredito piamente, signore, mas nada posso fazer. No se pode chegar  Sardenha. Os aeroportos esto fechados. At as balsas deixaram de operar. S depois que 
o siroco parar, ser possvel aproximar-se da ilha ou sair de l.
- E quanto tempo o siroco vai durar?
O gerente olhou para o mapa meteorolgico na parede.
- Parece que ainda vai durar no mnimo doze horas.
Elizabeth Williams no estaria viva da a doze horas.

Captulo 55
A escurido era hostil, cheia de inimigos invisveis  espreita para atac-la. E Elizabeth compreendia que estava  merc desses inimigos. O detective Campagna levara-a 
para a Villa a fim de que ela fosse assassinada. Devia estar a servio de Rhys. Lembrava-se de Max Hornung ter dito ao explicar a troca dos jipes que o assassino 
tivera ajuda de algum que conhecia bem a ilha. Como o tal Campagna tinha sido convincente! Rhys sabia que ela procuraria esconder-se na Villa. O detective lhe perguntara 
se ela queria ir para a delegacia ou para a Villa, mas no tivera a menor inteno de lev-la para a polcia. E No fora para a polcia que ele ligara. Fora para 
Rhys, a fim de dizer-lhe que j estavam na Villa.
Elizabeth sabia que precisava fugir, mas no tinha mais foras para isso. Estava lutando para manter os olhos abertos e mover braos e pernas, de repente pesados 
demais. Compreendeu ento que o caf que o homem lhe dera continha narctico.
Dirigiu-se para a cozinha escura. Abriu um armrio e remexeu as prateleiras at encontrar o que queria. Pegou um pouco de vinagre e despejou um pouco num copo com 
gua. Bebeu com esforo e imediatamente depois comeava a vomitar na pia. Poucos minutos depois, sentiu-se um pouco melhor, mas ainda fraca. O crebro no podia 
funcionar direito. Era como se todos os circuitos dentro dela j se tivessem fechado, numa preparao para a escurido da morte.
"No", pensou ela febrilmente. "Voc no vai entregar-se assim. Voc tem de lutar. Eles esto a caminho para vir mat-la." Levantou a voz e disse:
- Pode vir matar-me, Rhys!
Mas a sua voz foi apenas um murmrio. Voltou para o hall por instinto, guiada apenas por seu conhecimento da casa. Parou em frente ao retracto de Samuel Roffe, enquanto 
l fora o vento soluava e gemia, aoitando a casa, provocando-a, advertindo-a.
Continuou ali no escuro, sozinha, diante de uma alternativa de horrores: sair e enfrentar o desconhecido ou esperar que fosse mat-la ali, onde ela tentaria lutar. 
Mas como?
Um pensamento procurava formar-se na sua cabea, mas isso era difcil porque ela ainda estava levemente narcotizada. No podia concentrar-se. Era alguma coisa a 
respeito de um acidente.
Lembrou-se ento. Rhys tinha de fazer que a morte dela parecesse acidente.
Voc tem de det-lo, Elizabeth. Fora o velho Samuel que falara? Ou tudo se passara dentro de sua cabea?
No podia fazer nada. Era muito tarde. Os olhos estavam se fechando de novo, enquanto o rosto se colava  frieza do retracto. Dormir seria muito bom. Mas antes tinha 
de fazer uma coisa. Tentou lembrar-se, mas ela sempre lhe fugia.
No deixe que sua morte parea um acidente. Faa todo mundo ver que foi assassinato. Assim, a companhia nunca ser dele.
Elizabeth j sabia o que tinha de fazer. Foi para o escritrio. Pegou o pesado abajur e jogou-o de encontro a um espelho. Ouviu o barulho dos vidros quebrados. Em 
seguida, pegou a cadeira e bateu-a contra parede at que ela se arrebentasse. Foi at a estante e comeou a abrir os livros e arrancar as pginas, que espalhava 
pelo cho. Arrancou da parede o fio do telefone intil. Rhys que explicasse aquela confuso toda. No ia facilitar a vida para ele. No ia facilitar nada. Se queria 
fazer alguma coisa, teria de ser  fora. Uma sbita rajada de vento passou pela sala, fazendo voar os papis. Elizabeth levou algum tempo para compreender o que 
havia acontecido.
No estava sozinha na casa.
No aeroporto Leonardo da Vinci, Max Hornung estava prximo do local onde se manipulavam as cargas. Viu um helicptero pousar e, no momento em que o homem ia abrir 
a porta, Max estava ao lado dele.
- Pode levar-me para a Sardenha?
- O que est havendo por l? Acabo de levar um camarada para a ilha. A tempestade por l est violenta.
- Quer me levar?
- S se me pagar trs vezes o que o outro pagou.
Max no hesitou. Subiu no helicptero. Logo que levantaram vo, perguntou ao piloto:
- Quem foi o passageiro que levou para a Sardenha?
- Chamava-se Williams.
A escurido era aliada de Elizabeth, ocultando-a. Era tarde demais para fugir. Tinha que achar um lugar para esconder-se dentro de casa. Subiu as escadas para aumentar 
a distncia que a separava de Rhys. No alto das escadas, vacilou, mas acabou tomando a direco do quarto de Sam. Alguma coisa pulou sobre ela no meio da escurido, 
e ela comeou a gritar, mas era apenas a sombra de uma rvore sacudida pelo vento do outro lado da janela. Seu corao batia to forte que ela estava certa de que 
Rhys l embaixo podia ouvi-lo.
Tinha de retard-lo. Mas como? Sentia a cabea pesada, e tudo era confuso. Que teria feito numa situao como aquela o velho Samuel? Tirou a chave da porta do fim 
do corredor e trancou-a por fora. Depois trancou as outras portas e pensou que estava trancando os portes do gueto em Cracvia. Elizabeth no sabia por que estava 
fazendo isso, mas lembrou-se de que havia matado o guarda Aram e no podia ser apanhada. Viu a luz de uma lanterna elctrica embaixo. Comeava a subir as escadas 
e isso lhe causou um baque no corao. Rhys ia atac-la. Elizabeth comeou a subir a escada da torre, mas no meio do caminho os joelhos comearam a dobrar-se. Escorregou 
para o cho e subiu o resto dos degraus gatinhando. Chegou ao alto e levantou-se.
Abriu a porta da sala da torre e entrou. A porta. Feche a porta, disse Samuel.
Elizabeth fechou a porta, mas sabia que isso no ia impedir a entrada de Rhys. Ele ter de arromb-la, pensou ela  mais violncia que ele ter de explicar. A morte 
dela teria de parecer um assassinato. Empurrou mveis para escorar a porta.
Agia com muita lentido, como se a escurido fosse um mar que lhe embargasse os movimentos.
Empurrou uma mesa de encontro  porta, depois uma poltrona.
Trabalhava automaticamente, lutando contra o tempo e procurando construir a sua frgil fortaleza contra a morte.
Ouviu um baque surdo embaixo, logo seguido de outro e mais outro. Era Rhys arrombando as portas dos quartos,  procura dela. Seriam sinais de um ataque, uma pista 
que a polcia teria de seguir. Ela o havia enganado, do mesmo modo que ele a enganara.
Havia uma coisa que ela no compreendia. Se Rhys estava empenhado em fazer que a morte dela parecesse um acidente, por que estava arrombando as portas?
Abriu as portas envidraadas da sala da torre e deixou que o vento assobiasse em torno dela. Alm do balco, um abismo descia a pique para o mar. Daquela sala no 
havia possibilidade de fuga. Era ali que Rhys teria de atac-la. Elizabeth procurou uma arma, mas no viu nada que pudesse servir.
Esperou no escuro por seu assassino.
O que Rhys estava esperando? Por que no punha logo a porta abaixo e no acabava com aquilo? Por qu?
Alguma coisa no se ajustava. Ainda que Rhys levasse o corpo dela para dar-lhe fim de outra maneira, no podia explicar a confuso encontrada na casa, o espelho 
quebrado, as portas arrombadas. Tentou colocar-se no lugar de Sam e pensar no plano que ele poderia formular para explicar todas essas coisas sem que a polcia o 
considerava suspeito da morte dela. S havia um meio.
E no momento em que a idia ocorreu a Elizabeth, ela sentiu o cheiro acre da fumaa.

Captulo 56
Max podia ver do helicptero a costa da Sardenha, coberta por uma nuvem de poeira vermelha. O piloto gritou acima do barulho do aparelho:
- A situao piorou muito. No sei se vou puder pousar.
- Tem de pousar! - gritou Max. - V at Porto Cervo.
O piloto olhou para Max.
- Fica no alto de uma montanha terrvel.
- Sei disso. Vai conseguir?
- As chances so de setenta por cento.
- A favor ou contra?
- Contra.
A fumaa se infiltrava por baixo das portas e pelas tbuas do soalho. Um novo som se juntava aos gemidos do vento. Era o barulho das chamas, e Elizabeth sabia que 
era muito tarde para que ela escapasse com vida. Estava presa ali dentro. Sem dvida, pouco importava a destruio de espelhos e de portas, pois dentro de alguns 
minutos nada mais restaria dela, nem da casa. Tudo seria consumido pelo fogo, como o laboratrio e Emil Joeppli haviam sido destrudos, e Rhys teria um libi que 
o eliminaria totalmente da culpa. Ele a vencera. Vencera a todos.
A fumaa comeava a entrar na sala aos borbotes, fazendo Elizabeth tossir. As chamas j atingiam a porta, e ela sentia o calor.
Foi a raiva que deu a Elizabeth nimo para mover-se.
Atravs da densa fumaa, correu s cegas para as portas envidraadas do balco. Abriu-as e saiu. No instante em que as portas foram abertas, as chamas entraram na 
sala, lambendo as paredes. Elizabeth ficou no balco respirando a plenos pulmes o ar fresco da noite, enquanto o vento lhe agitava as roupas.
Olhou para baixo. O balco se projectava da parede do prdio, com uma ilha minscula suspensa sobre o abismo. No havia a menor esperana de fuga.
Talvez... Elizabeth olhou para o telhado inclinado de ardsia, acima de sua cabea. Se houvesse algum meio de alcanar o telhado e passar para o outro lado da casa 
que no havia chamas, poderia haver uma chance de salvao. Estendeu os braos para cima, mas no conseguiu alcanar as bordas do telhado. As chamas se aproximaram, 
envolvendo a sala.
Havia, porm, uma possibilidade mnima, e Elizabeth resolveu tent-la. Correu para dentro da sala cheia de fumaa e fogo, sentindo-se quase sufocada. Pegou a cadeira 
de seu pai e arrastou-a para o balco. Procurando no perder o equilbrio, subiu na cadeira. Podia agora alcanar o telhado com os dedos, mas no encontrava um s 
ponto a que pudesse agarrar-se.
Tacteou cegamente e em vo  procura de um ponto de apoio.
Na sala, as chamas atingiam as cortinas e danavam por todos os cantos, atacando os livros, o tapete e os mveis, aproximando-se do balco. De repente, Elizabeth 
encontrou um ponto de apoio numa telha que se projectava dentre as outras. Os braos estavam pesados, e ela no tinha certeza se conseguiria.
Quando comeou a levantar o corpo, a cadeira escorregou para baixo dos seus ps. Com tudo o que lhe restava de foras, conseguiu subir e segurar-se. Estava escalando 
os muros do gueto, lutando para salvar a vida. Esforou-se, esforou-se e finalmente se viu em cima do telhado inclinado, quase sem flego.
Subiu lentamente pelo telhado, com o corpo comprimido contra as telhas, sabendo muito bem que, se escorregasse, iria cair no negro abismo l embaixo. Chegou no alto 
do telhado e parou para respirar um pouco e orientar-se. O balco de que ela acabara de fugir estava em chamas. No era possvel voltar.
Olhando para o outro lado da casa, Elizabeth viu o balco de um dos quartos de hspedes. Ainda no havia fogo ali. Mas no estava segura de conseguir chegar l. 
O telhado era bem inclinado, as telhas estavam soltas e o vento soprava fortemente daquele lado. Se falseasse o p, nada haveria para deter-lhe a queda. Ficou ali 
algum tempo, com medo de tentar.
De repente, um milagre, um vulto apareceu no balco do quarto de hspedes. Era Alec, que olhou para cima e disse calmamente:
- Vai conseguir, menina. Com a maior facilidade.
Elizabeth criou alma nova.
- Venha devagar - disse Alec. - D um passo de cada vez. Nada de pressa.
Ela ento comeou a mover-se cuidadosamente para onde ele estava, palmo a palmo, sem largar uma telha enquanto no tivesse agarrado firmemente outra. Teve a impresso 
de que levara um tempo enorme. Durante todo o tempo, ouvia a voz de Alec a anim-la, fazendo-a prosseguir. Estava quase chegando, deslizando para o balco. De repente, 
uma telha se desprendeu e ela comeou a cair.
- Segure-se! - gritou Alec.
Elizabeth encontrou outro ponto de apoio e agarrou-o febrilmente. Estava j na borda do telhado e nada havia abaixo dela seno o vcuo. Teria de deixar-se cair no 
balco, onde Alec a esperava. Se errasse o impulso...
Alec olhava para ela, com o rosto cheio de calma e confiante.
- No olhe para baixo - disse ele. - Feche os olhos e solte-se. Eu a segurarei.
Ela tentou. Respirou fundo duas vezes e soltou-se. Sentiu-se cair no espao at que os braos de Alec a seguraram. Deu um suspiro de alvio.
- Muito bem - disse Alec.
Ela sentiu ento o cano da pistola encostado  cabea.

Captulo 57
O piloto do helicptero sobrevoava a terra o mais baixo que julgava possvel sem correr perigo, passando rente  copa das rvores, a fim de evitar os ventos implacveis. 
At nessa baixa altitude, havia turbulncia mo ar. ao longe, o piloto avistou o cume da montanha de Porto Cervo.
- L est! - gritou Max. - J posso ver a Villa.
Viu alguma coisa mais que lhe deu um aperto no corao.
- A casa est pegando fogo!
No balco, Elizabeth ouviu o barulho do helicptero que se aproximava e olhou para o alto. Alec no deu qualquer ateno ao aparelho. Olhava para Elizabeth com os 
olhos aflitos.
- Foi por amor a Vivian que tive de fazer tudo isso.
Compreende, no ? No vo achar voc na casa incendiada.
Elizabeth no o ouvia. Pensava apenas: No foi Rhys. No foi Rhys. Tinha sido Alec, sempre. Alec matara Sam e tentara mat-la. Havia roubado o relatrio e resolvera 
envolver Rhys no caso. Obrigara-a a fugir com medo de Rhys, sabendo que ela iria para a Sardenha.
O helicptero tinha desaparecido por trs de algumas rvores.
- Feche os olhos, Elizabeth - disse Alec.
- No!
De repente, ouviu-se a voz de Rhys:
- Largue essa pistola, Alec!
Ambos olharam e viram no gramado embaixo,  luz trmula das lanternas, Rhys, o delegado de polcia Luiggi Ferraro e meia dzia de detectives, armados de fuzis.
- Est tudo acabado, Alec - gritou Rhys. - Deixe-a.
Um dos detectives, que empunha um fuzil de mira telescpica, disse:
- No posso atirar enquanto ela no sair da frente.
Afaste-se, gritou mentalmente Rhys. Afaste-se!
Max Hornung surgiu de trs das rvores e comeou a correr em direco de Rhys. Parou ou ver a cena no balco.
- Recebi seu recado, mas cheguei tarde - disse Rhys.
Olharam para os dois vultos no balco, que se destacavam contra a claridade das chamas do outro lado da casa. O vento atiara o fogo, acendendo no meio da noite 
aquele imenso braseiro.
Elizabeth olhou para Alec e percebeu que o homem estava inteiramente desvairado e no a via mais. Afastou-se dele em direco  porta do balco.
No gramado, um dos detectives levantou o fuzil. Deu apenas um tiro. Alec cambaleou com o impacto e desapareceu no interior da casa.
Um momento antes, havia dois vultos no balco, mas naquele momento s havia um.
- Rhys! - gritou Elizabeth.
Mas ele j estava correndo para ela.
Tudo aconteceu ento num caleidoscpio rpido e confuso movimento. Rhys pegou-a e levou-a para um lugar seguro embaixo, enquanto ela se agarrava estreitamente a 
ele.
Estava deitada na relva, com os olhos fechados, e Rhys tinha-a nos braos e murmurava:
- Minha querida! Como a amo!
Ela lhe escutava a voz cariciosa e no podia falar. Olhava para ele e via nos seus olhos todo o amor e toda a angstia, e havia muito que lhe queria dizer. Mas estava 
cheia de culpa pelas horrveis suspeitas que tivera. Passaria o resto da vida com uma dedicao capaz de compensar esse erro.
Estava, porm, muito cansada para pensar nisso, muito cansada para pensar em qualquer coisa. Era como se tudo aquilo por que passara tivesse acontecido a outra pessoa, 
em outro lugar, em outra poca.
O importante era que ela e Rhys estavam juntos. Os braos dele a cingiam apaixonadamente. Que isso durasse para sempre e seria o bastante.

Captulo 58
Como se ele estivesse entrando num recanto ardente do inferno. A densa fumaa enchia o quarto de formas quimricas que logo se desfaziam. O fogo deu um salto na 
direco de Alec, chamuscando-lhe os cabelos, e ele ouviu na crepitao a voz de Vivian a cham-lo, doce como um canto de sereia.
Viu-a ento, subitamente iluminada, estendida na cama com o lindo corpo nu, tendo no pescoo uma fita vermelha que usara na primeira vez em que fora dele. Chamou-o 
de novo com uma voz cheia de desejo. Desta vez, era a ele que ela queria e no aos outros. "Voc foi o nico homem a quem amei", murmurou ela.
Alec acreditava. Tinha de puni-la pelas coisas que ela havia feito, mas fora hbil e fizera outras pagarem pelos pecados dela. Todas as terrveis coisas que tinha 
feito eram por amor a ela. Aproximou-se e Vivian tornou a dizer: "Voc foi o nico homem a quem amei". E Alec sabia que era verdade.
Ela abriu os braos para ele e Alec deixou-se cair ao lado dela. Abraou-a e se fundiu a ela. Estava dentro dela e se transformara nela. Conseguiu satisfaz-la e 
isso lhe causou um prazer que logo se transformou num sofrimento intolervel.
Sentia o calor do corpo dela a consumi-lo e, de repente, a fita vermelha do pescoo de Viviam se transformou numa lngua de fogo que o atingiu. Neste instante, uma 
trave do tecto em chamas caiu sobre ele.
Alec morreu como as mulheres tinham morrido. Em xtase.

FIM

O AUTOR E SUA OBRA A literatura do norte-americano Sidney Sheldon pretende prender a ateno do leitor como se fosse um bom filme. "Quando escreve um romance, o 
autor  o produtor, o director e a equipe." A pretenso no  descabida, quando se leva em conta que Sheldon se interessou em primeiro lugar pelo cinema, dirigindo, 
produzindo ou escrevendo cerca de trinta filmes, assim como criou aproximadamente duzentos e cinquenta roteiros para a televiso, para sries como "Jeannie  um 
Gnio", "Casal Vinte" e outras. O sucesso literrio veio h dez anos com "O outro lado da meia-noite"(1974), mais tarde levado para o cinema.
Mas Sheldon sabe muito bem que a literatura e o cinema so linguagens diferentes, a comear pelo tratamento da trama. "Ao contrrio do cinema, em um romance uma 
pessoa no entra na sala apenas. Voc tem que descrev-la, dizer o que est usando, como se move, sua atitude, enfim." Depois, h o ritmo do prprio ofcio, uma 
"ilha de sanidade em Hollywood", sem as enormes presses do meio cinematogrfico, do qual fez parte desde que abandonou sua Chicago natal, aos dezassete anos.
Nascido em 1917, Sheldon realizou seus estudos elementares e decidiu que escrevia para o cinema. Com sua determinao, conseguiu um emprego nos estdios da Universal: 
leitor de textos a dezoito dlares por semana,, funo que o obrigava a resumir as histrias que lia. Quando no estava ocupado por esse trabalho, escrevia seus 
prprios roteiros. Veio a Segunda Guerra Mundial, e ele serviu na fora area.
Ao voltar da guerra, dedicou-se tambm ao teatro. A, seu grande xito foi o musical "Rodbead", com o qual conquistou o prmio Tony. Em 1947, era a vez de ganhar 
o Oscar pelo argumento de "O solteiro cobiado", estrelado por Cary Grant, Myrna Loy e Shirley Temple. Sempre com brilho seu trabalho em Hollywood e na Broadway.
Por volta de 1967, trabalhava num filme para a televiso, enforcando um psiquiatra e algum que o perseguia. Para salvar sua vida, o psiquiatra precisava penetrar 
na mente dessa pessoa, na motivao que a conduzia e, assim, descobri-la. "A trama crescia em minha cabea, e notei que, para fazer-lhe justia, ela requeria um 
tratamento de romance. Pela primeira vez em minha vida, percebi a diferena entre escrever um texto narrativo e um roteiro de cinema." Em 1970, com cinquenta e trs 
anos de idade, Sheldon publicou "A outra face". O "New York Times" o considerou o melhor romance de mistrio do ano, mas ele encalhou nas livrarias.
Porm, uma nova vocao estava descoberta, e ele no mais pararia. "O outro lado da meia-noite"(1974) se tornaria um best seller imediato, com milhes de cpias 
vendidas, traduo para dezenas de lnguas e adaptao para o cinema. Os editores no perderam tempo" relanaram "A outra face". O resultado foi o previsto: o romance 
entrou logo para a lista dos mais vendidos.
Em seguida, vieram "Um estranho no espelho", "A ira dos anjos", "O reverso da medalha" e "A herdeira". Sheldon tornou-se mais um fenmeno da industria de best sellers, 
e, em meados da dcada de 70, assinou um dos maiores contratos do meio literrio: nove milhes de dlares por onze livros, alguns deles j entregues aos editores.
Para manter o prestgio e a vendagem, Sheldon mantm um ritmo de trabalho veloz e uma produo constante. Cerca de cinquenta pginas por dia so ditadas  sua secretria. 
Centenas de pginas depois, ele inicia a primeira releitura, polindo, eliminando, enxugando e reformulando frases, chocando factos.
Vrias releituras mais tarde - ele j chegou a submeter um romance a quinze exames -, est pronto mais um sucesso de milhes de exemplares, um livro composto sob 
medidas para fascinar e divertir o seu imenso pblico.
 
